2. O PERFIL DOS ALUNOS
2.3 Os participantes
2.3.1 Alice e a maturidade para ler certos livros
Alice tem entre 19 e 23 anos, cursou Letras e trabalha como professora de língua inglesa em um curso livre. Quando questionada se costumava desenvolver atividades de leitura com seus alunos, explicou que sim, no entanto “as atividades de leitura são restritas, visto que a escola de idiomas tem um método de ensino já elaborado, não oferecendo oportunidades de ampliar as atividades”. No que se refere a ler em uma língua estrangeira, “[...] nós [professores] podemos não reconhecer a complexidade da leitura porque, como leitores proficientes, nós frequentemente tomamos como certa essa habilidade, assumindo que os processos de leitura são automáticos” (FERRIS; HEDGCOCK, 2009, p. 2)18
. Mas não são. Ler em língua materna (L1) já é uma atividade altamente complexa que requer a interação de muitos fatores, dentre os quais citamos o texto, o propósito da leitura e o próprio leitor. Quando se fala em leitura em língua estrangeira (L2), o desafio pode se tornar ainda mais difícil.
Basicamente, são as seguintes as diferenças entre ler em L1 e ler em L2, as quais tornam a leitura em uma segunda língua um processo mais complexo (GRABE; STOLLER, 2002; HUDSON, 2007; KODA, 2004 apud FERRIS; HEDGCOCK, 2009, p. 33):
- ler em uma L2 necessita de conhecimento linguístico explícito;
- pode ocorrer no ambiente em que a L1 é falada, tendo como consequência o fato de que não é necessário ler na L2 no dia a dia, com pouca exposição a materiais impressos nessa língua; - necessita que o leitor domine um novo sistema linguístico, com a consequente transferência de um para outro, a qual pode ser tanto positiva quanto negativa;
- pode ocorrer na infância, na adolescência ou na maturidade, frequentemente simultaneamente à aprendizagem de outras habilidades nessa L2, como fala, audição, escrita e gramática, processo esse que não ocorre na L1, quando a criança aprende a ler somente depois de muita exposição oral à sua língua materna;
- pode ser percebido como mais desafiador cognitiva e metacognitivamente do que o aprendizado de leitura em L1, dando a impressão de incompletude a alguns aprendizes.
Os cursos livres de línguas estrangeiras possuem, cada um, sua fórmula pronta para ensinar, a qual defendem como sendo a melhor dentre todas as outras. Essa fórmula ou método deve ser aplicado ipsis literis em um determinado período de tempo, e se isso não ocorrer pode comprometer o progresso do aluno para o próximo nível. Entendo a dificuldade de promover mais atividades de leitura dentro dessa estrutura já dada e pouco flexível, que
18
ainda conta com toda a complexidade que configura a aprendizagem de uma língua estrangeira.
Alice afirmou ler revistas eletrônicas semanalmente, e citou os seguintes títulos: Veja, Exame, Superinteressante, Pequenas Empresas Grandes Negócios, Época, Nova Escola e Bula. Também afirmou ler livros impressos diariamente, citando os títulos que leu mais recentemente: O adolescente, de Dostoéviski, O rei de amarelo, de Robert William Chambers, O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós e O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino. Ela também afirmou ler livros eletrônicos mensalmente, como A revolução dos
bichos, de George Orwell, e livros teóricos relacionados a teorias de aprendizagem. Os livros
que Alice afirmou ler são todos pertencentes ao cânone literário19. Antes da aplicação desse
questionário, foi deixado claro aos sujeitos que eles poderiam ser totalmente sinceros com relação a seus hábitos de leitura ou de não leitura, pois eles não seriam identificados no questionário nem avaliados por suas respostas. Isso foi feito para evitar ao máximo o problema de legitimidade levantado por Pierre Bourdieu (CHARTIER, 1996, p. 236):
[...] as declarações concernentes ao que as pessoas dizem ler são muito pouco seguras em razão daquilo que chamo de efeito de legitimidade: desde que se pergunta a alguém o que ele lê, ele entende: que é que eu leio que merece ser declarado? Isto é: que é que eu leio de fato de literatura legítima? [...] E o que ele responde, não é o que [...] lê verdadeiramente, mas o que lhe parece legítimo naquilo que lhe aconteceu ter lido [...].
O percurso subjetivo da formação de Alice como leitora pode ser observado a partir de sua resposta quando instada a citar algum fato, sujeito, objeto, espaço, prática, experiência ou rotina que tenha sido relevante para sua história como leitora: no ensino fundamental, participou de projetos como contadora de histórias e, no magistério, estudou literatura infantil, o que afirmou ter aguçado seu interesse pela leitura.
Ao ser solicitada a indicar um livro que a tivesse interessado ou sensibilizado em particular, Alice citou Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, pela seguinte razão:
No primeiro semestre da faculdade fui instigada a ler tal obra, mas não obtive sucesso, achei confusa e não consegui ler. Alguns semestres depois, voltei ao livro e me apaixonei. Essa leitura me mostrou que precisamos estar preparados para receber algumas obras.
Daniel Pennac (1993, p. 150), em seus “direitos imprescritíveis do leitor”, afirma que “existem trinta e seis mil razões para se abandonar um livro antes do fim”, mas uma em
19 Neste trabalho, o processo de leitura não é visto apenas sob o viés de obras consideradas pertencentes ao
cânone literário, mas sim inclui obras de cunho ficcional e não ficcional que fazem parte de uma definição de literatura mais abrangente, incluindo textos como os best-sellers, por exemplo.
particular merece ser mencionada: um vago sentimento de perda. Esse sentimento se desdobra da seguinte forma: o leitor abre o livro, lê, discute com o texto, mas não consegue ir adiante, nem retirar nada dali, ficando com a impressão de que a obra merece ser lida, embora esteja experimentando um “estranhamento” que repele a leitura. Então, o leitor deixa o livro de lado com um plano impreciso de tentar lê-lo novamente algum dia (PENNAC, 1993, p. 151).
Ainda segundo o mesmo autor,
A noção de “maturidade” é coisa estranha em matéria de leitura. Até uma certa idade, não temos idade para certas leituras. [...] E quando nos acreditamos suficientemente “maduros” para lê-los [os bons livros], nós os atacamos mais uma vez. Então, das duas uma: ou o reencontro acontece ou é um novo fiasco (PENNAC, 1993, p. 151).
Para Alice, seu reencontro com Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, aconteceu algum tempo depois e foi muito recompensador, pois ela afirmou apaixonar-se pelo livro. Quando Alice decidiu reler a obra, seu percurso como leitora já havia sido ampliado por outras experiências de leitura nesses semestres de intervalo no curso de Letras, os quais ela menciona em seu depoimento, o que contribuiu para seu amadurecimento como leitora. Houve, efetivamente, a formação do leitor, em um processo no qual sua subjetividade foi transformada, o que, por sua vez, proporcionou uma outra leitura do texto, desta vez com plena fruição. Pode-se ratificar esse fato também por sua resposta analisada anteriormente, na qual disse ter lido livros impressos em uma frequência diária e citou os cinco livros que leu recentemente, todos pertencentes ao cânone literário.