2. O PERFIL DOS ALUNOS
2.3 Os participantes
2.3.3 Beatriz e o direito a ultrapassar o Bovarismo
Beatriz está na faixa etária dos 39 aos 43 anos e é pedagoga. Trabalha 40 horas semanais em duas escolas municipais no Ensino Fundamental, leciona língua portuguesa para
os anos 6º, 7º e 8º e também trabalha com um projeto de leitura. Em sua história de leitora, Beatriz foi influenciada por sua mãe e sua tia, que liam romances das séries “Júlia”, “Sabrina”, “Bianca” e outros, e, desde pequena, teve “a compreensão de que ler era um ato prazeiroso” (sic). Dentre os livros impressos lidos mais recentemente, citou dois livros espíritas: A mansão da pedra torta, de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, psicografista e Antônio Carlos, espírito; Atlântida, de Roger Bottini Paranhos e um juvenil, Por que Indiana,
João?, de Danilo Leonardi. Com relação a livros eletrônicos lidos recentemente, citou o best- seller 50 tons de cinza, de E. L. James. Um livro que a sensibilizou em particular foi Como eu era antes de você, de Jojo Moyes, pois afirmou não fazer parte da sua concepção de vida, de
seus dogmas religiosos e não gostou do final da história.
Esse pequeno excerto da vida leitora de Beatriz nos faz observar a presença constante de best-sellers desde sua infância – via a mãe e a tia os lerem e terem prazer com essa leitura – até a idade adulta, quando tem o livre arbítrio de os escolher para ler. Beatriz parece ter ficado “encurralada” entre esses títulos, para usar uma expressão de Michèle Petit (2008, p. 175). Pude inferir que faltou a presença de um mediador de leitura - ainda segundo Petit (2008, p. 175) - daquele que “ajuda a ultrapassar os umbrais em diferentes momentos do percurso [...]. Aquele que dá a oportunidade de fazer descobertas, possibilitando mobilidade entre os acervos [...] para que [o leitor] tenha acesso a universos de livros diversificados [...]”. A antropóloga francesa também admite que “[...] são os efeitos da moda”, e que “[...] os best-
sellers permitem ‘desenferrujar’ os olhos e há mesmo alguns de qualidade que permitem
soltar a imaginação, jogar com as palavras. Podem ser também um pretexto para compartilhar, para conversar. Portanto, não sejamos puritanos” (PETIT, 2008, p. 175). Vão ao encontro dessas ideias as de Daniel Pennac (1993, p. 141) em seus “direitos imprescritíveis do leitor”, nos quais estão “o direito de ler qualquer coisa” e “o direito ao bovarismo”. Há, de acordo com Pennac (1993), o que se pode chamar de “literatura industrial”, a qual reproduz infinitamente uma narrativa igual a outra, fabricando estereótipos em cadeia, comercializando sentimentos e sensações fortes, dando à luz ficções de circunstância, provenientes do estudo do mercado, para, de acordo com a conjuntura do momento, colocar à venda um certo tipo de produto com capacidade para entusiasmar um certo tipo de leitores. O autor afirma ter passado por essa fase da leitura de “maus romances”, lembra de tê-los achado “terrivelmente bons” e que, por sorte, não foi criticado por isso (PENNAC, 1993, p. 154 – 155). Depois, passou a ler os bons e os maus romances simultaneamente, pois os maus não lhe foram proibidos e os bons foram deixados a seu alcance em seus locais de passagem: “Passa-se de
Sabrina e Julia (histórias de belos doutores e de louváveis enfermeiras) a Boris Pasternak e a
(PENNAC, 1993, p. 156). Em conceder ao leitor o “direito ao bovarismo”, Pennac (1993, p. 157) deixa-o livre para satisfazer suas sensações imediata e exclusivamente:
a imaginação infla, os nervos vibram, o coração se embala, a adrenalina jorra, a identificação opera em todas as direções e o cérebro troca (momentaneamente) os balões do cotidiano pelas lanternas do romanesco. É nosso primeiro estado de leitor, comum a todos.
De acordo com Jouve (2002, p. 129), os best-sellers possuem a habilidade de fornecer aos leitores não uma experiência que os desestabiliza, mas sim “uma confirmação daquilo que acreditam, daquilo que sabem e esperam”. O leitor, ao compartilhar antecipadamente os mesmos valores que o herói, não passa por uma transformação nesse contato, pois sabe que a história terá um final feliz, e, assim, poderá manter a mesma imagem de si mesmo, mesmo que esta seja ilusória. Ao expressar seu desgosto com o best-seller Como eu era antes de
você, de Jojo Moyes, Beatriz não rompe com suas normas de leitura, pelo contrário, apenas as
ratifica, pois
a rejeição absoluta de um personagem inassimilável tem também como resultado confortar o leitor em suas escolhas ideológicas na base de sua identidade. Pensamos aqui no caso muito particular das leituras em que o protagonista é a tal ponto estranho ao leitor que a identificação não pode funcionar. O sujeito que lê, longe de aceitar o papel previsto pelo romance, revolta-se. É claro que tal processo é involuntário da parte da narrativa e se apoia numa perversão dos mecanismos textuais que funcionam a contrário. O interessante é que, mais uma vez, a leitura acaba numa confirmação de si: a recusa espontânea de identificação e a revolta que a acompanha levam o leitor a fechar o livro (JOUVE, 2002, p. 130).
Neste caso, Beatriz não fechou o livro, leu-o até o fim, mas não apreciou a leitura porque, segundo ela mesma, a narrativa foi de encontro à sua concepção de vida e a seus dogmas religiosos.
A figura de um mediador sensível poderia (ou poderá) fazer com que Beatriz se permita transformar paulatinamente sua atitude leitora. A qualidade “sensível” aqui é imprescindível, pois “forçar a mão nesse estágio de suas leituras” significaria a quebra de uma relação e seu consequente afastamento (PENNAC, 1993, p. 158). A não proibição da leitura de “maus” romances com a oferta de “bons” romances, ou mesmo uma abordagem diferenciada de todos os tipos de textos em sala de aula – o que é defendido nesse trabalho – pode desencadear o prazer de ler, que, por sua vez, pode levar à necessidade de leituras cada vez mais desafiadoras: “[...] crescemos como leitores quando somos desafiados por leituras progressivamente mais complexas” (COSSON, 2014, p. 35). Espero que Beatriz tenha a possibilidade de fazer isso, pois, além de leitora, ela é professora em um projeto de leitura e,
como foi demonstrado no capítulo anterior, a influência do professor é irrefutável na formação leitora de seus alunos.