• Nenhum resultado encontrado

SENTENÇA DO PROCESSO CIVIL AO PROCESSO DO TRABALHO

No documento PRÁTICA PROCESSUAL (páginas 86-92)

A Constituição da República Federativa Brasileira de 1988 prevê em seu artigo 93, inciso IX a necessidade de fundamentação das decisões judiciais:

IX - todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004) (grifo meu)

Portanto, a obrigatoriedade de fundamentação da sentença é uma determinação constitucional, o que se não for feito acarreta em violação a preceito da Constituição.

A Consolidação das Leis do Trabalho determina em seu artigo 832 que da decisão deverão constar o nome das partes, o resumo do pedido e da defesa, a apreciação das provas, os fundamentos da decisão e a respectiva conclusão.18

O Código de Processo Civil também estipula a obrigatoriedade de fundamentação, contudo, não se limita a isso, enumera requisitos os quais conferem a sentença ausência de fundamentação:

Art. 489. São elementos essenciais da sentença:

I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito;

III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem.

§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:

17 BRASIL. Manifestação da Procuradoria-Geral da República extraído da página do Supremo Tribunal Federal da ação direta de inconstitucionalidade 5516. Disponível em: <http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=310299104&ext=.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2018.

18 BRASIL. Decreto-lei n. 5452/43 alterada pela lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017.Consolidação das leis do trabalho. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.

86

I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;

II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso;

III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;

IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;

V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;

VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento.

§ 2o No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da ponderação efetuada, enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e as premissas fáticas que fundamentam a conclusão. § 3o A decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação de todos os seus elementos e em conformidade com o princípio da boa-fé.19

Conforme já mencionado, o CPC possui dispositivo legal que determina sua aplicação de forma subsidiária e supletiva ao Processo do Trabalho. No que diz respeito a fundamentação da sentença há divergências de entendimento quanto a essa aplicação ao processo trabalhista visto que a CLT determina que a sentença deve ser fundamentada, mas não delimita a forma de fundamentação, diferentemente do CPC. O Tribunal Superior do Trabalho, consoante exposto no tópico anterior, editou a Instrução Normativa nº 39/2016, que está sob a análise do Supremo Tribunal Federal, delimitando em seu artigo 15 a forma de aplicação do artigo 489, §1º do CPC ao Processo do Trabalho:

Art. 15. O atendimento à exigência legal de fundamentação das decisões judiciais (CPC, art. 489, § 1º) no Processo do Trabalho observará o seguinte:

I – por força dos arts. 332 e 927 do CPC, adaptados ao Processo do Trabalho, para efeito dos incisos V e VI do § 1º do art. 489 considera-se “precedente” apenas:

acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Tribunal

19 BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de processo civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.

87

Superior do Trabalho em julgamento de recursos repetitivos (CLT, art. 896-B; CPC, art. 1046, § 4º);

b) entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; c) decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade;

d) tese jurídica prevalecente em Tribunal Regional do Trabalho e não conflitante com súmula ou orientação jurisprudencial do Tribunal Superior do Trabalho (CLT, art. 896, §6º);

e) decisão do plenário, do órgão especial ou de seção especializada competente para uniformizar a jurisprudência do tribunal a que o juiz estiver vinculado ou do Tribunal Superior do Trabalho. II – para os fins do art. 489, § 1º, incisos V e VI do CPC, considerar-se-ão unicamente os precedentes referidos no item anterior, súmulas do Supremo Tribunal Federal, orientação jurisprudencial e súmula do Tribunal Superior do Trabalho, súmula de Tribunal Regional do Trabalho não conflitante com súmula ou orientação jurisprudencial do TST, que contenham explícita referência aos fundamentos determinantes da decisão (ratio decidendi).

III - não ofende o art. 489, § 1º, inciso IV do CPC a decisão que deixar de apreciar questões cujo exame haja ficado prejudicado em razão da análise anterior de questão subordinante.

IV - o art. 489, § 1º, IV, do CPC não obriga o juiz ou o Tribunal a enfrentar os fundamentos jurídicos invocados pela parte, quando já tenham sido examinados na formação dos precedentes obrigatórios ou nos fundamentos determinantes de enunciado de súmula.

V - decisão que aplica a tese jurídica firmada em precedente, nos termos do item I, não precisa enfrentar os fundamentos já analisados na decisão paradigma, sendo suficiente, para fins de atendimento das exigências constantes no art. 489, § 1º, do CPC, a correlação fática e jurídica entre o caso concreto e aquele apreciado no incidente de solução concentrada. VI - é ônus da parte, para os fins do disposto no art. 489, § 1º, V e VI, do CPC, identificar os fundamentos determinantes ou demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento, sempre que invocar precedente ou enunciado de súmula.20

Então, resta dúvida se deve ser aplicado de forma subsidiária e supletiva o artigo 15 do CPC ao Processo do Trabalho no que se refere ao artigo 489 do CPC, especialmente, quanto ao seu §1º.

20 BRASIL. Instrução normativa nº 39/2016 do Tribunal Superior do Trabalho. Disponível em: <http://www.tst.jus.br/documents/10157/429ac88e-9b78-41e5-ae28-2a5f8a27f1fe>. Acesso em: 19 abr. 2018.

88

A dúvida é suscitada, pois há doutrinadores como o Cláudio Brandão que entendem ser plenamente possível a aplicação do artigo 489 e parágrafos e incisos ao processo trabalhista, inclusive ressalta a importância dos requisitos elencados no §1º do artigo 489 para não gerar nulidade da sentença, ressaltando que a ausência de fundamentação gera violação a direito fundamental previsto na Constituição Federal de 1988:

Haveria vícios incontornáveis nesse dispositivo, a ponto de não poder ser aplicado ao processo do trabalho?

Segue-se a análise.

Primeiro, não identifico inconstitucionalidade. Isso porque não indica ao magistrado como fundamentar a sua decisão, nem tolhe ou cerceia o exercício da função jurisdicional, especificamente quanto ao ato de julgar. Apenas “corporificou, de forma minudente e escrupulosa, os principais aspectos do conceito de ‘decisão fundamentada’. Indica o que não constitui fundamento de decisão judicial ou, em outras palavras, relaciona defeitos de natureza grave nela contidos, capazes de levar à sua nulidade, e não há regra semelhante na CLT; portanto, possível se mostra a sua aplicação. A ausência de fundamentação, muito mais do que simples nulidade, constitui violação de direito fundamental contido no artigo 93, IX, da Constituição, pois todo cidadão tem o direito inalienável de saber qual foi a motivação adotada pelo julgador para condená-lo, para lhe impor o cumprimento de determinada prestação contida na decisão.21

Contudo, o processo do trabalho é instrumento do direito do trabalho que, por sua vez, tem como maior parte das lides direito material de natureza alimentar, ou seja, na maioria das vezes, o trabalhador, parte hipossuficiente, está buscando por meio da justiça trabalhista o pagamento de verbas essenciais ao seu sustento e de sua família, o que necessita ser tratado com celeridade.

Portanto, a aplicação do exaurimento da sentença previsto no §1º e incisos do artigo 489 do CPC ao Processo do Trabalho, vai de encontro a princípios norteadores do processo do trabalho, como por exemplo, o da celeridade, que trata da razoável duração do processo, ou, ainda, o princípio da simplicidade que versa sobre o acesso fácil do trabalhador (parte hipossuficiente) a Justiça do Trabalho de forma a ter um processo menos burocrático.

5 CONCLUSÃO

O Código de Processo Civil é aplicado ao processo do trabalho de maneira subsidiária e supletiva, conforme previsões dos artigos 15 e 1.046, §2º do CPC, bem como artigos 8º, §1º, 769 e 889 da Consolidação das Leis do Trabalho.

A Consolidação das Leis do Trabalho trata da possibilidade de aplicação do CPC as suas normas apenas de forma subsidiária, que seria nos casos de omissão da

21 BRANDÃO, Cláudio. Fundamentação exauriente ou analítica: aplicação ao processo do trabalho. Revista do 9º Tribunal Regional do Trabalho, Curitiba, v. 6, n. 55, p. 83, out./nov. 2016.

89

égide trabalhista, desde que haja compatibilidade com os princípios do direito do trabalho.

O CPC amplia sua possibilidade de adentrar nos temas trabalhistas ao prever a sua aplicação de forma supletiva, ou seja, não necessitando de omissão, podendo simplesmente integrar decisões trabalhistas, complementar os temas, mesmo que tenham sido abordados na legislação trabalhista.

Diante disso, o Tribunal Superior do Trabalho editou a Instrução Normativa nº 39/2016 no intuito de restringir a aplicação do CPC no âmbito do Direito Processual do Trabalho, gerando incômodo nos magistrados que ajuizaram por meio da ANAMATRA a Ação Direta de Inconstitucionalidade 5516 perante o Supremo Tribunal Federal, alegando violação constitucional.

Portanto é perceptível a divergência entres os próprios códigos, de um lado se tem um Código (CPC) elaborado de forma que se dá o direito de aplicação mais extensiva a outra legislação, legislação essa que foi alterada recentemente pela Lei nº 13.467, de 13/07/2017, e manteve apenas a possibilidade de aplicação do CPC de forma subsidiária, nos casos em que for omissa.

Por outro lado, se tem um Tribunal (Tribunal Superior do Trabalho) invadindo competência que não é sua e legislando para tentar restringir a forma de aplicação do CPC ao Processo do Trabalho, limitando a atuação dos juízes.

Diante dessas divergências é suscitada a dúvida quanto a aplicação do artigo 489 do Código de Processo Civil ao Processo do Trabalho já que há doutrinadores que entendem que o rol do §1º do artigo 489 (o qual pontua situações em que restou ausente a fundamentação da sentença) complementa o artigo 93, IX da Constituição Federal que determina que todas as decisões fundamentadas. Enquanto outros doutrinadores, entendem que o rol mencionado delimita a atuação do juiz.

Conclui-se que é de suma importância a fundamentação da sentença, mas, o Direito Processual do Trabalho e o Direito do Trabalho devem ser céleres e as exigências do artigo 489 do Código de Processo Civil violam o princípio da celeridade, de forma a prejudicar o desenvolvimento rápido do processo e a parte hipossuficiente que é o trabalhador.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Cláudio. Fundamentação exauriente ou analítica: aplicação ao processo do trabalho. Revista do 9º Tribunal Regional do Trabalho, Curitiba, v. 6, n. 55, p. 83, out./nov. 2016.

BRASIL. Ação direta de inconstitucionalidade n. 5516. Disponível em:

<http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4977107>. Acesso em: 19 abr. 2018.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 19 abr. 2018.

90

BRASIL. Decreto-lei n. 5452/43 alterada pela lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017.

Consolidação das leis do trabalho. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.

BRASIL. Instrução normativa nº 39/2016 do Tribunal Superior do Trabalho. Disponível em: <http://www.tst.jus.br/documents/10157/429ac88e-9b78-41e5-ae28-2a5f8a27f1fe>. Acesso em: 19 abr. 2018.

BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de processo civil. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 18 abr. 2018.

BRASIL. Manifestação da Procuradoria-Geral da República extraído da página do Supremo Tribunal Federal da ação direta de inconstitucionalidade nº 5516. Disponível em:

<http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=310299104&ext=.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2018.

LEITE, Carlos Henrique Bezerra. CPC: repercussões no processo do trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.

SCHIAVI, Mauro. A reforma trabalhista e o processo do trabalho: aspectos processuais da lei n. 13.467/17. São Paulo: LTr, 2017.

91

No documento PRÁTICA PROCESSUAL (páginas 86-92)