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Análise do protocolo do Teste AT-9 do sujeito

No documento Velhice asilada, gênero e imaginário (páginas 87-92)

PARTE II DADOS MÍTICOS

CAPÍTULO 1 DADOS MÍTICOS OBTIDOS COM OS INSTRUMENTOS UTILIZADOS COM OS IDOSOS ASILADOS

E. Se você tivesse que participar da cena composta, onde você estaria? O

1.1.3 Análise do protocolo do Teste AT-9 do sujeito

O sujeito apresentou imaginário com estrutura sintética e tendência à desestrutura. O duplo universo aparece no desenho, visto que em um momento o personagem está de pé, não com a espada na mão, mas ela está próxima e em riste, e em um outro, o personagem está deitado (queda).

No questionário do teste, o personagem, representado pelo Manezinho, tem a função de brigar e simboliza valentia. Nessa projeção, o personagem se representa com imaginário heróico. Em seu imaginário, apesar da fragilidade física de sua

idade, ele ainda pode tudo. Diz não ter mais “imaginação” e assume uma idéia

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O imaginário é a arma dada ao homem para vencer o medo da morte e a angústia do passar do tempo. O imaginário altera as percepções e nele podemos tudo, somos o que imaginamos, quer sejamos um deus, um bandido, um herói, ou o que quisermos, independentemente de nossas reais e temporais possibilidades. Seu Ceará, projetado no Manezinho, é um guerreiro que briga e tem valentia, reage contra o preestabelecido.

Na cotidianidade do asilo, Seu Ceará é um idoso que fala o que pensa e tenta lutar. Na escuta exercida nesta pesquisa, pôde-se registrar sua fala crítica que denuncia heroicamente: “A única coisa que eu detesto é mentira e eles mentem demais. E eu digo a verdade. A verdade, sim, e doa a quem doer, pois sim. Eu vou sair daqui. Se Deus quiser, eu vou sair daqui.”

Ao realizar o Teste AT-9, Seu Ceará verbalizou várias vezes que desenhar a espada era fácil, mas a queda já era difícil. Mordia a ponta do lápis ao desenhar. Disse que faria, então, um jumento para poder representar a queda. Enfim, desenhou a queda, mas enfatizou: “O Manezinho escorregou, mas não caiu. [...] Manezinho está com o pé quase dentro d´água”. Seu Ceará relutou, não querendo perder seu ponto de apoio, não querendo admitir suas fragilidades, mas disse que estava fraco pela idade. Esse elemento arquetípico pode representar o fim, a morte. Está registrado no questionário do teste que Manezinho quebra o braço, e não está simbolizado no quadro do teste, mas no desenho, que Manezinho está deitado, caído. Ele quis eliminar a possibilidade da queda, mas está presente em seu imaginário a angústia humana. “A significação dada à queda, no Velho Testamento, lembra o pecado original. Cair significa perder o equilíbrio, descer, ir fundo. Lembra a angústia humana” (DURAND, Y., 1989 citado por LOUREIRO, 2004, p. 23-24).

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Esse idoso é cearense e foi caminhoneiro, um fato passado que ele traz à lembrança com orgulho e nostalgia. Representou o elemento cíclico por um caminhão, que tem a função de progredir e simboliza a vida dele. Falou com orgulho: “Quarenta anos eu tenho em cima disso aqui”. Os elementos essenciais da sua dramatização imaginada e registrada no protocolo do teste foram o caminhão (cíclico) e o jumento (animal). De acordo com a teoria de Durand, Y. (1988), o caminhão é um elemento cíclico que remete ao sintético. Assim, aqui está presente a idéia de temporalidade, de ciclicidade, de movimento, ou seja, “progredir” simbolizando positivamente “vida”, como aparece no quadro do teste.

O jumento, de acordo com Seu Ceará, tem a função utilitária de carregar farinha e simboliza antifrasicamente animal sagrado e sossego. Este animal é utilitário e não é violento. Seu Ceará consegue ter paz e sossego quando pensa no animal. Naquele momento, o idoso queria ter paz. Ele pareceu se refugiar em algum momento no jumento.

Seu Ceará veio para esse asilo após ter passado por outras instituições. O motivo foi sua visão. Ele fez cirurgia em um dos olhos e afirmou: “[...] fiquei enxergando. Aí, eu fiquei vendo todo mundo”. Assim, o Manezinho ainda não caiu, ele luta heroicamente contra o “Incrível Hulk”, o monstro que “corre atrás do Manezinho”. Existe uma guerra que ele luta, mas como termina a cena? “Falta de imaginação”, disse o idoso, “Porque a pessoa na minha idade não tem mais. Na minha idade, o pensamento é mais fraco. As idéias que a gente tinha antes já era”. Vemos aqui um preconceito em relação à velhice; é a sociedade e o idoso falando ao mesmo tempo, em um processo recursivo, as pressões do meio cósmico e social, de acordo com Durand, G. (1997). Entretanto, mesmo assim, Seu Ceará luta nesse asilo, denuncia, fala que tem diabetes e não pode ter raiva e nem alegria, ou seja,

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emoções fortes. Mas, no asilo, disse que passa raiva e afirmou: “Eu só vivo enfezado que nem uma cobra em círculo, no canto de parede”. O asilo está encantoando Seu Ceará. Parece que esse idoso está sendo desconstruído através da pressão do meio ambiente do asilo, mas em seu imaginário ainda pode tudo. O elemento cobra é símbolo cíclico. Novamente, percebe-se a estrutura sintética no imaginário desse idoso; luta heroicamente, mas se encantoa, antifrasicamente; reclama do preestabelecido, mas quer sossego; e dissemina em dois “nós aglutinados” as imagens.

Seu Ceará denunciou maus-tratos por parte de um funcionário e o incômodo que aquele causava no abrigo. O presidente anterior ao atual mandou Seu Ceará embora, mas ele não foi. Ao contrário, esse idoso ameaçou o presidente: “Joga os meus cacos aí do lado de fora. Faz isso pra eu ver”. Com tom alto de voz, fez nova ameaça: “Eu uma hora vou fazer uma rodinha na minha frente e vou chamar o Estatuto do Idoso e explicar o que ocorre aqui dentro. O quê que é isso?”. Depois acrescentou: “Já viu um leão dentro de uma jaula? Bravo, porque nega tá domando ele? Pois é eu aqui dentro, ó”. Nesse momento, Seu Ceará assumiu a postura heróica, mas não se esqueceu de que está preso dentro da jaula, sem poder lutar.

Porém, ao mesmo tempo, esse idoso queria estar montado no jumento, queria estar no sossego, no animal sagrado, como ele mesmo dá o seu simbolismo. Mas, não pode, porque quem irá defendê-lo? Deixou claro antes de fazer o teste: “Não tenho religião e é só eu no mundo”.

O seu refúgio, a sua proteção, o seu aconchego é uma casinha de joão-de- barro. Essa “[...] casinha serve para ele tirar os filhotes dele lá e criá os filhotes dele aqui dentro, ó. Botar os ovos, chocar e depois tirar os bugelhinhos. Ele cria eles aí dentro. Só sai quando está voando”, afirmou Seu Ceará. O refúgio, para ele, está um

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pouco distante, sendo representado pela casinha de joão-de-barro, a qual serve para o pássaro criar seus filhotes. Esta função remete à idéia de ciclicidade e reprodução. Novamente, a estrutura sintética confirma-se neste protocolo.

A história da construção da casa do joão-de-barro é contada pelo idoso. Aparentemente, ele estaria exemplificando “as primitividades imaginárias a respeito do ser sólido na memória que é a casa natal”, como destaca Bachelard (1989, p. 47). O autor afirma: “[...] na sua própria casa, na sala familiar, um sonhador de refúgio sonha com sua cabana, com o ninho, com os cantos onde gostaria de se encolher como animal em sua toca” (BACHELARD, 1989, p. 47). Ele imaginou o animal representado por ele, o jumento, para ter sossego e a casinha do joão-de-barro para representar o refúgio e o aconchego de uma casa. O olho d’água é para o jumento beber água. Encontra-se aqui característica da estrutura mística associada ao reflexo digestivo considerado, betcherevianamente, por Durand, G. (1997) para propor a estrutura mística.

O elemento fogo tem a função de destruir e simboliza força. Este é o elemento que Seu Ceará gostaria de eliminar, porque, segundo ele, queima. O fogo é negativo na cena desse idoso. O fogo é um reforço à monstruosidade: o medo da morte. Tem que apagar o fogo porque ele é ruim, pois é para destruir. O fogo é um componente no imaginário dele que aumenta a angústia, a monstruosidade. Apesar da angústia, trata-se de um protocolo positivo.

Seu protocolo apresenta laivos de desestrutura: alguns elementos no desenho estão explodidos. Seu Ceará relatou que em sua composição “[...] cada coisa a idéia é diferente”. Essa tendência à desestrutura pode estar se formando, se cristalizando aos poucos no imaginário desse sujeito-autor, motivado pelo fato de ele viver em ambiente asilar. Como registra Durand, Y. (1988), um dos fatores de

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diferenciação no imaginário, além de idade, sexo e nível de instrução, é o contexto sociocultural no qual o sujeito está inserido, ou seja, seu meio ambiente. O protocolo desse sujeito revelou estrutura sintética sincrônica com tendência à desestrutura.

No documento Velhice asilada, gênero e imaginário (páginas 87-92)