• Nenhum resultado encontrado

2- O TRABALHO FEMININO NA COMUNIDADE DE CAPOEIRAS

2.2 Trabalhar é coisa pra macho: o início

A dominação dos homens e a subordinação das mulheres constituem um processo histórico (...) (CONNEL; MESSERSCHMIDT 2013: 160). Segundo Probst (2012), as convenções advindas do início do século passado ditavam que o marido era o provedor do lar e a mulher não deveria ganhar dinheiro dedicando-se exclusivamente ao cuidado com o lar. Essa concepção apresentada, sempre foi recorrente na comunidade de Capoeiras desde a formação inicial do povoado, embora venha sendo modificado paulatinamente esse

86 pensamento nos últimos anos. Devemos destacar que esse modo de pensar era um dos entraves que dificultava a saída das mulheres da comunidade.

Essa tendência se constata como na perspectiva de Grossi (2004) que leva em questão a masculinidade hegemônica42, onde os homens estavam situados na esfera da produção e as mulheres na esfera da reprodução. Essa masculinidade, de acordo com Almeida (1996) consistia num modelo cultural ideal que os homens exercem com um efeito controlador sobre as mulheres. Ela implica num discurso sobre a dominação e a ascendência social, atribuindo aos homens certos privilégios.

Como enfatiza muito bem Thayer (2001) a relação entre homens e mulheres era fruto de uma estrutura patriarcal. Segundo a divisão do trabalho denotava a invisibilidade do trabalho duro do sexo feminino, com sua sexualidade e sua liberdade de movimentação fortemente controladas, subordinada ao ambiente da casa e sob o controle e mandos do homem. O contexto vivido por Capoeiras aponta para questionamentos sobre o papel feminino no qual as mulheres eram controladas pelos homens.

Aqui antigamente eram os homens que iam trabalhar. Os homens é quem saia para trabalhar no Pium e nesse meio do mundo do Agreste. Meu pai cansou de ir para o agreste trabalhar. Enquanto isso, ficavam nós mulheres e todos os outros filhos em casa para ajudar quando fosse no inverno pra botar roçado e cuidar das outras coisas da casa. Quem saia era os homens e as mulheres ficavam em casa. (Tereza dos Santos – Entrevista realizada em 2012)

Esse trecho da fala da interlocutora mostra o homem como provedor do lar e as mulheres cuidadoras da casa e de outros pequenos serviços ao redor da casa, como a plantação e a criação de animais de pequeno porte. Seguindo Mendes (2008) o trabalho, nesse se configura, além do próprio sustento, obtendo um valor moral associado à dignidade e, ainda, um indicativo de masculinidade respaldado no que denominam de “homem de verdade”, “homem sério”, aquele em que é de direito ser o dono da casa e o chefe de família. Para Barker (2010) a masculinidade adulta é igual a trabalho, não ter trabalho para um homem nessa época significava não ser reconhecido como tal, um motivo de vergonha, stress e falta de identidade social.

Para Saffioti (2002) o patriarcado permite que a categoria dos homens assegure, inclusive por meio da violência, sua supremacia. Essa matriz estrutura a subordinação das mulheres aos homens, perpassado pela vida privada e pública da sociedade. Ela se apoia na

42

Para Costa (1998) a masculinidade hegemônica se constitui num discurso que atribui aos homens privilégio potencial de dominação e ascendência social. O patriarcado seria um exemplo dessa ordem de gênero especifica na qual a masculinidade hegemônica define a inferioridade do feminino e das masculinidades subordinadas ou seja, ela é não pode ser observada como uma simples formulação cultural de um dado natural, pois ela é marcada por hierarquias e assimetrias.

87 ideia de que a espécie humana estaria dividida sexualmente em seres superiores e inferiores, física, mental e espiritualmente, tendo como postulado principal que a função reprodutiva dos homens é responsável pelo princípio da vida, como se a natureza tivesse depositado no corpo dos homens o princípio ativo da vida e as mulheres seriam o receptáculo da vida humana que já estava constituída pelos homens. No entanto esta superioridade conferida aos homens ao longo da história os deu a condição de detentores de todos os direitos sobre todos os outros seres e todas as coisas, até o direito de ser o único representante de Deus aqui na terra, determinando o que se chamou de patriarcado.

Desse modo percebemos que na comunidade havia uma divisão sexual do trabalho que mantinha o homem ligado à esfera do público (trabalho) e a mulher ligada ao privado, representado pela casa, lar e os filhos.

Nader (2002) ainda destaca que a sociedade espera que o homem e a mulher cumpram seu papel social e por isso delimitam seus espaços de atuação, construindo dentro da delimitação espacial as identidades sexuais de cada um desses indivíduos. Ou seja, a sociedade atribui diferentes papeis para homens e mulheres e cria diferentes campos de atuação para ambos os sexos.

Hirata e Kergoat (2007) e Nader (2002) demonstram que essa divisão sexual do trabalho é uma forma de divisão do trabalho social que nasce das relações sociais entre os sexos, ou seja, ela é modulada histórica e socialmente; é um fator de suma importância e um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos, tendo como prioridade o trabalho do homem na esfera produtiva (trabalho e prover o alimento para a família) e as mulheres o cuidado com a esfera reprodutiva (casa e os filhos). Nessa perspectiva o homem se apropria das funções de maior valor social. Essa forma de divisão sexual do trabalho se organiza em dois princípios: o primeiro de separação que denomina a função de homens e mulheres, e o segundo é o princípio de hierarquia, onde o trabalho do homem vale mais que a atividade realizada pelas mulheres.

Os estudos sobre o tema revelam a persistência de uma divisão sexual do trabalho, nas quais aos homens são destinadas principalmente às atividades de caráter produtivo, geradoras de renda e desenvolvidas no espaço público, enquanto às mulheres cabem as tarefas reprodutivas, entendendo-se por estas os cuidados com o bem-estar físico e emocional dos membros da família (alimentação, limpeza da moradia, vestuário, higiene pessoal, saúde física e mental, cuidados com relação à moradia, criação e educação dos filhos. (BRUSCHINI, 2010:21)

De acordo com a esfera do privado (casa), seu domínio fundamental cabia às mulheres realizarem tarefas envolvidas na reprodução social, como: cuidados com o lar, crianças, ajudar os esposos e pais plantando feijão, fava, milho, algodão, colhendo,

88 trabalhando nas casas de farinhas raspando mandioca e produzindo a goma. A mulher cabe também ficar em casa cuidando de animais domésticos de pequeno porte como: galinhas, alguns porcos e carneiros para complementar a renda da família.

Em casa, seu domínio fundamental, elas eram responsáveis pelas múltiplas envolvidas na reprodução social – cuidar da criança, fazer faxina, lavar roupa e cozinhar, além de puxar água e criar animais para complementar a alimentação e a renda da família. Além disso, elas trabalhavam nos cultivos de subsistência da família junto com os homens e com crianças de mais de sete anos. (THAYER, 2001: 109)

Ainda em Thayer (2001), percebe-se que o trabalho doméstico e o trabalho na roça eram invisíveis e nesse contexto, se configurava como uma ordem natural das coisas. Nessa divisão sexual do trabalho, as mulheres não eram consideradas como trabalhadoras, apesar de toda sua contribuição para o sustento da unidade familiar.

É interessante pontuar que essa ausência dos homens, por estar trabalhando fora, possibilitava que o aprendizado em relação às atividades agrícolas fosse ensinado aos filhos dos casais muito cedo. As crianças acompanhavam seus pais e eram responsáveis pelos pequenos trabalhos agrícolas realizados na lavoura como espalhar e enterrar sementes, arrancar matos e cuidar da limpeza do roçado. Nesse caso, como pontua Mendes (2008) as atividades agrícolas desempenhadas, tinham significado como elemento de formação do caráter, somado a necessidade de mão de obra para composição da renda da família e acabava colaborando com a naturalização do trabalho infantil e nesse caso na comunidade, como necessária para o contexto familiar. Mendes (2008) ainda discorre que o aprendizado do trabalho agrícola era realizado muito cedo, fazendo parte de um processo de socialização e sociabilidade da família.

De acordo com a noção do público, para os homens caberiam sair de casa para trabalhar nos engenhos de São José, Japecanga e Pium, como também nas fazendas do Agreste e deslocar-se para cidades como São Paulo, Goiás e Minas Gerais para trabalhar e prover o sustento de toda unidade familiar.

Ao acompanhar a história das migrações provenientes de áreas rurais brasileiras, um dos fenômenos mais recorrentes é a saída do homem, nominalmente em busca de recursos, para destinos onde pretende circular entre o destino e sua casa de origem, sempre diante da possibilidade dele se estabelecer no lugar de destino, com ou sem parceira no lugar de origem. (SCOTT, 2011: 52)

Fazendo um paralelo com Silva e Menezes (2010: 282), esse caso de migrações para outras cidades evidenciam que as mulheres assumem um papel de responsabilidade do

89 trabalho da terra. A migração se configura como uma estratégia que através do assalariamento temporário do homem e com as formas de trabalho na terra desenvolvido pela mulher e filhos, com isso caracterizando como uma estratégia familiar de reprodução social.

O povo daqui saia muito pra trabalhar nos engenhos aí pra fora. Eles iam trabalhar em São José, Japecanga. Nessa saída desse pessoal, por exemplo, uma seca dessa, você chegava numa casa dessa só encontrava mulher e menino não encontrava homem. Os homens estavam tudo trabalhando, saia tudo pra trabalhar fora, São José, nesses engenhos por aí a fora. Aí eles iam trabalhar quando era no fim de semana uns vinham e trazia alguma coisa dos outros para não ficar indo e vindo toda semana. Vinha um e na outra semana vinha outro. Mais ou menos de 46 pra cá. O povo andava a pé para ir pra esses engenhos, quando era no domingo juntava cinco ou seis saia de madrugada pra chegar aos engenhos de manhã cedo e já começar a trabalhar. (Manoel Batista da Silva - Entrevista realizada em 2012)

Essa concepção de movimentação ou circulação de homens faz pensar algumas noções apresentadas por Guedes (2013), principalmente porque esses indivíduos estão se deslocando e mantendo relações entre o campo e a cidade, permanecendo no seu local e correndo no “trecho”43

, perpassando pelos aspectos de provisoriedade, gênero e família nas mais diferentes velocidades.

A situação da movimentação inicial de homens se explica pelas dificuldades enfrentadas pela comunidade em relação à escassez de alimentos e condições de sobrevivência no local. Quando chegava a época da seca, um grande número de homens saia para trabalhar fora. Eles se locomoviam da comunidade para esses lugares a pé, andando uma grande distância durante a madrugada para chegar aos locais cedo da manhã para trabalhar ou até mesmo viajando em transportes em péssimas condições para as outras cidades.

Aqui era ruim, não tinha água não, o povo vendia cardeiro pra comer e também pra comprar água. Aqui tudo era ruim, os mais velhos contam, o povo daqui botava um saquinho nas costas e ia trabalhar fora e dar de comer a família. Eles iam trabalhar quando eles vinham traziam comida. Toda semana eles estavam aqui vinham trazer as coisas para família e voltavam de novo. (Maria das Dores Paulino dos Santos - entrevista realizada em 2014).

Na época de seca, aqui não se podia fazer nada, as mulheres e filhos ficavam em casa sem fazer nada, mas quando era inverno, todo mundo voltava, e plantava suas coisas, e quando acabavam de colher tudo voltava de novo. Quando era no inverno os filhos e as mulheres ajudavam na plantação. As mulheres ficavam plantando, tinhas as casa de farinha, raspava mandioca, apanhava fava, feijão, algodão. (Manoel Batista da Silva - entrevista realizada em2012)

43

De acordo com (GUEDES, 2013;183), a expressão trecho está ligado a migrantes; pessoas itinerantes; e é comum que eles tenham sido ou eventualmente sejam, ajudantes de caminhoneiros, vendedores ambulantes, garimpeiros, trabalhadores rurais, peões de obra etc.

90 Nos dois contextos apresentados pelos interlocutores na época da seca havia escassez de recursos para o sustento da unidade familiar. Outros comentaram durante a fase de coleta de dados que as pessoas que permaneciam mal tinham condições de comprar gêneros alimentícios, ficando na dependência das coisas que vinham das cidades mandadas pelos chefes de famílias uns pelos outros (de arroz a alho), enviados pelos correios ou recebiam ajuda das pessoas que ficavam na comunidade (as pessoas que tinham um maior poder aquisitivo).

As primeiras pessoas tiveram muita dificuldade, meu pai passou três meses em Minas, quem ia pra Minas e pra Goiás a notícia era quando ia e quando voltava. Aí La não tinha como se comunicar já ia para os mato, não era? (Maria Lídia Basílio - Entrevista realizada no ano de 2012).

Quanto às atividades realizadas pelas pessoas que permaneciam, no caso das mulheres, elas se ocupavam em realizar as atividades domésticas do cotidiano e auxilio no cuidado da terra, pois como mencionamos antes a comunidade vivia basicamente da agricultura. Durante o inverno se podia contar com alguns que tinha voltado para cultivar seus roçados com seus familiares. Mas destacando que sempre acabavam voltando para os engenhos e fazendas ao término da estação chuvosa ou quando as reservas de alimentos de suas residências haviam acabado.

O aspecto observado nas atividades desenvolvidas pelo contingente masculino da comunidade nos seus anos de dominação masculina do trabalho nos mostra que a população não fazia uso de toda extensão territorial da comunidade para desenvolver a agricultura, tendo em vista que a comunidade dispunha de enorme faixa de terra propícia ao cultivo de gêneros agrícolas. Alguns populares comentaram que há alguns anos as pessoas ainda não estavam habituadas a produzir excedente ou ainda carregavam em seu pensamento resquícios do tempo da escravidão, pois preferiam trabalhar para os grandes latifundiários ou o trabalho

alugado44 a produzir no vasto território que tinham ao seu dispor. Outro fator que merece

destaque é a interação com pessoas de outros grupos. Os habitantes locais vendo que o seu território tinha terra o suficiente para produção agrícola, acabavam trazendo pessoas externa para ocupar essas terras e povoar a comunidade.

44

O trabalho alugado, segundo Garcia Jr, (1983) é uma das formas complementares para obter dinheiro. É quando o trabalhador executa um serviço sobre as ordens de outrem mediante o pagamento em dinheiro. As tarefas que compõem o alugado são combinadas previamente entre o trabalhador e quem contrata os serviços e são pagas com base em diárias também acertadas previamente. Também significa reconhecer a insuficiência de trabalho familiar e para alguns é vergonhoso, que manifesta a privação da família que o submete.

91 Entre os anos 60 e 70, essa migração de mão de obra foi acabando, acredita-se de maneira geral que um dos fatores que ocasionou essa diminuição foi o surgimento de lideranças locais responsáveis pela conscientização dos moradores sobre a importância de voltar para comunidade e desenvolver a agricultura levando em consideração a existência de uma grande faixa de terra propícia para botar roçado45. Para Garcia Jr. (1983), o fato de botar roçado é o que assegura que esse pequeno produtor vai garantir uma parte necessária para a subsistência familiar.

Nesse contexto, há indicativos de que os homens tinham mais liberdade ou possibilidade de ação, mais liberdade de escolha que as mulheres. Mas devemos assinalar que essa masculinidade também era vigiada e obedecia a um código de conduta que uma vez quebrado poderia sofrer “certa desaprovação” por parte dos outros homens da comunidade. Nesse aspecto, “o homem é socialmente cobrado e deve, o tempo todo, evitar posturas não másculas e também fornecer provas de sua masculinidade” (ALMEIDA, 1996: 02), controlando a vida das mulheres e as fazendo cumprir com os padrões vigentes da época: o cuidado com o lar e as tarefas tidas como femininas.