Capítulo 3: A ciência entra na roda
3.4. No Brasil 176
3.4.2. As televisões abertas 181
De maneira geral, nos canais de televisão aberta, as temáticas sobre C&T aparecem com frequência nos telejornais.
Em pesquisa sobre os noticiários de três grandes telejornais (dois brasileiros, Jornal da Record e Jornal Nacional; e um americano, World News Tonight) e a inserção de temas de ciência, tecnologia e saúde, Lacy Varella Barca de Andrade (2012) constatou que a presença dessas temáticas tem maior assiduidade e abrangência do que se podia supor, além disso, o cientista aparece na televisão mais do que se imaginava. Para a autora, a incidência desses temas revela um aumento de interesse da população sobre assuntos científicos.
Segundo Andrade, as conquistas e descobertas nacionais e internacionais determinam, de maneira geral, a inserção de temas sobre ciência nos telejornais. Outra importante constatação diz respeito ao teor dessas notícias. Contrariando a bibliografia sobre o assunto, Andrade afirma que a maioria das reportagens produzidas nos telejornais brasileiros apresenta certo rigor técnico, com notícias elaboradas de forma a aproximar o telespectador dos feitos científicos. Uma estratégia muito usual nos dois telejornais consiste em apresentar uma história particular, dando ênfase às benfeitorias tecnológicas recebidas por aquele sujeito. Há também muitas matérias na área de saúde e prevenção, especialmente as notícias sobre câncer, com entrevistas de especialistas, que ocorrem geralmente nas épocas de campanhas nacionais.
Por fim, Andrade constatou uma baixa incidência de reportagens sobre as reuniões da SBPC e pronunciamentos oficiais sobre política brasileira na área de C&T, o que revela maior interesse da direção dos telejornais em divulgar temas científicos que possuem mais proximidade com o cotidiano da população. Em oposição à historiografia revistada até o momento sobre comunicação pública da ciência, especialmente a que critica o modelo de déficit, Andrade argumenta que essa estratégia comunicacional, muito utilizada pelos telejornais, não é prejudicial à divulgação da ciência. Segundo a autora, a espetacularização é recurso frequente no mundo do jornalismo, uma estratégia usual para atrair o telespectador. Faz parte, portanto, da própria natureza do veículo televisão. “A questão que subsiste é em que medida essa busca de atratividade, que coloca em evidência características do que é diferente, inusitado – e, por que não, espetacular – é capaz de comprometer a fidedignidade da informação” (Andrade, 2004: 256). Germana Barata (2006) em estudo sobre a divulgação da Aids no programa Fantástico também constatou tal estratégia para aproximar o telespectador. No entanto, Barata faz ressalvas em relação ao recurso utilizado pelos meios de comunicação. Segundo ela, a aproximação da ciência ao cotidiano no intuito de atrair o público, muitas vezes, acaba forçando uma possível aplicação da pesquisa básica em detrimento do processo científico, que parte da concepção de que o conhecimento produzido não precisa necessariamente gerar produtos (2006: 91). Um caso citado por Barata, o projeto Genoma Humano, teve grande repercussão na mídia televisiva e foi exaustivamente citado nos grandes telejornais, entre os quais os analisados por Lacy Andrade. Ocorre, no entanto, que, apesar de as notícias prometerem soluções rápidas para os males da sociedade com o projeto Genoma, vários pontos da pesquisa ainda estavam inconclusos, de forma que a ciência divulgada na televisão não correspondia àquela realizada, prejudicando, e muito, não só o trabalho dos cientistas, mas a confiança do telespectador em relação à ciência.
Assim, ao contrário do que afirma Andrade, transformar a informação científica em espetáculo apenas para atrair o telespectador prejudica o entendimento sobre o modus operandi das pesquisas científicas, além de perpetuar uma visão estereotipada da ciência. Quando os telejornais utilizam tal recurso discursivo, deixam de apresentar ao telespectador o contraditório, as relações de poder, os interesses que envolvem os cientistas e os não cientistas no processo da descoberta científica. Ao telespectador, fica a impressão de que a ciência é uma instância neutra e consensual,
trazendo como consequência a ausência de questionamentos e dúvida. Como afirma Germana Barata (Barata et al., 2004: 2),
[...] o público deve também conhecer as dificuldades, interesses, impactos, controvérsias e o processo de longo prazo que permeiam a ciência e tecnologia. Afinal, o objetivo da divulgação não é apenas informar, mas também conscientizar o público e torná-lo participante ativo na prática científica, o que torna necessário ampliarmos o conceito de ciência.
Por outro lado, de forma alguma defende-se que a ciência deve ficar restrita aos programas especializados, tal como propõem alguns autores (Siqueira, 1999), ao contrário, acredita-se que seja importante investir em uma boa formação jornalística na área científica e discutir o papel e a relação da ciência com a sociedade diariamente nos telejornais, programas infantis, especializados, etc.
Apesar de temas relacionados à ciência e tecnologia serem frequentes nos telejornais, é importante destacar dois programas que, de forma mais ou menos ordenada, possuem, em sua grade de notícias, a produção científica brasileira, internacional e eventualmente documentários de outras televisões do mundo – predominantemente a BBC. O Fantástico - o show da vida começou a ser exibido pela primeira vez em maio de 1973 e até hoje está na grade programação nobre da Rede Globo. É um programa misto, que traz shows, humorismo e telejornalismo. A seleção de seus temas é muito parecida com o telejornalismo: privilegia assuntos que envolvam multidões, notícias sobre pessoas famosas, fatos inéditos e misteriosos, humor, dinheiro, recordes e grandes contrastes. O outro destaque é o Globo Repórter, que também estreou em 1973, apresentado por Sérgio Chapelin. Inicialmente, o programa era exibido às terças-feiras e depois às sextas, em que permanece até hoje. A mudança de horário significou uma mudança nas temáticas do programa. Vimos, no capítulo anterior, que figuras importantes do mundo cinematográfico brasileiro assumiram a direção desse programa nos anos 1970, sendo, por isso, alvo da censura. Talvez, para se adequar ao padrão Globo de qualidade, a equipe de produção do Globo Repórter optou por inserir assuntos relacionados à divulgação científica na sua programação nas décadas seguintes (Ribeiro e Rodhen, 2009: 267-299).
No que diz respeito ao Fantástico, Denise Siqueira (1999) afirmou que a “ciência” aparece no programa como argumento em diversas reportagens e com temáticas distintas – “desde disputas judiciais, passando por histórias policiais e místicas, até a apresentação de produtos exóticos ou remédios para doenças consideradas até então incuráveis” (Siqueira, 1999: 104). O programa, nesse sentido, utiliza os assuntos científicos como gancho em diferentes reportagens, muitas delas não apresentam em sua estrutura nada que a indique como divulgação da ciência, mas ela foi usada para chamar a atenção do público. Outro ponto destacado por Siqueira diz respeito às matérias sobre saúde e doenças. A maioria delas procurava discutir/apresentar formas de conservação da juventude. Tal como nos programas infantis da TV Cultura, o Fantástico utiliza arquétipos pertinentes à ciência – especialistas como jalecos brancos, indivíduos trabalhando em laboratórios, entre outros.
Como já mencionado anteriormente, outro importante estudo sobre a divulgação da ciência no Fantástico é a dissertação de mestrado de Germana Barata (2006). Por meio da análise das notícias e reportagens veiculadas no programa, a autora investigou como a Aids foi divulgada no Brasil entre os anos de 1983 e 1992. Segundo Barata, o semanário televisivo foi pioneiro na divulgação da doença, dando destaques para as pesquisas realizadas nos Estados Unidos, abordando, no entanto, o assunto de forma sensacionalista na grande maioria das vezes. Inclusive, segundo consta Luiz Fernando Santoro (1982), o programa Fantástico é um importante disseminador das pesquisas científica estadunidense. Outro ponto importante nas matérias sobre ciência no Fantástico é que "não há muita clareza entre ficção científica e notícia científica, fazendo com que o público as receba igualmente como um espetáculo" (Santoro apud Barata, 2006:95) Segundo Germana Barata, o Fantástico, nos primeiros anos de divulgação da doença, a tratou como a grande vilã, "que desestabiliza a paz e ordem" (Barata, 2006: 98). Os adjetivos usados nas reportagens sobre a doença garantem tal status - assunto grave, doença misteriosa, mal fulminante, entre outros. Também dentro desse discurso alguns grupos adquirem papel de vilão: os homossexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas, haitianos, africanos e os pobres são os escolhidos pela produção do programa como os responsáveis pela disseminação da doença. Ainda segundo a autora, as pautas que mobilizaram a equipe de produção a veicular temas
sobre Aids foram eventos científicos e campanhas, assim como as novidades (descobertas, desenvolvimento de medicamentos e resultados de testes).
Desde 1974, a Rede Globo exibe, inicialmente às segundas-feiras, depois às terças-feiras e atualmente às sextas-feiras, o programa Globo Repórter, que apresentava, eventualmente, reportagens nacionais sobre saúde e documentários científicos internacionais. Há de se destacar nesse contexto, os programas Globo Ecologia e Globo Rural, ambos lançados nos anos 1980 "quando a agricultura brasileira estava em evidência, especialmente com a expansão da fronteira agrícola em direção ao cerrado, no Centro-Oeste do país. A modernização das técnicas agrícolas e as conquistas científicas e tecnológicas que impulsionaram a produção de soja e laranja e a entrada desses produtos na pauta de exportações brasileiras." (Andrade, 2004: 234).
O Globo Ciência, no ar desde 1984, hoje veiculado extensivamente, tanto na TV aberta como na TV por assinatura (canal Futura) também foi produzido com dinheiro do Fundo de Incentivo à Pesquisa Técnico-Científica do Banco do Brasil. Segundo Andrade, a trajetória do programa é emblemática e inclui a passagem por formatos diversos: reportagem, magazine, ficção. Seu foco atual é o público jovem; por isso o elenco do programa é composto por jovens atores, que representam uma equipe de pesquisadores interessados em divulgação científica. O outro programa emblemático desse ramo é o Globo Ecologia, que vem sendo veiculado no mesmo esquema do Globo Ciência há mais de dez anos. Seu formato tem variado entre o magazine e o documentário, com reportagens realizadas em todo o país96.
Em 1988, a antiga Rede Manchete, atual Rede TV, lançou um novo programa especializado em divulgação científica, chamado Estação Ciência, iniciativa da produtora independente Ema Vídeo, em parceria com o Núcleo de Difusão Tecnológica da Universidade de Brasília (UnB), contando com o patrocínio da Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP, empresa do Ministério da Ciência e Tecnologia. Foram realizados 181 programas, que eram exibidos em rede nacional aos domingos, às 9h (Andrade, 2004: 232).
Na TV por assinatura, o critério fica mais elástico: a programação jornalística das TVs universitárias, por exemplo, abre espaços importantes para o que poderia ser considerado “divulgação da produção acadêmica”. São produções corretas, mesmo limitadas pela carência de recursos, quase sempre usando o formato de entrevistas e talk shows.
Como se vê por essa breve descrição, os principais programas brasileiros que já realizaram e realizam divulgação de C&T são caracterizados por uma linguagem rápida e fluida, pelo uso excessivo de imagens, pela utilização de metáforas entre outros, características bastante adversas do Roda Viva, que se apresenta como um programa de entrevistas e debates, com cerca de uma hora e meia de duração, que convida especialistas, cientistas, representantes institucionais, personalidades do universo cultural, entre outros. Quando surgiram as primeiras televisões públicas da Inglaterra (BBC), França (RTF), e outras, boa parte da programação era dedicada a programas de entrevistas e debates, pois justamente buscava-se cumprir o papel de educar e informar o público (Seaton, 2003 apud Silva, 2011: 2).
Assim, tendo em vista as noções de participação, cidadania e comunicação para a ciência, procura-se analisar, no próximo tópico, se o Roda Viva, pelo seu formato e linguagem, quando apresentou e discutiu C&T, problematizou a informação, contextualizou o leitor, apresentou as controvérsias no mundo científico, entre outros. Contudo, antes, se faz necessário realizar uma breve síntese sobre a história da epistemologia da ciência com o intuito de situar determinados discursos relacionados às atividades científicas usados com frequência na mídia em geral e no programa Roda Viva. Trata-se, portanto, de uma exposição sumária de um assunto de imensa amplidão e para o qual foram selecionados alguns aspectos a partir de uma visão pessoal, sem pretensão de se realizar uma abordagem sistemática.