Histórias de Vida
2. Ambiente de aprendizagem
Pedro - A escola para mim era um fardo, extremamente penoso, ir à escola era cortar com a liberdade. Aos 6 anos entrei para a escola e senti claramente que era uma prisão. Segundo a minha mãe eu chorava bastante para ir para a escola. Rejeitava a escola. Eu tinha uma vida livre, andava na rua com os lavradores, com o gado, com os colegas da minha idade a jogar à bola, chego ali sou obrigado a estar preso. Ninguém gostai
De resto, apesar de tudo, em termos de infância, posso dizer que fossem com bons professores, ou com maus professores, eu nunca gostei da escola, eu sempre rejeitei a escola, sempre gostei mais da vida que tinha fora da escola. Depois mesmo na escola secundária e complementar, foi sempre uma relação muito penosa. Nunca gostei muito.
Luísa - Foi na escola primária que me confrontei, pela primeira vez, com a discriminação social e com a existência de miséria e defame. Na turma, havia uma aluna filha de um médico que era tratada com tolerância face aos enganos escolares enquanto as restantes crianças (onde eu me incluo) sofriam pesados castigos corporais. A imagem da Eugenia excessivamente magra pela fome e a tiritar de frio por ter vestido apenas um fino pijama em pleno Inverno, a chorar de dor (e talvez de humilhação) é a memória que mais me marcou desse tempo. De todas as atrocidades sofridas na escola primária (castigos, medos, humilhações...) a que mais me violentou foi o hábito «pedagógico» da D. Guiumar que consistia em pôr as melhores alunas a questionar as piores, devendo as primeiras acusar as colegas caso falhassem nas respostas, sob pena de serem castigadas pela professora. Acusar ou ser castigada??? Opção demasiado cruel para se colocar a uma criança.
Ficou-me assim da escola primária o sentimento da injustiça, da crueldade e da violência
Nos primeiros tempos fomos para a escola acompanhadas pelas mães e depois começamos afazer o percurso acompanhadas pelos irmãos mais velhos, até nos tornarmos completamente autónomas. Os percursos para a escola eram sempre vividos como uma aventura, condimentados pela fantasia típica
desta idade.[...] As boas memórias da escola primária são as brincadeiras pelo caminho, os tempos de recreio, os deveres feitos em parceria com as colegas (...)
Jorge - Não era uma escola diferente. Havia reguadas, castigos e um ambiente inequivocamente autoritário. Apesar disso, e pelo facto de ser um aluno com um bom aproveitamento nunca sofri muito que me lembre, com isso. Os castigos e a repressão tinham mais a ver com o insucesso
académico do que com a indisciplina (A única manifestação de indisciplina generalizada que recordo foi quando decidimos ir, em massa, para o recreio das raparigas, correr e jogar futebol. A punição
que se seguiu a um tal acto de rebeldia não olhou nem a nomes nem a caras. Três reguadas em cada mão que partilhamos com as vítimas de sempre.).
Errava-se a tabuada, apanhava-se. Mais de x erros no ditado e apanhava-se. Mais de três asneiras nas chamadas ao quadro para responder às perguntas de História voltava a apanhar-se.
Três factos marcam a minha memória sobre a escola primária. O facto de não irmos ao recreio durante o mês de Maio. Todos os alunos se juntavam na sala de aula da minha professora para rezar o terço. Penso que os únicos que ficavam satisfeitos com isso eram aqueles que, nesse dia, traziam as flores para o altar de Nossa Senhora de Fátima, já que tinham a permissão da professora para o
arranjar. O segundo facto, prende-se com que para mim foi motivo de algum sofrimento na situação de relativo idílio que foi a minha escola primária. Em quatro anos de escola, e lendo bastante bem, nunca fui chamado a representar o que quer que fosse na festa do fim de ano. Nem a 1er uma poesia, nem, pelo menos, afazer uma figuração. Nunca percebi porquê.
Avaliando à distância, posso concordar que quer o jardim de infância quer a escola primária foram marcantes na minha vida quer pelo que lá aprendi quer pelo que lá vivi.. São espaços que evoco através de recordações gratificantes.
Marta - Detestei a escola primária [...] A escola era tipicamente salazarista. A Directora era extravagante (dizia-se que às vezes pintava o cabelo de verde), mas simultaneamente e oficialmente era do regime. Tinha uma "mariazinha" - o nome da palmatória -, mandava as alunas para o recreio com letreiros às costas a dizer que eram ladras, etc.
Na primeira e na segunda classe tinha muitas saudades da minha mãe, depois passou-me. Sinto que sim, que a escola primária me marcou especialmente; sem duvida, pela negativa, para me opor ao que vivi e presenciei.
Inês - Na escola, principalmente na 1" classe retenho ainda na memória "quadros" pouco gratificantes, dando alguns exemplos: era esquerdina, então como "crime" ou defeito essa mão era amarrada, com frequência, outro, aos menos bafejados pelo saber eram-lhes colocadas orelhas de burro e iam para a janela exibi-las.
Evidentemente que isto me marcou profundamente, trata-se de desbastar caminhos, na nossa tão toldada existência.
Beatriz - desde prelecções sobre a triologia Deus, Pátria e Família, passando pela obrigatoriedade de rezar no início e no fim das aulas e pela aprendizagem do hino da Mocidade Portuguesa
O ensino primário marcou-me ao nível dos valores veiculados - e, por isso, eu não percebia porque queriam as colónias ser independentes se os portugueses eram tão bons para os "pretinhos" -e pelo abuso de autoridade/agressão verbal e física tão comum, tão tolerada, senão mesmo incentivada, exercida sobre seres tão indefesos.
Diogo - A escola primária no Io ano deve ter sido pouco acolhedora: porque me lembro de muito
pouco [...] a sala era muito comprida, com carteiras em filas e com janelas altas; que havia um pátio interior, onde comia o lanche que levava de casa. Não recordo qualquer colega; vem-me à memória com nitidez a festa de despedida do professor, com a bandeira portuguesa atrás e a face da jovem docente que o substituiu.
Os que mais apanhavam eram os que estavam ao fundo, já rondavam os 14 anos e tinham muitas dificuldades: não aprendiam, pareciam já traumatizados no enredo do insucesso escolar.
A escola primária marcou-me profundamente na estimulação da memória (embora hoje ela seja tão diferente), na criação de bases de leitura e de escrita que me seguiram sempre e no gosto profundo por aprender cada vez mais.
Francisca - Entrei para a então escola primária com 7 anos. Não tenho nenhuma memória negativa associada aos 2 primeiros anos de escolaridade, bem pelo contrário. Gostava das aprendizagens e também do convívio com as outra meninas. Por razões familiares, nomeadamente para permitir que os filhos pudessem estudar, a minha família mudou-se para o Porto quando eu tinha 9 anos. Frequentei a 3a e 4a classes no Porto. A adaptação inicial foi difícil (como era desconhecida comecei
na "fila dos burros"), mas depois tudo se esclareceu.
Não gostei de "levar reguadas" quando cheguei ao Porto, mas como isso aconteceu poucas vezes não foi negativo. Permitiu-me até ver o que era o lugar do outro e estar, ao longo da vida, atenta aos
comportamento de humilhação, que na minha opinião são menos aceitáveis que bater.
Adolescência