O Código de Processo Civil de 1973 previa que toda decisão interlocutória era recorrível por meio de agravo, em suas modalidades “agravo retido” e “agravo de instrumento”, cabendo à parte escolher uma delas. Contudo, a partir da Lei nº 11.187/2005, o agravo retido passou a ser a regra geral, só sendo cabível agravo de instrumento quando houvesse risco de lesão grave ou de difícil reparação, quando se tratasse de decisão que inadmitisse a apelação, quando relativa aos efeitos de recebimento da apelação ou nos casos de incompatibilidade de agravo retido ao caso.5
O agravo retido, por sua vez, não dependia de preparo e impedia a preclusão, sendo julgado pelo tribunal no caso de não ocorrer retratação imediata do juízo de primeiro grau, sendo necessária a reiteração do agravante para que o tribunal conhecesse o recuso no momento do julgamento da apelação.
Contudo, o atual Código de Processo Civil extinguiu o agravo retido. O agravo de instrumento agora é o recurso cabível contra as decisões interlocutórias que versarem sobre as matérias enumeradas no art. 1015, I a XIII e parágrafo único do CPC. São elas: tutelas provisórias; mérito do processo; rejeição da alegação de
4 FERREIRA, William Santos.Cabimento do agravo de instrumento e a ótica prospectiva da utilidade: o direito ao interesse na recorribilidade de decisões interlocutórias. Revista de Processo, São Paulo, v. 263, ano 42, p. 196, jan. 2017.
5 DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de impugnação às decisões judiciais e processo nos tribunais. 14. ed. Salvador: Juspodivm, 2017. v. 3. p. 164.
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convenção de arbitragem; incidente de desconsideração da personalidade jurídica; rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação; exibição ou posse de documento ou coisa; exclusão de litisconsorte; rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio; admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros; concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução; redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1o; e outros casos expressamente previstos em lei.
Ademais, todas as decisões interlocutórias proferidas nas fases processuais de liquidação, de cumprimento de sentença, de execução de título extrajudicial e em processo de inventário estão sujeitas a agravo de instrumento.6
Código de Processo Civil:
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
[...]
Parágrafo único. Também caberá agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário.
O agravo de instrumento é interposto diretamente junto ao órgão ad quem, no prazo de 15 dias, devendo ser apreciado imediatamente.
O recurso deverá ser instruído com cópias de peças dos autos, de modo a permitir uma análise recursal completa pelo tribunal. Esse conjunto de peças é chamado de instrumento, e sua necessidade decorre do fato do processo original ainda estar em curso no órgão a quo.
São peças obrigatórias do instrumento: cópia da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a decisão agravada, da própria decisão agravada, da certidão da respectiva intimação ou outro documento oficial que comprove a tempestividade e das procurações dos advogados do agravante e do agravado. Caso inexistam alguma dessas peças, o agravo deverá ser acompanhado por declaração de inexistência feita pelo advogado do agravante.
6 DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de impugnação às decisões judiciais e processo nos tribunais. 14. ed. Salvador: Juspodivm, 2017. v. 3. p. 164.
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Ademais, em homenagem ao princípio da instrumentalidade das formas, a ausência da certidão de intimação da decisão agravada poderá ser relevada se for possível aferir, de modo inequívoco, a tempestividade do agravo por outro meio constante nos autos.7
De modo a permitir o juízo de retratação, o agravante deverá, no prazo de 3 (três) dias e apenas nos processos físicos, informar o juízo a quo sobre a interposição do recurso, juntando cópia da petição de agravo, a comprovação de interposição e a relação dos documentos apresentados.
3 IMPUGNAÇÃO DE DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS NÃO
AGRAVÁVEIS
As decisões interlocutórias que não versarem sobre as matérias enumeradas no art. 1015, I a XIII e parágrafo único do CPC não estão sujeitas ao recurso do agravo de instrumento. No entanto, também não estão sujeitas a preclusão, motivo pelo qual poderão ser impugnadas na preliminar de apelação, no caso de vencido, ou nas contrarrazões, no caso do vencedor.
Código de Processo Civil:
Art. 1.009. Da sentença cabe apelação.
§ 1o As questões resolvidas na fase de conhecimento, se a decisão a seu respeito não comportar agravo de instrumento, não são cobertas pela preclusão e devem ser suscitadas em preliminar de apelação, eventualmente interposta contra a decisão final, ou nas contrarrazões.
No entanto, a decisão interlocutória não agravável será atingida pela preclusão caso o interessado não recorra no momento processual adequado. Assim, se o vencido na sentença não recorrer de decisão interlocutória que lhe tenha sido desfavorável no recurso de apelação, ocorrerá a preclusão, bem como no caso do vencedor na sentença não recorrer da decisão interlocutória desfavorável nas contrarrazões de apelação.
7 REsp 676.343/MT, Quarta Turma, DJe 08/11/2010; e AgRg no AgRg no REsp 1.187.970/SC, Terceira Turma, DJe 16/08/2010 (REsp 1.409.357/SC; Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 14/05/2014).
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Ademais, na nova sistemática processual, observa-se uma situação curiosa: é possível a interposição de agravo contra decisão que julga mérito do processo, bem como a interposição de apelação em face de decisão interlocutória.8
A impugnação de decisão interlocutória por preliminar de apelação e por contrarrazões se mostra, para muitos autores, como sendo um recurso autônomo, apesar de estar inserida em peça processual diversa. Enquanto no Código de Processo Civil de 1973 a preliminar de razões ou as contrarrazões de apelação eram utilizadas, dentre outros motivos, para ratificar o agravo retido interposto anteriormente, na nova sistemática processual surgida do Código de Processo Civil de 2015 é utilizada como verdadeiro meio de interposição recursal para impugnar decisão interlocutória.
3.1 Impugnação pelo vencido por intermédio da utilização de
recurso em preliminar de apelação
O recurso de apelação poderá ser utilizado pelo vencido para impugnar não somente uma sentença que não tenha lhe sido favorável, mas também as decisões interlocutórias não agraváveis que lhe tenham sido desfavoráveis.
Uma apelação poderá impugnar diversas decisões, podendo conter, portanto, diversas pretensões recursais. Inclusive, o número de pretensões recursais poderá ser superior ao número de decisões impugnadas, uma vez que cada decisão poderá conter diversos capítulos.9
De todo modo, essa cumulação de pedidos na apelação, referentes à sentença e à decisão interlocutória, é considerada imprópria, pois se o pedido contra a decisão interlocutória for acolhido, a apelação se tornará incipiente em relação à sentença e a outros atos processuais precedentes, haja vista que serão desfeitos.
8 LIBARDONI, Carolina Uzeda. Interesse recursal complexo e condicionado quanto às decisões interlocutórias não agraváveis no novo Código de Processo Civil: segundas impressões sobre a apelação autônoma do vencedor. Revista de Processo, São Paulo, v. 249, ano 40, p. 234-235, nov. 2015.
9 DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de impugnação às decisões judiciais e processo nos tribunais. 14. ed. Salvador: Juspodivm, 2017. v. 3. p. 166.
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A impugnação de decisão interlocutória não agravável possui natureza de recurso. Apesar de ser feita na preliminar da apelação, integrará o seu mérito, mas será julgada preliminarmente em relação a ela. Nesse sentido, a palavra “preliminar” não indica um requisito de admissibilidade, mas faz referência à ordem cronológica, uma vez que a decisão interlocutória impugnada foi proferida antes da sentença.
Entre o recurso de impugnação de decisão interlocutória e o recurso de apelação existe uma relação de prejudicialidade. Ao combater decisão interlocutória, o vencido poderá ver o seu pedido recursal formulado contra a sentença se tornar inócuo. Por estarem entrelaçados dessa forma, não ocorre uma relação de subordinação do recurso contra a decisão interlocutória em relação ao recuso de apelação. Isso não quer dizer que a impugnação da interlocutória possua autonomia recursal em relação à apelação, uma vez que o primeiro recurso só poderá ser instrumentalizado pelo segundo.
No estudo da recorribilidade das decisões interlocutórias, é possível observar que a sua impugnação gera efeitos diretos sobre a sentença, sendo que a revisão de uma interlocutória repercutirá, também, na decisão meritória final de um processo em sua fase de conhecimento.
Se a parte vencida utilizar a apelação para recorrer apenas da decisão interlocutória não agravável, a sentença, mesmo que irrecorrida, ficará sob condição suspensiva: se a apelação não for conhecida ou for desprovida, a sentença continuará inalterada. Contudo, se a apelação for provida, a sentença será resolvida. De todo modo, a sentença não poderá transitar em julgado enquanto não for dada solução ao recurso contra a decisão interlocutória.10
Caso o vencido utilize a apelação para recorrer apenas da sentença, ocorrerá a preclusão da decisão interlocutória não agravável, seja qual for o seu conteúdo.
10 DIDIER JR., Fredie; CUNHA, Leonardo Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de impugnação às decisões judiciais e processo nos tribunais. 14. ed. Salvador: Juspodivm, 2017. v. 3. p. 167.
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