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AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0005411-26.2010.404.0000/SC

RELATORA : Des. Federal MARGA INGE BARTH TESSLER AGRAVANTE : UNIÃO FEDERAL

ADVOGADO : Emanuela Cristina Andrade Lacerda AGRAVADO : JEAN CARLO FISTAROL

ADVOGADO : Álvaro Borges de Oliveira

: Emanuela Cristina Andrade Lacerda

EMENTA

PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE USUCAPIÃO. DIREITO ADMINISTRATIVO. TERRENOS DE MARINHA. PROPRIEDADE DA UNIÃO. DECRETO-LEI 9.760/46.

1. Com efeito, tendo a União contestado a ação de usucapião e alegado que o imóvel debatido constitui terreno/acrescido de marinha, o interesse da agravada fica patente, nos autos, impondo-se a fixação da competência da Justiça Federal para dirimir a lide. A procedência e demonstração da qualidade do imóvel é matéria de mérito, impassível de ser resolvida em decisão terminativa.

2. Acrescento que o simples fato de o Rio Itajaí-Açú ter nascente e foz situados integralmente no Estado de Santa Catarina - sendo de propriedade estadual - não exclui a possibilidade de que seus terrenos marginais sejam caracterizados como terrenos ou acrescidos de marinha (portanto, federais).

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, decide a Egrégia 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, por unanimidade, dar provimento ao agravo de instrumento, nos termos do relatório, voto e notas taquigráficas que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.

Porto Alegre, 12 de maio de 2010.

Desª. Federal MARGA INGE BARTH TESSLER Relatora

Documento eletrônico assinado digitalmente por Desª. Federal MARGA INGE BARTH TESSLER, Relatora, conforme MP nº 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que instituiu a Infra- estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil, e a Resolução nº 61/2007, publicada no

Diário Eletrônico da 4a Região nº 295 de 24/12/2007. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico

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Data e Hora: 18/05/2010 18:53:36

AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0005411-26.2010.404.0000/SC RELATORA : Des. Federal MARGA INGE BARTH TESSLER AGRAVANTE : UNIÃO FEDERAL

ADVOGADO : Emanuela Cristina Andrade Lacerda AGRAVADO : JEAN CARLO FISTAROL

ADVOGADO : Álvaro Borges de Oliveira

: Emanuela Cristina Andrade Lacerda

RELATÓRIO

Trata-se de agravo de instrumento interposto em face de decisão que, no bojo de ação de usucapião de imóvel confrontante com o Rio Itajaí-Açú, entendeu não haver bem de domínio público federal na área sub judice, reconhecendo a ilegitimidade ad causam da União e declinando, consequentemente, da competência para processar e julgar o feito à Justiça Estadual.

Em suas razões, a União alegou que o Rio Itajaí-Açú deságua no Oceano Atlântico e sofre inequívoca influência das marés, o que caracteriza a área usucapienda como terreno/acrescido de marinha. Defendeu a constitucionalidade/recepção do Decreto-Lei nº 9.760/46, no que se refere à conceituação dos terrenos de marinha, que compreendem, inclusive, aqueles situados ao longo da margem de rio estadual. Sustentou ser impossível atribuir ao Estado de Santa Catarina, com base em lacuna constitucional na definição dos terrenos de marinha, a propriedade de bem imóvel que não lhe foi conferido pela Constituição (a qual só atribuiu aos Estados as águas superficiais de rios como o debatido, não os terrenos ao longo de suas margens). Argumentou que a CF/88 não refere, como bens estaduais, as porções territoriais de tais rios justamente porque as mesmas já estão abrangidas no conceito legal de terrenos/acrescidos de marinha, que pertencem à União. Teceu considerações históricas acerca do mencionado conceito.

O pedido de efeito suspensivo foi indeferido. Sem contraminuta.

VOTO

Prolatei decisão nos seguintes termos: "(...) Merece reforma a decisão recorrida.

Com efeito, tendo a União contestado a ação de usucapião e alegado que o imóvel debatido constitui terreno/acrescido de marinha, o interesse da agravada fica patente, nos autos, impondo-se a fixação da competência da Justiça Federal para dirimir a lide. A procedência e demonstração da qualidade do imóvel é matéria de mérito, impassível de ser resolvida em decisão terminativa.

Nesse sentido, os seguintes julgados desta Corte e do Superior Tribunal de Justiça:

PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AÇÃO DE USUCAPIÃO. TERRENO DE MARINHA. INTERESSE DA UNIÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL.

A alegação de que parte de imóvel usucapiendo constitui terreno de marinha e a sua demonstração, são matérias de prova que dizem respeito ao próprio mérito da ação de usucapião. Tal circunstância justifica interesse da União no feito e a competência da Justiça Federal para apreciar a demanda.

(TRF4, AI n. 2008.04.00.017260-0, Quarta Turma, Relator Juiz Federal Márcio Antônio Rocha, D.E. de 11/11/2008)

CONFLITO DE COMPETÊNCIA. AÇÃO DE USUCAPIÃO.

Contestação da União no sentido de que a ação de usucapião tem por objeto terreno de marinha. Competência da Justiça Federal.

(STJ, CC n. 20.768/SC, Segunda Seção, Relator Ministro Ari Pargendler, DJ de 22/11/1999) Ademais, acrescento que o simples fato de o Rio Itajaí-Açú ter nascente e foz situados integralmente no Estado de Santa Catarina - sendo de propriedade estadual - não exclui a possibilidade de que seus terrenos marginais sejam caracterizados como terrenos ou acrescidos de marinha (portanto, federais).

A discussão passa pela definição de que corpos d'água pertencem à União e aos Estados, bem como de quais bens podem ser considerados terrenos e acrescidos de marinha.

A Constituição Federal de 1988 foi explícita em definir a propriedade de rios e cursos d'água federais e estaduais (arts. 20, inc. III, e 26, inc. I); não especificou, contudo, a amplitude da expressão "terrenos de marinha e seus acrescidos" (art. 20, inc. VII), deixando de definir quais terrenos marginais se incluiriam em tal noção e seriam, dessarte, de propriedade da União. Veja-se o teor dos dispositivos citados:

Art. 20. São bens da União: [...]

III - os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais; [...] VII - os terrenos de marinha e seus acrescidos; [...]

Art. 26. Incluem-se entre os bens dos Estados:

I - as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União; [...]

Não havendo, no Texto Constitucional, a definição da expressão "terrenos de marinha e seus acrescidos", há que se entender que o legislador constituinte se valeu dos conceitos então existentes no mundo jurídico a respeito do tema - desde que, por evidente, tais noções não contrariem disposições expressas da nova Constituição. Esse o método interpretativo adotado, de longa data, na remansosa jurisprudência do Supremo Tribunal Federal - de que é exemplo o reconhecimento da inconstitucionalidade da exigência da contribuição social do antigo inc. I do art. 195 da CF/88 (que, em sua redação originária, dispunha que "Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I - dos empregadores, incidentes sobre a folha de salários, o faturamento e o lucro;") sobre valores pagos a autônomos, administradores ou avulsos, uma vez que tais montantes não podiam ser considerados tecnicamente salários. Transcrevo excerto do voto condutor de um dos leading cases sobre o tema - Recurso Extraordinário n. 166772, Tribunal Pleno, Relator Ministro Marco Aurélio Mello, DJ de 16/12/1994:

[...] o conteúdo político de uma Constituição não pode levar quer ao desprezo do sentido vernacular das palavras utilizadas pelo legislador constituinte, quer ao técnico, considerados institutos consagrados pelo Direito. Toda ciência pressupõe a adoção de escorreita linguagem, possuindo os institutos, as expressões e os vocábulos que a revelam conceito estabelecido com a passagem do tempo, por força dos estudos acadêmicos e pela atuação dos pretórios. Já se disse que "as questões de nome são de grande importância, porque, elegendo um nome ao invés de outro, torna-se rigorosa e não suscetível de mal-entendido uma determinada linguagem. A purificação de linguagem é uma parte essencial da pesquisa científica, sem a qual nenhuma pesquisa poderá dizer-se científica" (Studi Sulla Teoria Generali delDiritto, Torino - G. Giappichelli, edição 1955, página 37). Realmente, a flexibilidade de conceitos, o câmbio do sentido destes, conforme os interesses em jogo, implicam insegurança incompatível com o objetivo da própria Carta que, realmente, é um corpo político, mas o é ante os parâmetros que encera e estes não são imunes ao real sentido dos vocábulos, especialmente os de contornos jurídicos.

O precedente restou assim ementado:

INTERPRETAÇÃO - CARGA CONSTRUTIVA - EXTENSAO.

Se e certo que toda interpretação traz em si carga construtiva, não menos correta exsurge a vinculação a ordem jurídico-constitucional. O fenômeno ocorre a partir das normas em vigor, variando de acordo com a formação profissional e humanística do interprete. No exercício gratificante da arte de interpretar, descabe "inserir na regra de direito o próprio juízo - por mais sensato que seja - sobre a finalidade que "conviria" fosse por ela perseguida" - Celso Antônio Bandeira de Mello - em parecer inédito. Sendo o Direito uma ciência, o meio justifica o fim, mas não este aquele.

CONSTITUIÇÃO - ALCANCE POLÍTICO - SENTIDO DOS VOCABULOS - INTERPRETAÇÃO. O conteúdo político de uma Constituição não e conducente ao desprezo do sentido vernacular das palavras, muito menos ao do técnico, considerados institutos consagrados pelo Direito. Toda ciência pressupõe a adoção de escorreita linguagem, possuindo os institutos, as expressões e os vocábulos que a revelam conceito estabelecido com a passagem do tempo, quer por força de estudos acadêmicos quer, no caso do Direito, pela atuação dos Pretórios.

SEGURIDADE SOCIAL - DISCIPLINA - ESPÉCIES - CONSTITUIÇÕES FEDERAIS - DISTINÇÃO. Sob a égide das Constituições Federais de 1934, 1946 e 1967, bem como da

Emenda Constitucional no 1/69, teve-se a previsão geral do tríplice custeio, ficando aberto campo propicio a que, por norma ordinária, ocorresse a regência das contribuições. A Carta da Republica de 1988 inovou. Em preceitos exaustivos - incisos I, II e III do artigo 195 - impôs contribuições, dispondo que a lei poderia criar novas fontes destinadas a garantir a manutenção ou expansão da seguridade social, obedecida a regra do artigo 154, inciso I, nela inserta (par. 4. do artigo 195 em comento)..

CONTRIBUIÇÃO SOCIAL - TOMADOR DE SERVIÇOS - PAGAMENTOS A ADMINISTRADORES E AUTONOMOS - REGENCIA. A relação jurídica mantida com administradores e autônomos não resulta de contrato de trabalho e, portanto, de ajuste formalizado a luz da Consolidação das Leis do Trabalho. Dai a impossibilidade de se dizer que o tomador dos serviços qualifica-se como empregador e que a satisfação do que devido ocorra via folha de salários. Afastado o enquadramento no inciso I do artigo 195 da Constituição Federal, exsurge a desvalia constitucional da norma ordinária disciplinadora da matéria. A referencia contida no par. 4. do artigo 195 da Constituição Federal ao inciso I do artigo 154 nela insculpido, impõe a observância de veículo próprio - a lei complementar. Inconstitucionalidade do inciso I do artigo 3. da Lei n. 7.787/89, no que abrangido o que pago a administradores e autônomos. Declaração de inconstitucionalidade limitada pela controvérsia dos autos, no que não envolvidos pagamentos a avulsos.

No caso em tela, a definição de terrenos e acrescidos de marinha já constava, quando da promulgação da atual Constituição, do Decreto-Lei n. 9.760/46, segundo o qual:

Art. 1º Incluem-se entre os bens imóveis da União: a) os terrenos de marinha e seus acrescidos; [...]

c) os terrenos marginais de rios e as ilhas nestes situadas na faixa da fronteira do território nacional e nas zonas onde se faça sentir a influência das marés; [...]

Art. 2º São terrenos de marinha, em uma profundidade de 33 (trinta e três) metros, medidos horizontalmente, para a parte da terra, da posição da linha do preamar-médio de 1831: a) os situados no continente, na costa marítima e nas margens dos rios e lagoas, até onde se faça sentir a influência das marés;

b) os que contornam as ilhas situadas em zona onde se faça sentir a influência das marés. Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo a influência das marés é caracterizada pela oscilação periódica de 5 (cinco) centímetros pelo menos, do nível das águas, que ocorra em qualquer época do ano.

Art. 3º São terrenos acrescidos de marinha os que se tiverem formado, natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em seguimento aos terrenos de marinha.

Art. 4º São terrenos marginais os que banhados pelas correntes navegáveis, fora do alcance das marés, vão até a distância de 15 (quinze) metros, medidos horizontalmente para a parte da terra, contados desde a linha média das enchentes ordinárias.

Note-se que o conceito não comporta qualquer incompatibilidade com a atual Constituição ou com o pacto federativo. Não se trata de atribuir à União, diante da influência das marés, rios ou cursos d'água definidos constitucionalmente como estaduais; trata-se, isso sim, de definir como federais os terrenos marginais a tais corpos d'água, terrenos esses que não pertencem, em princípio, a qualquer Ente Político (salvo se por outra disposição

constitucional ou por aquisição a justo título). Note-se: são bens diversos o rio e seus terrenos marginais, podendo um e outros pertencer a Entes ou pessoas diferentes.

Não sendo, pois, inconstitucional a definição de terrenos de marinha e seus acrescidos, ao menos do que se refere às margens dos rios influenciados pelas marés, há que se considerar que é ela quem dá conteúdo à expressão trazida no art. 20, inc. VII, da CF/88, devendo ser adotada, inclusive, na hipótese de rios cujo domínio seja atribuído ao Estado - como no caso em tela.

Aliás, a possibilidade de constituírem terrenos e acrescidos de marinha imóveis localizados às margens de rios estaduais não é tema novo nesta Corte e no próprio STJ. Há, aí, jurisprudência majoritária a considerar de propriedade da União, exemplificativamente, terrenos marginais ao Rio Tramandaí, que se encontra, ao que parece, em situação análoga à do Rio Itajaí-Açú, uma vez que também conta com nascente e foz dentro do território estadual (naquele caso, dentro do território do Estado do Rio Grande do Sul). Nessa linha, os seguintes arestos:

ADMINISTRATIVO. TERRENO DE MARINHA. ART. 2º, "A", DO DECRETO-LEI N.º 9.760/46. EFEITOS.

1. O imóvel em questão se constitui em terrenode marinha ou acrescido de marinha, porque, historicamente, esteve situado nas margens de um braço ("morto") do rio Tramandaí, em parte onde, segundo a perícia, se fazia "sentir a influência das marés". É o teor do Decreto- Lei 9.760/46: 'Art. 2°-São terrenos de marinha, em uma profundidade de 33 (trinta e três) metros, medidos horizontalmente, para a parte da terra, da posição da linha do preamar- médio de 1831: a) Os situados no continente, na costa marítima e nas margens dos rios e lagoas , até onde se faça sentir a influência das marés; b) Os que contornam as ilhas situadas em zona onde se façam sentir a influência das marés. Parágrafo Único- Para efeitos deste artigo a influência das marés é caracterizada pela oscilação periódica de 5 (cinco) cm pelo menos do nível das águas, que ocorra em qualquer época do ano. Art. 3° - São terrenos acrescidos de marinha os que tiverem formado natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em seguimento aos terrenos de marinha.' O recorrente sustenta que a perícia está equivocada, porque a influência das marés é menor do que a dos fenômenos meteorológicos (chuva e vento). Entretanto, o argumento não colhe, uma vez que a lei não exige que a influência das marés seja a maior de todas. A lei exige apenas que a influência das marés seja sentida. E isto é, fora de qualquer dúvida. De outra parte, com o devido acatamento, é irrelevante que o rio Tramandaí seja estadual. Mesmo sendo estadual, federais serão os terrenos que estiverem situados as suas margens "até onde se faça sentir a influência das marés" (art. 2°, a, do DL 9.760/46). Como se vê, a propriedade do rio não impede que os terrenos a sua margem sejam da União. Merece destaque que não há qualquer inconstitucionalidade neste diploma legal que, apesar de vigente há mais de meio século, nunca teve sua inconstitucionalidade reconhecida por qualquer Corte do País. Ademais, não vislumbro qualquer incongruência dele com as constituições que lhe foram e são contemporâneas. Aliás, tal incongruência não foi demonstrada, também, neste feito. E finalmente, não merece ser acolhido o argumento de que o título de domínio do recorrente não possa ser desconsiderado nesta ação, por força da lei especial. É que em se tratando de próprios federais não se pode invocar a legislação geral, inclusive dos registros públicos, quando tais imóveis são regidos pela legislação especial. A respeito dispõe o art. 198 do Decreto-lei em exame: 'Art. 198- A União tem por insubsistentes e nulas quaisquer pretensões sobre o domínio pleno de terrenos de marinha e seus acrescidos, salvo quando os originais em títulos por ela outorgados na forma do presente Decreto-lei. " A hipótese é, pois, de nulidade absoluta do título de propriedade privada e, pois, pode ser reconhecida e declarada, incidentalmente, em qualquer demanda. 2. Provimento dos embargos infringentes.

(TRF4, EINF n. 94.04.55396-4, Segunda Seção, Relator Desembargador Federal Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, D.E. de 30/10/2009, grifo nosso)

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM EMBARGOS INFRINGENTES. TERRENOS DE MARINHA E ACRESCIDOS. ÁREA DO ANTIGO "BRAÇO MORTO" DO RIO TRAMANDAÍ. ART. 535 CPC. FUNDAMENTAÇÃO. OMISSÃO EXISTENTE. VOTO VENCIDO. DESPICIENDA A JUNTADA.

1. A definição de "terrenos de marinha", consta do art. 2º, do Decreto-Lei 9.760/46, diploma recepcionado pela Constituição vigente, tendo, por isso, plena vigência, pois nos termos desta, de acordo com o que consta do seu art. 20, VII, são bens da União os terrenos de marinha e seus acrescidos, regra originada de princípios imemoriais que sempre nortearam o comportamento administrativo, princípios de direito histórico relacionados à defesa nacional, à vigilância da costa e à construção e exploração de portos, tanto que não houve declaração de inconstitucionalidade, por qualquer tribunal.

2. Os imóveis objeto de incidência e cobrança de taxas de ocupação pelo Serviço de Patrimônio da União, nos casos de Tramandaí e Imbé, situam-se dentro da faixa demarcada, em processos administrativos previstos no Decreto-Lei Nº 9.760/46, na Seção II, artigos 9º a 14, da competência do referido SPU, através dos Processos Administrativos nºs 1085.000240/A - 1972 e 1085.000240/B - 1972, os quais foram concluídos em 1974, atos estes que gozam de todos os atributos comuns aos atos administrativos, quais sejam, presunção de legitimidade, imperatividade, exigibilidade e executoriedade.

3. Vale dizer que os registros de propriedade não têm o condão de afastar as cobranças em questão, pois a transcrição do título no registro de imóveis tem presunção juris tantum e é inoponível à União, que possui o domínio dos terrenos de marinha por força de disposição constitucional, independentemente do registro.

4. Basicamente, as ações têm por objetos imóveis situados sobre o antigo braço morto do Rio Tramandaí em Imbé, ou situados ao longo das margens do mesmo rio, tanto no lado do Município de Tramandaí, quanto no do Município de Imbé, estes que, mesmo distantes do Oceano Atlântico, sofreriam a influência das marés, e caberia, fosse o caso, aos demandantes produzir prova conclusiva no sentido de que os seus imóveis não se encontravam abrangidos pela demarcação. Essa prova, no entanto, não foi produzida.

5. Ainda que se admitisse levar em conta ser ou não ser o referido rio, propriedade do Estado do Rio Grande do Sul, relevanotar que, a despeito de não ter havido exame meritório propriamente dito acerca da celeuma instalada em torno destes imóveis, por parte do Superior Tribunal de Justiça, o que tem sido mantida naquele Pretório é a legalidade do processo demarcatório, mesmo tendo se baseado em vetusto ordenamento, o referido Decreto-Lei 9.760/46, este que também remete a linha de preamar média de 1831.

6. Mas, se o próprio Superior Tribunal de Justiça legitimou a demarcação, com base no dito Decreto-Lei, que em seu art. 2º, estabeleceu o suporte fático da incidência da taxa de ocupação, definindo os terrenos de marinha como sendo os existentes "em uma profundidade de 33 (trinta e três) metros medidos horizontalmente, para a parte da terra da linha do preamar médio de 1831: a) os situados no continente, na costa marítima e nas margens dos rios e lagoas, até onde se faça sentir a influência das marés", e sendo incontroverso que esta influência se estende por todo o nível do rio Tramandaí, até cerca de 01 (um) quilômetro após a sua desembocadura na lagoa de Tramandaí, de acordo com inúmeros estudos já realizados, há que ser mantida a sentença.

7. Ademais, não seria viável a impugnação ao procedimento de demarcação, inclusive quanto à delimitação da posição da linha do preamar de 1831, por encontrar-se acobertado pela prescrição, considerando que o procedimento começara por volta de 1971 e terminara em

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