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4. INTER PSI – A PSICOLOGIA ANOMALÍSTICA NO BRASIL

4.2 Estratégias de legitimação

4.2.6 Estendendo redes: “Bob Morris brasileiro”

No VII Encontro Psi, Chris Roe falou sobre as tentativas em andamento de introduzir a psicologia anomalística no sistema educacional britânico e falou sobre a importância de Bob Morris que, conforme mencionado no capítulo dois, buscou normalizar a prática da parapsicologia e estendeu seu trabalho por meio de muitos orientandos (segundo Roe, vinte e sete PhDs, dezoito dos quais assumiram posições acadêmicas).

No fechamento do VII Encontro Psi, o então presidente da PA, David Luke, disse que Wellington Zangari era o Bob Morris brasileiro. Segundo Zangari, Carlos Alvarado e Nancy Zingrone viviam lhe dizendo o mesmo. Sua posição para a psicologia anomalística brasileira não é muito diferente da de Stanley Krippner para a parapsicologia, que, segundo Fabio Silva, no mesmo fechamento, é conhecido como um homem-rede na área.

A psicologia anomalística brasileira tem um ponto de passagem obrigatório: Wellington Zangari. Entretanto, como um Bob Morris, seu trabalho tem se desenvolvido no sentido de propagar a área, espalhando-a para orientandos que, se ocorrer o mesmo que ocorreu na Inglaterra de Morris, irão levar a psicologia anomalística consigo para outras universidades. Cabe chamá-lo de “herói fluido”, seguindo terminologia que Mol e Laet utilizam para se referir ao criador da bomba d’água que elas estudam em “The Zimbabwe Bush Pump” (DE LAET; MOL, 2000). Zangari é um herói que busca tornar-se um não-herói, busca reduzir sua ação para aumentar o papel da sua obra – e espera que ela prossiga sozinha seu caminho um dia. Um aspecto interessante do “herói fluído” é que é possível aliar esse conceito à ideia de mecanismo primário e mecanismo secundário que Latour utiliza para explicar como a tradução de vários alistamentos pode produzir a ideia de que um homem age sozinho:

O que eu chamo de mecanismo primário mostra como a bacteriologia chegou ao fim da cadeia parasítica e tornou-se capaz de expressar todo um período. Mas o mecanismo secundário atribui toda a revolução sanitária do período ao gênio de Pasteur. O primeiro descreve as alianças e composição das forças, enquanto o segundo explica porque as forças estão misturadas sob um nome que as representa. O primeiro define os “julgamentos de força”; o segundo nos habilita a explicardo que é feita a potência. (LATOUR, 1988, p. 42)135

135 "What I call the primary mechanism shows how bacteriology got into the end of the parasitical chain and found

itself able to express a whole period. But the secondary mechanism attributes the whole of the sanitational revolution of the period to Pasteur's genius. The primary mechanism describes the alliances and make-up of the forces, whereas the second explains why the forces are mixed together under a name that represents them. The first defines the "trials of strength"; the second enables us to explain what "po-tency" is made up of."

É possível argumentar que Zangari leva uma nova disciplina quase que toda nas costas, mas esse é o resultado de uma longa série de traduções de muitos elementos alistados; como outras áreas – psicologia, psicologia da religião, parapsicologia, estatística, ESCT... –, instituições – a Anhembi-Morumbi, a PUC, a USP, a PA, a Fapesp..., pesquisadores – da PA, o professor Geraldo Paiva, o professor Altay Souza, o professor Fernando Capovilla, os orientandos... – de instrumentos – os testes psicológicos, os testes estatísticos, diversos artigos, o papel crucial de Fátima Machado... Ao mesmo tempo, ele próprio se esforça para diminuir seu peso e fazer a área caminhar por conta própria.

No intervalo da aula do dia 15 de abril de 2011, houve bolos, salgados e refrigerantes (levados por orientandos de Zangari) para comemorar o aniversário de 46 anos do professor – que havia acontecido na terça-feira anterior. Esperançoso de que as pessoas se sentissem animadas para seguir nos estudos de experiências anômalas, disse: “somos todos pioneiros nessa área”.

Esse pioneirismo se mostra pela falta de uma comunidade coesa (reunião do dia 30 de setembro de 2011: “Falta uma comunidade de pesquisadores dessa área, que possam se encontrar, discutir os problemas e possibilidades de pesquisa, de ampliar a área”). Para que essa comunidade seja formada, é necessário que se aumente o número de pesquisadores. Por isso, cada orientando, como foi o caso dos orientandos de Morris, carrega o futuro da área em si.

Na reunião do dia 30 de setembro de 2011, o grupo debateu a PA e o Encontro Psi. Mais que um encontro de pesquisadores da área, a convenção da PA tinha servido também para mostrar a força interna do Inter Psi. “Não existem 8, 9 alunos de mestrado ou doutorado em nenhuma das universidades da galera da PA”, falou Zangari. E adicionou que isso foi o que conseguiram em três anos de USP. E décadas de trabalho antes da USP, assumiu. “O que a gente tem que fazer é nossas pesquisas. Continuar publicando (em português e inglês) e apresentando (em português e inglês)”.136

136A despeito de dizer que o grupo deve se concentrar mais no Brasil, o Inter Psi tem pretensões de seguir sua busca

por espaço institucional também na PA. Em 2011, FRM ficou a um voto de entrar no conselho da associação. Alexander Almeida entrou com esse voto a mais. Segundo WZ, ele e Fátima não conseguiram votar por motivos pessoais, que não me lembro. Se eles tivessem votado, ela provavelmente teria entrado no conselho. Na reunião de 22/06/2012, WZ anunciou que Fátima estava concorrendo à vice-presidência da PA. Segundo ela, há uma pré-eleição em que cada membro nomeia quem ele ou ela gostaria de ver como candidato ou candidata. O vice-presidente é sempre o presidente do ano seguinte. As pessoas que são nomeadas podem aceitar concorrer ou não. Ela aceitou. WZ apoia Fátima, mas disse que se recusa a se candidatar, porque tomaria muito tempo e ele prefere fazer mais coisas por aqui.

Na mesa sobre Psicologia Anomalística do VII Encontro Psi, Zangari comentou um pouco sobre a incursão dos trabalhos na USP e sobre o laboratório. Disse que o laboratório é o centro nervoso de todo o trabalho de psicologia anomalística e que há menos vagas do que interessados. Ao caracterizar o laboratório como centro nervoso, ele enfatizou a importância dos membros do Inter Psi para a existência e continuidade da área.

A reunião do dia 20 de abril de 2012 foi singular na história do Inter Psi. Ela ocorreu em seguida à defesa de uma mestranda que hoje não faz mais pesquisa na área. Zangari e Machado estavam presentes (ambos na banca). Entretanto, os dois tiveram que ir embora devido a problemas pessoais. Pela primeira vez (desde os tempos do ECLIPSY, Zangari disse), uma reunião aconteceu sem a presença dele ou de Machado. Por si só esse fato já pode ser utilizado para argumentar que o grupo tem se tornado mais coeso e menos dependente (embora essa dependência seja ainda clara) de indivíduos específicos. Na reunião seguinte, no dia 25 de maio de 2012, este foi o primeiro ponto coberto por Zangari. Ele disse que era muito importante o grupo prescindir de uma figura: “a pretensão é que o grupo exista para além da nossa existência.”

Nessa mesma linha, a reunião foi importante por uma outra notícia: Zangari havia deixado Everton Maraldi e Leonardo Martins como responsáveis por iniciar a escrita do projeto temático, para a FAPESP, já citado, demonstrando a confiança no trabalho dos dois. Na mesma reunião, Vanessa Corredato comentou com o grupo que Etzel Cardeña teria entrado em contato com Zangari para pedir um pequeno artigo a respeito do andamento do Inter Psi, sobre as pesquisas correntes, para publicar no Boletim Mindfield. Ela analisou a importância do pedido: “quase um ano depois da reunião da PA, o interesse [no Inter Psi] perdura”.

Na reunião do dia 25 de maio de 2012, Zangari disse estar muito contente com o curso de graduação, principalmente pelo empenho dos seus orientandos (que foram convidados a dar algumas aulas): disse não ver isso nos outros laboratórios da USP. Na reunião do dia 31 de agosto de 2012, foi a vez de Maraldi ser elogiado. Ele trouxe notícias da 55ª Convenção da PA (em que foi o único membro do Inter Psi, chamado de representante do grupo por Zangari). Segundo o professor, sua participação (ele apresentou trabalhos lá) foi elogiada por Carlos Alvarado (o

chairman do ano), entre outros.

Na reunião do dia 25 de maio de 2012, Zangari falou sobre as conversas em curso para convênios com a Universidade de Londres, Goldsmiths (onde está Chris French) e a Universidade de Northampton (onde está Chris Roe). Tal convênio facilitaria o trânsito para

professores e para os alunos. Sobre trânsito de alunos, adicionou que estavam em curso também conversas para levar Fábio para um estágio sanduíche nos EUA, onde estudaria com Dean Radin (Silva foi, de fato, em 2013). Falando sobre esses possíveis convênios, e também sobre os eventos do grupo apresentando a área, sobre “os tentáculos do Inter Psi”, Zangari cravou: “há dois anos atrás, nada disso estava acontecendo”.

Se o grupo ainda depende da figura de Zangari, não há como negar que se torna cada vez mais um espaço de propagação da psicologia anomalística por meio de seus membros. É claro que essa extensão implica um risco específico: o de se perder o controle sobre a área que hoje existe, sobre o que significa psicologia anomalística e sobre quais as bases epistemológicas de uma boa ciência. Assim como French o fez desde o início do seu departamento na Inglaterra.