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ALTERNATIVAS EM FILOSOFIA DA MENTE

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 79-94)

3 FILOSOFIAS DA MENTE

3.2 ALTERNATIVAS EM FILOSOFIA DA MENTE

metáfora computacional e funcionalismo

A abordagem da mente como um processo computacional formalizada por Putnam foi levada adiante por Jerry Fodor, que defendeu um funcionalismo buscando compreender a mente como um sistema lógico. Em 1975, ele apresenta uma concepção onde nossos estados mentais seriam estados simbólicos associados em uma forma de linguagem do pensamento, tal como uma linguagem de máquina, e os processos mentais seriam transformações lógicas destas cadeias de símbolos. O pensamento corresponderia então a uma operação de símbolos, entidades abstratas que não apresentam necessariamente relação com as entidades representadas, operados por uma linguagem própria do pensamento, um tipo de “mentalês”. A linguagem da mente seria composta por estruturas que lhe seriam próprias e um vocabulário

típico da psicologia popular168, sendo admitida como inata ao homem. Considera Pezzulo

(2008), que nessa perspectiva “os processos mentais manipulam representações simbólicas apenas através de suas propriedades sintáticas e não têm acesso ao seu conteúdo

semântico”169.

As ambições de construir uma máquina inteligente e de decifrar o funcionamento da mente aliaram-se na metáfora computacional, naturalmente compatível com a abordagem funcionalista. Segundo o funcionalismo, a mente deve ser compreendida pelas relações causais ou funcionais, ou seja, pelo que faz e não pelo que a constitui. Um dado estado mental se definiria por suas relações causais com o resto do mundo independentemente de sua base física. Sugere Castañon (2006, p.1) que o paradigma da metáfora computacional pode ter se

afirmado mais pela clareza conceitual que a distinção entre hardware e software permitiu à

teorização sobre a mente e suas relações com o cérebro, do que pelas possibilidades futuras de simulação de processos cognitivos em máquinas.

168 Gardner (1985), p.83

169 Pezzulo (2008), p.203 [ mental processes manipulate symbol-like representations only via their syntactic properties and have no access to their semantic content]

A opção lógica pelo funcionalismo causal de base fisicalista se tornou bastante popular em filosofia da mente. De acordo com essa abordagem, ter um estado mental é ter um estado físico tal que este seja causado e cause outros estados físicos que corresponderão a outros estados mentais. Porém, admite Amaral (2001, p.239), “o problema que nos preocupa fundamentalmente é o de como é possível uma propriedade mental, ela mesma, causar uma propriedade física”. O funcionalismo não justificaria logicamente a possibilidade de uma propriedade mental ter verdadeiro poder causal. Embora muitos tenham apostado no funcionalismo computacional, este encontra críticos que apontam limites supostamente intransponíveis, sejam lógicos como os referidos acima, ou fenomenológicos, como os colocados por Chalmers, que defende a irredutibilidade da experiência subjetiva. Veremos adiante como este autor argumenta que, a despeito das explicações funcionais para vários fenômenos ligados à experiência consciente conquistadas pela neurofisiologia e pelas ciências cognitivas, o problema principal permanece: por que o desempenho das funções cerebrais é acompanhado da experiência existencial?

IA forte ou fraca

Conforme introduzido no capítulo 2, a perspectiva da “inteligência artificial forte” implica uma completa simulação do mental, incluindo a experiência subjetiva. A “inteligência artificial fraca” por princípio abdicaria da busca da experiência consciente, fazendo uso do computador apenas como uma ferramenta para o estudo da mente. Nesta última perspectiva admite-se que a consciência decorre das atividades físicas que ocorrem no cérebro, entretanto, embora elas possam ser simuladas em computador, as simulações por si não produziriam a consciência. Dreyfus apresenta-se como um adversário da tese da IA forte, defendendo a impossibilidade de os seres humanos produzirem inteligência usando somente fatos e regras, bases dos sistemas simbólicos. Criticava a ideia de que todo comportamento humano é ordenado por regras lógicas, pois os seres humanos, ao contrário dos computadores, têm uma consciência periférica, tolerância à ambiguidade, sofrem fadiga e são afetados por seus

desejos e interesses pessoais.170 Considerava quatro categorias de atividades inteligentes: a

associacionista, a formal-simples, a formal-complexa e a não-formal. Previu que as duas primeiras seriam plenamente computáveis, a seguinte insatisfatoriamente computável e a quarta de forma alguma computável. Conforme Castañon (2006, p.6):

Atividade inteligente não-formal é para Dreyfus (1972) aquela dependente de significados não-explícitos e de contextos, e quando aprendida, só o é de maneira intuitiva através de metáforas ou exemplos perspicazes de comportamento (jogo de imagem e ação, insigths sobre problemas de estrutura aberta, tradução da linguagem natural em contexto de uso – com o caso extremo da poesia – e reconhecimento de padrões distorcidos).

Usando o argumento do “quarto chinês”, publicado originalmente em 1980, Searle

buscou evidenciar os limites da IA simbólica, mostrando que o teste de Turing171 não seria

suficiente para atribuir corretamente inteligência a uma máquina, pois esta poderia desempenhar uma mera imitação formal do desempenho humano, sem entendimento do conteúdo da ação. A despeito de um comportamento sintático formalmente correto, o computador não conheceria o contexto de sua atuação, ou a suposta intenção de seus estímulos ou respostas, caracterizando um problema de aterramento de símbolos. Não haveria

garantia de que houvesse uma relação intencional autêntica.172 Partidário da IA forte, Dennett

polemiza com Searle, apostando na possibilidade de emergência de sistemas intencionais que representariam uma ligação entre o mundo do senso comum e o mundo material.

Em “A Nova Mente do Rei”, Penrose (1989, p.541) é cético quanto à IA forte. Argumenta que a verdadeira inteligência artificial exige consciência: “a inteligência não pode ser adequadamente simulada por meios algorítmicos, isto é, por um computador, no sentido em que hoje usamos essa palavra.” Esta limitação estaria revelada até mesmo na matemática, quando a contemplação consciente nos permite por vezes verificar a verdade de um enunciado de maneira impossível a qualquer algoritmo. “Quando nos convencemos da validade do teorema de Gödel, não apenas o 'vemos', mas ao fazê-lo revelamos a própria natureza não-algorítmica desse 'ver' o próprio processo.”173 Dreyfus considera o trabalho de Gödel publicado em 1931 como uma prova matemática das limitações inerentes aos sistemas formais e estranha como isso possa parecer irrelevante para alguns pesquisadores da AI. Conforme Castañon, “Por conta desta cegueira teórica, Dreyfus (1993) compara os atuais

pesquisadores da IA forte a alquimistas procurando transformar lata em ouro.”174 Haveria no

cérebro algo além da computação para dar conta da emergência do novo e da criatividade humana. A existência de problemas matemáticos bem definidos sem solução algorítmica e dos problemas não computáveis identificados por Turing seriam indícios de que a inteligência humana vai além de regras pré-estabelecidas por algoritmos. Navega (1998) considera que a

171 resumidamente, no teste, proposto por Turing em 1950, um entrevistador “conversa” com um humano e com um computador através de interfaces apropriadas, se ao fim do teste o interrogador não conseguir distinguir qual deles é o humano conclui-se que o computador é suficientemente inteligente

172 Teixeira (2000), p.44 173 Penrose (1994), p.463 174 Castañon (2006), p.6

criação de estados cognitivos é aparentemente intransponível para a IA tradicional, a princípio concordando com críticos de uma IA forte. Entretanto, não é tão cético com as possíveis alternativas em IA ao fim do século, e se questiona sobre o que seriam realmente os estados cognitivos, pois, pensando não antropomorficamente, acredita que não seria insensato atribuir habilidades cognitivas a algumas arquiteturas artificiais.

reducionismo e o problema da tradução

A linha evidentemente dominante no meio científico é a monista materialista ou fisicalista: só há a substância material, de onde o mental derivaria. De certa forma esta abordagem se restringe ao que a ciência estabelecida está acostumada e sabe fazer bem. Em última análise, os estados mentais não possuiriam realidade em si, sendo apenas uma consequência física, seriam, quando muito, um modo provisório de falarmos de estados cerebrais. Se ainda não foi descoberta a fórmula físico-química que governa a mente, trata-se de um hiato que poderá ser progressivamente suprimido pelo avanço da investigação científica. Tido por muitos como o único método adequado de tratar o mundo cientificamente, o reducionismo é reconhecido como responsável pelo espetacular desenvolvimento da ciência moderna, e alguns cientistas cognitivos tendem a considerar qualquer alternativa a ele como tempo perdido. Para os reducionistas os fenômenos mentais se resumiriam a atividades físico-químicas cerebrais, de forma que a natureza dos fenômenos mentais seria totalmente explicada pela natureza de algumas substâncias químicas nele presentes. Nos termos de Teixeira (2000, p.72), “Do comportamento dessas macromoléculas seria possível então retroceder, indo em direção contrária, até se poder explicar a natureza de fenômenos mentais mais complexos, como é o caso da cognição e da linguagem” Pressuposta uma determinação do mental pelo físico, o primeiro não teria ação causal.

O reducionista enfrenta o chamado problema da tradução. Que tipo de isomorfismo haveria entre essas reações químicas e o pensamento que permita supor a existência de algum tipo de correspondência entre essas duas entidades? Ao discutir tentativas de naturalizar a mente, Prado Jr. (2004) argumenta: “Não há dúvida de que atos mentais têm correlatos cerebrais. Se eu enunciar quaisquer proposições (p.ex: 2+2=4; 2+2=1.000; dois mais dois esbórnia amarelo-x-girafa) sempre hão de corresponder-lhes processos neuronais. Mas

poderia haver processos neuronais verdadeiros, falsos ou absurdos?”175 Conforme Teixeira

(2000, p.75):

O reducionista precisa de algo mais do que simplesmente estabelecer correlações, é preciso que essas se tornem inteligíveis. Ou seja, ele precisa saber como e por que sinais elétricos e reações químicas no nível cerebral produzem, do ponto de vista introspectivo, remorsos, lembranças e sensações que são vivenciadas subjetivamente.

Pode-se também argumentar que a redução como mecanismo de explicação seja contra-intuitiva, tal como quando tentamos explicar o funcionamento de um motor a explosão

pela estrutura atômica das partículas que compõem esse motor.176 Essa questão está associada

à ideia de estrutura ou organização, que pode levar a possibilidades antes inimagináveis nas partes. Muitos têm buscado superar a concepção puramente reducionista. Dennett, por exemplo, tenta escapar do nível fisicalista e evita relacionar diretamente eventos mentais e eventos físicos, indo além do funcionalismo simplista. A explicação sugerida pelo autor considera seres humanos, animais e máquinas como sistemas intencionais emergentes em

certo nível de complexidade.177

A radicalização da abordagem fisicalista leva ao epifenomenalismo: a suposição de que os estados mentais não fazem diferença no mundo físico. Haselager e Gonzalez (2002) veem dificuldades nesta posição: “Este faz pouca justiça à intuição segundo a qual nossos estados mentais desempenham um papel causal na produção de nosso comportamento. O problema a ser resolvido é: como sustentar que os processos mentais sejam, em última

instância, processos físicos sem recair no epifenomenalismo?”178 Este ponto de vista

reivindica que é tanto necessário como suficiente explorar e entender o domínio material, o cérebro, para entender o domínio mental. De certa forma leva a um quadro monista no qual é eliminada qualquer necessidade de discutir os estados mentais, e as correlações mente-cérebro tornam-se irrelevantes.

realismo, internalismo e externalismo

A questão sobre a realidade dos estados mentais leva os pesquisadores em filosofia da mente a alternativas conflitantes, e muitas vezes a opções efêmeras face a novas reflexões que não raro fazem com que os protagonistas “troquem de lado” nas discussões. Os realistas acreditam na realidade dos estados mentais, como crenças, desejos ou intenções. A posição realista é normalmente associada à afirmação de um efetivo poder de causação dos estados

176 Teixeira (2000), p.77 177 Gardner (1985), p.79

mentais. Para os chamados antirrealistas, crenças e desejos são meros pretextos, seu uso não passaria de uma necessidade prática para nos relacionarmos. Outro ponto de debate se refere à localização dos estados mentais, os internalistas defendem que não podem estar em outro lugar senão no cérebro, enquanto os externalistas não os consideram restritos ao sistema nervoso. Os internalistas chegam ao impasse do problema da tradução entre estados mentais e estados físicos, e tendem a tomar partido do fisicalismo não realista argumentando que não há

lugar para um papel causal do conteúdo mental.179

Fodor assume-se como um realista, considerando que estados intencionais como crenças e desejos são reais. Estes estados literalmente existem e possuem poderes causais, podendo guiar nossa ação e interferir no mundo. Como vimos, sua abordagem representacionista é acoplada a uma teoria computacional sobre como as representações são manipuladas. Para Land (2001, p.48), “Uma das consequências da postura realista de Fodor é sua asseveração de que a intencionalidade do homem é primária, originária e intrínseca, em suma, uma característica real do cérebro.” Na década de 1990 Fodor aproxima-se do externalismo, admitindo que os processos internos do cérebro não seriam suficientes para determinar o conteúdo mental, sendo necessário considerar a relação entre mente e mundo.

Por sua vez os não-realistas tendem ao pragmatismo ao não admitirem espaço para estados mentais na física cerebral sob a alegação de que estes seriam apenas uma necessidade social. É aceita a utilização de um vocabulário intencional sem que haja um comprometimento, de fato, com a existência de tais estados. Nestes termos, os seguidores do pragmatismo de Quine, como Rorty (1931-2007) e Dennett, são frequentemente classificados como antirrealistas, entretanto, ambos autores rejeitam esta classificação.

pragmatismo e eliminativismo

Retomemos Ryle, que fez uma abordagem pragmática de caráter externalista e não realista, caracterizando um eliminativismo ao sugerir que fosse desfeito o conceito de mente. A mente não passaria de um conceito abstrato: “não é uma coisa, nenhuma substância física,

tampouco seria uma substância imaterial”180. Essa ilusão constituiu para Ryle um dos

principais equívocos da filosofia da mente. A tarefa da filosofia da mente seria, então, estirpar as extravagâncias e dissolver os pseudoproblemas, ou “exorcizar o fantasma da máquina”. Conforme Teixeira (2000, p.112), “Ryle supõe que a origem de todas essas confusões está na

179 Haselager e Gonzalez (2002), p.2 180 Teixeira (2000), p.111

linguagem e no modo como a empregamos, criando um vocabulário psicológico que nos induz a supor a existência dessa substância imaterial.”

Em um posicionamento radical, em 1979, Rorty argumenta que o conceito de mente

seria como uma mancha obscura que passou a obcecar os intelectuais quando eles finalmente se livraram do conceito teológico de deus.181 A crença na mente como um olho interno resultaria de um longo processo histórico cheio de desvios quanto à natureza da atividade cognitiva. Para Rorty a única maneira de eliminar esse fantasma seria rever sua trajetória histórica, tal como numa terapia de regressão, contemplando assim uma série de enganos do

pensamento filosófico ocidental.182 Na avaliação de Teixeira (2000, p.115), na postura

eliminativista:

Trata-se não apenas de identificar os subúrbios da linguagem que conferiram ao mental um estatuto ontológico que esse não possui [...] é preciso decretar, desde o início, a falência dessa ontologia pelo reconhecimento da inadequação do vocabulário psicológico cotidiano para descrever o mental e substituir a imagem comum da mente por uma imagem científica derivada da neurociência.

Teixeira vê o materialismo eliminativo como uma radicalização do projeto reducionista no intuito de superar algumas das dificuldades enfrentadas pelas tentativas de redução. Por sua vez, Churchland teria defendido que o destino dos conceitos da psicologia popular, tais como desejo, crença, intenção, medo e esperança, será o mesmo de conceitos como bruxas e possessões demoníacas, eliminadas da ontologia científica após o avanço de

pesquisas sobre disfunções mentais.183

emergentismo mental

Considerar a indiscutível relação entre mente e o cérebro sem no entanto assumir que haja redução entre eles é a alternativa emergentista. Formas de superveniência do mental sobre o físico hoje aceitas eram praticamente impensáveis antes do século XX. Conforme Teixeira (2000), seus seguidores “acenam com a possibilidade de se sustentar o materialismo,

evitando, contudo, os problemas oriundos de sua versão reducionista”.184 A consciência é vista

como uma propriedade emergente em relação a um determinado fenômeno físico ou um determinado tipo de organização funcional observável no cérebro ou na natureza. Essa

181 RORTY, R. 1979. Philosophy and the Mirror of Nature. Princeton Univ. Press. citado por Gardner (1985)] 182 Gardner (1985), p.72

183 CHURCHLAND, P.S. Neurophilosophy: Towards a unified science of mind/brain. Cambridge: MIT Press, 1986, conforme Teixeira (2000), p.117

propriedade não seria redutível aos componentes dessa organização, mas poderia ser explicada sem necessariamente romper com uma posição fisicalista.

O emergentismo é compatível com a proposta funcionalista ao admitir que os estados mentais derivem ou sejam realizados por diferentes sistemas físicos. Como é evitada uma correspondência unívoca entre mente e matéria, a concepção emergentista abre espaço para um não determinismo psicofísico, ou seja, é possível estipular a existência de uma dependência e de uma covariação entre fenômenos mentais e fenômenos cerebrais sem mostrar como uns poderiam ser reduzidos aos outros. Nos termos de Teixeira (2000, p.81):

O mental, como propriedade emergente, não precisa ser localizado nesse ou naquele ponto do espaço. Uma ideia de distribuição do mental pelo sistema nervoso como um todo pode surgir – e essa é sem dúvida uma concepção mais adequada às ideias neurológicas contemporâneas que descartam o localizacionismo estrito e inclinam-se em direção a uma concepção integracionista do funcionamento cerebral.

A noção de emergência possibilita que, mesmo no âmbito do materialismo, tenhamos um dualismo de predicados: ainda que uma só substância justifique ontologicamente mundo físico e mundo mental, os predicados mentais não seriam tradutíveis à linguagem do mundo físico, posição compatível com o dualismo de propriedades que abordaremos adiante. Paira sobre a alternativa emergentista o risco do vale tudo, expondo-a à crítica por abdicar de uma tradução entre físico e mental, contrariando o esperado pela ciência em geral. Atmanspacher (2004) observa que, a despeito do relaxamento do reducionismo, as alternativas emergentistas acabam por esbarrar em um dualismo residual se buscarem traduzir o mental no físico. “Acerca da relação mente-cérebro, estados e/ou propriedades mentais podem ser consideradas como emergentes se o cérebro material não é necessário ou suficiente para explorá-los e entendê-los. Isso leva a uma descrição na qual sobra algo quando tentamos reduzir o mental

ao material.”185

o intencional em Dennett

Daniel Dennett defende uma forma sofisticada de funcionalismo naturalista com base pragmática. Estudou com Quine e Ryle, e é reconhecido como um dos mais influentes pesquisadores em filosofia da mente na atualidade. Distingue três níveis de explicação para o

185 Atmanspacher (2004), p.54 [Concerning the mind-brain relation, mental states and/or properties can be considered as emergent if the material brain is not necessary or not sufficient to explore and understand them. This leads to a dualistic picture in which residua remain if one attempts to reduce the mental to the material.]

comportamento de um organismo: o nível físico (physical stance), o nível da forma (design stance) e o nível intencional (intentional stance). Se para uma máquina o nível físico corresponde à descrição dos materiais que compõem cada uma de suas partes, o nível de forma corresponderia à descrição de como as peças se ligam umas às outras permitindo que a máquina funcione, e o nível intencional à descrição que fazemos do comportamento da máquina. À medida que possamos montar uma história inteligível acerca dos comportamentos dessa máquina estaremos tratando-a como um ser intencional, dotado de racionalidade e inteligência. Castañon (2006) observa que a concepção funcionalista em três níveis para a organização dos processos mentais não é inédita, tendo sido proposta por outros cientistas cognitivos na década de 1980.

Dennett considera que nossos estados mentais correspondem a um sistema hipotético de conceitos articuladores que utilizamos para entender os comportamentos sociais. Conforme Teixeira (2000, p.146), “Assim como na mecânica trabalhamos com termos teóricos como 'massa' ou 'centro de gravidade', nos é útil usar termos como intenções, crenças e desejos para explicar e predizer comportamentos de organismos e sistemas.” Esses “termos teóricos”, ou “ficções úteis”, estariam em nossa mente e em nossa linguagem, formando um “sistema intencional”. Sentido e significado não corresponderiam diretamente à atividade cerebral, mas resultariam da descrição que fazemos dela e dos comportamentos consequentes. Nestes termos, uma psicologia popular seria eficiente como preditiva de comportamento. Na medida que esses comportamentos obedecem a padrões reconhecidos como racionais podem ser descritos como sistemas intencionais, compondo nossos mundos nocionais, “sistemas aos quais atribuímos intenções, crenças e desejos para que seus comportamentos se tornem

inteligíveis para nós”.186 Essa abordagem admite que possamos atribuir intenções também a

seres não humanos e mesmo artificiais.

Nos anos 1990 Dennett adota uma posição plenamente naturalista, considerando o desenvolvimento dos estados mentais no âmbito da evolução das espécies. A intencionalidade

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