1. O PENTECOSTALISMO EM ITAPECERICA DA
2.2 ANÁLISE DOS FUNDAMENTOS TEOLOGICOS DOS USOS E
A análise dos fundamentos teológicos dos usos e costumes se faz necessária para se entender qual o posicionamento das doutrinas e costumes cristãos que a bíblia recomenda diante de regras e proibições criadas pela CGADB. Em nossa análise tentamos mostrar que os textos bíblicos usados para legitimar tais proibições são na verdade recomendações culturais dos tempos bíblicos inserida em contexto contemporâneo como sendo a vontade de Deus.
Utilizaremos em nossa investigação comentários teológicos de teólogos conhecidos no âmbito assembleiano contemporâneo. Vale salientar que o que nos interessa nestes comentários teológicos, são unicamente os apontamentos referente a cultura e aos usos e costumes. Tais apontamentos se fazem necessário para entendermos os fundamentos culturais existentes nos contextos sociais dos textos bíblicos.
71 Escolhemos analisar a Resolução de 1999 e seu fundamento teológico devido a mesma conter um conteúdo de considerável flexibilização quanto aos usos e costumes assembleiano. A exortação da Resolução de 1999 recomenda os seguintes termos:
1. Ter os homens cabelos crescidos (I Co 11.14), bem como fazer cortes extravagantes.
Arrington & Stronstad comentando o texto bíblico de ICo 11:14 diz:
[...] devemos interpretar esta passagem levando em conta as expectativas culturais de sua cultura, desde que tais costumes não sejam incompatíveis com o cristianismo. Outra é que as distinções entre o sexo masculino e feminino devem ser sempre mantidas. Estes princípios gerais devem ser observados, não importando o contexto específico em que os cristãos se encontrem. Paulo apela para o que é comum, aos costumes cotidianos da época; era considerado culturalmente “natural” que o cabelo da mulher fosse longo, e o do homem curto. (ARRINGTON & STRONSTAD, 2003, p. 1003-1004).
Os apontamentos socioculturais de Arrington & Stronstad (2003) são importantes para compreendermos que o tamanho do cabelo masculino e feminino é uma questão cultural que distinguia homem e mulher. Analisando palavras de Arrington & Stronstad fica evidente que o texto bíblico utilizado pela CGADB na verdade não proíbe mas, se recomenda manter a distinção entre o sexo masculino e feminino não importando o contexto específico em que o cristão se encontra.
Segundo Champlin (1995)
[...] de maneira geral, os homens gregos usavam cabelos curtos, embora isso nem sempre ocorresse entre os hebreus (como no caso dos nazireus, que não passavam navalha na cabeça). Contudo, muitos gregos usavam cabelos compridos, incluindo os heróis gregos, e também, os filósofos, os mestres e os sábios. (CHAMPLIN, 1995, p.175)
72 A Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã diz:
Os antigos geralmente usavam cabelos compridos, embora os sacerdotes, os guerreiros e os garotos eram frequentemente barbeados. Os sacerdotes conservavam seus cabelos em um comprimento moderado (Ez 44.20), mas eram proibidos de fazer tonsuras Lv 21.5. (2008, p.835)
Segundo Wiersber:
De modo geral, é natural às mulheres terem cabelos mais longos e os homens, cabelos mais curtos. Romanos, gregos e judeus (com exceção dos nazireus), em sua maioria, seguiam esse costume. A Bíblia não diz em parte alguma qual deve ser o comprimento dos cabelos. Diz apenas que deve haver uma diferença clara entre o comprimento dos cabelos dos homens e o das mulheres a fim de não haver confusão entre os sexos. (Esse princípio elimina os chamados "penteados unissex".) É vergonhoso um homem parecer uma mulher e vice-versa (WIERSBER, 2006, p.791).
O Novo Testamento King James, Edição de estudo (2007, p. 4004), em nota de rodapé informa que “No primeiro século, era costume no oriente os homens usarem os cabelos mais curtos do que o das mulheres”. Segundo a Bíblia de Jerusalém (1998, p. 2006) em nota de rodapé letra “c” diz que: Os cabelos longos denotavam a homossexualidade masculina.
O Comentário Bíblico NVI Antigo e Novo Testamento diz:
Paulo argumenta dentro dos limites de sua localização e tempo. Culturas diferentes tem conceitos diferente acerca do que é conveniente, a maioria dos homens orientais e ocidentais, usam o cabelo curto em contraste com o das mulheres. (2008, p.1903).
Analisando as citações teológicas referidas anteriormente compreendemos que o comprimento do cabelo é uma questão cultural. Se adentramos a história referente ao usos do cabelo entenderemos isso claramente. No Antigo Egito os estilos mais populares de cabelo eram os cortes retos, cujo comprimento variava desde a altura do queixo até abaixo dos ombros, sendo usado geralmente com franja. Entre os gregos os cabelos eram
73 principalmente espessos e escuros, e eram longos e ondulados. É entre os gregos que surgi o rabo-de-cavalo usado pelas mulheres. (VITA, 2008; MARQUES, 2009)
Em Roma os cabelos e barbas eram ondulados com ferro quente, o estilo de cabelos mais populares entre os homens era curto, escovado para frente e com ondas. As mulheres usavam o cabelo ondulado, repartido no centro e caindo sobre as orelhas, os assírios ao contrário dos egípcios, deixavam os cabelos crescerem até caírem sobre os ombros, os israelitas cortavam os cabelos para impedir demasiado crescimento (Nm 6:5; IISm14;26). Havia barbeiro para esse serviço (Ez 5:1), entre os cristãos os homens não usavam cabelo comprido. O que precisa ficar claro aqui é que o uso de cabelo curto entre os cristãos de Corinto era uma questão cultural.
2. As mulheres usarem roupas que são peculiares aos homens e vestimentas indecentes e indecorosas, ou sem modéstias (ITm 2.9, 10)
Segundo Gower:
As roupas masculinas e femininas (Dt. 22.5) eram bem parecidas. “Em vista de ser tão básica, ela era idêntica para homens e mulheres, exceto que a do homem era geralmente mais curta (na altura do joelho) e a da mulher mais longa (na altura do tornozelo) e azul. A proibição de trocar as roupas teve sua origem no estímulo sexual que fazia parte da religião canaanita.” (GOWER, 2002, p. 20).
Analisando as palavras de Gower (2002) compreendemos que as vestes masculinas e femininas eram idênticas diferenciando-se apenas no tamanho e na cor. Comparando com o item da Resolução que estamos analisando se percebe que há um distinção entre a roupa masculina e feminina, ou seja, elas são diferentes. Compreendemos que o posicionamento da CGADB na verdade é uma convenção social diante de um costume cultural.
74 Figura 8 - Traje masculino e feminino extraído do livro Usos e costumes dos tempos bíblicos.19
No Novo Testamento Interpretado versículo por versículo volume V Champlin diz:
Traje decente (katastole) possui dois significados: o primeiro pode significar “vestes” que encobrem o corpo e o segundo diz respeito a “comportamento”. O autor dá sua versão de como o texto poderia ser compreendido: Também desejo que as mulheres que fizerem parte das orações públicas se vestissem com modéstia (CHAMPLIN, 1995, p.303).
19 Trajes de um casal rico. Note o manto dele como um vestido e as mangas largas; a mulher
75 O Novo Testamento King James, Edição de Estudo em nota de rodapé informa que:
Os apóstolos usavam a expressão grega Katastole, que significa “traje”, para referir-se ao comportamento geral do cristão, e não apenas a um estilo de se vestir. Paulo e Pedro, por exemplo, recomendam as mulheres, especialmente, que usem a moda e não sejam usadas por ela, pois a maneira como nos vestimos revela muito sobre o que pensamos de nós e como gostaríamos de ser tratados. Portanto, as mulheres cristãs devem, de certa forma, criar a própria “moda”, testemunhando seu” bom senso cristão”, no original grego Kosmios, decência. Paulo exorta a uma atitude marcadamente feminina, de bom gosto, sensibilidade simplicidade; em contraste com o conceito de moda propagado pelo sistema mundial, e que sempre envolve luxo, exibicionismo, sensualidade apelativa e falsidade I Pe 4 3-4. (2007, p. 511),
Bíblia de Estudo Pentecostal diz:
A mulher cristã deve vestir-se de modo modesto e cuidadoso, honroso e digno, para sua segurança e seu devido respeito aonde quer que for. A mulher, ao vestir-se de modo modesto e apropriado para a glória de Deus, ressalta sua própria dignidade, valor e honra que Deus lhe deu. (1995, p. 1752)
Uma das coisas importantes a mencionar aqui é que as roupas masculinas e femininas podem doravante perder suas repercussões culturais iniciais com o passar do tempo e, consequentemente, deixar de ser um veículo de identidade da masculinidade ou da feminilidade de alguém.
Os assembleianos recomendam as mulheres a não usarem calça comprida, na conjectura de tais pentecostais é roupa peculiar aos homens. Ocorre que existem atualmente calças femininas inerente as mulheres que se diferenciam em formato e modelo das usadas pelos homens. Culturalmente falando, a calça perdeu exclusividade de ser roupa masculina, logo a recomendação do seu uso precisa ser repensada, visto ser a calça usada pelo homem uma convenção social diante do contexto cultural do texto bíblico.
O assembleianismo no Brasil adotou muitos padrões culturais e comportamentais do catolicismo português. Há pouco mais de um século, as
76 mulheres não podiam mostrar seus tornozelos devido ser considerado muito sensual, atraente, sedutor, envolvente, elas cobriam-se completamente com saias longas, anáguas, meias grossas, vestidos sem decotes com mangas longas, roupas as quais identificavam sua feminilidade.
Os homens trajavam-se de calças compridas, com casacos, fraques e coletes, mesmo num clima tórrido, quente em demasia eles continuam vestindo- se com paletós. Os portugueses eram recatados e conservadores quanto aos seus costumes e tradições.
3. Uso exagerado de pintura e maquiagem — unhas, tatuagens e cabelos - (Lv 19.28; 2 Rs 9.30)
Segundo Coleman (1991) praticamente todos os tipos de cosméticos que temos hoje já existiam na antiguidade. É verdade que os gentios eram mais apreciadores de cosméticos do que os israelitas, mas estes também faziam muito uso deles. Algumas mulheres usavam batom e pintavam as unhas das mãos e dos pés.
Os pós faciais também já eram conhecidos, e algumas aplicavam rouge vermelho ou preto, utilizando um bastão. Havia até as que usavam maquilagem para os olhos. A rainha Jezabel, por exemplo, se pintava segundo o estilo das mulheres fenícias. Por causa dela essa prática talvez tenha sido um pouco rejeitada (2 Rs 9.30). Os profetas Jeremias (4.30) e Ezequiel (23.40) falam de cosméticos de forma um tanto depreciativa, e talvez fosse por isso que algumas mulheres judias não se sentissem muito à vontade para usá-los. (Coleman, 1991, p. 58-74)
Rops (2008) comenta que:
Nos dias de Jezabel as mulheres costumavam reparar os estragos dos anos, tingindo os cabelos com tinta vermelha de Antioquia ou hena de Alexandria, além disso, elas se pintavam e se perfumavam. Entre os objetos encontrados nas escavações arqueológicas existem muitos potinhos e apetrechos para pintar o rosto feitos de osso, marfim ou metal, assim como espátulas para espalhar cosméticos. Esta era uma prática antiga: mesmo antes de Abraão ter chegado à Palestina, as mulheres de Creta e do Egito já estavam tão familiarizadas com a
77
maquilagem para os olhos, rosto e lábios quanto as parisienses de hoje. Este exemplo deveria ter sido seguido muito rapidamente; Ló não chamou sua terceira filha pelo nome pitoresco de Pote de Antimônio? O antimônio ou pouch era usado para escurecer as pestanas e sobrancelhas: os romanos o chamavam de stibium, sendo conhecido pelas mulheres árabes de hoje como kohl. Para o rosto e os lábios elas usam a sikra que já foi mencionada como a substância para colorir a tinta de vermelho. As folhas de uma espécie de alfeneiro, chamada al khanna (com frequência mencionado nos Cantares de Salomão, esse catecismo de amor), quando reduzidas a cinza fornecem uma tinta vermelho-amarelada que as mulheres árabes usam para colorir as unhas e as palmas das mãos, e até o cabelo na ausência de outras tintas. As judias da época de Cristo faziam o mesmo? Algumas, mas nem todas. Podemos, porém, imaginar Maria Madalena com as sobrancelhas escurecidas, cílios azuis, face pintada e palmas das mãos tingidas. (ROPS, 2008, p. 341-349)
Figura 9 - Roupas e cosméticos das mulheres romanas.20
A maquiagem, os enfeites e tratamento de cabelo eram tão importante para as mulheres da época do Novo Testamento que as cristãs foram advertidas a se enfeitarem com um espírito manso e tranquilo (1 Pe 3.3,4).
Um detalhe que precisa ficar claro é que os ornamentos e a maquiagem são usos e costumes culturais antigos, que pelo estilo denotavam etnias diferentes nunca tais usos foram compreendidos como mundanismo. É preciso compreender que está configuração de “mundanismo” é uma convenção social, é um pensamento novo diante de usos e costumes antigos.
Se analisarmos a flexibilização deste item baseando-se no conceito utilizado por Giddens (1991) referente a modernidade, descobriremos que tal flexibilização assembleiana é uma liberação que esconde mudanças significativas.
78 Segundo Giddens (1991, p.12-13) os modos de vida moderno liberaram o ser humano da ordem social tradicional, neste sentido, as instituições religiosas apesar de possuírem um forte vínculo com a tradição, precisam-se reorganizar assumindo um formato moderno. Segundo o mesmo autor a modernidade promove a abertura de “múltiplas possibilidades de mudança liberando as restrições dos hábitos e das práticas locais”. (GIDDENS, 1991, p.28)
Analisando cada item desta resolução tive a impressão de que o fato da CGADB reafirmar suas normas doutrinárias por intermédio desta Resolução tinha implícito, e de uma forma sigilosa, preparar a mente assembleiana para uma Assembleia de Deus mais liberal e flexível quanto aos usos e costumes, sem despertar hostilidade dos mais conservadores.
4.Uso de cabelo curto em detrimento da recomendação bíblica (ICo 16.6,15)
Quanto ao cabelo a Bíblia de Estudo Dake diz:
A respeito do cabelo, ele era penteado para traz em tranças. Em cada trança podia ser adicionado cordões de seda com moedas de ouro a distâncias irregulares e alcançando até os joelhos, que brilhariam a cada movimento de quem as estivesse usando. Algumas vezes o penteado era feito dentro do templo, outras vezes, coroas, completamente coberta com moedas, ou tiaras ornamentadas com diamantes, eram usadas. As mulheres orientais ornavam-se em excesso com joias, não somente em suas cabeças, mas em outras partes do corpo também. Brincos, piercieng, anéis, braceletes, correntes, colares de pérolas, dinheiro e muitos outros ornamentos (2009, p. 1930).
No Novo Testamento Interpretado versículo por versículo volume IV Champlin apresenta um desenho (figura 9) que nos permite visualizar os estilos de cabelo na época de Paulo (CHAMPLIN, 1995, p.169)
79 Averiguando o item terceiro da Resolução de 1999 a partir dos comentários teológicos referente aos textos bíblicos analisados fica evidente que a hermenêutica do assunto abordado neste item da Resolução a luz da Bíblia não denota proibição, mas sim a recomendação do uso moderado, porém, considerando os textos bíblicos usados para legitimar este item se tem a impressão de que na realidade, não é só o costume exagerado que se proíbe, mas também o comum.
Segundo Morris:
Temos que lembrar que quando Paulo falou acerca das mulheres nos termos em que o fez nas cartas aos coríntios, ele estava escrevendo à cidade mais licenciosa do mundo antigo, e que num lugar assim a modéstia tinha que ser observada e mais que observada; e que é de todo injusto arrancar um regulamento local das circunstâncias em que ele foi dado, e fazer dele um princípio universal. (MORRIS, 1981, p. 125)
A recomendação bíblica de ICo 11:6, 15 referente ao uso de cabelo curto é cultural e temporal, não funcionam em qualquer cultura, o que nos resta a saber é a razão da recomendação paulina. O Novo Testamento King James diz:
No primeiro século, era costume no Oriente os homens usarem os cabelos mais curtos do que o das mulheres. Paulo não acha importante discutir costumes locais e temporários ou culturas, desde que estes procedimentos não transgridam os princípios bíblicos do Evangelho de Cristo. (2007, p. 404)
Pelos apontamentos de Morris (1981) compreenderemos que transformar costumes locais e temporários em um princípio universal é injusto pois as circunstancias se alteram quanto os contexto sociais são diferentes.
5.Mau uso dos meios de comunicação: televisão, internet, rádio, telefone. (I Co 6:12; Fp 4:8)
O Jornal Mensageiro da Paz nº3 de1967 publica uma parodia do Salmo 23 onde a força das metáforas escolhidas descreve a visão dos assembleianos desta década sobre a televisão.
80 Figura 11 – O canal 23 recorte do Jornal Mensageiro da Paz de 1967.
Transcrevemos a seguir o conteúdo do recorte de Jornal referido acima para uma maior visualização de seu conteúdo.
Se você gosta de televisão, tendo ou não televisor, aqui está a nova versão do Salmo 23 dos telespectadores. O SALMO 23 passa a ser o CANAL 23, sendo seus versículos assim: 1 O televisor é meu pastor; meu crescimento espiritual faltará. 2 Ele me faz sentar nos pastos mundanos para levantar-me vazio das coisas de Deus. Ele toma o tempo que eu devia dar a Deus. Faz-me abandonar meus deveres de cristão porque tenho que assistir meus programas prediletos que ele apresenta. 3 Ele renova meu conhecimento das coisas do mundo, e não me deixa estudar a Palavra de Deus. Ele faz com que eu falte aos cultos ou os assista pela metade. 4. Mesmo eu estando para morrer, continuarei assistindo meu televisor enquanto ele funcionar, porque ele é o meu companheiro mais chegado. Suas músicas e sua imagem me comportam. 5 Ele me oferece muita distração, trazendo o mundo para dentro de casa para orientar minha família. Ele enche minha cabeça de suas coisas, de modo que o meu cálice transborda, e eu estou sempre a falar dos seus programas. Falo tanto, que a Palavra de Deus não tem mais lugar na minha vida, na minha família e na minha casa. 6 Assim sendo, certamente o mal e a miséria me seguirão todos os dias da minha vida porque meu televisor me faz contrariar a vontade de Deus, assim habitarei no lugar preparado para o diabo e seus anjos para todo o sempre. (MENSAGEIRO, 1967, p.7)
81 Dentro do cotidiano assembleianismo fui notificado quando fazia minhas pesquisas de campo que a televisão era conhecida como a caixa do diabo, imagem da besta, aquela que tira a visão “tv”. Quem tinha o aparelho o escondia no guarda-roupa por causa dos mais conservadores, outros colocavam um pano para a cobrir.
O Jornal Mensageiro da Paz nº 5 de 1969 traz artigo escrito por Silva com o título “Televisão versus embaraço”, o artigo retrata o testemunho de um jovem de quase 12 anos que insistia para seu pai comprar um televisor, com muita insistência relata o testemunho que o televisor foi comprado porém, o tal aparelho era usado de forma desajustada, pois quando os pais do garoto iam dormir eles e os irmão ficavam até uma hora da madrugada.
Devido ao tamanho do artigo transcreveremos apenas um trecho onde a televisão é mencionada como sendo o lugar do trono de uma horrível criatura de testa e nariz grande com um objeto como que um garfo de três dentes na sua mão direita.
[...] No momento em que olhei para o televisor, estava como que ligado, e vi uma horrível criatura assentada como que num trono. Fiquei em dúvida, pensei que estava sonhando, virei para outro lado e constatei que realmente eu estava acordado. Pensei que talvez fosse a claridade dos relâmpagos, mas olhando novamente eis que lá estava a mesma criatura. Depois de ter passado alguns momentos de meditação, pensando que tudo já havia acabado, virei-me novamente para o televisor e eis que ainda estava na mesma posição como antes. Tentei pela terceira vez para ver se realmente era verdade, e presenciei novamente como das demais vezes, e da mesma forma, na mesma posição, o horrível personagem. Tudo isto com a televisão desligada, inclusive a tomada geral. Levantei-me e procurando controlar os meus artelhos, fui ao quarto de meus pais, e quando cheguei à porta para chama-los, aquele personagem desapareceu, e eles nada viram. Então comecei a contar-lhes tudo quanto havia se passado comigo naquela hora, e, nem mesmo o meu irmão que estava ao meu lado, nada viu. Disse ainda mais: Eu tinha feito um pedido para que Deus me revelasse acerca da televisão, e estou bem certo de que, tudo é verdadeiramente a resposta de Deus para mim. Um pouco trêmulo ainda, consegui descrever para eles a horrível criatura que vi.
Esse personagem, repito, era horrível; tinha enorme testa, e enorme nariz; e para mostrar quem era verdadeiramente a tal criatura, tinha na sua mão direita um objeto como que um garfo de três dentes, justamente como os desenhos que se veem em diversos quadros, livros, e porque não dizer, ainda muito mais horrível. Enfim, não posso descrevê-lo com mais precisão porque não
82
tive coragem de contemplá-lo a ponto de descrever todas as suas características. (MENSAGEIRO, p.5, 1969)
A conclusão do artigo mencionado acima intitulado no Jornal Mensageiro
da Paz “Televisão versus embaraço” nos diz algo relevante concernente ao usos
de televisão. O texto diz:
Conclusão: a televisão em si não é pecado, mas serve de embaraço para os cristãos, que desejam dar todo o seu tempo a fim de servir