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Afro-migrantes em Caxias do Sul

2.2 AFRO-MIGRANTES

2.2.4 Afro-migrantes em Caxias do Sul

Em dezembro de 2010, quando um grupo de cerca de dez haitianos chegou ao Brasil, a estimativa da Polícia Federal era de que, naquele período, já haviam passado pelo Acre mais de 40 mil migrantes. Formou-se um fluxo crescente principalmente por haitianos e senegaleses interessados em seguir para o Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. A maioria chegou pelo Acre, pedindo refúgio para entrar no país.

Na fronteira do Brasil com a Bolívia, mais de 2.300 estrangeiros chegaram a viver amontoados, aguardando a emissão de documentos e condições para poder seguir a viagem para os lugares mais industrializados. Rio Branco era apenas um lugar de passagem. Para viajar o transporte era gratuito, mas apenas para quem tivesse a documentação em ordem, como passaporte com protocolo de ingresso no país, carteira de trabalho e Cadastro de Pessoa

Física (CPF). Era um procedimento garantido para que os recém-chegados tivessem seus direitos preservados. Enquanto aguardavam os documentos, eles tentavam aprender mais como era a realidade do país.

Muitos tinham o rumo definido, seguindo o caminho já tomado por familiares e amigos como, por exemplo, Anápolis, Porto Alegre, cidades de Santa Catarina e Caxias do Sul. Outros, sem muitas opções, eram abertos para qualquer possibilidade. Os primeiros cinco senegaleses que chegaram em Caxias do Sul vieram de Florianópolis, por meio de um ônibus fretado pelo governo. No dia seguinte, mais 14 imigrantes estavam para chegar. Na mesma madrugada, três ônibus com haitianos e senegaleses e um nigeriano chegaram à rodoviária de Porto Alegre. Conforme o secretário municipal dos Direitos Humanos, Luciano Marcantônio, 13 imigrantes desembarcam na capital e os demais seguiram para Caxias do Sul, Passo Fundo, Tapejara e Pelotas (SANTINI, 2014).

Figura 4 – Imigração contemporânea e destino dos novos imigrantes

Fonte: Rollsing e Trezzi (2014 apud UEBEL, 2015).

Segundo matéria do Jornal Pioneiro (NOAL, 2017), moravam, em 2014, aproximadamente 800 senegaleses em Caxias do Sul. Conforme estimativa do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM) em março 2016, a cidade tinha 1.500 imigrantes dos países africanos Houve uma redução de 50% de senegaleses residindo no maior município da Serra Gaúcha Figura 4. Caxias já abrigou mais de 3 mil, assim houve uma diminuição enorme nos últimos dois anos. Segundo Irmã Maria do Carmo, irmã scalabriniana do Centro Atendimento

ao Migrante (CAM), parte deles permanece na serra ou em cidades próximas, mas muitos deixaram a região em busca de trabalho. Em algumas épocas, eles buscavam trabalho na colheita da uva, em outros municípios da região, ou da maçã em Vacaria. Observa-se que tais imigrantes buscam inserir-se na comunidade. Registro interessante é o da reunião de imigrantes no Monumento ao Imigrante Italiano, em Caxias do Sul, no ano de 2013 Figura 5.

Figura 5 – Afro-migrantes no Monumento ao Imigrante em Caxias do Sul

Fonte: Scur (2013) in Uelbel (2015).

Em 2015, os haitianos eram 3 mil, sendo 2 mil em 2017. Essa redução tem a ver com a procura de oportunidade outros países da América do Sul, como Chile, pois uma característica desse processo migratório, isto é, em busca de melhor oportunidade (UEBEL; RUCKERT, 2017). Sobre esses grupos de migrantes, percebe-se que os haitianos têm preferência por empregos formais, enquanto os senegaleses têm uma cultura mais ligada ao comércio.

No boom migratório dos afro-migrantes no Rio Grande do Sul, e sobretudo em Caxias, destaca-se na sua grande maioria a migração haitiana e, em segundo lugar, a migração dos senegaleses e, por fim, os ganeses, apesar de suas cifras reais serem quase inexpressivas comparativamente a esses dos primeiros. A imigração haitiana e senegalesa ganhou um grande destaque no período 2013-2014. Tal boom migratório após a crise econômica internacional e a crise de Haiti depois do terremoto em 2010, sem deixar de lado a instabilidade econômica e

política do Senegal.

Tanto os haitianos como senegaleses, após a sua obtenção dos documentos oficiais e autorizações de trabalho ou permanência no Brasil, começaram criar páginas em redes sociais para divulgação de empregos e oportunidades de serviços como mostra a Figura 6, que possui mais de 3.000 seguidores. Essa página divulga semanalmente oportunidades de emprego para os haitianos, além de compartilhamento de vagas meio de pastorais, empresas e agências de emprego em todo o território brasileiro.

Figura 6 – Página no Facebook - central de empregos para haitianos no Brasil

Fonte: Facebook.com (2019).

Segundo Uebel (2015), a Cidade de Panamá torna-se a primeira parada obrigatória antes de prosseguirem à segunda parte do trajeto até o território brasileiro, pois não existe viagem direta entre a ilha do Haiti para o Brasil. Após a chegada na cidade do Panamá, os imigrantes partem para o Brasil de diferentes pontos da América Central e América do Sul, a partir desse ponto seguem três rotas distintas. Na primeira rota, mais barata, longa e perigosa, ocorre uma viagem aérea até Quito, no Equador, pela facilidade de ingresso no país. Após, faz-se um trajeto aéreo até Lima, no Peru, de onde parte um trajeto terrestre até o Brasil passando pela fronteira da Bolívia, pela cidade de Cobija, que faz fronteira com o município acreano de Brasiléia, próximo a Rio Branco. Após regularizaram seus documentos, os imigrantes deixaram Rio Branco e se destinam para o Rio Grande do Sul passando por São Paulo.

A segunda rota parte diretamente da Cidade de Panamá até Porto Alegre, considerada a rota mais cara e menos praticada pelos imigrantes, mas realizada por ser de tempo menor. Essa rota é feita por aqueles que são da segunda geração de imigrantes, pois os contatos deles

já foram estabelecidos pela primeira geração de 2010 e 2011. A terceira rota parte de Panamá em direção a São Paulo. Por não obter emprego ou permanência naquele estado, eles realizaram uma migração em direção ao Rio Grande do Sul, em função das redes de trabalho já existentes. Por fim, a última rota foi escolhida também em menor grau por aqueles imigrantes com maior poder aquisitivo que já possuíam propostas de emprego no Rio Grande do Sul e optaram pela ligação aérea direta.

2.2.4.1 A distribuição da imigração haitiana (2013 e 2014).

Observa-se no Rio Grande do Sul, a existência de dois polos de atração para os imigrantes haitianos, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, que juntos concentram mais de 50% de toda imigração haitiana no Estado. Entre Antônio Prado, Bento Gonçalves, Farroupilha, Feliz, Flores da Cunha, Garibaldi e Caxias do Sul, lugares representam como um total cerca de 59% do total de imigrantes, um percentual de 1.500 indivíduos na região de predominância italiana (UEBEL, 2015). Essa atração se dá pela facilidade de confecção dos documentos e registro da Polícia Federal em Caxias do Sul. Entende-se que o atendimento é mais rápido do que outros lugares. Também Caxias do Sul apresenta uma estrutura aos imigrantes como a Pastoral dos Imigrantes e o Centro de Atendimento ao Migrante (CAM).

Para ter uma melhor percepção dos imigrantes haitianos é importante saber o perfil, grau de instrução, a faixa etária etc. Na Tabela 2, mostra-se a composição por gênero dos imigrantes haitianos.

Tabela 2 – Composição por gênero dos imigrantes haitianos

Sexo Quantidade Percentual (%)

Homens 1.863 74,4

Mulheres 640 25,6

Total 2.503 100,0

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Departamento de Polícia Federal, Ministério do Trabalho e Emprego in Uebel (2015).

Observa-se na Tabela 2 que a maioria dos imigrantes haitianos que chegaram no período 2013-2014, é formada de homens (74,4%). A Tabela 3, apresenta a distribuição por grau de instrução dos imigrantes haitianos.

Tabela 3 – Grau de instrução dos imigrantes haitianos

Grau de instrução Quantidade Percentual (%)

Outro Nível de instrução 2.502 99,96

Nível superior 1 0,04

Total 2.503 100,00

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Departamento de Polícia Federal, Ministério do Trabalho e Emprego (2015 apud UEBEL, 2015).

Chegando aqui no Brasil a maioria fala até cinco idiomas distintos como créole e francês línguas maternais e oficiais do país, sem contar o inglês e espanhol - não necessariamente proficientes - para encarrar o português que é um novo idioma desafiador para encarar o mercado de trabalho. Segundo Uebel (2015), aqueles que estão na categoria de “outro nível de instrução” possuem uma variedade de formação, desde a educação básica até cursos técnicos e profissionalizantes (Tabela 3). Na Figura 7, apresenta-se a composição por faixa etária dos imigrantes haitianos.

Figura 7 – Composição por faixa etária dos imigrantes haitianos

Fonte: Uebel (2015).

Percebe-se, a partir da Figura 7, crianças e adolescentes até 18 anos representam 0,6%, são indivíduos que acompanham seus pais ou parentes próximos. Também percebe-se uma superioridade no número de imigrantes com idade entre 31 a 50 anos (50,6%) e comparativamente àqueles de 19 a 30 anos 44,3% e de 51 anos com apenas 1,6%.

2.2.4.2 A distribuição da imigração senegalesa (2013 e 2014)

Percebe-se que ao contrário da imigração haitiana em direção ao Rio Grande do Sul, a concentração da imigração senegalesa a sua concentração é diferente. Conforme os dados combinados de Ministério do Trabalho (MTE), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Polícia Federal, encontravam-se no Rio Grande do Sul, até o mês de outubro de 2014 aproximadamente 536 imigrantes de origem senegalesa após o ano 2013, mesmo que apresentassem um número insignificante em 2010 (UEBEL, 2015).

De maneira totalmente diferente do fenômeno imigratório haitiano, os senegaleses não vislumbram concentrações em massa, mas em grupos pequenos de imigrantes em cada município. Os dois polos ou municípios de atração e concentração dos imigrantes senegaleses são: Caxias do Sul e Passo Fundo, por possuírem nesses municípios de concentração de grupos pequenos.

Os senegaleses também possuem uma organização online (Figura 8) para a divulgação de vagas de empregos e oportunidade, embora que volume deles seja menor do que o dos haitianos. Em geral, tais imigrantes concentram-se, em maior parte, no comércio informal de bijuteria e produtos importados.

Figura 8 – Central de empregos para senegaleses em Caxias do Sul

Fonte: Facebook.com apud Uebel (2015).

A página “Novos Imigrantes em Caxias”, segundo Uebel (2015), foi um outro meio de busca de emprego tanto para os haitianos, senegaleses e ganeses. Essa página foi produzida por acadêmicos da Universidade de Caxias do Sul e supervisionada pela professora Ana Maria Acker. Trata-se de um canal bilíngue, tanto para senegaleses como haitianos, a fim de realizar a prestação de serviços, como também divulgação de relatos destes imigrantes. O objetivo da

página é prestar serviço orientativo para buscar trabalho, contendo informações sobre conteúdo da língua portuguesa, visando um processo de integração na cultura local, para a conexão dos caxienses com os novos moradores. Tal instrumento demonstra a intenção da busca de parceria com universidades, empresas e órgãos públicos para colaborar e acolher os imigrantes, contrapondo aos comentários xenofóbicos (Figura 9).

Figura 9 – Novos imigrantes em Caxias do Sul

Fonte: Jornal Online (2019).

Mostra-se a participação das mulheres na população economicamente ativa do Senegal ainda é restrita e restringida ainda mais àquelas que não professam a religião islâmica. A população senegalesa é muçulmana (94%). A Tabela 4 indica que a maioria da imigração senegalesa é masculina.

Tabela 4 – Composição por gênero dos imigrantes senegaleses

Sexo Quantidade Percentagem (%)

Homens 439 98,4%

Mulheres 7 1,6%

Total 466 100,00%

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Departamento de Polícia Federal, Ministério do Trabalho e Emprego in Uebel (2015).

Mostra-se a faixa etária dos imigrantes senegalês é similar a dos haitianos. A predominância de indivíduos de 31 a 50 anos, seguidos dos que possuem 19 a 30 anos, totalizando 98,2% (Figura 10).

Figura 10 – Composição por faixa etária dos imigrantes senegaleses

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Departamento de Polícia Federal, Ministério do Trabalho e Emprego (UEBEL, 2015).

Um fator mais relevante nessas estatísticas, é o fator de grau de instrução no países pobres, pois o acesso ao ensino superior é restrito ou dificultado por várias questões, mas particularmente questões socioeconômicas (UEBEL, 2015). A partir da Tabela 5, pode-se ver que apenas 19 imigrantes declararam ter ensino superior. Em resumo destaca-se através desses dados que em 2014 o imigrante senegalês tem um perfil como homem solteiro e alfabetizado. Similar aos haitianos, esses imigrantes falam mais de quatro idiomas sem contar com seus dialetos maternos.

Percebe-se no período 2007/2014 uma origem étnica dos imigrantes de cor branca representando 74%, enquanto os haitianos correspondem apenas a 2% do contingente total. Segundo Uebel (2015), a grande interrogação apresentada nesse ponto é o porquê esses 2% foram mais destacados de forma negativa tanto por parte da imprensa quanto no discurso da sociedade. Verifica-se também que os números de afro-migrantes são baixíssimos comparativamente à migração dos europeus para o Rio Grande do Sul. Entre 1824 e 1914, cerca de 48 mil alemães vieram para Rio Grande do Sul, entre 1875 e 1914 eram 76 mil italianos e entre 1872 e 1914, cerca de 32 mil poloneses vieram para o estado. Enquanto isso, cerca de 7 mil haitianos e 4 mil africanos, sobretudo senegaleses, chegaram em solo gaúcho.

Na Tabela 5, apresenta-se a distribuição dos imigrantes senegaleses por grau de instrução.

Tabela 5 – Grau de instrução dos imigrantes senegaleses

Grau de Instrução Quantidade Percentagem (%)

Outro nível de instrução 427 95, 74

Nível Superior 19 4,26

Total 446 100,00

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Departamento de Polícia Federal, Ministério do Trabalho e Emprego in Uebel (2015).

Uebel (2015) explica que Caxias do sul, em 2014, tornou-se alvo de críticas nas redes sociais. Um vereador teve de dar explicações pois, segundo o parlamentar, a vinda dos afro-migrantes não traz benefícios ao Brasil nem ao município, e sim mais pobreza. Desse fato destaca-se as demonstrações públicas de tal desconhecimento ou ainda chama-se de xenofobismo subjetivo. A partir desses fatos, segundo o autor, observou-se um processo de desinformação, a partir dos dados estatísticos fornecidos pelo MTE, IBGE e Polícia Federal tanto da parte da mídia como também pela sociedade brasileira e de Caxias do Sul. Assim, esse processo de desinformação e divulgação de comentários infundados foi o principal motivo de pensamentos xenofóbicos da parte dos locais.

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