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Capítulo IV – Apresentação e discussão dos dados relativos às crianças

4.3. Amostragem de acontecimentos: brincar

4.3.2. Amostragem de acontecimentos do brincar do Rodrigo

Ao longo das observações concretizadas ao brincar destas duas crianças foi notório a utilização do brincar para interpretar situações da sua vida que surgiam nas suas brincadeiras, principalmente por parte do elemento masculino, o Rodrigo.

Normalmente, quando efetuávamos esta observação, de um modo geral, as crianças ainda se encontravam a realizar o relaxamento, momento este que fazia parte da rotina diária da sala. Posteriormente, as crianças dirigiam-se para a área de trabalho (mesas), nas quais concretizavam algumas atividades orientadas pela educadora de infância, e após este momento, dirigiam-se para o momento das atividades livres, escolhendo a área que preferissem para brincar.

As crianças alvo deste estudo revelaram sempre interesse e envolvimento durante o momento do brincar.

Em relação à criança do sexo masculino, o Rodrigo, revelava um interesse profundo nas áreas dos jogos de manta, oficina, casinha e a mesa de recortes e colagens. Contudo, a mesa de recortes e colagens foi mais utilizada por este elemento, dado que a educadora de

infância, no momento em que nos encontrávamos a observar, estava a realizar algumas atividades no âmbito do “Dia da Mãe”. Pelo facto de conhecermos e de já termos observado esta criança, em contextos diferentes, podemos constatar que não é de todo uma área preferencial do Rodrigo.

O Rodrigo apreciava bastante a área da casinha, na qual refletia e transpunha a sua vida para as brincadeiras que realizava com os seus colegas. Tal como Hohmann e Weikart (1997, p. 106) referem, “as brincadeiras das crianças pequenas são frequentemente sinais do centro das suas vidas, refletindo situações familiares emocionalmente carregadas como nascimentos, mortes (de familiares e de animais de estimação), casamentos, funerais, reuniões familiares e cerimónias religiosas”. Smilansky (1990, cit. por Hohmann & Weikart, 1997, p. 494) reforça precisamente que

as brincadeiras de faz-de-conta das crianças como um processo de improvisação permanente que exige imitação da realidade e imaginação ou fazer-de-conta para suavizar as contradições e as inconsistências. (…) A brincadeira de faz-de-conta tende a ser fluída e flexível e as crianças envolvem-se frequentemente em diálogos complexos, inventando o guião à medida que vão representando.

Numa dada ocasião em que me encontrava a analisar o bem-estar e a implicação do Rodrigo que se encontrava com duas colegas, na casinha, verificámos o seguinte diálogo “Eu sou o pai e a Diana é a filha e tu és a mãe Benedita. Diana senta-te no carro vem aí a polícia, vamos fugir” (registo do bem-estar e implicação do Rodrigo, 24 de abril de 2015). Constatámos deste modo, que o Rodrigo era a única criança que tinha estes comportamentos nas suas brincadeiras, realizando situações imaginárias com a polícia. Neste episódio, o Rodrigo pegou na sua colega e sentou-a numa cadeira, imaginando-se no carro com a sua filha, servindo-se da vassoura para criar a caixa de velocidades do carro, movimentando-a para a frente e para trás com força.

O Rodrigo apreciava também as brincadeiras na garagem/oficina. Havia uma parte dentro desta área com estruturas de construção de plástico e uma mala de médicos. Verificámos diversas vezes algumas brincadeiras que o Rodrigo tinha com as suas colegas, em que ora encarnava o papel de médico ora de paciente. Pinto (2011, p. 4) considera que

com a brincadeira do faz-de-conta a criança conseguirá ver o objeto não como ele é, mas como ela gostaria que fosse. Assim, o objeto abandona sua força determinadora e o significado fica mais importante que ele próprio. Ao escolher, por exemplo, ser o médico ou o fantasma em uma brincadeira de faz-de-conta, a criança pode estar passando do passivo para o ativo e mostra exatamente o que foi feito com ela através desses personagens – do mundo real e do mundo imaginário – dotadas de tantos poderes, facilita a assimilação da realidade do quotidiano por parte de crianças pequenas.

76 Num registo do brincar de 5 em 5 minutos, verificámos seguinte afirmação do Rodrigo, quando este se encontrava a encarnar o papel de médico com duas colegas, “Já não tens febre!” (amostragem de acontecimentos do Rodrigo, 27 de abril de 2015). Observamos também a sua habilidade de criar e dispor estruturas de plástico, com a intenção de construir algo que desejasse com as mesmas, com o auxílio dos seus colegas.

Uma das áreas igualmente apreciadas pelo Rodrigo era a área dos jogos de manta, no qual utilizava a sua capacidade criativa em conjunto com os seus colegas para construírem, com o auxílio de estruturas de madeira, pássaros, torres, entre outras. Hohmann e Weikart (1997, p. 505) referem que

as crianças mais pequenas gostam de criar reproduções de pessoas e coisas a partir de plasticina, blocos, madeira, caixas, e praticamente todo o material que conseguem encontrar. São capazes de fazer reproduções porque podem formar imagens mentais de pessoas e coisas, e conseguem ver as semelhanças entre essas imagens e um material ou um meio particular. Conseguem ver, por exemplo, que uma cobra e um pedaço de plasticina enrolado partilham algumas características dinâmicas e estruturais.

Numa observação que realizámos, o Rodrigo estava a construir um pássaro com blocos de madeira, com dois colegas, referindo “O pássaro tem quatro asas! É um passarão!” (amostragem de acontecimentos do Rodrigo, 29 de abril de 2015).

Podemos igualmente referenciar que o Rodrigo escolhia quase sempre os mesmos elementos para partilhar as suas brincadeiras (Augusto, Matias, Samuel, Gonçalo, Bárbara, Maria, Dina, Joana, amostragens de acontecimentos do Rodrigo).

Deste modo, podemos concluir que o Rodrigo apresentava uma enorme capacidade criativa para concretizar as suas brincadeiras, sendo uma criança sociável, após os laços de segurança e confiança se encontrarem bem estabelecidos, contudo por vezes quando a sua vontade não era satisfeita, entrava em confronto com os seus colegas, amuando. O Rodrigo quando não se sentia verdadeiramente motivado perambulava pelas várias áreas de interesse, com alguma frequência.