4 NOVAS PERSPECTIVAS COGNITIVAS
5.1 O DESPERTAR DA RAZÂO
A evolução da consciência, associada a uma maior disponibilidade e recursividade de memória, permitiu a hesitação, e a hesitação permitiu a reflexão. Os organismos conscientes cada vez mais se remetem ao futuro de forma intencional e determinada. Tal como outros tantos animais sentimos medo, a hesitação também permitiu o medo, e a coragem. Nossos ancestrais dispuseram de muito tempo para experimentar o mundo e desenvolver o que será o
425 Escher, 1926, O sexto dia da criação.
intelecto humano. A partir da atenção ao futuro, voltada para ação e sobrevivência, eles
desenvolveram capacidade de representação e imaginação diferenciada. O Homo erectus, por
exemplo, espécie que dominou o fogo, dispôs de pelo menos 2 milhões de anos, muito tempo quando comparamos com nosso tempo histórico, restrito aos últimos milhares de anos. Por outro lado, 2 milhões parecem pouco quando pensamos em termos dos 70 milhões de anos estimados para a evolução dos mamíferos, todos com sistemas nervosos estruturados de forma relativamente semelhante. A espécie humana deu um passo além quando a sofisticação de seu sistema nervoso ofereceu a capacidade de nos projetarmos virtualmente, seja planejando o futuro seja entendendo o ponto de vista de outro. Vimos no capítulo anterior que nossas mais nobres habilidades cognitivas podem ser justificadas naturalmente, emergentes de nossa ação no mundo e compartilhadas por uma capacidade de imitação e uma empatia “inatas” para com nossos semelhantes. Pela cultura compartilhamos um mundo ao mesmo tempo secular e recriado a cada instante em nossas escolhas. Tomando uma referência existencialista, os homens, no ápice da capacidade de escolher dentre os animais, vivem a angústia dessa liberdade. Angústia que permeará reflexões de cientistas e artistas, como António Damásio e Clarice Lispector:
Se não fosse esse nível tão alto de consciência humana, nunca haveria angústia notável, agora ou no amanhecer da humanidade. [...] É a combinação dessas duas benesses, a consciência e a memória, bem como a sua abundância, que causam o drama humano e que conferem a esse drama a sua condição trágica. Felizmente para nós, esses mesmos dons são também a fonte da alegria sem limites e da glória humana que lhe corresponde.427
Eu é que estou escutando o assobio no escuro. Eu que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. Quem? quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo - é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero?428
Foi no período neolítico, há cerca de 10 mil anos, que teria se confirmado o domínio do homem sobre as primeiras “artes”, como cerâmica, tecelagem, agricultura e domesticação de animais. Observa Lévi-Strauss (1962, p.29):
Hoje ninguém mais pensaria em explicar essas conquistas imensas pela acumulação fortuita de uma série de achados feitos por acaso ou revelados pelo espetáculo passivamente registrado de determinados fenômenos naturais. Cada uma dessas técnicas supõe séculos de observação ativa e metódica, hipóteses ousadas e controladas, a fim de rejeitá-las ou confirmá-las através de experiências incansavelmente repetidas.
427 Damásio (2003), p.283 428 Lispector (1998), p.84
Exemplos dessa ativa busca de conhecimento são encontrados nos chamados povos primitivos contemporâneos. Lévi-Strauss relata impressões de biólogos sobre uma população de pigmeus das Filipinas, destacando um extraordinário conhecimento dos reinos vegetal e animal. “Muitas vezes eu vi um negrito, incerto quanto à identidade de uma planta, provar o
fruto, cheirar as folhas, quebrar e examinar uma haste, observar o habitat. E somente depois
de considerar todos esses dados é que ele declarará conhecer ou não a planta em questão.” Dedicados pesquisadores de seu ambiente, os pigmeus das Filipinas “enumeram com a maior facilidade os nomes específicos e descritivos de pelo menos 450 plantas, 75 aves, de quase
todas as serpentes, peixes, insetos e mamíferos”.429
Especulamos que tanto questionamentos de caráter “científico” como de cunho “filosófico” já estavam presentes nas culturas de nossos ancestrais, na forma de, simplesmente, questionamentos antecipatórios e criativos. Embora reconheçamos a origem da filosofia na Antiguidade, aproximadamente há 2.500 anos, não teriam sido “filosóficas” as primeiras reflexões de nossos ancestrais sobre o estar no mundo? Sobre o mistério de estar vivo, e sempre nos reconhecermos ao acordar? Especula Damásio (2000, p.243):
[...] é fascinante pensar que os primeiros cérebros que construíram a história da consciência estavam respondendo a perguntas que nenhum ser vivo ainda formulara: quem está produzindo essas imagens que estão acontecendo? Quem possui essas imagens? “Quem está aí?”, como na instigante fala inicial de Hamlet, uma peça que é o epítome extraordinariamente eloquente da perplexidade do ser humano com as origens de sua condição.
A reflexão sobre a passagem do tempo provavelmente acompanha o homem desde nossos antepassados mais remotos. Como não refletir sobre mudança e permanência (mesmo que esses conceitos não fossem ainda conceitos) quando assistimos ao movimento do sol e da lua? ou quando presenciamos a morte de um semelhante e intuímos que o mesmo nos espera. Nas primeiras sociedades organizadas logo surgiram calendários e artefatos para orientação temporal de curto prazo, como os relógios de água, nos quais a água fluía para fora ou para
dentro de um vaso graduado, sendo a hora indicada pelo nível da água.430
Vimos no capítulo 4 como o corpo humano está preparado para o simbolismo e a linguagem, que viriam a representar o grande diferencial de nossa espécie. Conforme Oliveira (2003, p.36), “Ao se comunicarem, esses animais falantes produziram uma tecnologia prodigiosa, uma memória compartilhada fora do corpo dos indivíduos. Pela simbolização,
429 Lévi-Strauss (1989), p.19
pela codificação de sinais que substituíam coisas ou ações, o repertório de experiências e conhecimentos de todo o grupo podia agora ser continuamente acumulado e transmitido às novas gerações.” A aventura da consciência emergente ao longo de milhões de anos ganha, pouco tempo após o desenvolvimento da linguagem, nuances da venerada racionalidade humana, deixando registros de um pensamento sofisticado há pelo menos 2.500 anos.
a filosofia na Grécia Antiga
Registros arqueológicos indicam que na região da atual Grécia uma civilização prosperou por volta de 2.000 a.c.. Depois do uso habilidoso da pedra, os habitantes da região já dominavam o bronze e construíam grandes palácios. Após tempos difíceis, que incluíram a interrupção da escrita, a ascensão das cidades-estado teria consolidado uma sociedade que estimulou o debate e valorizou a dúvida. Conforme Rosa (2005), “As origens do que hoje chamamos de ciências da natureza, incluindo o estudo sistematizado, qualitativo e quantitativo, de certas classes de fenômenos naturais, segundo uma concepção teórica unificadora dentro de cada ciência, são encontradas na antiguidade clássica, na Grécia
particularmente.”431 Mas é importante reconhecer a contribuição de outras culturas na
formação da filosofia ocidental, observou Nietzsche (1844-1900) em 1873: “Nada é mais tolo do que atribuir aos gregos uma cultura autóctone: pelo contrário, eles sorveram toda a cultura viva de outros povos e, se foram tão longe, é precisamente porque sabiam retomar a lança
onde um outro povo a abandonou, para arremessá-la mais longe.”432 Os gregos antigos
cultuavam uma linhagem de deuses imortais, protagonistas de sofisticadas narrativas mitológicas. Pode-se dizer que as narrativas de vida dos deuses lhes serviam como modelo social, cultural e existencial. Tomemos, por exemplo, referências a história de Atená, filha de Zeus, nascida da cabeça do pai aberta por um golpe de machado.
Tão logo saiu da cabeça do pai, soltou um grito de guerra e se engajou ao lado do mesmo na luta contra os Gigantes, matando a Palas e Encélado. O primeiro foi escorchado e da pele do mesmo foi feita uma couraça; quanto ao segundo, a deusa o esmagou, lançando-lhe em cima a Ilha de Sicília […] Sua valentia e coragem comparam-se às de Ares, mas a filha de Zeus detestava a sede de sangue e a volúpia de carnificina de seu irmão, ao qual, aliás, enfrentou vitoriosamente.433
431 Rosa (2005), p.47
432 Nietzsche: A filosofia na época trágica dos gregos, § 1 433 Brandão (1988b), p. 24, 25
O culto aos mitos será alvo de crítica do pensamento racional emergente, “sobretudo dos Pré-Socráticos, muitos dos quais tentaram desmitizar ou dessacralizar o mito em nome do lógos, da razão”, observa Brandão (1988a, p.27).
As ideias de Tales de Mileto (~624-558 a.c.) que chegaram a nós são consideradas a primeira filosofia. Tales teria participado ativamente da vida política e militar. Dedicado à
astronomia, previu o eclipse total do sol ocorrido em 585 a.c..434 Nietzsche se questiona: “A
filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério?” E justifica o reconhecimento do pensamento de Tales por este ter investigado a origem das coisas na natureza, diferenciando-se dos religiosos e supersticiosos, e, principalmente, por ter buscado uma unidade na multiplicidade. Nessa ideia, “embora apenas em estado de crisálida,
está contido o pensamento: 'Tudo é um'”.435
Outros pensadores gregos aprofundaram essas questões. Se Tales “mostra a necessidade de reduzir a pluralidade à unidade, seu discípulo Anaximandro (610-547 a.c.)
pergunta: 'Mas, se há em geral uma unidade eterna, como é possível aquela pluralidade?'”436
Temática também presente nos escritos de Xenófanes (580~460 a.c.), que, na opinião de comentadores, “foi o primeiro a declarar a contingência de todas as coisas e a definir a alma
como um sopro.”437 Xenófanes parece também ter intuído que todo o discurso é uma
construção, será sempre “opinião”, um limite para o homem na busca da verdade. “Pois homem algum viu e haverá quem possa ver a verdade acerca dos deuses e de todas as coisas das quais eu falo; pois mesmo se alguém conseguisse expressar-se com toda exatidão
possível, ele próprio não se aperceberia disto. A opinião reina em tudo.”438 Na análise de
Nietzsche, “Quanto mais se procurava aproximar-se do problema – como, em geral, pode nascer, por declínio, do indeterminado o determinado, do eterno o temporal, do justo a
injustiça –, maior se tornava a noite.”439 E segue: “Heráclito de Éfeso surgiu no meio desta
noite mística que envolvia o problema do devir de Anaximandro, e iluminou-o com um raio de luz divino.”
Heráclito, conforme introduzido no capítulo 3, considerava o real como uma luta perpétua de opostos. Afirmou que todas as coisas estão em movimento, o qual se processa através de contrários, e determina a harmonia encontrada no mundo. “Tudo se faz por
434 Bornhein (1977), p.22
435 Nietzsche: A filosofia na época trágica dos gregos, § 3 436 Nietzsche: A filosofia na época trágica dos gregos, § 4
437 Diógenes Laércio: Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro IX,19, In: Bornheim (1977), p.34 438 Xenófanes, frag. 34 In: Bornhein (1977), p.33
contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia.”440 Esse princípio de equilíbrio dos opostos pode ser associado a uma ideia aceita por outros pensadores gregos da época: a concepção do tempo como um juiz. Anaximandro (610-547a.C.), por exemplo, teria afirmado que todas as coisas que são criadas devem também perecer, compensando-se umas às outras
por sua injustiça, de acordo com a sentença do tempo.441 Heráclito concebia uma lei natural
ordenadora, o logos, que atua sobre tudo no mundo. “Eles não compreendem como,
separando-se, podem harmonizar-se: harmonia de forças contrárias, como o arco e a lira.”442 A
filosofia deve buscar a consciência dessa ordem harmônica invisível, que se manifesta em meio às visibilidades familiares, como se estas se tivessem tornado transparentes.
Maravilhado com a “harmonia não visível”, afirmou que a natureza ama esconder-se443. Na
visão de Van de Beuque (2004, p.69), “na simplicidade de sua complexidade, o que a sentença nos diz é que surgir e encobrir se dão (se propiciam) um ao outro [...] como que as duas faces, côncava e convexa, de uma só verdade conclusa.” Por sua vez, Parmênides é reconhecido na antiguidade como um sábio importante, nos oferecendo uma reflexão fundamental sobre o conhecimento:
A deusa acolheu-me afável, tomou-me a direita em sua mão e dirigiu-me a palavra nestes termos: “Oh! jovem, a ti, acompanhado por aurigas imortais, a ti, conduzido por estes cavalos à nossa morada, eu saúdo. Não foi um mau destino que te colocou sobre este caminho (longe das sendas mortais), mas a justiça e o direito. Pois deves saber tudo, tanto o coração inabalável da verdade, como as opiniões dos mortais, em que não há certeza. Contudo, também isto aprenderás: como a diversidade das aparências deve revelar uma presença que merece ser recebida, penetrando tudo totalmente.”444
Para Parmênides, conhecer é alcançar o idêntico, o imutável. Conforme Chaui (2000, p.138), “Como pensar o que é e o que não é ao mesmo tempo? Como pensar o instável? Como pensar o que se torna oposto e contrário a si mesmo? Não é possível, dizia Parmênides. Pensar é dizer o que um ser é em sua identidade profunda e permanente.” Na necessidade de certezas, dado o problema da mutação do ser, o filósofo grego o declarou imutável, dada a questão da unidade e da multiplicidade do ser, decidiu-se pela unidade. Nos termos de Prado Jr. (1980): “Pois o que é esse 'Ser' de Parmênides se não a transposição, para a Realidade
objetiva, do Pensamento humano através de que se faz a identificação das feições universais,
e se lhes concede com isso a estabilidade que a identificação implica e que se está
440 Heráclito, frag. 8, In: Bornhein (1977), p.36 441Whitrow (1993), p.53
442Heráclito, frag. 51 In: Bornhein (1977), p.39 443 Heráclito, frag. 123 In: Bornhein (1977), p.43 444 Parmênides In: Bornhein (1977), p.54
precisamente procurando explicar?”445 Em outro continente, o chinês Lao Tsé também refletia sobre a mudança e a permanência:
Um redemoinho não dura uma manhã Uma rajada de vento não dura um dia
De onde provêm essas coisas? Do céu e da terra
Se nem o céu e a terra podem produzir coisas duráveis Quanto mais os seres humanos!446
Apoiados em linguagens suficientemente sofisticadas, em diferentes regiões do planeta os homens se questionaram sobre o mistério da existência, sobre uma tênue ordem revelada na desordem que seus sistemas cognitivos incessantemente confrontavam. Conforme Van de Beuque (2004), a questão do um e da diversidade está no cerne da filosofia: “Desde os Vedas e os Upanixades, desde Tales de Mileto, Parmênides e Heráclito de Éfeso, desde Lao Tsé e até hoje, o unir-diversificar é o círculo para (e a partir de) onde remete, se concentra e renasce o
desdobramento do pensamento.”447
espanto e mistério
Ao discutir as origens do pensamento, Hannah Arendt reconhece a associação da filosofia ao espanto. “Em outras palavras, o que deixa os homens espantados é algo familiar, e ainda assim normalmente invisível, que eles são forçados a admirar. Aquele espanto que é o ponto de partida do pensamento não é a confusão, nem a surpresa, nem a perplexidade; é um
espanto de admiração.”448 Este sentimento pode ser encontrado também na constatação de
Sócrates ao admitir a certeza de sua ignorância: só sei que nada sei. Conforme Chaui (2000, p.9), “Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.” Admiração e espanto significariam um afastamento do mundo costumeiro, como se nunca o tivéssemos visto antes, “como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos.”
445 Prado Jr. (1980), p.156 grifo do original
446 Tao Te Ching poema 23 In: LAO TSÉ (1996), p.55, o período de vida de Lao Tsé é controverso, sendo encontradas referências entre os séculos XIII e IV a.c.
447 Van de Beuque (2004), p.89 448 Arendt (2000), p.109
Van de Beuque (2004, p.79) retoma o pensamento dos antigos gregos. “Sem o escuro, o que seria a luz? Apenas um nada, imperceptível, um ofuscar. É a partir do abrigo do encobrimento que o ser essencializa-se, dando-se mundo em seu exercício. Essa verdade originária, a junção desveladora do encoberto com o seu aparecer, os gregos chamavam de alétheia.” No mistério da existência do que existe, o fenômeno do revelar surgiria junto ao
ocultar. “Como junção resplandecente (desveladora) do aparecer e do oculto, alétheia é a
essencialização do ser: o real em seu momento de realização. Instante de passagem, em que o um e o múltiplo se encontram, em que o repouso é movimento – a união do que, em si, se
opõe.”449 Na visão de Van de Beuque, a filosofia originária ainda não é metafísica, apesar de
também pensar o real, o faria de outro modo. Ainda não congelado pela idealização definitiva, o ser não se isola do que é. “O caminho para o que é se origina nele mesmo – ‘criador’ e ‘criatura’ são um mesmo. E esse brotar ininterrupto a partir de si mesmo em direção à sua
permanência como realidade, o aparecer mesmo de cada acontecimento chama-se physis
[...]”450, surgimento constante, fenômeno do ser. Sugere o autor que uma expressão para essa
condição seria encontrada na voz média usada pelos gregos.
Uma categoria flexional usada em línguas clássicas indo-europeias, encontrada
também em culturas não ocidentais, como em alguns grupos indígenas brasileiros451, a voz
média tem a função de expressar estados de coisas que afetam o sujeito do verbo ou seus
interesses452. Van de Beuque (2004, p.66) ressalta a clareza permitida pela voz média em
relação às vozes ativa e passiva próprias das línguas ocidentais modernas, possibilitando
sentenças como “a árvore verdeja”, ou ainda “a natureza ama esconder-se” (physis kryptesthai
phileî,physis: o mostrar-se, a natureza que se apresenta, kryptesthai: cifrar ou encobrir em sua
voz média, e phileî: gostar, ter amizade por). “Na ‘voz média’, o ato aparece na inteireza de
sua ação. Ao contrário da ‘voz ativa’, em que o ato emana do sujeito, aqui, ao contrário, o sujeito se vê envolvido e contido na própria relação. É a ação que conduz e contém o sujeito.
O sujeito é con-junto ao ato.”453 “O estabelecimento na língua gramatical de uma voz ‘ativa’
(e de sua inversão posterior como ‘passiva’) significou dividir o pensamento no próprio
coração de sua ação de compreensão do (e no) mundo.”454
Frente à essência do mistério, Van de Beuque reconhece um paradoxo fundamental: “o ser tende a ocultar-se no exercício de si mesmo”. O paradoxo do ser seria guardar em si a sua
449Van de Beuque (2004), p.80 450 Van de Beuque (2004), p.55
451 para referências Cabral e Rodrigues (2007) 452 Camacho (2003)
453 Van de Beuque (2004), p.58 454 Van de Beuque (2004), p.57
negação ou ausência. “Essa possibilidade se exerce do coração mesmo de sua essência. Isso constitui um paradoxo ao homem... e, como tal, razão para que o pensamento nele se
detenha.”455
Em todo mistério há o oculto que se mostra, sem esgotar a si mesmo e revelando que, além do que aparece, permanece o abrigo de sua escuridão. Mistério é o oculto que dá indícios de si – e por isso constitui um mistério. O que se esconde por inteiro não chega a se tornar um mistério porque dele não há nenhum vestígio. O que se exibe por completo, esse não guarda nenhum mistério dentro de si.456
Van de Beuque reconhece paralelos com o pensamento oriental: “Desde Parmênides, Heráclito e Lao Tsé, o pensamento para na insistência do maravilhamento desse fenômeno. Afastando-se das opiniões atônitas do entendimento comum, desviando-se da correria louca
pela verdade, o pensamento se detém para meditar o ocultamento do ser.”457 Uma atitude que
podemos associar a postura filosófica de estar virgem frente ao mundo, “como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos”, como sugeriu Chaui. de frente ao devir
A permanência no devir pode ser encarada como uma face exposta do mistério do ser. A questão da uniformidade e da permanência coloca-se já nas indagações dos precursores da filosofia grega em torno de uma suposta substância universal que daria origem a todas as coisas. Conforme Van de Beuque (2004, p.48),
No fundamento da questão está a possibilidade (ou não) de permanência do aparecer naquilo que aparece. Lançar a solução da questão na busca de uma essência ou entidade de cada coisa é o resultado da vontade metafísica (e de todas as ciências que chegam a seu reboque) de controlar a permanência das coisas através da fixação de uma ‘razão de ser’ que determine inequivocamente o aparecer de cada coisa.
Poderia ser essa busca de controle da permanência uma opção natural dada nossa extraordinária habilidade cognitiva de reter o semelhante no diferente, reconhecer e categorizar padrões efêmeros em fluxo incessante? Exploraremos essa hipótese no decorrer de nossa argumentação, contrapondo aspectos cognitivos às primeiras questões filosóficas e ao