1 Bacharel em direito – Centro Universitário de Brasília –UniCeub, Brasília/DF – [email protected] - Aluna de curso Pós-graduação lato sensu em Direito do Trabalho e Previdenciário do Centro Universitário de Brasília – UniCeub/ICPD
A APLICAÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO EXAURIENTE
DA SENTENÇA DO PROCESSO CIVIL AO PROCESSO
DO TRABALHO
THE APPLICATION OF THE EXHAUSTIVE FOUNDATION
OF THE CIVIL PROCEEDINGS TO THE LABOR PROCESS
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Ademais, são apontados entendimentos doutrinários quanto ao assunto de forma a esclarecer qual a diferença da aplicação subsidiária da supletiva.
No segundo capítulo fica mais claro quão divergente é a extensão da possibilidade de utilização do Código de Processo Civil ao Processo do Trabalho, tendo em vista a edição pelo Tribunal Superior do Trabalho da Instrução Normativa nº 39/2016, a qual delimita quais as normas do Código de Processo Civil são aplicáveis e quais não são ao Processo do Trabalho, o que segundo a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (ANAMATRA) viola princípios e normas constitucionais, levando ao ajuizamento, perante o Supremo Tribunal Federal, da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5516.
Por fim, no terceiro e último capítulo, aborda-se a temática central em conjunto aos temas abordados nos capítulos anteriores, confrontando entendimentos, visto que para alguns estudiosos a aplicação da fundamentação exauriente do Código de Processo Civil ao Processo do Trabalho em nada prejudica a atividade jurisdicional e sequer configura inconstitucionalidade, enquanto para outros a referida aplicação acarreta em violação a princípios do direito do trabalho.
2 A APLICAÇÃO SUBSIDIÁRIA OU SUPLETIVA DO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL AO PROCESSO DO TRABALHO
Inicialmente, para melhor abordagem do tema central do trabalho é imprescindível que se entenda sobre a aplicação subsidiária ou supletiva do Código de Processo Civil ao Processo do Trabalho.
A Consolidação das Leis do Trabalho (Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017) prevê em seu artigo 8º, §1º que o direito comum será fonte subsidiária do direito do trabalho. E, ainda, no artigo 769 que nos casos omissos, o direito processual comum será fonte subsidiária do direito processual do trabalho, exceto naquilo que for incompatível com as normas do trabalho.2
O CPC (Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015), por sua vez, em seu artigo 15 estipula que na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições do Código de Processo Civil lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. O artigo 1.046, §2º possui previsão semelhante:
Art. 1.046. Ao entrar em vigor este Código, suas disposições se aplicarão desde logo aos processos pendentes, ficando revogada a Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973.
§ 2o Permanecem em vigor as disposições especiais dos procedimentos regulados em outras leis, aos quais se aplicará supletivamente este Código.3
2 BRASIL. Decreto-lei n. 5452/43 alterada pela lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017.Consolidação das leis do trabalho. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.
3 BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de processo civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.
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No que concerne a execução trabalhista também se aplica subsidiariamente o Código de Processo Civil (CPC), conforme normatização do artigo 889 da CLT:
Art. 889 - Aos trâmites e incidentes do processo da execução são aplicáveis, naquilo em que não contravierem ao presente Título, os preceitos que regem o processo dos executivos fiscais para a cobrança judicial da dívida ativa da Fazenda Pública Federal.4
Apresentadas as previsões legais que versam sobre a aplicação subsidiária e supletiva, cabe entender a diferença de cada aplicação.
Enquanto a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) utiliza o termo subsidiariamente, o CPC acrescenta a aplicação supletiva. Aplicação subsidiária do Código de Processo Civil ao Processo do Trabalho consoante o artigo 769 da CLT seria nos casos de omissão da legislação trabalhista, necessita, ainda, ter compatibilidade com as normas trabalhistas, o que leva a interpretação de que se deve adequar também aos princípios processuais trabalhistas já que integram a normatização do processo do trabalho.5
Então, o artigo 769 da CLT teria a finalidade de evitar que o processo civil adentre demais no processo do trabalho de forma a descaracterizar o direito processual trabalhista, tendo em vista que a CLT prevê em seu artigo 8º, “caput”, a utilização de jurisprudências, princípios, usos e costumes, dentre outros, em caso de falta de dispositivo legal ou contratual:
Art. 8º - As autoridades administrativas e a Justiça do Trabalho, na falta de disposições legais ou contratuais, decidirão, conforme o caso, pela jurisprudência, por analogia, por equidade e outros princípios e normas gerais de direito, principalmente do direito do trabalho, e, ainda, de acordo com os usos e costumes, o direito comparado, mas sempre de maneira que nenhum interesse de classe ou particular prevaleça sobre o interesse público.
Mauro Schiavi classifica as lacunas da legislação processual de três formas: a) normativas: quando a lei não contém previsão para o caso concreto. Vale dizer: não há regulamentação da lei sobre determinado instituto processual;
b) ontológicas: quando a norma não mais está compatível com os fatos sociais, ou seja, está desatualizada. Aqui, a norma regulamenta determinado instituto processual, mas ela não encontra mais ressonância na realidade, não há efetividade da norma processual existente;
c) axiológicas: quando as normas processuais levam a uma solução injusta ou insatisfatória. Existe a norma, mas sua
4 BRASIL. Decreto-lei n. 5452/43 alterada pela lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017.Consolidação das leis do trabalho. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.
5 SCHIAVI, Mauro. A reforma trabalhista e o processo do trabalho: aspectos processuais da lei n. 13.467/17. São Paulo: LTr, 2017. p. 44.
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aplicação conduz a uma solução incompatível com os valores de justiça e equidade exigíveis para a eficácia da norma processual.6
A extensão do emprego da subsidiariedade do CPC no âmbito trabalhista possui duas linhas de pensamento: A primeira é restritiva, limitando a aplicação do CPC a apenas quando houver lacuna normativa, busca proteger princípios como o da segurança jurídica e do devido processo legal; a segunda, é evolutiva, pode ser chamada também de ampliativa ou sistemática, traz interpretação de aplicação do CPC ao processo do trabalho se existir lacuna ontológica e axiológica, visa a resguardar princípios como o da razoável duração do processo, acesso do trabalhador a Justiça e o da efetividade.7
Carlos Henrique Bezerra Leite sintetiza muito bem as definições de supletivo e subsidiário:
Convém pontuar que supletivo é o que se adiciona, no sentido de complementariedade, enquanto subsidiário é o que reforça ou apoia algo. O Direito Processual do Trabalho mantém o seu conjunto normativo e ainda conta com eficientes métodos de autointegração.8
A aplicação supletiva do Código de Processo Civil ao processo do trabalho, tem cunho de complementação, não necessita que haja omissão da legislação processual trabalhista, o que para Carlos Henrique Bezerra Leite significa aumentar as possibilidades de aplicação do CPC, visto que este tipo de aplicação ocorre a partir do reconhecimento de lacunas ontológicas e axiológicas. Portanto, sua interpretação de aplicação supletiva é semelhante a interpretação denominada por Mauro Schiavi como evolutiva.9
3 INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 39/2016 DO TRIBUNAL
SUPERIOR DO TRABALHO
O Tribunal Superior do Trabalho (TST), no intuito de evitar divergências quanto a aplicação do CPC na esfera do processo trabalhista, editou a Instrução Normativa nº 39/2016 por meio da qual estipulou quais as normas do Código de Processo Civil aplicáveis e não aplicáveis ao Processo do Trabalho, de forma não exaustiva.10
Ocorre que, o supracitado ato é inconstitucional, visto que o TST editou Instrução Normativa sem que tenha sido provocado, sem a existência de divergência
6 SCHIAVI, Mauro. A reforma trabalhista e o processo do trabalho: aspectos processuais da lei n. 13.467/17. São Paulo: LTr, 2017. p. 44.
7 SCHIAVI, Mauro. A reforma trabalhista e o processo do trabalho: aspectos processuais da lei n. 13.467/17. São Paulo: LTr, 2017. p. 45.
8 LEITE, Carlos Henrique Bezerra. CPC: repercussões no processo do trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 48.
9 LEITE, Carlos Henrique Bezerra. CPC: repercussões no processo do trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 27.
10 BRASIL. Instrução normativa nº 39/2016 do Tribunal Superior do Trabalho. Disponível em: <http://www.tst.jus.br/documents/10157/429ac88e-9b78-41e5-ae28-2a5f8a27f1fe>. Acesso em: 19 abr. 2018.
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interpretativa, o que acarreta em violação dos princípios da independência dos órgãos judiciais e separação dos poderes, da reserva do legal e a competência do juiz natural.
Ante as violações mencionadas a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (ANAMATRA) ajuizou perante o Supremo Tribunal Federal (STF) a Ação Direta de Inconstitucionalidade 5516 (ADI 5516).
A ADI em questão tinha a princípio como relatora a ministra Carmem Lúcia, atualmente tem como relator o ministro Ricardo Lewandowski e visa a impugnação da IN nº 39/2016 – TST, sob a alegação de vício formal e material de inconstitucionalidade da norma por violação aos arts. 5º, incisos XXXVII e LIII11, 22, I12, 95, I, II e III13, e 96, I, a14, da Constituição Federal de 198815.16
A Procuradoria-Geral da República manifestou entendimento pela parcial procedência da ADI 5516, ao entender que à IN nº 39/2016 – TST seria concedido caráter interpretativo consoante a Constituição Federal de 1988:
Desse modo, importa conferir à IN 39/2016 interpretação conforme a Constituição, sem redução de texto, com efeito ex nunc, para reconhecer-lhe função exclusivamente orientadora, afastando-lhe função normativa e suprimindo, por conseguinte, efeito vinculante sobre a atividade jurisdicional. Essa solução acarreta impossibilidade de invocação pura e simples de dispositivos da instrução normativa como razão de decidir, mas possibilitando adoção de suas soluções
11 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XXXVII - não haverá juízo ou tribunal de exceção;
LIII - ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente; 12 Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:
I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho;
13 Art. 95. Os juízes gozam das seguintes garantias:
I - vitaliciedade, que, no primeiro grau, só será adquirida após dois anos de exercício, dependendo a perda do cargo, nesse período, de deliberação do tribunal a que o juiz estiver vinculado, e, nos demais casos, de sentença judicial transitada em julgado;
II - inamovibilidade, salvo por motivo de interesse público, na forma do art. 93, VIII;
III - irredutibilidade de subsídio, ressalvado o disposto nos arts. 37, X e XI, 39, § 4º, 150, II, 153, III, e 153, § 2º, I. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
14 Art. 96. Compete privativamente: I - aos tribunais:
a) eleger seus órgãos diretivos e elaborar seus regimentos internos, com observância das normas de processo e das garantias processuais das partes, dispondo sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais e administrativos;
15 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 19 abr. 2018.
16 BRASIL. Manifestação da Procuradoria-Geral da República extraído da página do Supremo Tribunal Federal da ação direta de inconstitucionalidade nº 5516. Disponível em: <http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=310299104&ext=.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2018.
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normativas, de forma fundamentada, conforme o convencimento racional do magistrado.17
Os autos da ADI se encontram conclusos ao relator desde 14/09/2016.