2 NOVA ECONOMIA INSTITUCIONAL
2.3 Agricultura Familiar e o Cooperativismo
A cooperação faz parte da sociedade desde os primórdios, muito cedo as pessoas passaram a sentir necessidade de se ajudar mutuamente. Para concretizar os assentamentos não foi diferente, a grande maioria teve de se unir e somar esforços para a conquista da terra. Mas ter a terra não basta é preciso produzir e comercializar de forma adequada. Nesse aspecto além da organização política, a solidariedade por meio da cooperação e ajuda mutua é necessário à organização social e econômica, neste sentido o cooperativismo é um dos instrumentos de organização dos agricultores familiares. Pinho (1966) ressalta que:
Cooperativismo no sentido de doutrina que tem por objeto a correção do social pelo econômico através de associações de fim predominantemente econômico, ou seja, as cooperativas; cooperativas no sentido de sociedades de pessoas organizadas em bases democráticas, que visam não só a suprir seus membros de bens e serviços como também a realizar determinados programas educativos e sociais. Trata-se [...] de sociedade de pessoas e não de capital, sem interesse lucrativo e com fins econômico- sociais. (PINHO, 1966, p. 7-8).
O cooperativismo tem mostrado ser uma forma socioeconômica bem atraente para suprir o papel institucional no processo de comercialização. No entanto, o êxito social e econômico da cooperativa depende da capacidade efetiva dessa organização em prestar serviços que atendam aos anseios dos associados. A empresa capitalista tem como objetivo principal gerar lucros para remunerar o capital dos investidores. Se a empresa não tiver perspectivas de gerar bons resultados o
negócio não interessa, mesmo que possa ser útil para a região ou comunidade envolvida. Este tipo de empresa busca a eficiência máxima como seu fim. Para a cooperativa a meta final é torna-se eficaz, procurando prestar bons serviços aos associados. Ela busca a integração do econômico com o social. Schneider (1991), ao tratar deste assunto, assim se expressa:
Como organização de dupla finalidade, simultaneamente econômica e social, não pode empenhar-se somente em prol do êxito econômico e financeiro, mas deve visar especialmente à concretização de seus objetivos sociais de melhor realização e participação decisória do quadro social e dos seus funcionários. Os dirigentes [...] usaram frequentemente as técnicas modernas de gestão com a única perspectiva de visar o êxito econômico e financeiro, porque mais atraente, mais palpável e mensurável estatisticamente, esquecendo-se de o fazer em função das características próprias do cooperativismo que deve usar os instrumentos econômicos como meios para a realização de seus objetivos sociais (SCHNEIDER, 1991, p. 65).
O desenvolvimento da sociedade cooperativa não deve ser entendido como um fenômeno simplesmente econômico, sem se importar com a questão social e cultural do cooperado. A mesma realiza plenamente seus propósitos quando consegue atender aos anseios econômicos e sociais dos cooperados. A esse respeito Valadares (1995), comenta:
Sua natureza econômica se afirma quando propõe uma forma particular de articulação dos fatores de produção [...], que exclui relações de exploração capitalistas. Por outro lado, sua natureza social se afirma na medida em que busca superar a dominação mediante a geração de uma capacidade de resposta coletiva embasada na canalização da participação de seus membros associados (VALADARES,1995, p. 24).
Conforme Schneider (1991) participação social e econômica dos cooperados na organização vem se fragilizando. Na origem do cooperativismo a necessidade fazia as pessoas se comprometer na busca do êxito da cooperativa. Segundo o autor atualmente essa não é mais a regra e como principais fatores desse desinteresse aponta seis motivações de interesse e ideológicas, sendo: o progresso material com elevação do nível de vida, fazendo com que os benefícios gerados pelas cooperativas sejam menos percebidos; as múltiplas escolhas de serviços disponíveis na atualidade, o que faz a cooperativa não ter mais o mesmo nível de importância do passado; a limitação das cooperativas pela concorrência de
empresas capitalistas cada vez maiores e complexas; a economia abundante e a cultura voltada ao consumismo, pouco favorável ao processo de cooperação; a possibilidade de acesso ao conforto, às informações e ao lazer sem necessidade de grande esforço e cooperação cria atitudes de passivas e de acomodação; e no aspecto ideológico empresas por meio do controle dos meios de comunicação social estimulam o individualismo e o consumismo, contrários a qualquer proposta cooperativa.
Para Claro e Santos (1998) a forma que os agricultores interagem bem como a própria existência das organizações (associações, cooperativas) são reflexos do ambiente institucional em que atuam. Os autores apontam que diante da dinâmica atual existente no mercado há necessidade constante das organizações se fortalecerem e para tanto, devem buscar “...uma força maior (...) ligada a novos arranjos organizacionais (...) caracterizados pelos tipos de transações entre os atores que estejam envolvidos em uma atividade econômica” (CLARO; SANTOS, 1998, p. 18). Neste sentido ressaltam a importância das soluções cooperativas para melhorar o desempenho dos atores envolvidos nas transações.
Para Benecke (1980) a consecução dos objetivos econômicos exige a racionalização dos processos nas atividades produtivas para enfrentar a concorrência. Para o autor a cooperativa cria condições para a “racionalização de processos produtivos, reduzindo-se os custos que são ou seriam necessários em caso de uma operação individual” (BENECKE, 1980, p. 139).
Zylberstajn (2005) observa que um dos fatores de análise sobre solidez da cooperativa é sua capacidade de intervenção no mercado. O autor, com base em Cook (1995) e Bialoskorski Neto (2005) ressalta que há, no Brasil, cinco problemas comumente enfrentados pelas cooperativas, sendo eles:
a) De horizonte – os projetos de longo prazo encontram dificuldades de aprovação, pois é comum os cooperados terem interesses de curto prazo, pois em geral são imediatistas;
b) De incentivos – ocorre quando há espaço para o agricultor se comportar de forma oportunista, tornando-se um carona (free rider) busca tirar vantagens para si. Exemplo deste processo quando o cooperado comercializa a produção com terceiros em situação vantajosa, em detrimento aos compromissos assumidos com a cooperativa;
c) De portfólio – está atrelado ao primeiro problema, ou seja, horizonte de curto prazo e a dificuldade de acesso a crédito o que dificulta investimentos, para ampliar a participação na cadeia produtiva (industrialização, a marca, entre outros). Assim geralmente cooperativa ficam restritas a captação e processamento básico da produção;
d) De controle – pode ocorrer pelo fato das decisões estratégicas da cooperativa e o processo de acompanhamento e controle serem feitos pelo mesmo ator (cooperado);
e) De influência – ocorre devido o processo de composição da diretoria executiva, uma vez que pode refletir mais os aspectos da articulação política do que a capacidade de gestão.
Zylberstajn com base na NEI aponta quatro questões estratégicas a serem trabalhadas pelas cooperativas para superar seus principais gargalos, ou seja, “os mecanismos de capitalização, o problema da fidelização do cooperado, a governança corporativa cooperativa, e a internacionalização das organizações cooperativistas” (ZYLBERSTAJN, 2005, p. 56). A respeito da fidelização o autor observa que a cooperativa realiza seus investimentos a partir da expectativa e demanda do associado. Quando este comercializa a produção com outra empresa põe em risco a capacidade competitiva da cooperativa.
Bialoskorski Neto (2005) lembra que atitudes egoístas podem ser atenuadas quando há alguma política de incentivo na cooperativa. O autor aponta que “o cooperado pode apresentar uma ação de oportunismo contratual, pelo fato de ser agente principal da mesma relação contratual e, frequentemente, poder objetivar seu próprio bem-estar em detrimento da eficiência da cooperativa” (BIALOSKORSKI NETO, 2005, p. 82).
Bialoskorski Neto (2005) e Zylberstajn (2005) sugerem três formas de estimular fidelização do cooperado: os incentivos econômicos; o estabelecimento de bônus; e ainda a elaboração de contratos para as transações, contendo direitos, obrigações e responsabilidades.
Para minimizar a prática do carona nas cooperativas Pivoto et al. (2013) apud Olson (2007) sugerem duas estratégias para minimizar o problema, ou seja reduzir o oportunismo dos cooperados. A primeira estratégia proposta é criar restrições aos benefícios coletivos e a segunda criar incentivos que deem recompensa para os associados ativos e punições aos que não colaboram. O autor propõe como
estratégias “a fidelização por meio de preço, comunicação com o cooperado, contratos de obrigatoriedade de entrega, mecanismos de diferenciação de entrega e educação cooperativista”. Pivoto et al. (2013, p. 112). Esses mecanismos muitas vezes são necessários para equilíbrio da cooperativa, pois os custos acabam onerando aqueles que efetivamente comercializam via a cooperativa. Nessa perspectiva Pivoto et al., também apontam que:
As cooperativas podem investir na valorização da quota parte do cooperado, na distribuição de sobras, nos prêmios de fidelidade e no acesso a assistência técnica como estratégias de fidelização. Com essas estratégias, o cooperado percebe que a venda de seu produto à cooperativa lhe renderá benefícios além do preço percebido pelo produto (PIVOTO ET
AL., 2013, p. 113).
Segundo os autores essa é uma das estratégias que as cooperativas precisam desenvolver melhor. Demonstrar que, diferente da empresa, a relação do agricultor com a cooperativa não acaba no ato comercial, ou no pagamento do produto vendido, mas que há uma série de benefícios econômicos e sociais que precisam ser levados em conta para no final se analisar qual de fato foi o melhor resultado.
3 METODOLOGIA E TÉNICAS DE PESQUISA
O presente trabalho se baseou em estudo de caso, sendo para tal utilizada a estratégia da pesquisa exploratória por meio da utilização de ferramentas quanti- qualitativas. O objetivo dessa proposta metodológica foi coletar informações junto a agricultores familiares, a respeito dos mercados em especial o mercado institucional e a importância, ou não, da organização socioeconômica para compreender as estratégias de comercialização adotadas pelos agricultores familiares analisando os canais de comercialização e arranjos comerciais construídos.