2- O TRABALHO FEMININO NA COMUNIDADE DE CAPOEIRAS
3.4 O sonho da casa própria e o Consumo das mulheres
Já fomos apresentados no decorrer do nosso trabalho a todo o contexto de inserção no mercado de trabalho das mulheres e todos os modos que elas acessaram como meio de sair de uma realidade de escassez de recursos materiais ou financeiros. Agora é interessante pontuar como nossas interlocutoras acessam o consumo e seus sonhos realizados graças à ampliação e acesso ao mercado de trabalho.
Observamos ainda que algumas mulheres em virtude o acesso direto ao dinheiro como fruto de sua rotina de trabalho e educação, vem possibilitando além da aquisição de novos conhecimentos, acesso ao “mundo dos bens”. No entanto, esse acesso ao mundo dos bens “nas famílias de renda mais baixa a questão da sobrevivência tem o papel primordial, mas há também um anseio de ampliar e diversificar a cesta de consumo”. (BRUSCHINI, 1987; 60).
Como em Dantas (2014), a moradia (ou casa própria) é tida como principal desejo e objeto de consumo apontado pelas nossas interlocutoras. Muitas transferem para a falta desta conquista, o motivo para muitas dormirem nos empregos, morar casa dos patrões e o distanciamento dos seus filhos. O significado que tem a aquisição de uma casa para a família tem aspecto meramente material como "necessidade básica" cuja construção é imprescindível
160 na delimitação de uma nova unidade doméstica, muitas vezes a construção da mesma é realizada pela própria família com a ajuda de parentes ou amigos.
A casa caracteriza-se, então, na perspectiva de Woortmann (1982), como um "domínio social, econômico e ideológico", mas, sobretudo, um domínio da esfera do privado do núcleo que é como tal reconhecido publicamente por aqueles que constituem o grupo social de referência. A casa como espaço de independência pode ser entendida como algo inerente à condição da família, criando a sua delimitação legitimada e garantida socialmente.
Assim, durante a explicitação de seus projetos, pessoais e para a família, a casa surge como um bem a ser assegurado e como um projeto de longo prazo de investimento de recursos. Seja ela citada diretamente como uma proposição única de projeto de vida ou indiretamente por meio do trabalho, uma vez que é o trabalho a forma valorizada e possível de quitá-la e de organizar as despesas domésticas no local. (LIMA, 2011; 231)
A citação anterior permite acionar as demandas de um longo trabalho e o investimento de muitas dessas mulheres trabalhando juntamente com seus esposos, objetivando a construção de um local que assegure um local para formação de sua unidade familiar. A casa própria ou sonho de aquisição das mesmas, para os sujeitos pesquisados é uma “necessidade básica” (WOORTMANN, 1982;126), ela se inscreve como projeto futuro para as mulheres jovens ou mulheres que visam se inserir no mercado de trabalho. Possuir uma casa para as mulheres pesquisadas significa: um passo fundamental de acumulação ou também para alguns casos que possam ocorrer no futuro, algumas pontuam o caso deixar o seu emprego atual para montar um comércio na comunidade, como é o caso de uma de nossas interlocutoras que fala:
Eu trabalho como doméstica, mas não quero seguir na profissão, quero no futuro poder montar meu próprio comércio aqui na comunidade, na minha casa. Mas eu vou chegar e vou dizer que tenho que trabalhar pra mim, pra meu lucro. Ser empregada doméstica você não lucra quase nada. (Maria Aparecida do Nascimento – Entrevista realizada em 2014)
Além de ser descrita por nossa interlocutora como um local que visa uma realização de um projeto para o futuro, no caso, montar um comércio, a casa é vista também como no olhar de Lima (2008) como um local para o desenvolvimento de atividades informais, e não apenas como residência, passando também ser importante para o consumo. A casa não é somente para se pensar na reprodução, ela também se refere ao fato bastante razoável de não pagar aluguel, o que representa o fim de uma despesa fixa que compromete a já precária renda familiar e com isso a possibilidade de aumento da satisfação de outras "necessidades básicas", principalmente a "alimentação" ou o consumo de outros bens materiais.
161 A realização do sonho de construção de uma casa torna-se também uma vantagem por ser uma a garantia de uma suposta moradia futura frente a um caso de desemprego, no sentido de que a perda do emprego se caracteriza numa incapacidade de se pagar o aluguel. Por outro lado, muitas das mulheres entrevistadas acham importante ter conquistado o sonho da casa própria por significar uma segurança para elas e para os membros da família no tempo da velhice ou de outra forma sair das casas de seus familiares.
Em relação a mudanças na habitação a construções de casa de alvenaria é o bem mais valorizado quando se fala em ganhos que se concretizaram com a inserção das mulheres no mercado de trabalho. A compra de um terreno e a construção de uma casa constitui um importante bem de alcance das trabalhadoras. Por outro lado, eles abordam que a casa é um investimento que pode dar lucro pela venda ou até mesmo por uma locação para familiares ou amigos próximos. A casa configura-se como uma forma de obter uma segurança econômica, ou seja, uma forma de investir um dinheiro que foi fruto de um longo período de trabalho.
Como percebemos pelos dados apresentados, houve também significativas mudanças no aspecto habitacional e econômico da comunidade. Percebemos que alguns moradores entrevistados apontam que a situação de Capoeiras hoje está melhor, ou seja, com as mulheres trabalhando Capoeiras passou a ter significativos avanços nas condições de moradia e maior poder aquisitivo dos moradores, possibilitando uma maior aquisição de bens e produtos.
Saindo do contexto da realização do sonho da casa própria e de toda a representação que a construção do local de moradia ganha na vida dessas mulheres, passamos a entender as como as trabalhadoras remuneradas se inserem no contexto de consumo. A inserção no mercado de trabalho faz com que essas mulheres adentrem no universo do consumo. “A cultura de massa - mídia, marketing, publicidade - interpreta a produção, socializa para o consumo e nos oferece um sistema classificatório que permite ligar um produto a outro e todos juntos as nossas experiências de vida” (ROCHA, 2005: 137). Também a movimentação dessas mulheres pelas áreas urbanas e o acesso a determinados meios de consumo que a vida na cidade proporciona mostra-se como um dos condicionantes para aumento do consumo dessas mulheres as tecnologias e os mais variados produtos.
Com adesão ao mercado de consumo, o uso das tecnologias do lar tem aumentado devido o reconhecimento do trabalho doméstico e com a adesão das demais mulheres em outras profissões. Com mais poder aquisitivo, as mulheres podem adquirir muitos produtos que até então não teria condições financeiras de comprar se não tivesse adentrado no mundo de trabalho. No caso das empregadas domésticas observamos um dado muito significante, seus acessos a determinados produtos demonstram que estão relacionados às experiências de conforto que vivenciam nas casas de suas patroas, mas, notamos que elas ressignificam os
162 mesmos objetos de acordo com seus gostos e preferências. Já as outras trabalhadoras alegam que são influenciadas constantemente pelas propagandas veiculadas na televisão, internet, rádios.
Tendo em vista o crescimento da comunicação na comunidade, representados pelo acesso da informação por telefonia móvel ou fixa e da utilização de internet com crescimento no uso do sistema Wi-Fi passou a ter no local uma grande compra de aparelhos celulares. É constante passar pelas ruas da comunidade e presenciar jovens se comunicando por esse sistema, além disso, esse acesso aos meios tecnológicos de informação e comunicação melhora no encurtamento das distancia de quem está na comunidade e de quem está fora.
Os eletrodomésticos e móveis encontrados nas casas também podem ser interpretados pelas experiências de conforto e escolhas de necessidade de consumo das suas residências. Nesse caso, os bens comprados vão construindo experiências de confortos e comodidade, dando praticidade para suas vidas. Ao mesmo tempo, como aponta Montecelli (2013), são também comprados em relação às dificuldades encontradas nos espaços onde residem. Assim, podemos observar melhorias econômicas na vida dessas mulheres que se refletem na aquisição destes eletrodomésticos e na boa infraestrutura de suas casas.
Detenho-me aqui em abordar que as aquisições desses produtos surgem como parte das experiências vivenciadas pelas trabalhadoras, em seus contextos e espaços que estão alocados em relações de poder (MONTECELLI, 2013). Essas compras representam a possibilidade que estas mulheres têm de estabelecer e consumir confortos em sua vida diária, da maneira que têm seus gostos por determinados produtos. Sob essa perspectiva, Montecelli faz a seguinte reflexão:
Analiso o consumo dos produtos como uma maneira de trazer para seu cotidiano experiências e comodidades que fazem um sentido prático e estético em suas vidas, além de possibilitar novas experiências a sua família: assistir filmes com os filhos, passear nos fins de semana com o carro ou moto nova, gastar menos tempo com as tarefas domiciliares da sua própria casa, etc. (MONTECELLI, 2013; 49)
Ainda tomando por base (MONTECELLI, 2013) na sua análise sobre as diaristas, percebe-se que estas melhorias são resultados de pequenas estratégias que lhes são dadas ao conviver com espaços que as impulsionam a consumir elementos de conforto e de fácil aquisição na medida em que elas trabalham e podem consumir certos produtos na medida em que essas mulheres podem através dos seus gostos, sua necessidade, sua vontade e prazer de adquirir o eletrodoméstico ou móvel que desejam. Esses os novos elementos serão inseridos na decoração e na organização da casa das mulheres e de acordo com os códigos culturais locais que poderão lhes dar sentido (BRITES, 2000: 179).
163 Considerando que a população estudada está fadada também a períodos de desemprego, a casa também garante o abrigo e o alojamento. E, em caso de necessidade, a alimentação pode ser conseguida no exercício de outras atividades de ocupação marginal e temporária. “A casa não é um instrumento, mas um fim, uma forma de afirmação, uma independência” (DURHAM, 175: 1984). Ela justifica os sacrifícios que foram empreendidos por desenvolver atividades por muito tempo distante da família e longe do cuidado com o ambiente doméstico. A casa própria como o trabalho por conta própria, simboliza a dignidade de mandar no que é seu, de não se submeter à vontade de outras pessoas, os patrões e etc.
A máquina de lavar roupas, o fogão, o aparelho de som e a geladeira são as tecnologias mais utilizadas nos domicílios. As mulheres inseridas no trabalho são as pessoas que têm mais contato no cotidiano com essas tecnologias, quer nas casas das patroas, quer em suas próprias casas nos períodos de folga, quando têm meios de adquiri-las. O significado econômico e social das tecnologias do lar tem aumentado, com o reconhecimento do trabalho doméstico como trabalho e com a importância econômica crescente da força de trabalho feminina, inclusive a de mulheres casadas.
Para a empregada doméstica, a vivência na casa da patroa representa uma invocação cotidiana da sociedade de consumo moderna. Limpando, arrumando e observando o consumo na casa da patroa, algumas dessas empregadas começam a sonhar em ter uma vida mais confortável e, neste processo, seu próprio padrão estético pode ser modificado. Na casa das patroas, a empregada entra em contato com o que vem a ser para ela uma boa vida material. Esta noção é construída não em termos de dinheiro102, mas, sim, em termos dos objetos dos quais a patroa dispõe. (BRITES, 2000: 177)
No cenário dominado por propagandas, estímulos pelas compras através do cartão de crédito. Crediários e etc. os consumidores são estimulados a renovar seus produtos pagando metade do seu valor de mercado, com prazo de financiamento. Possibilidades existem de ampliação de consumo, de desenhos melhores e mais econômicos para satisfazer as necessidades domésticas. Os mercados de consumo a que se dirigem as propagandas são tanto para as pessoas de maior, como de menor poder aquisitivo, embora muitas propagandas se dirijam a públicos específicos. Observa-se que essas publicidades são demoradas e sempre enfatizam dão ênfase ao preço, dão algumas indicações técnicas e apresentam algumas características especiais dos produtos para facilitar a vida do consumidor.
As publicidades evocam a imagem da mulher centrada nas necessidades do lar: aí o trabalho vira afeto; o oferecimento de um instrumento de trabalho como presente representa o reconhecimento de uma necessidade íntima, portanto é também afeto. Quer para a mãe que trabalha só em casa ou para aquela que também trabalha fora os comerciais mostram que lavadoras, fornos de micro-ondas, secadoras (...) fazem uma mãe se sentir especial. (SILVA, 1998; 36)
164 As novas tecnologias do lar são apresentadas em relação a novos padrões de relações de gênero, também servindo para facilitar o uso de determinados aparelhos pelos homens. Em contato com algumas inovações tecnológicas do lar que utilizam nas casas de suas patroas ou até mesmo que veem em propagandas sob a influência das mídias63 que de alguma forma evocam a domesticidade feminina. Nesse novo contexto elas são apresentadas as novas receitas, novos hábitos que diminuem o tempo de preparo das receitas, a facilidade de descongelamento e de esquentamento de comidas feito com o auxílio de tecnologias inovadoras que seu salário pode comprar e que podem tê-las em suas residências.
Como define Rocha (2005: 124), “o consumo assume lugar primordial como estruturador dos valores e práticas que regulam relações sociais, que constroem identidades e definem mapas culturais. Também, como é próprio de fenômenos deste porte, demanda, insistentemente, reflexões, interpretações e teorias”. Para Corbo (2012), é através do consumo são que são “representados os estilos de vida e escolhas das mais variadas, que nele são construídas as identidades. Portanto, por ele podemos encontrar o caminho para conhecer melhor a cultura da sociedade contemporânea”.
A posse de móveis, rádio, fogão a gás, geladeira, televisão e outros eletrodomésticos são muitas vezes citados como prova de um sucesso alcançado no mercado de trabalho. A migração e o projeto de ascensão social, e o sucesso com que se consegue manter a integridade do grupo doméstico e a disciplina familial, parece contribuir de modo marcado para a manutenção ou estabelecimento de hábitos e valores que favorecem o ingresso no mercado de trabalho (DURHAM, 1984, 210). Ou, como aponta Simmel (2005), o dinheiro abre um espaço vasto para a individualidade e para o sentimento de independência, pois com o dinheiro no bolso as mulheres estão livres para comprar o que querem, tornam-se empoderadas e passam a ter tal controle do que querem consumir, pois seu trabalho dar base para que isso aconteça.