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2- O TRABALHO FEMININO NA COMUNIDADE DE CAPOEIRAS

3.8 Afinal, como a comunidade pensa o trabalho feminino?

As transformações que foram elencadas até o presente momento sobre papeis de gênero, avanços e desconfortos entre homens e mulheres em relação às mudanças apontadas podem levar a diferentes percepções e opiniões sobre o posicionamento dos homens e da população no geral sobre o trabalho feminino, principalmente sobre os papeis daquelas mulheres que são casadas e trabalham fora da comunidade. Dentro do quadro apresentado é comum alguns verem o trabalho feminino como algo presente e relevante para a comunidade ou como algo que fere a honra masculina e o papel do homem como provedor principal da família. Estes pontos de vistas foram bem presentes nos momentos em que entrevistamos homens67 e mulheres da comunidade.

Para Kimmel (1987), os novos modelos de papeis masculinos não substituíram os antigos, mas têm crescido juntamente a estes, criando uma nova tensão dinâmica e novas formas de comportamentos quanto à presença feminina no mundo do trabalho. Esses pontos de vistas que transitam entre os moradores locais são fatores que até mesmo as mulheres trabalhadoras ou não têm ciência desses pensamentos. Em capoeiras notamos que se verificam esses comportamentos, principalmente quando se verifica que o mundo do trabalho fora da comunidade promove um distanciamento da mulher dos cuidados dos filhos e da esfera doméstica. Como também observamos, para alguns, essa ideia de homem que comandam a casa e que são provedores deve ser revista atualmente por outras perspectivas, no caso, de verificar que as mulheres também são importantes para a geração de renda para unidade familiar.

Um dado interessante e muito observado durante o trabalho de campo foi que a sinalizam para a experiência na comunidade de homens que os homens vêm executando mais seus trabalhos domésticos, justamente pelo tempo de ausência de suas mulheres em casa e dedicando-se mais tempo as atividades com as crianças, mesmo contando com algumas vezes

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No caso dos homens foram entrevistados homens que exercem atividades de trabalho juntamente com suas esposas, como também aqueles que ficam em casa e suas esposas trabalham ou até mesmo homens que ocupam outras atividades dentro da comunidade e que suas esposas não trabalham.

190 das tarefas que são ainda realizadas pelas mulheres. Essa adesão dos homens realizando atividades no lar, embora estejam ocorrendo de forma muito lenta, vem ganhando bastante representatividade.

A dedicação ao trabalho doméstico por esses homens pode ser explicada por não conseguirem oportunidades de emprego, por conta de idade avançada e sua mulher precisar sair de casa, muitas vezes para dedicar-se ao trabalho doméstico. Expedito José dos Santos é um dos homens que se encaixam nesse perfil, trabalha na agricultura e realiza algumas atividades domésticas enquanto sua esposa exerce atividade no emprego doméstico em Natal.

Figura 52 – Senhor Expedito José dos Santos.

Fonte: Acervo Ivanildo Lima, 2014.

Ela disse que ia trabalhar e foi, já como estava difícil pra eu arranjar emprego e eu só estava vivendo da agricultura eu não disse nada e até hoje está pra lá ganhando o dinheiro e ajudando em casa. Quando ela sai de casa, eu e meu filho, cuidamos das coisas. Ela sai e deixa o feijão preparado e mais algumas comidas feitas, depois de dois, três dias nos fazemos qualquer coisa que for pra fazer durante a semana eu faço. Agente só não passa roupa. (Expedito José dos Santos – Entrevista realizada em 2014)

Já outros realizam atividades domésticas pelo fato de estar desempregado, como é o caso de Antônio José de Moura. Ele procura ajudar no que for preciso, se responsabilizando de todas as tarefas quando sua mulher está em Natal durante a semana.

Eu acho importante a mulher trabalhar e ajudar em casa. Porque no caso o marido não pode tá trabalhando e a mulher pode estar e ajudar no que for preciso em casa.

191 Eu faço de tudo dentro de casa quando minha mulher não tá em casa, mas quando ela vem ainda faz também, quando ela não tá eu me responsabilizo. Até agora não tenho nenhuma dificuldade por ficar só em casa e cuidando do meu filho. Enquanto ela trabalha fora, eu trabalho na agricultura aqui na comunidade. (Antônio José de Moura – Entrevista realizada em 2014)

Como aponta Teykal e Rocha-Coutinho (2007; 263), “um novo homem68, um novo pai”, não nos moldes que apresentam os autores como: um homem que tenha mais escolaridade, uma renda elevada, de classe média. Este “novo homem” é um homem da zona rural, ligado à agricultura que não acompanhou o pensamento das gerações passadas em que o homem só realizava o trabalho duro, na agricultura e dava o sustento para a família. Estes são homens de pouca formação escolar que contribui com as tarefas domésticas e com a educação dos filhos quando as mulheres estão ausentes de casa, homens que incorporam o fato do desemprego. Alguns depoimentos mostram que mais do que apenas “ajudar”, os homens assumem parte das tarefas domésticas, devido à ausência de suas mulheres durante alguma parte do dia ou até mesmo na semana inteira, devido suas esposas estarem fora de casa. Os homens revelaram que há uma preocupação com a limpeza e a higiene da casa e no cuidado com os filhos.

Outro dado interessante que foi visto em nossa pesquisa é que alguns homens que tiveram experiência como trabalhadores domésticos no período da adolescência para a fase adulta, realizando atividades remuneradas na cidade do Natal. Eles argumentam que a inserção nessa atividade se deu justamente por conta da grande dificuldade da família em garantir alguns recursos financeiros ou pela péssima condição de vida que a família tinha. Dentre esses casos encontramos dois homens da comunidade que na busca de contribuir com a família ou até mesmo pela falta de oportunidades de emprego em outras profissões viram no trabalho doméstico uma forma de inserção no mercado de trabalho exercendo trabalho em “casa de família” durante um significativo momento de suas vidas são eles: Marcos Antônio dos Santos de 41 anos, casado com uma empregada doméstica, Maria Daluz Barbosa e pai de um filho e Josenildo Bernardo do Nascimento de 43 anos, casado Maria do Livramento de Freitas e com uma filha.

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O conceito de “novo homem” é pensado para os homens oriundos de classe média que tem posição e status do que os de posição menos privilegiada (OLIVEIRA, 1998). Utilizamos esse termo para se pensar que o homem quilombola também pode se aproximar desse “novo homem”, embora eles não dispunham de mais possibilidades e recursos, dispõem de tempo para ajudar nas tarefas domésticas e no cuidado com os filhos.

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Figura 53 – Pesquisador com o Senhor Josenildo Barbosa dos Santos.

Fonte: Acervo Ivanildo Lima, 2014.

Eu passei quatro anos trabalhando no emprego doméstico e passei mais uns anos trabalhando em cozinha. Eu trabalhava numa casa e depois fui transferido para uma empresa. Quando eu trabalhei na casa, eu ficava só na cozinha. Por isso, gosto das atividades domésticas. Quando minha esposa não está em casa eu realizo as tarefas domésticas. (Marcos Antônio dos Santos – Entrevista realizada em 2014)

Lá em casa não tem isso não, da mulher só lavar, passar e cozinhar. Eu também ajudo nessas coisas todas. Eu ajudo muito minha mulher em casa, na semana eu faço tudo, só no final de semana que ela está de folga do trabalho que ela ajuda nas coisas. Eu acho importante o homem ajudar nas tarefas de casa para a mulher não ficar sobrecarregada, muitas vezes ela chega cansada, aí eu ajudando diminui um pouco esse cansaço. Eu não tenho dificuldade em fazer as coisas de casa, porque eu também trabalhei em casa de família. Trabalhei sete anos em casa de família. Aprendi fazer as atividades desde pequeno em casa, pois quando os velhos saiam eu fazia as atividades domésticas e cuidava dos mais novos botando comida no fogo e ajeitava a casa. Eu também já trabalhei como empregado doméstico. Quando eu saí pra trabalhar em casa de família eu tinha 13 anos. (Josenildo Bernardo do Nascimento – Entrevista realizada em 2014)

Durante o período que estivemos em Capoeiras observamos na fala de alguns dos nossos interlocutores demonstram a concordância com o trabalho feminino dentro e fora da comunidade, principalmente para muitos daqueles que as mulheres quando solteiras já trabalhavam ou como já falamos de homens com idade mais avançada que não encontram mais espaço no mercado de trabalho e suas esposas trabalham para garantir a única fonte de renda para a família. Para a geração que vem chegando, os jovens, a atividade feminina também é bem aceita, justamente porque muitas das mães desses jovens estarem inseridas no trabalho doméstico.

193 Alguns acreditam que o “ser homem” também demanda em assumir algumas responsabilidades com o filho e com a casa. Esses estão cientes que na atualidade as tendências sociais tradicionais apontam que a caraterística do homem como provedor não é mais uma certeza. Muitos homens de baixa renda têm problemas de encontrar e/ou manter seus empregos (BARKER, 2010;132). O patriarcalismo, som seu conjunto de valores começa a fazer água e, à medida que acelera a modernidade, altera-se alguns papéis, criando novos desmapeamentos (FILHO, 2002;140). Nesse caso, o homem abre mão do papel provedor único, mas em compensação, ele ganha por estar integrado num grupo doméstico capacitado para enfrentar a pobreza e apto a desenvolver estratégias que visam gerar renda.

Mas também existem homens que são contra as mulheres realizarem trabalho, principalmente fora de casa. São aqueles que apontam que “A perda do emprego para o homem significa a perda ou diminuição da masculinidade” (NADER; CAMINOTI, 2014; 05). Alguns abordam falam que quando uma mulher trabalha fora, é porque o homem não está conseguindo prover as necessidades da família. Apontam que o trabalho da esposa, principalmente fora da comunidade desvalorizaria o papel do macho e seria uma vergonha, um homem ser sustentado pela mulher e uma vez que a mulher está fora de casa ela deixa de educar melhor os seus filhos. Veja o que fala um de nossos interlocutores:

Pesquisador – Por que você não aceita que sua esposa trabalhe?

Erivan Erasmo dos Santos - Porque eu aprendi com meu pai que um homem ficou

para tomar conta de um lar, para dar responsabilidade dentro de uma casa. Uma mulher trabalhar fora e o marido ficar em casa para mim é humilhante. Eu acho que seria semelhante a uma humilhação para o homem. O homem em casa tem várias oportunidades de trabalho, ele pode colocar um roçado, pode criar um bicho, fazer de tudo. Desde que se vire pra colocar alguma coisa dentro de casa. Se ele sair eu acho que fica assim: ele vestiu a saia e entregou as calças pra ela.

Pesquisador: Como você reagiria se sua esposa quisesse trabalhar fora?

Erivan Erasmo dos Santos - Ela já pensou nisso. Minha resposta é uma só. No

caso, eu falei! Tá te faltando alguma coisa? E a resposta dela foi essas: talvez eu esteja precisando de alguma coisa que você não pode me dar. Eu falei: diga o que é que é que eu vou trabalhar para te dar isso. Mas agora eu não me casei pra ver minha mulher no meio do mundo não.

Erivan Erasmo dos Santos - Pesquisador: Como você acha que fica a família da

mulher que trabalha?

Quando não tem filho trabalha os dois, mas quando tinha filhos nenhuma de minhas irmãs trabalhou fora na casa de ninguém. Aconteceu na minha família no tempo que minha irmã trabalhava, ela teve menino e deixou bem novinho. A criança começou a ser criada pelos avós, aí pronto, teve duas educações. A criança ficou sem obediência nenhuma, nem pra estudar não queria. Aí ela viu que estava dando um prejuízo tão grande e ameaçando a educação do filho dela. Então veio pra casa e o marido teve que trabalhar sozinho. Eu acho importante a mulher trabalhar, mas mesmo que seja os dois trabalhando e que não tenham filhos. Mas na hora que tem filhos e vai ficar nas mãos de terceiros. Eu não sou a favor por isso porque muitas deixam o filho para ir trabalhar. (Erivan Erasmo dos Santos – Entrevista realizada em 2015).

194 Isso reforça alguns padrões das sociedades patriarcais ou alguns ensinamentos que foram passados por aqueles homens que são de famílias que tiveram uma educação mais rígida, com as mulheres somente ligadas ao ambiente doméstico. Outro dado importante é que para muitos homens ou até mesmo algumas mulheres, o fato da mulher trabalhar e deixar seus filhos com parente é algo que é bem questionado e figura com grande peso para aqueles que questionam o trabalho feminino fora de Capoeiras. Para esses que são contra o trabalho feminino fora da comunidade “o ser homem” significa ter responsabilidade, respeito e maturidade de homem casado, com filhos, encargos profissionais e de provedor da família e deixar a mulher trabalhar fora demanda a perca dessas características apresentadas.

Outro fator bastante citado em algumas de nossas entrevistas foi a questão das fofocas em relação à ausência de mulheres casadas fora de casa. A “fofoca” pode ser um mecanismo fortalecido pela autoridade paterna ou como meio de regular o comportamento das mulheres e assegurar a honra dos homens. No caso da comunidade também pode ser encarado com uma forma de deixar as mulheres em casa. Em algumas de nossas entrevistas nossas interlocutoras falaram que existiram já alguns comentários sobre traições mais nada foi comprovado, onde alguns falam que as mulheres estavam traindo o marido enquanto realizam trabalho fora, mas nada foi comprovado. As mulheres encaram essas “fofocas” como preconceitos do lado de homens que são contra o trabalho das mulheres fora da comunidade e falam que são poucos os homens que comentam sobre esses acontecimentos. O tom um pouco jocoso da fala de algumas de nossas interlocutoras demonstrou como, em diferentes contextos, há certo divertimento em falar sobreas “fofocas”, levando em consideração o contexto de que nada foi comprovado.

Fonseca (2000) destaca que a fofoca envolve o relato de fatos reais ou imaginados sobre o comportamento de outras pessoas e é sempre tida como algo ruim e danoso, que se destina a fazer mal a determinados indivíduos. Ela serve como forma importante de comunicação servindo para informar sobre a reputação dos moradores, consolidando ou prejudicando sua imagem. Nesse caso, vemos a fofoca usada contra uma dinâmica que está se tornando forte na comunidade e como forma de atacar o protagonismo que as mulheres vêm alcançando nos últimos tempos com o acesso ao mercado de trabalho.

Em relações as mulheres que não realizam atividades o trabalho feminino é considerado de muita importância e a comunidade tem ciência de sua relevância para todo o contexto familiar devido ao período representativo que a atividade ocorre. Para mulheres, o forte desemprego dos homens por conta, às vezes, de baixa qualificação ou da idade é um fator importante para a saída das mulheres dos lares. Outras consideram que têm homens

195 acomodados que preferem ficar com os filhos, enquanto as mulheres trabalham. Outras consideram que as mulheres ganham tão visibilidade ao acesso do trabalho.

Para nós o trabalho das mulheres ser bem aceito porque hoje os homens têm aquela visão de que eles não trabalham e não conseguem emprego às vezes a mulher tem que ir, por isso que eles aceitam e as outras mulheres da comunidade também. Aqui também tem muitos homens acomodados que ficam só esperando pela mulher. Tem alguns que ajudam e ficam com os filhos, tem outros que passam a semana toda bebendo. Tem uns que as mulheres chegam em casa na sexta e tem um monte de homem bebendo na casa delas. (Marlete dos Santos – Entrevista realizada em 2014)

Madalozzo, Martins e Shiratori (2010) demonstram que o trabalho doméstico é a opção de atividade dessas mulheres, o ganho relativo em desempenhar esse papel, comparativamente a ir ao mercado de trabalho, é positivo. Mas também destacamos o papel dessas mulheres exercendo em outras atividades na educação, na cooperativa e nas outras profissões de menos representação. No processo de coleta de dados foram apontados por alguns dos sujeitos da pesquisa a importância do casal trabalhar para aumentar a renda da família, e possibilitar um maior poder aquisitivo matéria e aumentar o status social dos familiares. Na fala de alguns homens, eles não descartam a participação da mulher no pagamento de algumas despesas, ou até mesmo com umas das principais ajudas financeiras. “Além disso, ter uma esposa empregada – mesmo que venha a gerar alguns conflitos diante do padrão cultural que anuncia que do homem deveria vir o sustento material da casa – não é de todo ruim”. (BRITES, 2000; 141)

Tendo todos esses posicionamentos que demonstram adesão ou discordância sobre a ausência da mulher no lar devido sua inserção no mercado de trabalho, desenvolvemos o seguinte tópico, no intuito do melhor entendimento de como não só os homens, mas toda a comunidade visualiza e se comporta em relação ao papel da mulher como elemento que arca com as despesas e muitas das responsabilidades na esfera doméstica. Destacamos que para estas mulheres, o trabalho apresenta-se como uma solução para suprir as necessidades materiais com as quais não deveriam arcar sozinhas. Para os homens, entretanto, a inserção no mercado de trabalho não era uma expectativa socialmente colocada as mulheres, sendo o trabalho aceito apenas no sentido de complementar o orçamento doméstico. Isso termina no que diz um de nossos interlocutores, Heriberto Geraldo dos Santos: “Aqui tem pensamentos

diferentes muitos desaprovam fica a semana a casa fechada, sem ninguém. E outros aprovam porque é uma ajuda que um sai e outro trabalha também e acaba ajudando na renda da família”.

196 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As visitas realizadas para a comunidade de Capoeiras serviram como base para traçarmos um panorama geral sobre o processo de inserção feminina no mercado de trabalho. A intenção foi observamos os novos papeis assumidos pelas moradoras dessa comunidade, que além de ter alcançado um protagonismo político, papel antes exercido pelos homens, passa agora a atuar como umas das principais provedoras de renda para a comunidade, num processo de abertura de novos “campos de possibilidades” e de novas oportunidades de trabalho que as levam a atuar para além do trabalho doméstico, trabalho característico das mulheres da comunidade. Nesse sentindo são experimentados novos “projetos” individuais que vêm a se tornar realidade.

Lembrando que nossa pesquisa de campo destaca o período em que as experiências reprodutivas e o cuidado com o filho são atividades relacionadas à produção e reprodução da existência humana e seria do gênero feminino os principais cuidados com a esfera do ambiente doméstico até o período em que as mulheres passarem a inserir no mercado de trabalho, passando a lidar com o espaço da “rua” ou “produtivo”. Nesse sentido nossa perspectiva é sair do contexto que aponta Medrado e Lyra (2008), que salientam que, durante séculos, seja no espaço público ou no privado, a ligação entre gênero feminino e vida reprodutiva foi naturalizada, sendo a maternidade e o amor à criança da natureza do instinto das mulheres, para um contexto que aponte a mulher saindo da esfera doméstico e inserindo- se no mercado de trabalho.

A partir da descrição narrativas das interlocutoras, suas trajetórias individuais em relação a inserção e a vivencia no mundo do trabalho, tivemos o cuidado em dialogar com os contextos de mulheres que inicialmente realizavam o trabalho em casa e na terra; depois mostramos algumas experiências de mulheres que realizam trabalho na “rua”, nas casas de família ou instituições e empresas ou até mesmo na comunidade. Nessa ótica desenvolvemos um relato sobre a saída dessas trabalhadoras da situação de subalternidade, com uma explanação sobre a conquista de um espaço no mundo do trabalho. As experiências que relatamos mostram que as mulheres, como outros sujeitos sociais, percorreram caminhos de subordinação, de igualdade e também de uma espécie de “autoridade” até tornarem-se empoderadas. Nesse sentido, o trabalho trouxe para as mulheres que estão inseridas no mercado, nos termos de Filho (2002: 140), “uma transformação econômica e hoje apesar da discriminação, podem se libertar da tirania masculina de ser o único provedor”, passando a atuar com a principal provedora do lar, como é o caso das mulheres chefes de família.

197 Por outro lado, verifica-se que há em algumas casas uma participação maior dos homens no cuidado com os filhos e da maior responsabilidade com a casa, no intuito de dividir e diminuir as responsabilidades das mulheres em relação aos filhos. Um dos fatores seria a grande facilidade das mulheres encontrarem emprego ou até mesmo porque alguns