3 FILOSOFIAS DA MENTE
3.1 UMA FILOSOFIA DA MENTE
Embora a filosofia da mente tenha se firmado como área de conhecimento específica somente em meados do século passado, reconhecemos que a reflexão filosófica, desde seus primeiros passos formalizados na revolução cultural grega, foi sempre permeada por questões cognitivas. Ao fim do século XX encontramos tentativas de descrever a filosofia que incluem a consciência dentre seus objetos. Conforme Chaui (2000, p.15),
A Filosofia volta-se, também, para o estudo da consciência em suas várias modalidades: percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão, comportamento, vontade, desejo e paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o ser humano e o mundo, do ser humano consigo mesmo e com os outros.
Reflexões sobre essa voz que não cessa dentro de nós, que parece tanto nos controlar quanto ser por nós controlada, provavelmente intrigaram também os ancestrais humanos, falantes há pelo menos 500 mil anos.
primeiras questões
Consolidadas as primeiras sociedades e suas linguagens, não demorou a nos questionarmos sobre a efemeridade de nós mesmos e do que vemos a nossa volta. Como tratar as coisas se, ao mesmo tempo em que elas estão em perpétua mudança, dependemos de reconhecer nelas o permanente para sobreviver? É popular a contraposição entre mudança e permanência expressa pelos pensadores Heráclito (~535-475a.c.) e Parmênides (~540-470a.c.) há cerca de 2500 anos. De Heráclito nos chegaram registros de uma profunda reflexão sobre a realidade, revelando um pensador atento à coexistência dos contrários: “Em nós manifesta-se sempre uma e a mesma coisa: vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a
mudança de um dá o outro e reciprocamente.”158, e à mudança inexorável: “Descemos e não
descemos nos mesmos rios; somos e não somos.”159 A abordagem de Popper (1972, p.169)
explicita o dilema:
Toda mudança, de fato, é a mudança de alguma coisa: a mudança pressupõe algo que muda. Pressupõe ainda que, durante a mudança, essa coisa deve permanecer a mesma. Podemos dizer que uma folha muda quando amarelece, mas não podemos afirmar que houve mudança se a substituirmos por uma folha amarelada. O princípio de que aquilo que muda retém sua identidade é essencial à ideia de mudança. Contudo, o que muda deve tornar-se algo diferente: era verde, tornou-se amarelado; era úmido, tornou-se seco; era quente, tornou-se frio.
Parmênides teria retrucado defendendo o aspecto permanente e imperecível do ser: “uma estrutura inteira, inabalável e sem meta; jamais foi nem será, pois é, no instante
presente, todo inteiro, uno, contínuo.”160 Ensinou que o mundo real era uno e permanecia
sempre no mesmo lugar. “O movimento era impossível nesse mundo – na verdade, a mudança
era inexistente: o mundo das transformações era ilusório.”161
Estabelecido o dilema entre um mundo em mudança e a busca do que permanece como essência, inabalável pelos acidentes, uma possível “solução” é reconhecida na obra de
158 Heráclito, frag. 88. In: Bornheim (1977), p. 41 159 Heráclito, frag. 49 In: Bornheim (1977), p. 39 160 Parmênides. In: Bornheim (1977), p. 55 161 Popper (1972), p. 170
Platão (427-347 a.C.). Escrevendo em forma de diálogos, sugeriu um mundo duplo, de aparências (falsas e perecíveis) e essências (ideais e permanentes), e um método racional para a busca do conhecimento. A opção de Platão por ideias eternas, residentes em um plano superior ao devir, marcará definitivamente o pensamento do homem ocidental. Na revolução moderna, após dezenas de séculos separando corpo perecível e alma eterna, passamos a separar corpo e mente, ruptura cujo debate será encarado pela filosofia da mente no século XX. Conforme argumenta Teixeira (2000), o esforço da filosofia frente ao este dilema, particularmente após Descartes, é considerado ineficaz e infértil, pouco contribuindo para saber se o cérebro produz a mente ou se ele simplesmente a manifesta. “Da filosofia tradicional teríamos apenas a aridez metafísica; da neurociência e da engenharia do mental, a excessiva ingenuidade filosófica de alguns cientistas. Cabe à filosofia da mente buscar uma terceira margem do rio ou uma perspectiva da qual possamos, quando falamos de mentes e de
cérebros, distinguir entre cavaleiros e moinhos de vento.”162 Mas antes de nos dedicarmos às
abordagens do mental estabelecidas no século XX, investigaremos questões cognitivas próprias da filosofia anterior à chamada filosofia da mente.
De forma coerente com a teoria das ideias platônica, nossos conteúdos mentais poderiam ser abstraídos e destacados das mentes que os pensam, formando assim um mundo à parte. Um mundo de imutáveis, único mundo verdadeiro na concepção de Platão. Pensar significaria acessar esse mundo de ideias. O mundo que percebemos através dos nossos sentidos seria apenas uma cópia desse mundo ideal. Essa concepção de mundo é considerada decisiva para o desenrolar da racionalidade na forma que conhecemos. Uma implicação imediata é a possibilidade de operações lógicas sobre conteúdos mentais imutáveis, assim como a possibilidade da verdade em um mundo de aparências efêmeras. Teixeira (2000, p.18) associa as especulações platônicas à dicotomia que acompanha o pensamento ocidental:
Com isso Platão dividiu a realidade em duas partes: a do mundo sensível e a do mundo inteligível. [...] Quando refletimos sobre o problema da relação entre mente e cérebro podemos perceber como essa diafonia se manifesta [...] Dualistas e monistas jamais puderam se reconciliar e a história da filosofia da mente repete o longo comentário e tentativa de reconciliação entre os dois mundos de Platão.
Aristóteles (384-322 a.C.), de uma geração seguinte a Platão, empreenderá estudos sobre as mais diversas áreas de conhecimento. Formalizará a lógica clássica. Promoverá especulações de cunho realista baseadas na experiência que, reconhecemos hoje, contêm o germe do futuro método científico. Seu pensamento, embora apresente uma crítica sistemática
à teoria das ideias de Platão, não rompe com as bases do pensamento de seu antecessor. Conforme Gilbert (2005, p.62), “segundo Platão, ao qual Aristóteles se pretende fiel, o conhecimento não pode se completar a não ser em um saber estável, nas formas ou nas ideias eternas.” Em Aristóteles, para preservar a estabilidade é preciso sustentar que a forma não se corrompe, “define-se a forma pela permanência ou pela identidade contínua, enquanto a
mudança pertence à matéria”163. Retomaremos questões do pensamento grego antigo no
capítulo 5, quando abordarmos o despertar da racionalidade sob a perspectiva de estudos cognitivos contemporâneos.
a mente moderna
Por vários séculos, o pensamento da chamada revolução racional grega, principalmente as ideias de Platão e Aristóteles, vem a ser incorporado pelo cristianismo com adaptações necessárias, nos períodos conhecidos como patrístico (séculos I ao VII) e medieval
(séculos VIII ao XIV)164. Na opinião de Carvalho (1996, p.5), os pensadores medievais apenas
reafirmaram a doutrina autorizada da mente humana. “Ao longo de toda a Idade Média, a teoria da mente do mundo ocidental não pode deixar de ser a doutrina oficial do Catolicismo, escrita com sutilezas de filosofia sistemática e muito misticismo.”
Com o Renascimento, a partir do século XV os debates filosóficos passam a ser tratados à luz dos primeiros resultados obtidos pela nova forma de fazer ciência. O pensamento ocidental tenta conciliar ideais teóricos e evidências empíricas. Ao formalizar o dilema mente-corpo, Descartes é considerado o primeiro filósofo moderno a tratar de assuntos da ciência cognitiva. Empreendendo a dúvida metódica, duvidando de tudo que pudesse ser enganoso, restou-lhe apenas confiar na existência de si mesmo como algo pensante. Essa coisa que pensa, a saber, o próprio sujeito do pensamento, seria o fundamento seguro para apoiar as demais certezas passíveis de demonstração. A mente cartesiana era o fundamento de uma existência indubitável. Ela era concebida como separada da matéria e totalmente diferente desta, o corpo era tido por autômato e comparável às máquinas feitas pelo homem. O dualismo de Descartes foi rebatido por Spinoza, em cuja concepção mente e matéria seriam aspectos distintos de uma única “substância”. Outras contraposições às ideias de Descartes foram feitas pelos empiristas. Locke (1632-1704) considerava a experiência sensorial como a única fonte possível de conhecimento, rejeitando a existência de ideias inatas. A mente seria
163 Gilbert (2005), p.62 164 Chaui (2000), p.53
como um papel em branco a ser preenchido com o conhecimento adquirido pela experiência. A partir da percepção e sensação das coisas, as ideias poderiam ser desenvolvidas em progressão, das primárias às secundárias, das simples às complexas, de modo a associar umas com as outras. O ser pensante seria capaz de produzir abstrações e generalizações a partir das ideias extraídas da experiência. Carvalho (1996, p.12) reconhece que Hume (1711-1776), outro expoente do empirismo, teria lançado as bases das teorias associacionistas da mente: “o curso do pensamento é determinado por semelhança, contiguidade no espaço ou tempo e causa e efeito”.
Em meio à crise revelada no conflito entre racionalismo e empirismo, Kant (1724-1804) estabelece as bases de uma síntese fenomenológica. O conhecimento se daria no fenômeno: experiência sensorial captada segundo molduras mentais como o espaço e o tempo e organizada segundo categorias do pensamento, como quantidade e relação. Kant pode assim ser considerado um precursor dos estudos cognitivos nos termos em que estes serão sistematizados ao fim do século XIX, salientando a necessidade de se considerar seriamente a estrutura racional da mente e o modo como esta organiza a experiência com base em suas capacidades cognitivas. Conforme Harré e Gillett (1999, p.69), “a noção de Kant de que existe um esquema ou especificação cognitiva que estrutura a nossa percepção dos objetos e a articula dentro de uma moldura mais ampla de conhecimento e raciocínio práticos encontra ressonância na psicologia cognitiva recente.” Kant reconheceu que nossa experiência é inevitavelmente modelada por nosso aparelho cognitivo e que nunca poderemos saber se o mundo é aquilo que se apresenta a nós ou se é algo diferente. “As tentativas de resolver o problema mente-corpo seriam, no entender de Kant, um caso típico de uso ilegítimo da razão – um erro que resulta de ignorar que nosso conhecimento está confinado aos limites da
experiência possível.”165 As ideias de Kant foram notavelmente férteis, inspirando diversas
linhas de pensamento nos séculos XIX e XX, como a fenomenologia, o positivismo e o perspectivismo. Voltaremos a este filósofo quando discutirmos questões epistemológicas no capítulo 5.
lógica, linguagem e filosofia da mente
Representantes do positivismo lógico, que se apresentaram por vezes como legítimos herdeiros da filosofia kantiana, empreenderam o programa lógico-empírico e influenciaram decisivamente o pensamento do século XX. Sua aplicação à abordagem da experiência
sensorial humana influenciou a ciência cognitiva em direção ao behaviorismo. Enquanto Kant ainda representava uma busca metafísica, embora consciente dos limites do conhecimento, na virada para o século XX uma ativa vertente analítica apostava na generalização do método lógico-científico orientado a resultados. Frege, Whitehead e Russell revolucionaram a lógica,
e a obra Principia Mathematica é considerada um marco para a submissão do conhecimento
ao rigor lógico e ao método científico. Nesta visão, reduções sucessivas levariam finalmente ao encontro da verdade possível, e seus representantes procuraram eliminar a distância entre o conhecimento imediato e o obtido por inferência lógica. Veremos que a filosofia da mente se estabelece a partir deste enfoque, dedicada a questões de lógica e linguagem e naturalmente preservando um certo desprezo pelo pensamento filosófico não analítico, postura que marca o neopositivismo. Seguindo esta atitude, de certa forma os chamados filósofos da mente se consideram “os eleitos” da razão. Fazem o elogio de uma lógica que se coloca acima do humano, desprezando a tradição filosófica e considerando seus representantes fadados ao fracasso, presos à “aridez metafísica”, nas palavras de Teixeira.
No tecido da lógica os filósofos analíticos encontraram a linguagem. Em 1922, Wittgenstein (1889-1951) defendia uma estrutura lógica para a linguagem. “As proposições da linguagem seriam a expressão perceptual dos pensamentos, que por sua vez são imagens lógicas dos fatos. Haveria uma correspondência formal entre a configuração dos objetos no
mundo, pensamentos na mente e palavras na linguagem.”166 Ideias que serviram de inspiração
ao Círculo de Viena. Formado no período entre as duas Grandes Guerras, este grupo ambicionou identificar as questões filosóficas tradicionais que poderiam ou não ser formalizadas logicamente. Os problemas indescritíveis em termos lógicos eram taxados de metafísicos, devendo ser descartados. O debate analítico relativo à linguagem e ao pensamento naturalmente levantou questões sobre a realidade dos nossos conteúdos mentais, consolidando uma “filosofia da mente”. Esta vertente da filosofia é representada principalmente por pensadores estadunidenses, sendo marcado pelo rigor analítico então dominante nas universidades e pelo paradigma computacional disponível em meados do século XX.
Seguindo o enfoque behaviorista dominante, Quine (1908-2000) interpreta tentativas de compreender o que as pessoas dizem como tentativas de lhes interpretar o comportamento. Adota uma postura pragmatista, considerando o idioma intencional e seus aspectos não objetiváveis como necessários à relação do homem com o mundo. Ou seja, rigorosamente
166 Gardner (1985) p.62 [the propositions of language are the perceptual expression of thoughts, and thoughts are logical pictures of facts. Wittgenstein thus posited a formal correspondence between configurations of objects in the world, thoughts in the mind, and words in language]
falando, não haveria fenômenos intencionais como crenças e desejos, mas seu uso cumpriria um papel próprio dentro da linguagem. A utilização de um vocabulário intencional estaria inserida na relação do indivíduo com o mundo e com outros indivíduos como uma necessidade prática. Aluno de Carnap (1891-1970) e de Whitehead (1861-1947), Quine exerceu grande influência sobre a filosofia estadunidense.
Ryle (1900-1976) seguiu a linha pragmática. Atacou a ideia de um suposto “fantasma na máquina”, negando que houvesse uma mente em si ou uma substância extra ao corpo, que o controla mesmo estando separada dele, como especulou Descartes. Para evitar tal equívoco, Ryle assumiu uma interpretação behaviorista, apoiada na descrição de comportamentos motivados por determinadas circunstâncias. Duvidou que houvesse um acesso privilegiado de cada um a sua própria mente, não havendo diferença entre o que alguém pode saber sobre si e
o que pode ser descoberto por outra pessoa apenas através da observação e questionamento.167
Hilary Putnam formaliza nos anos 1970 a analogia computacional: o nível de análise do
cérebro seria o nível do hardware, da máquina; o nível de análise da mente seria o nível do
software, do programa. Conforme Castañon (2006), “Seu objetivo era projetar um computador e um programa que operassem de forma idêntica a um ser humano, o que nos levaria a compreender nossos próprios processos cognitivos. Era o nascimento da tese da IA forte.”
Em um clima promissor era formalizada, há menos de meio século, a filosofia da mente. Se estabelecem então desde posições eliminativas, como a de Ryle, a posições dualistas persistentes, daqueles que não se convencem de que o físico basta para a mente. Na mesma época, como vimos no capítulo 2, os avanços da IA simbólica se materializam em sistemas computacionais capazes de solucionar problemas lógicos. Torna-se um desafio em filosofia da mente a busca de uma forma de preservar a eficiência da chamada psicologia
popular (folk psychology) na manipulação de conteúdos mentais, entretanto mantendo uma
visão materialista, não dualista. São colocadas questões decisivas como: Os estados mentais existem realmente, para além das hipóteses ferramentais da psicologia? São eles compostos por outro tipo de substância, por algo não físico? Teriam eles efeito causal sobre o físico? Ou não, nossos estados mentais não passam da expressão de um processo natural, sendo, em última instância, redutíveis a fenômenos físicos? Nosso desejo e livre arbítrio não seriam “motoristas”, mas sim “passageiros”? Seria a analogia simbólica-computacional uma “ponte” adequada entre mente e cérebro, e a mente um efeito de uma programação ou organização
específicas, passíveis de serem implementadas em diferentes hardwares? As respostas
possíveis a essas questões demarcarão as alternativas em filosofia da mente que discutiremos a seguir.