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4.4 DECISÕES JUDICIAIS A RESPEITO DO TEMA

4.4.3 Agravo Interno n 0301203-84.2015.8.24.0023, da Capital

No âmbito do egrégio Tribunal de Justiça de Santa Catarina, pode-se identificar a vinculação ao regime de precedentes, conforme previsão do Código de Processo Civil de 2015. Na hipótese, a seguir ementada, constata-se a orientação segundo precedente do colendo Superior Tribunal Justiça, assim como a exposição acerca da impossibilidade da aplicação do distinguishing em razão da falta dos elementos para a sua configuração.

O acórdão foi proferido em 25 de julho de 2019, sendo relatora a Des. Sônia Maria Schmitz, assim ementado:

209 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 1.846.109, Fundação Saúde Itaú. Relatora:

Min. Nancy Andrighi. 13 de dezembro de 2019. Disponível em:

https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/inteiroteor/?num_registro=201902164745&dt_publicacao=13/12/2019. Acesso em: 13 jun. 2020.

210 BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da

República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 20 mar. 2020.

AGRAVO INTERNO. DECISÃO QUE NEGOU PROVIMENTO AO RECURSO DE APELAÇÃO DO ESTADO. ADOÇÃO DE TESE FIRMADA EM RECURSO ESPECIAL SUBMETIDO AO SISTEMA DE JULGAMENTO DE REPETITIVOS. AUSÊNCIA DE ELEMENTO DIFERENCIADOR. Inexistente o elemento diferenciador (distinguish) entre o presente caso e o precedente vinculante que conferiu embasamento à decisão monocrática, o agravo interno não reúne condições de prosperar para afastar a aplicação da tese firmada na decisão paradigma.211

A decisão trata de agravo interno interposto pelo Estado de Santa Catarina, sob o argumento que a situação em comento e a debatida no precedente vinculante do colendo Superior Tribunal de Justiça, por meio do recurso especial nº 1.244.182212 são distintas, a exemplo do que ocorreu no Mandado de Segurança n. 4024727.82.2018.8.24.0000213. O recurso foi conhecido e desprovido, em razão de ter sido observado, no caso em tela, erro da Administração sem que houvesse contribuição do servidor na continuidade do pagamento, nem tampouco má fé. Não é adequada, desta forma, a aplicação da técnica de distiguishing como realizado no MS 4024727.82.2018.8.24.0000.

Abordadas as técnicas de superação dos precedentes judiciais, por meio do overruling e do overriding, os efeitos decorrentes da alteração dos precedentes, estudada a utilização do método de distinguishing e verificada sua relação com a manutenção da garantia da isonomia material, bem como analisadas algumas decisões pertinentes ao tema, a seguir serão expostas as conclusões decorrentes da temática.

211 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça. Agravo Interno nº 0301203-84.2015.8.24.0023/50000, Estado

de Santa Catarina. Relator: Des. Sônia Maria Schmitz. 25 de julho de 2019. Disponível em:

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212 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 1.244.182, Universidade Federal da Paraíba.

Relator: Min. Benedito Gonçalves. 10 de outubro de 2012. Disponível em:

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213 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça. Mandado de Segurança nº 4024727-82.2018.8.24.0000, Cleusa

Maria Cardoso. Relator: Des. Luiz Cézar Medeiros. 3 de dezembro de 2018. Disponível em:

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5 CONCLUSÃO

Um modelo adequado de precedentes judiciais normativos é capaz de garantir a previsibilidade, a uniformidade e a efetividade do ordenamento jurídico, em complemento às normas jurídicas e, assim, assegurar as prerrogativas da segurança jurídica e da isonomia material. A segurança jurídica é garantida pela uniformidade e estabilidade das relações jurídicas, enquanto a igualdade é preservada neste sistema, quando permite perfectibilizar tratamento isonômico às partes. Dessa maneira, tratar-se-á igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade, em conformidade com a proteção garantida constitucionalmente.

Na contemporaneidade, o foco exclusivo na lei, característica do sistema do civil law, como o Brasil, cede espaço à observação dos precedentes judiciais, de modo que a igualdade deve ser vislumbrada também em razão da interpretação e aplicação dos precedentes, em hipóteses fáticas concretas. O respeito à legislação abstrata remete à observância da isonomia formal, restrita ao tratamento igualitário perante a lei. A aplicação dos precedentes almeja superar essa perspectiva, de forma a atingir a isonomia material, uma vez que objetiva o tratamento igual para os que estão em situação análoga e, ao mesmo tempo, uma abordagem diferenciada para aqueles em que estiverem em situação diferenciada.

Para que essa premissa seja atingida, deve-se atentar para a importância da força das decisões judiciais como formadoras dos precedentes e, por conseguinte, detentoras de relevante função na uniformidade de tratamento igualitário aos jurisdicionados. Em um sistema jurídico estável, um juiz não pode ignorar as decisões tomadas em outros tribunais, seguindo apenas o seu entendimento. As decisões necessitam manter a uniformidade no tratamento do jurisdicionado e, além disso, precisam considerar que a resolução daquela demanda pode repercutir na solução de outras hipóteses fáticas em demandas semelhantes.

Diante da uniformidade e estabilidade das decisões judiciais proposta pelo regime de precedentes, poderia se entender, ainda que por hipótese, em um engessamento no poder decisório do magistrado ou, até mesmo, na aplicação da mesma solução para diferentes litígios sem observação de suas especificidades. Nesse sentido, o juiz teria que repetir o mesmo julgamento sem análise do caso concreto. No entanto, esse raciocínio não encontra fundamento, pois o magistrado deve realizar a análise daquele caso, considerando as particularidades de cada demanda e apenas utilizará o precedente, depois de fazer o confronto entre o paradigma e a hipótese em concreto.

Desta maneira, o magistrado não fica incondicionalmente atrelado ao uso do precedente, de modo que, para garantir a preservação da maleabilidade do sistema, existem técnicas de afastamento do precedente. A primeira é a revogação do precedente, que ocorre quando o entendimento já superado pelos tribunais, em razão de mudanças dos valores sociais ou na compreensão da sociedade jurídica, pode ser alterado e, assim, atualizado. O tribunal pode, inclusive, se o interesse social assim o exigir, modular seus efeitos. A segunda técnica é a distinção que permite o afastamento da aplicação do precedente, quando o caso em análise não se constituir em situação análoga ao paradigma.

A técnica de distinção permite o tratamento diferenciado do caso concreto, quando este apresentar particularidade não encontrada no precedente paradigma. Para a aplicação do precedente, é realizado o confronto entre a hipótese em julgamento e o precedente paradigma. Havendo similaridades relevantes, o precedente é aplicado, de forma que, em sentido contrário, ocorrendo especificidades da hipótese concreta, o precedente é afastado.

Verifica-se, portanto, em resposta à pergunta de pesquisa deste trabalho, que a técnica de distinção deve ser utilizada nas hipóteses em que houver diferenças materialmente substanciais, entre a situação paradigma e a demanda concreta em julgamento para, assim, preservar a garantia da isonomia material. O método de distinguishing é parte fundamental do sistema de precedentes, uma vez que possibilita a manutenção da premissa da garantia da isonomia material, pois esta prerrogativa poderia ser comprometida se todos os casos fossem julgados da mesma forma sem atenção às particularidades.

A posição da acadêmica a respeito da temática é a de que a aplicação dos precedentes normativos agrega ao sistema jurídico, e a técnica de distinção é elemento para a preservação da isonomia material, pois complementa o sistema, já que permite o tratamento de demandas desiguais de forma diferenciada. Pode-se destacar que o presente trabalho proporcionou importante aprendizado durante a sua construção, pois é um tema pouco desenvolvido e em expansão no direito brasileiro, com possibilidades reais de estabilidade e uniformidade das decisões judiciais. A temática permanece em constante atualização e o estudo poderia ser aprofundado, no sentido de verificar a diferença de entendimento nos tribunais pátrios com a vigência do Código de Processo Civil de 2015.

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