CAPÍTULO 1 – REVISÃO DA BIBLIOGRAFIA
1.7 Perceções sociais do risco
1.7.4 Amplificação social do risco e papel dos media
A Psicologia e a Antropologia partilham uma base comum ao aceitarem que o mundo é experienciado através de filtros que resultam da nossa experiência anterior. As diferenças disciplinares levaram psicólogos a focarem-se nas características únicas destes filtros e os antropólogos a generalizar acerca das suas origens sociais.
A primeira tentativa articulada de integração dos fatores sociais na perceção de riscos que incluiu psicólogos foi a da Amplificação Social do Risco (Kasperson et al., 1988), que reuniu geógrafos, engenheiros, gestores do ambiente e alguns psicólogos. Constatando a importância da articulação entre a perspetiva técnica e a leiga dos riscos, mas inserida no contexto da dinâmica social, este grupo de investigadores procurou lançar um quadro conceptual que permitisse (1) entender como é que determinados acontecimentos interagem com processos psicológicos, sociais e culturais de forma a acentuar ou a atenuar as perceções de risco, e (2) descrever as consequências que lhe estão associadas aos seus diversos níveis (individual, social, económico, político, institucional, ambiental, etc.). Foram buscar aos modelos da comunicação a metáfora do processo de amplificação: intensificação ou atenuação do sinal durante a transmissão de informação de uma fonte para um recetor. Neste processo, a fonte envia uma série de sinais que formam uma mensagem para um recetor que os descodifica de forma a dar-lhe sentido; este recetor depois envia a mensagem a outros, alterando a intensidade dos sinais recebidos, esquecendo alguns e acrescentando outros. Neste contexto, o processo de dar e compreender o significado de uma mensagem está dependente do contexto sociocultural, e as mensagens não têm apenas valor fatual (o conteúdo da mensagem e quem a emitiu), mas também inferencial (conclusões que se retiram depois de a ler), valorativo e simbólico (associação a imagens). O processo de amplificação dos sinais ocorre então tanto durante a transmissão como durante a receção.
Em termos estruturais, tudo se inicia com um acontecimento de risco. Estes acontecimentos têm diversos atributos (perigo, desconhecimento, etc.) e podem-nos chegar de diversas fontes: a nossa experiência pessoal ou mais comummente através de comunicação direta ou indireta. Normalmente a informação que recebemos já vem amplificada por algumas “estações sociais”: vem descrita pelos jornalistas que constroem a notícia, por um membro de um grupo de proteção ambiental, por um biólogo, por um político local, por um comunicado oficial sobre o assunto ou pela nossa rede de amigos e conhecidos. Cada recetor individual tem também a sua própria estação de amplificação. Esta amplificação pode dar origem a respostas comportamentais (individuais ou coletivas) de ignorar, tolerar, aceitar ou agir contra o risco, por parte dos diversos atores envolvidos (Carvalho, 2011).
Esta perspetiva concebe assim a amplificação como um processo que envolve os acontecimentos de risco, as estruturas e os processos sociais e assim “o risco só tem sentido na medida em que aborda como as pessoas pensam sobre o mundo e sobre as suas relações. Por isso não existe
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‘risco verdadeiro’ (ou absoluto) nem ‘risco distorcido (socialmente determinado). O sistema de informação e as características da resposta pública que compõem a amplificação social são elementos essenciais que determinam a natureza e a magnitude do risco” (Kasperson et al., 1988). Trata-se de um modelo dinâmico que mostra como diversos aspetos podem influenciar o resultado final, e que procura juntar elementos que vêm dos diversos contextos de investigação sobre o risco. Por exemplo, falar-se muito sobre um tema aumenta a perceção de risco porque o acontecimento se torna particularmente acessível à memória. A dramatização dos acontecimentos e a individualização das suas consequências aumenta a perceção do potencial catastrófico do desastre, que é um elemento essencial de sinalização do perigo. As disputas entre cientistas sobre um determinado tema diminuem a credibilidade das fontes científicas, minando assim a confiança nas instituições. A elaboração com outros acerca do significado e do risco de uma determinada situação torna o juízo final mais polarizado e mais resistente à mudança.
O aparecimento deste modelo foi muito importante porque permitiu fazer uma ponte entre o contexto social e a perceção de riscos, abrindo caminho para pesquisas. Trata-se de um quadro de análise muito geral, e que, como os próprios autores salientam, não permite prever quando é que os mecanismos de amplificação funcionam no sentido de atenuar o risco ou de o amplificar. Mas serve para interpretar diversos casos de tratamento de riscos na comunicação social e para pensar nos diversos momentos e fontes de influência social a propósito das questões de risco.
O espaço criado pela comunicação social pode ser concebido como um campo de batalha sobre as questões do risco, onde os serviços governamentais, os grupos económicos e os grupos da sociedade civil competem para fazer vingar as suas definições da situação e para garantir apoios. Nesse sentido, os meios de comunicação social desempenham um papel fundamental: como canais de comunicação; como mecanismos de feedback do público e de articulação da opinião pública; como espaços de debate e discussão pública; como vigilantes dos abusos do poder e como organizadores autónomos de campanhas (Petts et al., 2000).
Uma vez que as alterações climáticas envolvem conceitos complexos e difíceis de transmitir, é necessário que existam formas adequadas de os fazer chegar aos leigos em linguagem acessível. A comunicação de risco assume essa função, garantindo que os leigos sejam corretamente informados (Morgan et al., 2004).
Para além da sua experiência pessoal, o público depende das notícias dos meios de comunicação social para alargar o seu conhecimento. As noções de perigo associadas às alterações climáticas são fornecidas, essencialmente pelos media (Smith, 2005).
O grande objetivo da comunicação de risco é contraditório para alguns autores, que afirmam tratar- se de persuadir o público. Para outros, baseia-se em fornecer-lhe informação que lhes permita tomar decisões sobre o risco (Morgan et al., 2004).
Vários autores consideram que a comunicação de risco assume um papel fundamental nas perceções de risco (Carvalho e Burgess, 2005; Morgan et al., 2004).
Os significados construídos nos/pelos media relativamente ao ambiente têm importantes implicações para a legitimação ou contestação de escolhas políticas, de estudos científicos e de propostas de ONG, bem como para a perceção e atitudes do público (e.g., Hansen, 1993; Anderson, 1997). A avaliação que fazemos do risco associado aos problemas ambientais e a adoção de formas particulares de ação são fortemente mediadas pelos órgãos de comunicação social (e.g., Allan et al., 2000).
Todos os tratados internacionais enfatizam a importância da comunicação, do acesso à informação, da educação e formação, e da consciencialização do público para alcançar o estatuto de sociedade
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sustentável. Na Cimeira da Terra, que teve lugar no Rio de Janeiro em 1992, foi feito um apelo específico aos media para se envolverem no tratamento de informação relacionada com a preservação do ambiente e com a mudança de atitudes por parte do público. Apesar do fundamento da perspetiva profissional dos jornalistas e dos media ser informar (e não educar ou mudar atitudes), a seleção e o reporte de informação (em suma, a interpretação jornalística) tem uma influência incontestável nas perceções dos cidadãos, especialmente quando se relaciona com o campo com o qual os cidadãos têm pouco ou nenhum contacto direto (Nelkin, 1990).
Existe uma consciencialização do enorme potencial não só informativo, mas também educacional das mensagens audiovisuais ou escritas; a disseminação em massa das notícias de maior impacte ambiental devem levar os profissionais dos media a exercer uma sensibilidade extrema e a preocuparem-se com a apresentação do seu trabalho de modo a conseguirem transmitir a gravidade das questões ambientais para o público em geral, sem parecerem alarmismos ou anedotas preguiçosas, enquanto conseguem apresentar opções e alternativas para ajudar a resolver a crise (Novo, 2003).
A complexidade das questões ambientais, tanto na clarificação das causas como na explicação das consequências, obriga a uma atitude responsável por parte dos repórteres: um jornalismo mais aprofundado baseado em documentação meticulosa, numa narrativa de fundo, em consequências e atores envolvidos, numa análise de factos ambientais e, finalmente, a um enquadramento das situações nos seus contextos específicos. Para o repórter Victor Bachetta (2002), o jornalismo ambiental é um dos tipos de jornalismo mais extensivo e complexo, com cinco pontos a considerar: é jornalismo de investigação, é uma forma de jornalismo científico, é um jornalismo educativo, que está a par da necessidade de cumprimento da responsabilidade social específica, e tem que ser exercido com profissionalismo, objetividade e responsabilidade sem, no entanto, haver confusão com ativismo ambiental.
Em suma, a proteção ambiental tornou-se uma meta universal e as alterações climáticas são a questão central. Hoje, a crise económica que se vive desde 2008 levou a uma redução do valor associado às notícias relacionadas com as alterações climáticas numa altura em que “de acordo com as considerações dos cientistas, o problema não reside na irreversibilidade das alterações climáticas, mas na implementação de políticas globais capazes de mitigar a degradação ambiental” (Díaz Nostv, 2009).
A esta redução, a partir de 2008, precedeu-se um aumento constante na cobertura das alterações climáticas por parte dos media: desde menos de 700 referências em 1988 nos jornais das zonas do Oeste da Europa e do Norte da América, cuja língua é o inglês, para 7500 em 2006. No Reino Unido, essa cobertura quadruplicou nos jornais de qualidade em 2006 ao longo de três anos desde 2003, promovido pelo documentário de sucesso de Al Gore e pela divulgação do “Relatório Stern”, entre outras coisas (Boykoff e Boykoff, 2007).
Uma das principais abordagens para a pesquisa dos relatórios sobre alterações climáticas nos media do Oeste, especialmente nos jornais dos EUA ao longo de 1990, deu ênfase ao modo como os céticos do clima alcançaram um lugar especial nos relatórios dos media para oferecer argumentos contraditórios à visão prevalecente dos cientistas que postulava a existência das alterações climáticas antropogénicas. Algumas normas e tradições jornalísticas, especialmente o compromisso jornalístico para com a cobertura equilibrada, promove inadvertidamente o acesso aos media por parte dos céticos. O reporte de pontos de vista divergentes no interesse da neutralidade jornalística serve para amplificar a voz da minoria que nega a responsabilidade humana nas alterações climáticas na imprensa prestigiada (Boykoff e Boykoff, 2004). Neste caso, a cobertura das alterações climáticas resulta do conflito entre duas posições opostas, apesar do consenso
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crescente entre cientistas climáticos sobre o aquecimento global e do conhecimento subestimado, tal como acontece em muitas questões relacionadas com a ciência.
Com a incerteza científica gerada pelos media dos EUA e pelos media britânicos, a questão expandiu-se para além do campo científico em países europeus e ancorou-se nas relações internacionais. Os dois protagonistas são presentemente a União Europeia, líder na luta pela mitigação dos efeitos das alterações climáticas, e os EUA, que continuam a dificultar a negociação internacional (Brossard et al., 2004; Olausson, 2009).
Outro aspeto-chave tem sido o foco sobre o termo “catástrofe” nas mensagens dos media. A pesquisa europeia sugere que as notícias têm tendência a serem alarmistas, mergulhadas na linguagem do medo, catástrofe e desastre (Anderson, 2009). Na imprensa alemã, desde meados da década de 1980, por exemplo, “os media ignoraram complexidades e incertezas científicas que os transformaram numa sequência de eventos que levam à catástrofe e que requerem ações imediatas” (Weingart et al., 2000). Desde 2000, os jornalistas têm feito ligações entre eventos temporais dramáticos (tais como cheias e ondas de calor) e as alterações climáticas (Carvalho e Burgess, 2005). De acordo com Ladle et al., em 2005, “a linguagem cuidada e comedida da ciência não é adequada ao sensacionalismo abreviado que é típico do meio de comunicação da maioria das notícias contemporâneas dos media”.
Contudo, mostrando que as notícias dos media são complexas, altamente diferenciadas e ocupam o seu próprio nicho de mercado (Anderson, 1997), Carvalho, em 2008, numa investigação do discurso sobre as alterações climáticas nos media portugueses entre 2003 e 2007, concluiu que o alarmismo não define a cobertura das alterações climáticas na imprensa. O mesmo não acontece com a televisão, por exemplo, principalmente devido à tendência para mostrar imagens de desastres naturais enquanto se reporta as alterações climáticas.
Boykoff (2007), na sua análise da cobertura das alterações climáticas nas Nações Unidas, em 40 dos jornais de escrita inglesa em 13 países ao longo de cinco continentes, sublinha a necessidade clara de uma análise que seja estendida a outros países.