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Capítulo IV – Apresentação e discussão dos dados relativos às crianças

4.1. História de vida e avaliações

4.2.5. Síntese dos registos de bem-estar e implicação

O Rodrigo e a Adriana eram crianças com uma personalidade muito distinta uma da outra. O Rodrigo evidenciava uma personalidade mais forte e, consequentemente, uma maior capacidade de resiliência perante dificuldades, enquanto que a Adriana revelava uma personalidade mais reservada e frágil, não sendo capaz de dar uma resposta imediata perante uma crise ou um problema com que se deparava. A capacidade de resiliência de ambos era bastante diferente. O Rodrigo era uma criança mais reservada, no que diz respeito aos seus sentimentos e emoções. A Adriana demonstrava precisamente o contrário era uma criança mais transparente, evidenciando a alegria e a tristeza, de formas bastante evidentes. Segundo Yunes e Szymanski (2001, cit. por Yunes, 2003, p. 76), “a resiliência é frequentemente referida por processos que explicam a “superação” de crises e adversidades em indivíduos, grupos e organizações”. Alguns autores vão um pouco mais além defendendo que a resiliência é um conjunto de processos sociais e emocionais que facilitam o desenvolvimento de uma vida saudável, mesmo não vivendo num ambiente favorável (Rutter, 1987, cit. por Ribeiro & Sani,

2009). Benzoni e Varga (2011, p. 370) consideram que “a resiliência é a capacidade das

pessoas de não só sobreviver às adversidades, mas também de conseguir, a partir da adversidade, tirar proveito e de se desenvolver, isto é, de mostrar a capacidade de construir-se e reconstruir-se a partir da adversidade”.

Contudo, não podemos afirmar nem pensar que a resiliência é uma competência que nasce com a criança, nem que ela vai desenvolvendo esta capacidade, ao longo da sua vida. A resiliência designa um processo interativo entre a criança e o meio, considerado como uma variação individual em resposta à crise, sendo que os mesmos fatores originadores do problema podem ser experienciados de diferentes formas e por crianças diferentes, não sendo a resiliência, por isso, uma característica da pessoa (Rutter, 1987, cit. por Ribeiro & Sani, 2009).

A palavra resiliência é utilizada neste estudo com o intuito de evidenciar que apesar das crises que estas crianças vivenciaram, as mesmas tinham a capacidade de superar os seus dilemas, os seus confrontos com a realidade, com algum sucesso.

Apesar destes atributos, as crianças obtiveram resultados a nível de bem-estar muito próximos, entre 4 e 5, sendo níveis bons para as mesmas, dado que os seus contextos familiares/sociais não são de todo os mais favoráveis.

Dentro do contexto educativo, tanto o Rodrigo como a Adriana sentiam-se bem, tendo uma relação com a profissional de educação muito positiva. Quando tinham algum problema ou se sentiam mal emocionalmente, as crianças recorriam à mesma, tendo um discurso coerente e autêntico, ou seja, “Eu não vou rasgar Lena, deixa-me fazer eu!” (amostragem de acontecimentos do Rodrigo, 21 de abril de 2015), “Hoje estou contente. Vou buscar o meu pai e com o meu avô e com a minha avó” (notas de campo da Adriana, 27 de abril de 2015), “Quando vou visitar a minha mãe eu brinco com ela nas mesas e conversamos as duas. Faço alguns desenhos para ela” (notas de campo da Adriana, 22 de abril de 2015), “O meu fim-de-

70 semana foi bom. A minha irmã fez nove anos. O meu avô comprou bolo para ela. Os meus irmãos comeram duas fatias e eu só comi uma” (notas de campo da Adriana, 20 de abril). A educadora fazia uma enorme referência às emoções e aos afetos, educando-os nesta base, sendo importante mencionar este aspeto, pelo facto das crianças se sentirem tão à vontade para conversar com a mesma.

Perante as observações realizadas, foi possível observar que a Adriana tinha uma necessidade constante de afeto, era muito carente, recorrendo, desta forma, várias vezes à educadora para a abraçar, para lhe dar a mão e para estabelecer um diálogo, falando-lhe sobre os seus progenitores. Revelava, assim, necessidade de segurança, como num diálogo presenciado entre a profissional de educação e a Adriana, em que esta afirmou “Tu fizeste-me muita falta naquele dia em que não vieste” (nota de campo da Adriana, 22 de abril de 2015).

O Rodrigo era uma criança mais decidida, sendo mais desprendido do adulto. No entanto, o Rodrigo necessitava constantemente de ser reconhecido e escutado por parte dos colegas que pertenciam ao grupo. Observou-se que o Rodrigo tinha a necessidade de se sentir capaz, de realizar os seus objetivos, contudo só era possível verificar esta característica quando o mesmo se sentia realmente motivado e envolvido num dado momento ou tarefa.

No que diz respeito aos registos de implicação, foi possível aferir que ambas as crianças se encontravam dentro dos mesmos parâmetros, estando situadas no nível 3, no nível médio, em que há uma atividade mais ou menos continuada, havendo momentos sem grande intensidade. Ao longo das observações, foi possível verificar grandes momentos de atividade intensa e continuada, contudo nem sempre as crianças se mostravam empenhadas e atentas, quer no desenvolvimento das atividades orientadas pela educadora quer no decorrer das atividades livres. O Rodrigo apresentava indicadores e níveis mais elevados, com uma maior frequência, nas atividades orientadoras pela educadora de infância, respeitando a sua palavra, denotando um enorme interesse pelas tarefas realizadas. Todavia, quando os momentos eram orientados por outra (s) criança (s) e nas atividades livres mostrava-se muitas vezes distraído, revelando um comportamento desajustado e perturbador para com os outros. Muitas vezes, o menino impedia as brincadeiras dos colegas, guerreava por brinquedos, por querer participar, mas também por querer afirmar a sua atitude e a sua própria personalidade. O Rodrigo em situações de jogo simbólico transpunha indícios da sua vida, do seu contexto familiar para o jogo, sendo notório os problemas que o seio familiar estava a vivenciar, como por exemplo, “Eu sou o pai e a Dina é a filha e tu és a mãe Bárbara. Dina senta-te no carro vem aí a polícia, vamos fugir” (registo do bem-estar e implicação, do Rodrigo 24 de abril de 2015).

A Adriana apresentava uma postura mais tranquila, respeitando os seus colegas, quando estes dirigiam um determinado momento do dia. Mesmo quando se revelava distante, distraída num dado momento, a criança não perturbava o bom funcionamento das atividades desenvolvidas. Como já referi, a Adriana apesar de apreciar as tarefas desenvolvidas pela educadora, por vezes, distraía-se com os seus colegas, com aquilo que os outros estavam a executar e até mesmo consigo própria, mexendo no cabelo, colocando a boca nos joelhos, balançando-se para a frente e para trás. Houve um determinado episódio, em que a criança se

mostrou menos atenta, menos concentrada e mais distante. Esse episódio decorreu quando o pai saiu em liberdade condicional. A Adriana evidenciou momentos de grande excitação, com impacto na sua concentração, logo nos valores de implicação observados.

Esta criança não foi observada as nove vezes, dado que faltou uma vez, por motivo de doença. Este período de doença coincidiu, precisamente, com a saída do seu pai da prisão. Foi possível observar, no último dia, a mudança a nível de implicação da criança pois esta apresentava-se ensonada, distraía-se com qualquer movimento por parte de um colega, apesar de evidenciar uma postura corporal calma.

Em suma, as observações ao longo destes nove dias revelaram que as crianças eram estáveis, em termos emocionais, tendo sido possível registar a fragilidade da Adriana nas situações comentadas.

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