4 NOVAS PERSPECTIVAS COGNITIVAS
4.3 CORPOREIDADE E ATUAÇÃO
A possibilidade de o corpo como um todo, e não apenas o cérebro, ser requisito para nossas extraordinárias capacidades mentais foi praticamente desprezada até pouco tempo atrás. Se os dualistas descartavam o corpo explicitamente, tratando a mente como algo de natureza não material, os fisicalistas, incluindo os funcionalistas, também não davam muita atenção ao corpo como um todo, considerando que o mundo dos fenômenos mentais se restringia ao cérebro. Intuitivamente, entretanto, o reconhecimento do corpo como nossa fronteira perante o ambiente parece estar diretamente relacionada à consciência de nós mesmos. Outro aspecto a ser considerado é que o sistema nervoso encontra-se distribuído por todo o corpo. Esta integração corpórea biológica deve ser considerada, por exemplo, quando pensamos sobre os efeitos mentais da mudança do fluxo sanguíneo no cérebro causada pelo descompasso do ritmo cardíaco, que por sua vez foi causado por uma lembrança de algo que nos emociona.
Hermans e outros (1992) ressaltam o caráter corpóreo da mente. “A natureza corpórea
do self contrasta com as concepções de self encontradas na psicologia predominante, as quais
estão baseadas na suposição de uma mente racionalista ou desincorporada.”311 Haselager e
Gonzalez (2003) também denunciam que o estudo tradicional da mente privilegiou exclusivamente o cérebro na formação da identidade pessoal. Os autores entendem que negligenciar o corpo e sua interação com o mundo compromete o entendimento de como é desenvolvido o sentido de identidade. “Em um sentido mais amplo, ter uma identidade é possuir a capacidade de experienciar o si mesmo. No entanto, tais experiências de si não requerem necessariamente capacidades linguísticas ou conceituais. Entendemos que o
movimento do corpo fornece uma experiência não conceitual de self, ou uma experiência
ecológica de self.”312 A experiência ecológica de self seria mais básica que a experiência do
self reflexivo, conceitualizado e consciente que tem sido prioritariamente abordada pelo
estudo da mente. De fato, esta é a forma como estamos acostumados a pensar sobre nós mesmos, de forma coerente com a herança cartesiana, o cérebro parece controlar o corpo e os pensamentos parecem livres. Pensamos o que queremos, sobre o que escolhemos e quando queremos, entretanto, repetindo Pfeifer e Bongard (2007), “mostraremos que os pensamentos
falling in between, as is consistent with dream content reports.]
311 Hermans e outros (1992), p.23 [The embodied nature of the self contrasts with conceptions of the self found in mainstream psychology, which are based on the assumption of a disembodied or rationalistic mind. ] 312 Haselager e Gonzalez (2003), p.5
talvez não sejam tão livres e independentes como gostaríamos que fossem, que, na verdade,
eles são altamente moldados por nossos corpos.”313
corpo e experiência
O livro “A mente incorporada: ciências cognitivas e experiência humana”, de Varela,
Thompson e Rosch314, publicado em 1991, popularizou a abordagem corpórea e atuacionista
da mente. Os autores apontam as limitações das visões objetivista e subjetivista no estudo do mental, para o qual “nenhuma dessas posições – a que supõe um observador desincorporado
ou a que supõe uma mente desterrada é adequada”315. “Nossa intenção é desviar inteiramente
dessa geografia lógica do interno versus externo, abordando a cognição não como recuperação
ou projeção, mas como ação incorporada.”316 E destacam o papel da ação e da experiência:
Usando o termo “incorporada” queremos chamar a atenção para dois pontos: primeiro, que a cognição depende dos tipos de experiência decorrentes de se ter um corpo com várias capacidades sensório-motoras, e segundo, que essas capacidades sensório-motoras individuais estão, elas mesmas, embutidas em um contexto biológico, psicológico e cultural mais abrangente. Utilizando o termo “ação” queremos enfatizar novamente que os processos sensoriais e motores – a percepção e a ação – são fundamentalmente inseparáveis na cognição vivida.317
O enfoque corpóreo da cognição encontra respaldo na psicologia desenvolvimentista, como nos estudos de Piaget (1978) sobre a biogênese das estruturas cognitivas: “as raízes biológicas dessas estruturas e a explicação do fato de que elas se tornam necessárias não deveriam ser procuradas nem no sentido de uma ação exclusiva do meio, nem de uma pré-formação à base de puro inatismo, mas das autorregulações com seu funcionamento em
circuitos e sua tendência intrínseca ao equilíbrio.”318 Piaget delineou um programa que
chamou de epistemologia genética, no qual buscou explicar o desenvolvimento da criança desde um organismo biológico imaturo, no nascimento, até um ser com raciocínio abstrato, na vida adulta. Piaget queria compreender como a inteligência sensório-motora evolui até a criança conceber um mundo externo com objetos permanentes localizados no espaço e no tempo, até a concepção de si mesma tanto como um objeto dentre outros objetos quanto como uma mente interna. Conforme Varela, Thompson e Rosch (2003, p.179):
313 Pfeifer e Bongard (2007), p.1 [We will show that thoughts are perhaps not as free and independent as we would like them to be, and that indeed they are highly constrained—shaped— by our bodies.]
314 The embodied mind: cognitive science and human experience. Edição brasileira emVarela e outros (2003) 315 Varela e outros (2003), p.22
316 Varela e outros (1991), p.177 317 Varela e outros (1991), p.177 318 Piaget (1978), p.37
No sistema de Piaget, o recém-nascido não é nem um objetivista nem um idealista; ele tem apenas sua própria atividade, e mesmo o ato mais simples de reconhecimento de um objeto pode ser compreendido apenas em termos de sua própria atividade. [...] as estruturas cognitivas surgem de padrões recorrentes (na linguagem de Piaget, “reações circulares”) de atividade sensório-motora.
Para a filosofia da mente tradicional, acostumada ao simbólico pronto, não é fácil aceitar que os conceitos de nossa racionalidade sejam tão dependentes da experiência de nossos corpos. “Os tipos diversos de realismo cognitivo estão, em particular, fortemente ligados à filosofia analítica, que tende a ver a psicologia popular como uma teoria tácita, que necessita de redução ou de substituição. De fato, é justo dizer que a filosofia analítica em
geral resiste a esta noção de cognição como compreensão incorporada.”319 Reconhecemos que
estudos recentes reafirmam o enfoque de Varela, com a convergência de diferentes disciplinas para indícios de que, tal como pensado por Piaget, “as estruturas cognitivas surgem do tipo de padrões sensório-motores recorrentes que possibilitam à ação ser orientada em termos perceptivos”320.
O enfoque corpóreo encontra respaldo também em pesquisas em IA. Navega (2000) defende que para serem inteligentes os robôs devem aprender tal como o fazem as crianças: “nenhum sistema construído apenas com símbolos poderá ser capaz de entender o mundo em que vivemos. Para mim, esta é uma indicação adicional de que crianças precisam ter sólida experiência sensorial antes de aprenderem construções simbólicas e formais.” Pfeifer e
Bongard (2007) reiteram o requisito da corporeidade (embodiment) para a cognição,
argumentando que o contínuo desenvolvimento sensório-motor capacita a criança a categorizar e generalizar, aprendendo distinções crescentemente sofisticadas. Estes autores associam a emergência de uma nova distinção a um novo estado atrator. “Considerando que o processo é contínuo, a capacidade de fazer novas distinções às vezes ocorre repentinamente. Aplicando a metáfora de sistemas dinâmicos, podemos explicar essa emergência repentina
como a descoberta de novo estado atrator.”321 Conforme Pfeifer e Bongard, “a inteligência
requer um corpo” é o slogan do novo paradigma da inteligência incorporada.322
Varela, Thompson e Rosch (2003, p.27) sugerem o termo “atuação” para designar essa nova orientação no estudo da mente, reconhecendo “a convicção crescente de que a cognição
319 Varela e outros (1991), p.157 320 Varela e outros (1991), p.179
321 Pfeifer e Bongard (2007), p.363 [Even though the development is continuous, the ability to make novel distinctions sometimes occurs suddenly. Applying the dynamical systems metaphor, we could explain this sudden emergence as the discovery of a new attractor state.]
322Pfeifer e Bongard (2007), p.29 [intelligence requires a body was the slogan of the new paradigm of embodied intelligence]
não é a representação de um mundo preconcebido por uma mente preconcebida mas, ao contrário, é a atuação de um mundo e de uma mente com base em uma história da diversidade de ações desempenhadas por um ser no mundo.” E contextualizam essa mudança de visão:
Assim, exatamente como o conexionismo cresceu a partir do cognitivismo inspirado por um contato mais próximo com o cérebro, o programa atuacionista dá um passo além na mesma direção para abranger a temporalidade da cognição como história vivida, seja ela vista no nível do indivíduo (ontogenia), da espécie (evolução) ou dos padrões sociais (cultura).323
Pfeifer e Bongard (2007) vislumbram a abrangência do novo paradigma: “Particularmente queremos mostrar como as implicações da incorporação levam a mudanças, não apenas na maneira como vemos a inteligência biológica e como construímos sistemas
artificiais, mas de forma mais geral na maneira como nós mesmos e o mundo a nossa volta.324
propriocepção e autoidentidade
Haselager e Gonzalez (2003, p.6) usam o termo propriocepção325 para se referir aos
receptores localizados no interior do organismo, particularmente nos músculos e nos seus órgãos acessórios, promovendo um sentido de movimento e posição das articulações. Sua origem evolutiva é associada à ação, e indissociável da sensação externa, “indicando movimentos em direção a algo exterior”. Ao discutir as propriedades da experiência consciente, Rosenfield (2000, p.119) defende que esta é sempre acompanhada por nossa
imagem corporal internalizada. A imagem corporal dinâmica (dynamic body image) seria uma
referência única que nos possibilita o sentido de subjetividade e continuidade. Nossa imagem corporal depende de nossa propriocepção, que pode ser vista como a sensação não conceitual das ações e atuações do corpo ao mover-se, interagindo com o meio ambiente e ajustando-se a ele. Conforme Haselager e Gonzalez (2003, p.7), do ponto de vista ontogenético, as sensações do movimento, da postura e do equilíbrio surgem em um dos estágios iniciais do desenvolvimento humano. “De um modo rudimentar, este sistema para o equilíbrio está estabelecido no quarto mês da gestação. Proprioceptores nos músculos aparecem a partir da nona semana.” No estágio fetal os receptores nos músculos já forneceriam um sentido de posição e movimento, e, após o parto, os recém-nascidos sentem seus corpos primeiramente
323Varela e outros (1991), p.216
324 Pfeifer e Bongard (2007), p.354 [We particularly want to show how the implications of embodiment have led to change, not only in the way we view biological intelligence and how we build artificial systems, but more generally in the way we view ourselves and the world around us. ]
prestando atenção ao movimento: “A ciência (awareness) do corpo surge das atividades cotidianas como sugar, segurar, chutar, engolir, chorar, virar-se, esticar- se , alcançar, sorrir, balbuciar, etc.”
Argumentando a partir de nossa origem evolutiva, Llinás (2001, p.15) defende que o mental é uma forma de internalização do movimento, e um primeiro indício disso seria o fato de que um sistema nervoso se mostrou necessário somente para criaturas que apresentam motricidade (capacidade de orquestrar e expressar movimentos ativos). Para este autor, o entendimento de qualquer coisa pelo cérebro, seja factual ou abstrata, emerge de nossa
interação com o mundo exterior a partir de nosso movimento e experiência sensória.326 Para
Haselager e Gonzalez (2003) “descobrimos” nossa identidade ao mover-nos e ao percebermos nossos próprios movimentos em uma forma de “balbucio” de movimentos que muitas vezes podem parecer totalmente dissociados de qualquer propósito ou controle: “chutar é primeiramente o início de uma manifestação de comportamento aparentemente não específico”. Os autores partem da tese de Sheets-Johnstone (1999) segundo a qual “o 'se' precede o 'eu me movo' do mesmo modo que este último precede o 'eu posso
mover-me'”327. O movimento espontâneo seria a fonte constitutiva de nossa percepção e senso de nós
mesmos como agentes, sujeitos e indivíduos. A base de nosso self surgiria desses movimentos
espontâneos, que nos acontecem antes que nós os façamos acontecer. Somente num estado posterior é que a atenção poderá ser dirigida ao controle dos movimentos. Nos termos de Sheets-Johnstone (1999): “Nós éramos aprendizes e não mestres de nossos corpos. Uma criança não é uma mente tentando controlar um corpo, tampouco é um corpo fora de controle
esperando por uma mente para acompanhá-lo (Sheets-Johnstone, 1999, p.l50).”328 Haselager e
Gonzalez (2003) admitem que todos os animais possuem uma forma de identidade, assim como as crianças em estágio pré-linguístico.
Se nossa análise estiver correta, o processo de autodescoberta através do movimento é importante para desenvolver o sentido de si. Estudando robôs que evoluem a partir de movimentos proprioceptivos incontrolados para um movimento mais controlado e dirigido poderíamos oferecer indícios sobre a natureza e operação de movimentos randômicos similares observados em crianças.329
326 Llinas (2001), p.58
327 SHEETS-JOHNSTONE, M. The primacy of movement. Amsterdam: John Benjamins (1999), citado por Haselager e Gonzalez (2003), p.7
328 Haselager e Gonzalez (2003), p.8 329 Haselager e Gonzalez (2003), p.12
Essa sugestão vai ao encontro das ideias de Navega (2000), para quem os robôs devem aprender tal como o fazem as crianças. Sob o ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, Rosenfield (2000) destaca a importância da integração da visão com a ação motora no desenvolvimento cognitivo. Conclui que consciência, memória e percepção não seriam possíveis se o cérebro não estivesse usando os movimentos como base de integração da experiência sensória. Para além da relação entre nossas habilidades linguísticas e as funções motoras, Rosenfield ressalta a importância do ritmo e do fluxo temporal para o que ouvimos,
vemos e tocamos faça sentido para nós.330Observa que sutilezas da relação entre linguagem e
atividade motora têm sido reveladas por estudos recentes em crianças que apresentam dificuldade para aprender a falar (dislexia). “É notável que a inabilidade para produzir
movimento motores rápidos leva à inabilidade para ler e entender a fala normal”331.
emulação motora e intencionalidade
Para além do papel decisivo na formação de nossa cognição básica e de nossa autoidentidade, aspectos sensório-motores têm sido reconhecidos como fundamentais para aprendizagem e cognição de alto nível, possibilitando a vida em sociedade. Damásio (2000) observa que, no processo de percepção de um objeto, o organismo requer tanto os sinais derivados do objeto (visuais, sonoros, etc.) como os sinais provenientes do ajustamento do corpo necessário para tal percepção. Aspectos sensório-motores e a emotivos sempre acompanhariam a percepção, de forma que os registros que mantemos dos objetos e eventos percebidos em determinada ocasião incluem os ajustamentos motores que fizemos para obter a percepção da primeira vez, assim como as reações emocionais que tivemos então, “mesmo quando 'apenas' pensamos em um objeto, tendemos a reconstruir memórias não só de uma forma ou de uma cor, mas também da mobilização perceptiva que o objeto exigiu e das
reações emocionais acessórias.”332 Quando evocamos um objeto na memória, “evocamos não
apenas características sensoriais de um objeto real, mas as reações a esse objeto que tivemos
no passado.”333
Jackson e Decety (2004) usam um exemplo cotidiano para ilustrar a íntima ligação entre os sistemas motores e a cognição. Digamos que você tenha perdido as chaves do seu carro e está ansioso temendo perder seu compromisso da manhã. Uma maneira eficiente de
330 Rosenfield (2000), p.121
331 Rosenfield (2000), p.120 [It is interesting that the inability to produce the rapid motor acts leads to an inability to read and to understand normal speech.]
332 Damásio (2000), p.193 333 Damásio (2000), p.209
achá-las é retraçar em sua mente o que você fez na noite anterior, onde na sua casa você esteve, com quem você interagiu, e por aí em diante. Tal simulação mental reativará suas representações motoras na memória de trabalho e ajudará a localizar suas chaves. Para os autores, a ideia de “cognição motora” vai além da noção de que a cognição está incorporada na ação: os sistemas motores participariam no que é considerado classicamente como processamento mental de alto nível, incluindo os processos envolvidos em nossas interações
sociais.334 Padrões sensório-motores profundamente internalizados seriam como
representações de ações básicas, que poderiam ser compartilhadas socialmente. Segundo a
teoria de código comum (common coding theory) as ações seriam codificadas em termos dos
efeitos percebíveis que elas podem gerar: “a percepção de uma ação ativará representações na medida em que a ação percebida e a representada são similares, dessa forma essas
representações podem ser compartilhadas entre indivíduos”335 Esse mecanismo permitiria uma
base comum das representações motoras, capazes então de serem compartilhadas socialmente independente da língua, dado que, afinal, vivemos no mesmo mundo e temos corpos semelhantes.
Gallese e Lakoff (2005, p.19) destacam o papel dos neurônios espelho ao sugerirem que mecanismos sensório-motores fazem o aterramento dos conceitos abstratos. Para Jackson e Decety (2004), a descoberta dos neurônios espelho proveu a primeira evidência fisiológica convincente de união entre percepção da ação e execução da ação. Como vimos no item 2.3, um subgrupo destes neurônios responde mesmo quando a parte final da ação é escondida, podendo ser apenas inferida. Neurônios específicos nesta região parecem responder à
representação de uma ação em lugar da ação propriamente.336 E mais, alguns neurônios
ocupam-se de algumas ações independentemente da modalidade pela qual elas foram inferidas
(por meio visual ou sonoro, por exemplo). “Este sistema de correspondência oferece uma
explicação parcimoniosa de como entendemos as ações dos outros: por um mapeamento direto da representação visual da ação observada em nossa representação motora da mesma
ação.”337 Outra consequência da equivalência funcional entre percepção e ação é que observar
uma ação desempenhada por outra pessoa facilita a futura reprodução dessa ação por si mesmo. É como se guardássemos o caminho motor, em uma maneira entendida
334 Jackson e Decety (2004), p.259
335 Jackson e Decety (2004), p.259 [perception of an action should activate action representations to the degree that the perceived and the represented action are similar. As such, these representations may be shared between individuals.]
336 Jackson e Decety (2004),p.260
337 Jackson e Decety (2004), p.260 [This matching system offers a parsimonious explanation of how we understand the actions of others: by a direct mapping of the visual representation of the observed action into our motor representation of the same action]
corporalmente. Isto terá implicações para a sobrevivência em uma sociedade cultural. Observam os autores: “Enquanto a imitação é útil para aprender novas habilidades, o reconhecimento que alguém está nos imitando tem um papel importante nas trocas
comunicativas e no desenvolvimento da intersubjetividade.”338
Pesquisas com crianças estudam a capacidade de imitação racional, no sentido de possível avaliação da ação humana em termos da relação entre agente, meio e fim da ação. Jackson e Decety (2004, p.263) relatam estudo com crianças de quatorze meses de idade, que foram apresentadas a um evento no qual um ator humano ativa um interruptor de luz usando a cabeça. Caso a razão pela qual o protagonista não podia usar suas mãos para ativar o interruptor fosse clara, como por exemplo por precisar segurar uma coberta sobre o corpo, as crianças imitavam o objetivo do evento e ativavam o interruptor usando as mãos. Entretanto, caso não estivesse aparente o motivo que levou o ator a usar a cabeça em lugar das mãos as crianças usavam a cabeça para acender as luzes. As representações internas que emergem dos ciclos ação/percepção corresponderiam a uma forma de cognição motora: “Isso nos permite não apenas reagir ao ambiente, como também antecipar as consequências de nossas ações. Estas representações não só orientam nosso comportamento como também são usadas para
interpretar o comportamento dos outros, pois que são compartilhadas.”339 A percepção de um
objeto faz com que sinais provenientes dos diversos canais sensoriais sejam processados, provocando no organismo um conjunto de ajustes motores e reações emocionais. A base de nossa consciência seria uma atenção voltada para atuação no mundo, uma atenção intrínseca ao vir a ser.
A perspectiva antecipatória apoiada no sistema sensório-motor fundamentaria a nossa habilidade de representar, ponto de vista que permeará as discussões nos próximos itens. Conforme Pezzulo (2008), “Nos últimos anos um novo paradigma, que podemos chamar uma
teoria da cognição com base na ação (action-based) ou no movimento (motor-based), está
ganhando crescente relevância. Cognição é para fazer, não para pensar. Em paralelo, conceitos
básicos da ciência cognitiva, tal como as representações, estão sendo redefinidos.”340
338 Jackson e Decety (2004), p.261 [Whereas imitation is useful for learning new skills, the recognition that someone is imitating us plays an important role in communicative exchanges and in the development of intersubjectivity]
339 Jackson e Decety (2004), p.262 [This enables us not only to react to our environment but also to anticipate the consequences of our actions. these representations not only guide our own behavior but are also used to interpret the behavior of others, because they are shared across individuals.]
340 Pezzulo (2008), p.181 [In the last years a new paradigm, which we could call an action-based or