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2. CIÊNCIA OU NÃO-CIÊNCIA?

2.1 Epistemologia e Sociologia do conhecimento científico

A definição do que é ciência, ou seja, das características que desta atividade que permitem que ela seja vista como uma atividade humana particular e passível de diferenciação em relação àquelas que não são científicas, é tradicionalmente uma questão epistemológica. A filosofia deve a Popper a importância que a questão assumiu durante o século XX (PENNOCK, 2011, p. 200). Popper ofereceu uma análise epistemológica, particularmente em seu livro A lógica das descobertas científicas, que define a ciência pela formulação de proposições que estão sempre abertas à prova – esse é o famoso conceito de falseabilidade.

Para Popper, o que caracteriza a ciência não é a indução, ao entender que, como é impossível testar todas as variáveis de um problema, não há como comprovar nada indubitavelmente. O que é plausível é refutar hipóteses. O famoso exemplo dos cisnes ilustra a questão: se uma pessoa vê cinco, dez, cem ou mil cisnes brancos, sem nunca ver um cisne negro, isso não a credencia a seguramente poder afirmar que só existem cisnes brancos. Entretanto, basta que se aviste um cisne negro para refutar a afirmação de que só há os brancos. Para Popper, a ciência se caracteriza pela formulação de hipóteses que podem ser refutadas por princípio. Quando hipóteses não são refutáveis, não se trata de ciência.

A visão de Popper a respeito da demarcação científica é influente até hoje, mas recebeu também uma boa dose de críticas internas à própria filosofia15. Seria possível escrever uma tese

inteira apenas contrastando diferentes visões a respeito da lógica do funcionamento da ciência. Entretanto, esta tese parte do ponto de vista que tal questão pode ser mais bem explorada se for adotada uma abordagem empírica. A observação de situações práticas em que o status de ciência é buscado, alocado, ou negado, pode e deve oferecer respaldo para a discussão teórica de como se define o que é ciência. Cumpre, para tanto, localizar a análise nos estudos sociais da ciência e da tecnologia (ESCT). Os ESCT foram instrumentais em uma mudança da concepção da demarcação científica não apenas como um problema epistemológico mas, e principalmente, como um problema social e, portanto, que deve estudado no âmbito de uma análise sociológica.

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Contra o método, primeiramente publicado por Feyerabend em 1975, é um exemplo famoso. Para mais casos, ver Pennock (2011).

Entretanto, pode-se argumentar que a inclusão da ciência dentro dos limites da análise sociológica é uma quebra com a visão de precursores da área, como Mannheim e Merton.

Robert Merton, sociólogo americano, desenvolveu o maior programa de estudo sociológico da ciência até então (década de 1930), estabelecendo-se como o fundador da sociologia da ciência, mas esse estudo nunca se ocupou do conteúdo em si da ciência. Herdeira da sociologia do conhecimento de Mannheim e Schiller – para os quais as ciências naturais estavam além do estudo sociológico, o que significa que apenas critérios epistemológicos (e não sociais) podem demarcar o que é ciência16 –, a sociologia de Merton trata-se de uma sociologia detalhada dos cientistas, com uma preocupação com os pré-requisitos para que se desenvolva a ciência em uma dada sociedade, mas que sempre respeita o direito da epistemologia de definir o que é ou não ciência.

Para Isabelle Stengers (2002, p. 47), o que marca o fim da tradição demarcacionista é a sua “impossibilidade de formular critérios que, informados pelo passado, valessem para o presente”. Assim, essa tradição, “longe de explicar o progresso que é a recompensa da 'verdadeira' ciência, acaba por comentar a maneira pela qual as 'verdadeiras ciências' progrediram”. A partir da década de 1970, o questionamento da demarcação da ciência por critérios epistemológicos foi possível em grande medida a partir de um livro que, não obstante, mantinha um comprometimento com essa tradição demarcacionista: A Estrutura das Revoluções

Científicas de Thomas Kuhn (1978), originalmente publicado em 1962.

A ênfase de Kuhn na incomensurabilidade entre diferentes paradigmas, ocasionando que a escolha dos cientistas por um paradigma ou outro não se daria devido a elementos técnicos, lógicos, foi tomada por estudiosos – principalmente europeus – como uma abertura para que se considerasse o papel de elementos não cognitivos no desenvolvimento científico. De fato, o objetivo último dos proponentes da nova sociologia do conhecimento científico (conhecida pela sigla inglesa NSS – New Sociology of Science), que surgiu na década de 1970, era identificar em que sentido e em que medida se pode falar do conhecimento em geral, e especificamente do conhecimento científico, como ancorados em aspectos sociais (KNORR-CETINA; MULKAY, 1983, p. 6).

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A sociologia do conhecimento se ocupava das condições sociais do pensamento, mas mantinha distância da ciência natural, cuja objetividade a colocava além da análise sociológica. (KNORR-CETINA; MULKAY, 1983).

Para os proponentes da NSS, Merton mostrava uma deferência ingênua ao conhecimento científico ao acreditar que ele estava além da análise sociológica. Para eles, podia-se e devia-se estudar o próprio conteúdo da ciência. Knorr-Cetina e Mulkay (1983, p. 2) referem-se a essa sociologia do conhecimento científico que se desenvolveu na década de 1970 como o evento mais significativo para os ESCT desde a emergência da sociologia da ciência da qual Merton foi pioneiro nos anos 1930.

Segundo os proponentes da NSS, ela se tornou possível principalmente a partir da defesa de duas teses: a da não-determinação das teorias científicas pela evidência e a da observação como sendo “carregada” de teoria (theory-ladenness of observation). A primeira delas, conhecida como a tese Duhem-Quine, afirma que qualquer teoria pode ser mantida à face de qualquer evidência, pois não há como separar uma teoria de um grupo sempre presente de suposições colaterais. Um hipótese teórica sempre pode ser mantida, contanto que sejam feitos ajustes necessários em tais suposições colaterais. A segunda tese, que Kuhn e Feyerabend discutem, afirma que as evidências são sempre impregnadas por teoria, já que o que conta como uma boa observação é parcialmente determinado pelo paradigma vigente, que é o paradigma que tal observação busca testar. Segundo Kuhn, um paradigma é um pré-requisito para a própria percepção (KUHN, 1978, p. 148). Embora essas teses não apontem como necessário invocar fatores sociais para explicar as preferências dos cientistas, abrem caminho para a consideração de fatores não lógicos em geral. (KNORR-CETIN; MULKAY, 1983).

Através de estudos históricos (foco da chamada escola de Edimburgo, representada por David Bloor, Barry Barnes, Donald Mackenzie, entre outros) e estudos de caso contemporâneos (em geral da escola de Bath, representada por Harry Collins e Trevor Pinch, entre outros), esses pesquisadores chegaram a uma posição compartilhada quanto à especificidade da ciência: não importa quanto se busque encontrar elementos que definam epistemologicamente a ciência, quando se estuda o conhecimento e as práticas científicas, percebe-se que não é possível identificar nenhum aspecto cognitivo que defina a ciência em contraposição à não-ciência – nenhum método ou elemento universalizante que possa diferenciá-la, a priori, de qualquer outra atividade cultural.

Com isso, não se pretende dizer que não existe ciência como algo separado de outras atividades, mas sim que o que poderia explicar o desenvolvimento científico seria um misto, não

dissociável, de elementos cognitivos e sociais17, e marcados por um processo de negociação entre

atores diversos. A ideia de ciência como construção social tornou-se dominante nos estudos da época, tingindo com novas cores a dualidade entre ciência e não-ciência. Ora, se a ciência e o conhecimento científico são construções sociais, a própria legitimação científica o é também; não adianta buscar saída para o problema de demarcação na epistemologia, pois o estudo da prática científica evidencia que a epistemologia é usada como elemento ad hoc na demarcação do que é ciência. Quando alguma controvérsia é ganha e uma disciplina se estabelece como científica, aí sim entra a epistemologia para explicar o que faz de tal disciplina uma disciplina científica.

Segundo Stengers (2002, p. 18), essa nova sociologia das ciências demonstra que somos em geral incapazes de julgar a história de que somos herdeiros:

Na medida em que somos herdeiros dos vencedores é que recriamos, no que diz respeito ao passado, um discurso em que os argumentos internos de uma comunidade científica seriam suficientes para apontar esses vencedores; visto que esses argumentos nos convencem como herdeiros é que nós lhes atribuímos respectivamente o poder de ter feito a diferença.