Capítulo 2: Roda Viva: criação e funcionamento
2.5. O projeto do programa 135
2.5.5 Agenda política – setting 153
Um dos elementos que compõem o processo de seleção das entrevistas do Roda Viva é a ideia de agenda política ou setting. Criada nos anos 1970 pelos professores Maxwell E. McCombs e Donald L. Shaw (1972), a hipótese do agendamento, como ficou conhecida a teoria, analisa a influência dos mass media na agenda pública como um ator intermediário entre a esfera pública e os cidadãos. Parte- se do pressuposto de que o público tende a conferir importância a temas que refletem de perto a ênfase atribuída pelos meios de comunicação de massa a acontecimentos, problemas e pessoas.
Pode-se dizer que há três tradições de pesquisa sobre agenda setting. A primeira linha de investigação, criada com o estudo de McCombs e Shaw, procura investigar a relação entre agenda da mídia e agenda pública; são estudos que buscam compreender a influência dos meios de comunicação acerca do que as pessoas pensam. A segunda linha de investigação, chamada, agenda setting político (policy) trata de investigar como a mídia interfere na agenda governamental enfatizando determinadas notícias em detrimento de outras e realizando pressão social para a escolha e hierarquia de temas na agenda governamental. Por fim, alguns estudos dessa área investigam a agenda da própria mídia; são pesquisas que procuram entender o processo de construção da agenda dos meios de comunicação. Isto é, como determinados assuntos viram notícia e outros são ignorados. Ao definir certos assuntos políticos como relevantes, acabam, então, dando foco naquilo que o público deveria conhecer. (Dearing, 1992; Rogers, 1992 apud Mesquita, 2008: 35-46)
No Brasil, a literatura sobre o impacto da mídia e seus efeitos mais sutis está ainda muito voltada para a análise de situações específicas – geralmente eleições. Há poucos estudos que analisam o efeito de conteúdo de uma determinada mídia e a atenção que ela dá a determinados temas. Um dos objetivos do capítulo é compreender
como ocorre o processo de escolha do convidado do programa, já que, como foi constatado, é um importante elemento de aproximação e identidade com o público-alvo.
A equipe de produção se pautava por uma agenda para compor os participantes do programa – tanto o entrevistado quanto os entrevistadores nos primeiros anos de exibição do Roda Viva. Mas qual a fonte de notícia usada para conhecer e compreender essa agenda? A equipe se baseava nas notícias das agências de relações públicas, aceitava opiniões da assessoria de imprensa dos governos ou buscava informações de uma mídia independente para convidar os participantes? No caso do Roda Viva inicialmente, a equipe de produção buscava certa independência na produção, assim, evitava qualquer relação com o governo ou instituição que o representasse.
A gente queria tirar essa marca de jornalismo chapa-branca no começo, né? Então, o programa era sinônimo de jornalismo independente. Eu criei o Roda para ser a redenção da televisão. Ali podia tudo. As outras emissoras não podiam falar mal dos seus patrões. A Globo não podia falar do Roberto Marinho ou de algum aliado seu – todo mundo ali tinha rabo preso. Felizmente na TV Cultura, como era pública e, naquela época – eu não sei hoje – mas naquela época nem [Franco] Montoro, nem [Orestes] Quércia entraram no meu caminho..Então, a gente deixava ir no Roda Viva e ali eles falavam mal de todo mundo aqui. (Roberto Muylaert)
Eu vi, por exemplo, esses dias uma reprise da entrevista com o Millôr Fernandes [cartunista] e tinha uma dinâmica [...] ele falava de coisas, inclusive, a crítica dele à televisão, que era uma coisa que parece que hoje em dia ficou meio vedada ou dirigida num contexto em que você não pode ferir interesses seja da emissora, seja dos jornais concorrentes – tem uma coisa que ficou mais veladas... as entrevistas antes tinham mais liberdade. (Paulo Caruso)
Como era muito jornalista na bancada, as opiniões, os fatos apresentados vinham, literalmente de todos os lados. Evidente que a gente buscava uma pessoa polêmica com a bancada polêmica. Com isso se desenrolava um programa com muitas opiniões e pontos de vista. A entrevista com o Ronaldo Caiado80, por exemplo. Bom, a
80 A entrevista com Ronaldo Caiado, então presidente da União Democrática Ruralista (UDR), foi a segunda do programa Roda Viva e ocorreu no dia 6 de outubro de 1986. Estavam presentes os seguintes jornalistas: Carlos Azevedo, da TV Cultura; Dermy Azevedo, da editoria política da Folha de S. Paulo e editor da revista Tempo e Presença; Anamarcia Vainsencher, editora do suplemento agropecuário do DCI; José Carlos Cafundó de Moraes, editor do Caderno Agropecuário do jornal O Estado de S. Paulo; Rubens Zaidan, correspondente de O Globo em Ribeirão Preto; Dirceu Martins Pio, do Jornal da Tarde; Jorge Escosteguy, editor responsável da revista Isto É; Paulo Markun, da TV Record. [citado 7 jan. 2016]. Dispnnível em:
gente fez questão de convidar jornalistas de esquerda e opositores. (Rodolpho Gamberini)
Na época, lembro que não tinha internet rápida como temos hoje, a equipe de produção fazia uma coisa que eu achava essencial para o programa dar certo; a equipe fazia um dossiê sobre o entrevistado, era uma coisa de 200 páginas e ajudava muito a bancada. A equipe pesquisava tudo sobre o entrevistado já realizado pela imprensa brasileira. (Matinas Suzuki)
Percebe-se pela fala dos jornalistas que determinados elementos contribuíam para a formulação da agenda do programa. Nos primeiros anos de exibição, por exemplo, a equipe de produção tinha independência de escolha do entrevistado e dos temas. Ao que tudo indica, o programa não sofreu interferência, por exemplo, das gestões dos governos do Estado de São Paulo, nesse sentido, uma pauta baseada em uma assessoria institucional era pouco provável. O que não significa afirmar que ela não existisse. Rodolpho Gamberini afirmou:
Em uma das primeiras reuniões de pauta com o Roberto de Oliveira, o Valdir Zwestsch e a Vera Sá [da equipe de produção] falaram que queriam convidar o governador Franco Montoro para abrir os trabalhos do programa com “chave de ouro”. Na hora eu falei – mas, gente, ele não! Como a gente vai tirar a pecha de chapa branca da emissora chamando o cara que representa o governo? Bom, depois de uma certa discussão, decidiu-se convidar alguém do Judiciário para discutir censura, a liberdade, direito de greve. (Rodolpho Gamberini) Como vimos, uma marca importante do programa está na composição de uma bancada plural, com jornalistas representantes de diferentes meios de comunicação. De forma que é possível afirmar que a equipe de produção se pautava nas informações advindas das grandes agências de notícias, pois, no limite, a própria equipe de produção já tinha, de certa maneira, tradição e experiência com esses veículos de comunicação. Além disso, o programa convidava jornalistas da grande imprensa.
A análise de vinte anos de programa indica que a grande maioria dos entrevistadores que representa a esfera jornalística era do Estado de S. Paulo e da Folha de S. Paulo, dois jornais de grande circulação nacional. Em relação às revistas, as
http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/693/ronaldo%20caiado/entrevistados/ronaldo_caiado_1986 .htm.
análises indicaram Isto É e Veja como líderes de periódicos que encaminhavam jornalistas para o programa (conferir Tabela 8).
Tabela 8 – Entrevistadores do programa Roda Viva por veículos de comunicação que representam por década
Fonte: Entrevistas programa Roda Viva (1986-2006). FSP e ESP são siglas para os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo.
Período
Jornais Televisão Revistas
Pública
Aberta
FSP ESP Globo O Outros Rádio CulturaTV Outra Veja Capital Carta Isto É Outras
1986-1990 14 16 6 12 9 12 4 4 3 0 8 12
1991-2000 34 36 13 16 12 16 8 6 9 5 5 10
2001-2006 20 23 9 15 14 16 9 7 2 2 4 12
Conforme se vê no quadro acima, embora o programa procure convidar jornalistas de diferentes órgãos de comunicação, não se considerava a imprensa alternativa, de forma que o Roda Viva se pautava numa agenda midiática tradicional.
Os relatos acima, portanto, indicam que o programa possuía certa independência no que diz respeito à ingerência do governo de São Paulo ou de interesses empresariais. Temos que considerar também que o clima político em 1986 era de abertura. Roberto Muylaert foi o primeiro presidente da Fundação do contexto de redemocratização. Então, não cabia, naquele momento, criar um programa jornalístico vinculado ao governo de São Paulo, logo as notícias que pautavam o programa e os debates travados naquele espaço não sofreram qualquer tipo de censura. O próprio
FSP ESP O Globo Outros Rádio Tv
Cultura Outra Veja
Carta
capital Isto é Outras pública Aberta
Jornais Televisão Revistas
1986‐ 1990 14 16 6 12 9 12 4 4 3 8 8 18 1991‐ 2000 34 36 13 16 12 16 8 6 9 5 5 13 2001‐ 2006 20 23 9 15 14 16 9 7 2 2 4 12 Total 68 75 28 43 35 44 21 17 14 15 17 43 0 10 20 30 40 50 60 70 80 1986‐1990 1991‐2000 2001‐2006 Total Número de e n trevistas Entrevistadores por veículos
Figura 13 – Entrevistadores do programa Roda Viva por veículos de comunicação que representam por década
presidente da Fundação Padre Anchieta, naquele momento, buscava consolidar uma marca de autonomia jornalística para a TV Cultura e para o programa.
Os autores Seaton (2003) e Cohen (1999) afirmam que, quando surgiram as primeiras televisões públicas, boa parte delas era dedicada a programas de entrevistas e debates, nesse sentido, essas televisões buscavam se constituir em uma esfera pública eletrônica que apresentava possibilidades para a consolidação da democratização. Muitos debates travados nas televisões públicas buscavam educar e informar o público. Assim, a estratégia da conversação estava na capacidade de inserir na discussão representantes de diferentes esferas sociais – jornalistas, representantes da cena pública e sociedade civil, caracterizada na forma dos telespectadores. Essa historiografia afirma que, entre as contribuições dos programas jornalísticos de entrevista, estava especialmente a cobertura de temas sociais e políticos nos momentos de transição governamental. Foi o caso, por exemplo, das primeiras eleições diretas para presidente. O Roda Viva convidou o maior número possível de candidatos e se tornou um espaço importante não só para conhecer figuras e personalidades até então incógnitas, mas também seus projetos para a sociedade democrática que se configurava.
Por fim, ao ser questionado sobre o programa hoje, Roberto Muylaert respondeu:
Sobre o Roda Viva, eu acho o seguinte, tudo que está na televisão há muitos anos não é bom. Porque não teve uma renovação. O programa, para mim, significa um déjà vu, está visto aquilo. Veja bem, em 1986, em plena abertura e redemocratização, naquela época não só fazia sentido fazer um bom programa de entrevista jornalística, como fazer daquele jeito. Ele era atual, naquela época, era o programa de entrevista – o programa – [enfatizou novamente]. Era o programa que todos queriam e procuravam ver tanto pela relevância do entrevistado, dos temas discutidos, daquela estrutura aberta, plural, com um monte de jornalista de todos os veículos. Ele era a personificação e a redenção da redemocratização. Agora, hoje? O que é o Roda Viva hoje? Eu se fosse fazer um programa de entrevista faria uma coisa mais tête-à-tête – com um entrevistador inteligente e um entrevistado relevante. (Roberto Muylaert)
Ficou evidente que os criadores do programa, Roberto de Oliveira, Marcos Weinstock, Valdir Zwetsch e Roberto Muylaert, em meio ao processo de abertura política, fim da censura e ampliação dos direitos sociais, procuraram transpor
determinados valores democráticos ao Roda inserindo, por exemplo, o entrevistado em um círculo rodeado de jornalistas de diferentes veículos de comunicação. Eles estavam menos interessados na urgência da notícia e mais no aprofundamento do tema, constituindo-se num espaço público mediatizado. Contudo, como já comentado, ao longo dos anos, outras prerrogativas passaram a ser importante na constituição da agenda do programa. Falamos há pouco sobre a inserção dos releases das editoras na pauta para escolha de entrevistado. Além desse, outros fatores passaram a ser levados em consideração. Augusto Nunes, sobre as interferências da gestão da Fundação Padre Anchieta, comentou: “A mulher do Marcos Mendonça trabalha, atua muito no meio cultural e ela sempre sugere nomes para o Roda. Recentemente, ela me falou da Niède Guidon e fizemos uma entrevista maravilhosa”.
Esse relato diz muito sobre a subordinação do programa à direção da Fundação. Vê-se que uma importante arqueóloga e paleontóloga brasileira, responsável pela Fundação Museu do Homem Americano foi indicada para ser entrevistada pela esposa do então diretor da Fundação Padre Anchieta, Marcos Mendonça, e não dentro da lógica tradicional, na qual a escolha do convidado da noite se dava na reunião de pauta. Mesmo sendo uma sugestão e não uma prerrogativa ou imposição, tal situação é reveladora de como a equipe tem que lidar cotidianamente com as interferências de indivíduos alheios às atividades jornalísticas da tevê. Outros relatos são emblemáticos, pois mostram uma gerência muito preocupada com a gestão do governo do Estado. Paulo Caruso comentou:
Uma vez eu saí no meio do programa; estava sendo entrevistado um político de que eu não lembro o nome agora . E, bom, lá pelas tantas, fiz um desenho dele no mar de lama – um desenho até clássico sobre as falcatruas dos políticos. Mas a câmera não mostrava o desenho. E eu apontava, mostra. E o “câmera” falou "não posso, a direção vetou". Eu saí no meio do programa. (Paulo Caruso)
Paulo Markun também comentou que, em meio à crise política do Partido dos Trabalhadores (PT)81, precisou desconvidar José Dirceu; Heródoto Barbeiro, o âncora mais crítico que já passou pelo programa, comentou que sua saída, em 2010, teve
81 Em 2005, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o então deputado federal Roberto Jefferson, em entrevista à Folha de S. Paulo, afirmou que os deputados receberam propinas do Partido dos Trabalhadores (PT) para aprovar o projeto de reforma da previdência.
relação com perguntas sobre os pedágios paulistas feitas ao então candidato à presidência pelo PSDB, José Serra. Por fim, Matinas Suzuki comentou:
Havia algumas sugestões do [departamento de] jornalismo e da produção da TV Cultura e sugestões minhas, que eram analisadas ali pela Fundação e a última palavra era da Fundação (Matinas Suzuki) Atualmente o programa faz parte de um jogo político e de interesses. É perceptível que a direção executiva da Fundação Padre Anchieta na figura do diretor exerce influência direta no programa, que busca, por um lado, mais audiência, mas prefere, por outro, ausentar-se de debater temas de utilidade pública – seja na área econômica, política, social e cultural – que entram em confronto direto com a gestão do Estado. Regina Mota (2004) em artigo comenta sobre as características da televisão pública, baseadas em três aspectos fundamentais: a natureza jurídica, as formas de financiamento e o controle público sobre o serviço. Segundo a autora, o termo “público” causa enorme confusão, pois muitas vezes é confundido intencionalmente com algo institucional, governamental.
O formato inicial do programa e sua proposta original, de certa maneira, tinham caráter público, pois representavam o desejo de grande parte da população que estava interessada em assistir a um programa jornalístico de entrevistas com indivíduos falando sobre problemas locais cotidianos. Porém, aos poucos, essa característica foi alterada, e apesar de manter uma imagem de programa plural, no qual estão presentes indivíduos que representam diversas tendências políticas, no fim das contas, só aceita representantes que compactuam com um grupo político. Veremos, no próximo capítulo, como se deu tal mudança de temas no que diz respeito à área de Ciência e Tecnologia.