5. CONCLUSÕES
5.1 Entre fronteiras múltiplas: Inter Psi como objeto fluido
Em “The Zimbabwe Bush Pump”, Marianne de Laet e Annemarie Mol se referem à bomba hidráulica Bush tipo B (que foi criada e disponibilizada no Zimbábue na década de 1980) como um exemplo de tecnologia fluida. Para as autoras, um objeto fluido é um que não tem
fronteiras definidas, que não se impõe, mas busca servir, que é adaptável, flexível e responsivo. E essa diversidade não se daria somente por uma multiplicidade de possíveis interpretações, mas seria uma característica inerente ao objeto (de LAET & MOL, 2000).
O conceito de fluidez adotado por elas é interessante quando aplicado ao Inter Psi. É preciso, contudo, fazer uma ressalva importante. Para as autoras, a fluidez contribui para pensar a agência de não-humanos (como no caso da bomba hidráulica), ao assinalar que atores não- humanos e não-racionais podem ter agência (de LAET & MOL, 2000, p. 227). No caso do Inter Psi, estamos trabalhando com um grupo de humanos, racionais, aos quais não se pensaria em negar a agência independente da abordagem de análise escolhida. No entanto, o Inter Psi é mais do que um união de pessoas. Ao configurar-se como resultado dessa união, qualidades diferentes são assumidas pelo Inter Psi, agora novo objeto de fronteiras não rigidamente definidas, qualidades essas que passam a influenciar a trajetória futura do grupo e de seus membros enquanto participantes desse grupo.
Enxergar o Inter Psi enquanto objeto fluido faz saltar aos olhos as diferentes formas com que o grupo pode, e pôde, ser definido (já que é flexível ao longo do tempo): um laboratório de psicologia anomalística, um grupo de estudos de parapsicologia, um centro de divulgação da parapsicologia científica ligada à Parapsychological Association, um grupo de amigos e colegas, um grupo de estudos do CNPq, uma linha de pesquisa da USP, um grupo de estudos de semiótica, um grupo de estudos da PUC-SP, um grupo de estudos da Anhembi Morumbi, um laboratório do Instituto de Psicologia da USP, um recurso a quem tem casos de experiência anômala para reportar, um grupo de representantes do ceticismo crítico dentro da sociedade brasileira, um grupo de pesquisas atuante em psicologia da religião, um grupo de pesquisas atuante em hipnose, um dos representantes da ciência frente à mídia no tocante à paranormalidade, um grupo de pesquisa atuante em casos de desmascaramento de charlatães... E assim como no caso da bomba hidráulica, o Inter Psi conta com uma espécie de “herói fluido”, como comentado no capítulo anterior: um ator que é promotor de ação distribuída, também como estratégia específica de fortalecimento do grupo.
Uma característica fundamental da fluidez é que é impossível dizer se um objeto fluido funciona ou não. Não há um sim ou não prontos. Como o objeto é múltiplo, há formas também múltiplas em que pode vingar ou falhar (de LAET; MOL, 2000). Cumpre analisar aspectos distintos dentro de seu contexto para poder avaliar se o grupo tem conseguido conquistar seus
objetivos. De uma forma bem resumida, pode-se dizer que as estratégias de legitimação do estudo do paranormal para o Inter Psi passam primeiramente por buscar a institucionalização de uma nova subdisciplina da psicologia, a psicologia anomalística. Em seu trajeto, o grupo sofreu perdas e ganhos. Ao passo em que o Inter Psi enquanto laboratório de psicologia anomalística da USP tem se fortalecido desde sua criação, pode-se argumentar que o Inter Psi como grupo de parapsicologia tem se tornado mais fraco. O Inter Psi tem se tornado um grupo muito mais acadêmico, o que faz parte da estratégia de institucionalização, e novos membros passaram a fazer parte do grupo. Se de um lado o grupo ganhou em status acadêmico, e ganhou novos membros, perdeu participantes antigos devido à maior rigidez das regras de participação. Também, como já discutido nos dois capítulos anteriores, o sucesso do grupo significa, em grande medida, uma perda de controle a respeito da definição de psicologia anomalística – como é claramente observado no caso de Chris French. Sempre há preços a se pagar por cada conquista.
Iniciativas específicas deram certo ao longo da existência do grupo (como a mudança de casa institucional por duas vezes, a criação de websites, revista, criação de disciplina de graduação e pós-graduação, criação de grupos de estudo, etc), mas também é incontável o número de iniciativas frustradas ou ainda não postas em prática (como ter um laboratório físico na USP, escrever um livro de introdução da psicologia anomalística, fazer um evento internacional de psicologia anomalística, enviar um projeto temático para a FAPESP, etc.). É claro que isso tem que ser visto em perspectiva: a existência de um grupo acadêmico em geral é marcada por tentativas de assegurar espaço na academia para o grupo e conseguir financiamento para pesquisas. Todo grupo de pesquisa na academia tem certamente um cemitério próprio de planos acadêmicos frustrados.
Em última instância, a semelhança do Inter Psi com qualquer grupo de estudos habitual é representativa de quanto suas estratégias para estabilizar a psicologia anomalística têm dado certo em muitos aspectos. O Inter Psi trocou a defesa de uma disciplina, a parapsicologia (como era o caso do ECLIPSY, pelo qual se iniciou a existência do grupo), por uma subdisciplina, a psicologia anomalística. A concentração de esforços em desenvolver uma subdisciplina significou uma mudança nos julgamentos de cientificidade. É como se o grupo estivesse trocando uma batalha em campo mais aberto por controvérsias menores e mais localizadas. Para garantir espaço acadêmico, o grupo teve que convencer pessoas em ambientes locais, como a congregação
da USP (no caso de criar o laboratório de psicologia anomalística e processos psicossociais e as disciplinas de graduação e pós-graduação) e pares da psicologia (como no caso de assegurar financiamento para pesquisas por meio de projetos de pesquisa individuais). Mesmo nesses casos locais, há perdas (como no caso do Conselho Regional do Paraná). Mas o público da psicologia anomalística tem sido um público formado por psicólogos. Há um afastamento da história da parapsicologia e suas controvérsias mais generalizadas com a ciência mainstream. O caminho de institucionalização da psicologia anomalística brasileira têm sido traçado por meio de diálogos entre psicólogos.
A semelhança do grupo com um grupo habitual de pesquisas acadêmico pode ser atestada também em relação à área de Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia. Quando aspectos desta tese foram apresentados, em congressos ou debates dentro do programa de pós-graduação da UNICAMP ou da Universidade de Edimburgo, diversas vezes foi levantada uma comparação entre a psicologia anomalística e os ESCT. A comparação comumente parte do ponto de que as estratégias do Inter Psi para legitimar sua área não são muito diferentes das estratégias seguidas pelos ESCT para conformar a academia como contendo um nicho para a área. Ao concentrar-se como um representante de uma nova sub-área, o Inter Psi se assemelha a inúmeros grupos que pretendem fortalecer estudos não hegemônicos na academia, como a psicologia da religião (com a qual o grupo conta tantos laços de ligação), mas também como a psicologia da arte, a psicologia da ciência, a história da ciência, entre tantas outras.
O conceito de fluidez é também interessante para referir-se às próprias áreas de conhecimento, além do grupo. A história e observação do Inter Psi oferecem elementos para discutir, com base na bibliografia de décadas dos ESCT, a respeito da dificultosa elaboração de fronteiras entre áreas e entre ciência e não-ciência. Pode-se pensar em ciência como um conceito fluido: quanto mais nos aproximamos de situações práticas, quanto mais aumentamos o zoom de nossa observação, mais percebemos o quanto é difícil elaborar as fronteiras e mantê-las. Pois as fronteiras entre áreas, e entre a ciência e a não-ciência, a exemplo das fronteiras geográficas entre países, necessitam de constante vigilância e manutenção. Há os grupos que buscam infiltrar-se em uma área (como os proponentes do design inteligente que defendem que são ciência e não pseudociência), há os grupos de justiceiros que tomam sob sua responsabilidade a expulsão dos que julgam ilegítimos pretendentes a tais áreas ou ao status de científico (críticos ativos da
parapsicologia como James Alcock são exemplo). Fluidez é um conceito adequado pois enfatiza exatamente a falta de fronteiras bem definidas, apriorísticas.
Entretanto, é importante que não se entenda com isso que qualquer coisa valha na definição de áreas e de ciência. Dizer que uma fronteira é construída não quer dizer que é construída com base em qualquer coisa. Ao contrário, a história própria do Inter Psi mostra como o trabalho de fronteiras é moroso e exigente. É preciso passar por inúmeros julgamentos, alguns mais locais, outros mais gerais, para encontrar um lugar na academia. Da mesma forma, dizer que a epistemologia aparece como elemento ad hoc não significa que ela não tenha um papel fundamental no estabelecimento de grupos, subdisciplinas e campos de conhecimento. O que se buscou argumentar é que a epistemologia como campo de conhecimento, subdisciplina da filosofia, não dá conta de eleger elementos que possam separar ciência de não-ciência de forma apriorística. Por outro lado, a epistemologia é constantemente definida por grupos de pesquisa, conformando os limites de sua atuação e, por meio de negociações e situações de julgamentos variados, o que se entende por ciência. Em outras palavras, não há como uma nova área ser identificada como ciência ou não ciência por meio da análise de uma pessoa que estude a epistemologia, enquanto subdisciplina da filosofia. Essa definição ocorre na prática, conforme essa nova área é formatada por indivíduos e situações de negociações, controvérsias, traduções.
Por fim, um outro aspecto de fluidez no grupo, a variação ao longo do tempo, reflete a fluidez em geral da demarcação científica como atividade rotineira e inerente às ciências. O estudo de caso aqui descrito tem um recorte específico. Mas a história do Inter Psi continua sendo feita. Depois do fim do período de observações aqui proposto, por exemplo (maio de 2014), Fabio da Silva deixou de ser professor nas FIES e, em julho de 2014, o tão procurado grupo de estudos em psicologia anomalística foi enfim aberto no Conselho Regional de Psicologia do Paraná (após mudança de direção do Conselho). Esses elementos não foram analisados aqui, mas constituem ilustração de como as fronteiras vão sendo renegociadas a todo instante. Embora grandes mudanças sejam feitas gradualmente, é possível enxergar pequenas reconstruções de limites em momentos específicos. O estudo termina, mas a história continua.