3. Base Conceitual
3.5. Ajustes no Cálculo do EVA®
Existe uma distância entre as informações publicadas na demonstração contábeis,
que devem seguir as normas e princípios contábeis18, e o que de fato acontece na rotina
de uma empresa. Desta forma, é fundamental a realização de alguns ajustes contábeis para o cálculo do EVA®, justamente para oferecer as informações corretas para que gestores tomem as decisões que maximizem o valor da companhia. A consultoria Stern Stewart & Co. identificou cerca de 160 possíveis ajustes em uma demonstração contábil tradicional, com a finalidade de separar o que é de forma objetiva que pertence as atividades operacionais, daquelas não operacionais e financeiras. Ao customizar o EVA® é importante que os ajustes sejam: materiais, disponíveis, de fácil compreensão, e
18GAAP: Generally Accepted Accounting Principles e/ou IFRS: International Financial Reporting
correlacionados com o valor de mercado da empresa. A seguir, seguem alguns exemplos de ajustes (Ehrbar, 1999, p.131-142):
Pesquisa e desenvolvimento (P&D): A contabilidade trata como uma despesa corrente e consequente reduz o lucro operacional. Economicamente os gestores enxergam gastos como pesquisa e desenvolvimento como um investimento. Desta forma, a metodologia do EVA® sugere capitalizar os gastos em P&D e amortiza- los ao longo de um período determinado, com o objetivo de gerar o incentivo correto para os gestores investirem em P&D;
Investimentos estratégicos: O EVA® sugere separar o capital investido em ativos “em operação” e “em construção”. Apenas os ativos “em operação” formaram o capital para cálculo do EVA®, já os ativos “em construção” ficaram em conta suspensa até que comecem a operar. Isto é investimento estratégico com memória, pois estende os horizontes dos gerentes e os encoraja a considerar oportunidades com resultados futuros. Os projetos estratégicos devem ser acompanhados individualmente de forma a garantir o VPL esperado;
Contabilização de aquisições: Quando uma empresa adquire outra e utiliza o método contábil de compra para registrar a transação, tudo que pagam em excesso ao valor justo dos ativos da empresa adquirida entra no balanço como ágio pago em aquisições ou goodwill. O tratamento econômico correto é amortizar o ágio ao longo de sua vida econômica estimada, e incluir no cálculo do capital investido. Os acionistas esperam que a empresa produza retorno sobre o preço de aquisição, incluindo o ágio, que seja igual ou maior do que o custo de capital;
Lançamento de despesas: O tratamento contábil para gastos como: marketing, propaganda e treinamento, é o lançamento como despesas correntes deduzindo assim o lucro operacional. A alocação contábil penaliza o gestor que decide aumentar os gastos em promoção e propaganda na expectativa de aumentar o
market-share e o fluxo de caixa futuro. Desta forma, o EVA® sugeri capitalizar
esses gastos e amortiza-los por um período determinado, exatamente como se fossem um investimento;
Depreciação: A maioria das empresas utiliza a depreciação linear de instalações e equipamentos utilizada na contabilidade. Embora a depreciação linear não procure equiparar a depreciação econômica efetiva de ativos físicos, os desvios normalmente são desprezíveis que não chegam a distorcer a tomada de decisões.
Isto não é verdade, entretanto, no caso de empresas que possui quantidades significativas de equipamento com vida longa. Nesses casos, a utilização de depreciação linear no cálculo do EVA® pode criar forte tendência contra novos investimentos e manutenção de equipamentos. A sugestão é a substituição por uma depreciação de fundo de amortização, mais próxima da econômica, como se fosse um arrendamento;
Encargos de reestruturação: Na visão contábil é o reconhecimento no resultado de um investimento que não deu certo, porém na visão de um executivo o gasto com reestruturação é a redistribuição de capital com a finalidade de melhorar lucratividade contínua através da redução de prejuízos contínuos decorrentes de erros passados. O tratamento pelo EVA® foca no aumento de valor para acionista, transformando as reestruturações em oportunidades capazes de melhorarem os resultados da empresa;
Impostos: A medição errônea de impostos surge porque as empresas calculam os seus lucros antes dos impostos de uma forma para o acionista e de outra para Receita Federal. A depreciação é maior diferença entre os dois conjuntos de registro contábeis, empresas utilizam a depreciação acelerada de ativos fixos no cálculo do lucro fiscal e uma depreciação com cronograma mais lento para os
lucros que informam para os acionistas. Por conseguinte, o valor apurado de
imposto no demonstrativo de resultado da empresa é diferente do que ela efetivamente paga ao fisco, e o resultado dessa diferença é lançado no balanço patrimonial na conta imposto diferido. O ideal é que o cálculo do EVA® considere apenas os impostos pagos, e que o valor de impostos diferido seja retirado do NOPAT e do capital; e
Ajustes ao balanço: Um ajuste que muitas empresas fazem para o cálculo do EVA® é retirar do balanço o saldo de investimentos em empresas não controlas, pois não representam capital utilizado na produção dos lucros operacionais. Além disto, faz necessário não incluir o resultado com equivalência patrimonial do NOPAT. As empresas, também, devem recolocar em seus balanços itens que estejam fora dele, como o caso de arrendamento não-capitalizado e contas a receber securitizadas.
Não há um consenso de quais ajuste devem ser utilizados. Incialmente é importante entender o negócio, cultura e maturidade de cada organização para definição
de quais ajustes serão realizados, desde que equilibre a compensação entre simplicidade, facilidade de ser calculado e compreendido, e precisão, exatidão com que captura o verdadeiro lucro econômico (Ehrbar, 1999, p. 132). O foco é dar o incentivo correto para os gestores tomarem decisões como se fossem acionistas.