3. USOS E COSTUMES: AS MUDANÇAS NO ESTEREÓTIPO
3.4 O “CREMOS” ASSEMBLEIANO E A PUREZA DA DOUTRINA
O primeiro “Cremos” na história das Assembleias de Deus foi As Declarações das “Verdades Fundamentais” aprovada pelo Conselho Geral das Assembleias de Deus Reunido na cidade de Saint Louis nos Estados Unidos em outubro de 1916.
A Declaração de Verdades Fundamentais é uma descrição de 16 doutrinas essenciais aderida pelo Concelho Geral das Assembleia de Deus nos Estados Unidos em resposta a várias controvérsias doutrinarias. A primeira controvérsia surgiu a partir do desacordo sobre a segunda benção29 e o
significado prático de santificação, a segunda controvérsia questionava a formula batismal, a doutrina da trindade e a compreensão do processo da salvação, e a terceira era sobre se falar em línguas a qual era a evidência física inicial do batismo no Espírito Santo.
29 William Seymour, discípulo de Pahram, afirmava que Deus tem uma terceira benção além da
santificação, isto é, o batismo no Espírito Santo. Naturalmente Seymour encaminhava o processo assim: regeneração, santificação, batismo no Espírito Santo. O pastor da igreja Batista de Chicago, W. H. Durham, que posteriormente retificou a proposta de Seymour dizendo que justificação/regeneração já era o início da santificação, sendo, portanto, o batismo no Espírito a “segunda benção”. Está é a concepção do pentecostalismo moderno. (Mendonça, 2008, p.134).
110 As 16 “Declarações de Verdades fundamentais30” que foram aprovadas
pelo Conselho geral das Assembleias de Deus nos Estados Unidos serão expostas no quadro abaixo, alguns itens serão apenas mencionados devido sua extensão. Está declaração é a delimitação das verdades fundamentais inegociáveis da fé assembleiana. Vale salientar aqui que, se são verdades doutrinarias não-negociais em hipótese alguma podem ser substituídas.
Figura 18 – Cremos das Assembleias de Deus nos Estados Unidos.31
O “Cremos” assembleiano brasileiro foi construído com base nas Declarações das “Verdades Fundamentais” aprovada pelo Conselho Geral das Assembleias de Deus Reunido na cidade de Saint Louis nos Estados Unidos.
30<http://ifphc.org/DigitalPublications/USA/Assemblies%20of%20God%20USA/Minutes%20Gen
eral%20Council/Unregistered/1916/FPHC/1916.pdf>. Acesso em 16/12/15.
31http://ifphc.org/DigitalPublications/USA/Assemblies%20of%20God%20USA/Minutes%20Gene
111 Sua origem nas Assembleias de Deus no Brasil remota ao ano de 1938. No Jornal Mensageiro da Paz nº 20 de 1938 foi publicado um artigo traduzido pelo missionário norte-americano Theodoro Stohr sob o título: “Em que creem os pentecostais”. As razões para a publicação do artigo segundo o Jornal
Mensageiro da Paz foram as constantes difamações e as concepções errôneas
acerca do movimento pentecostal. Segue o artigo na integra.
Figura 19 – Recorte do jornal Mensageiro da Paz de 1938.32
O artigo “Em que creem os pentecostais (no evangelho integral)” traduzido pelo missionário norte-americano Theodoro Stohr mostra em um dos trechos o qual transcreveremos abaixo que há uma normatividade interna que orientam como devem ser os que tomam parte do corpo de Cristo no movimento pentecostal assembleiano, e qual o posicionamento do movimento em relação aos que se encontram desajustados com sua normatividade.
32 STOHR, Theodoro. Em que creem os pentecostais (no evangelho integral). Mensageiro da
112 O Mensageiro da Paz nº 20 de 1938 diz:
Cremos na vida santa dos discípulos, (mesmo contemporâneos nossos). Não permitimos que tomem partes em nossos coros, orquestras, etc. aqueles que não tenham passado pela experiência viva do novo nascimento. Excluímos da comunhão (em absoluto) aqueles que sejam fumantes ou seja bebedor ou que frequente teatros, cinemas, bailes, jogos, e tantas misérias do mundo. (MENSAGEIRO, 1938, p.2)
O “Cremos” foi introduzido pela primeira vez no Jornal Mensageiro da Paz de junho de 1969 e prossegue até os dias atuais como podemos constatar no Mensageiro da Paz nº1.545 de 2014. A declaração de fé das Assembleias de Deus no Brasil consta de 14 pontos doutrinários.
1. Em um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Dt 6.4; Mt 28.19; Mc 12.29). 2. Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão (2 Tm 3.14-17). 3. Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal dentre os mortos e sua ascensão vitoriosa aos céus (Is 7.14; Rm 8.34 e At 1.9). 4. Na pecaminosidade do homem que o destituiu da glória de Deus, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode restaurá-lo a Deus (Rm 3.23 e At 3.19). 5. Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus (Jo 3.3-8). 6. No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-26 e Hb 7.25; 5.9). 7. No batismo bíblico efetuado por imersão do corpo inteiro uma só vez em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo (Mt 28.19; Rm 6.1-6 e Cl 2.12). 8. Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus no Calvário, através do poder regenerador, inspirador e santificador do Espírito Santo, que nos capacita a viver como fiéis testemunhas do poder de Cristo (Hb 9.14 e 1Pd 1.15). 9. No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo, com a evidência inicial de falar em outras línguas, conforme a sua vontade (At 1.5; 2.4; 10.44-46; 19.1-7). 10. Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade (1 Co 12.1-12). 11. Na Segunda Vinda premilenial de Cristo, em duas fases distintas. Primeira - invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja fiel da terra, antes da Grande Tribulação; segunda - visível e corporal, com sua Igreja glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos (1Ts 4.16. 17; 1Co 15.51- 54; Ap 20.4; Zc 14.5 e Jd 14).12. Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo, para receber recompensa dos seus feitos em favor da causa de Cristo na terra (2Co 5.10). 13. No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis (Ap 20.11-15). 14. E na vida eterna de gozo e felicidade para os fiéis e de tristeza e tormento para os infiéisMt 25.46.(MENSAGEIRO, 2014, p.2)
113 Nas pesquisa que fiz sobre o Cremos assembleiano e sua ligação com a pureza da doutrina cristã pude perceber que o documento vai muito além de um posicionamento doutrinário da igreja. Comparando com um Cremos assembleiano francês publicado no Jornal Mensageiro da Paz de 1939 que possui a mesma estrutura do Cremos assembleiano brasileiro se percebe que o referido documento tem por finalidade combater o Modernismo, o Alto Criticismo, a Teologia Nova e tudo que tenha a subverter a fé baseada em Jesus Cristo. Nossa suspeita é que tal documento norteia a doutrina da qual os usos e costumes faz parte. A pureza da doutrina cristã está em conservar as verdades fundamentais estabelecidas no Cremos.
Segue o recorte do Jornal Mensageiro da Paz nº 7, p.5 de 1939 d referente ao Cremos assembleiano francês.
114 Se analisamos o conteúdo que estudamos até aqui referente aos usos e costumes e consideramos que as Assembleias de Deus ficaram por um período de tempo mergulhada no fanatismo compreenderemos claramente que os assembleianos distanciaram de sua proposta doutrinária.
Muitos assembleianos por desconhecerem o conteúdo doutrinário de seu “Cremos” vivem ao sabor de experiências místicas e supersticiosas estão cheios de crendices e pontos de vista construídos em cima de “profecias”, “revelações” e outros ensinamentos.
Segundo explica o pastor Soares, presidente da Comissão Especial que trabalha o texto da Declaração de fé das Assembleias de Deus: “Este tipo de documento (Cremos) são interpretações precisas e autorizadas das Escrituras”33.
Curiosamente 46 anos depois da primeira publicação do Cremos no Jornal Mensageiro da Paz em junho de 1969 ele em dezembro de 2015 passa por uma revisão rigorosa para ser mais preciso em suas declarações de fé, Segundo Soares o texto revisado será mantido como Verdades Centrais34.
As alterações e acréscimo do novo Cremos poderão ser observadas no recorte que fizemos do Jornal Mensageiro da Paz de 2015 (figura 21). As alterações do Cremos estão em itálicos na nova versão.
Comentando sobre as alterações no Cremos assembleiano Soares diz que o tema “igreja” ficou como artigo 7, seguindo assim a lógica dos temas. As declarações 13 e 14 do antigo texto do Cremos foram unificadas em um só artigo de fé, de modo que foram mantidos os 14 artigos de fé. Vejamos como ficou no novo Cremos das assembleias de Deus no Brasil.
33 SOARES, Ezequias. Revisão o Cremos: comentário e comparativo. Mensageiro da Paz, Rio
de Janeiro, nº 1.567, p. 6, 2015.
115 Figura 21 –Cremos das Assembleias de Deus.
A percepção que temos da mudança no Cremos é que os assembleianos de 1969 possuíam grandes dificuldades em ordenar suas doutrinas, pois havia muita confusão em distinguir o que era doutrina e usos e costumes.
O que me intrigou no teor destas mudança foi a retirada da normatividade da fé (artigo 2) ficando apenas a Bíblia como única regra infalível de fé e prática para a vida e o caráter cristão. Tal mudança é significativa, pois liberta a fé das práticas da normatividade criadas por eles mesmo a fim de balizar o caráter cristão dos assembleianos.
Muitas mudanças estão ocorrendo no meio assembleiano em uma velocidade muito rápida, os desenvolvimentos das igrejas dos centros urbanos estão adentrando as igrejas das periferias onde ainda existe um discurso conservador, os usos e costumes assembleiano está se flexibilizando a cada momento, muito breve o que se entende por conservadorismo só ficará nos discursos saudoso de quem um dia passou por eles e que não pretende mais voltar a tal prática.
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