An´ eis e dom´ınios
15.4. AN ´ EIS QUOCIENTES E TEOREMA CHIN ˆ ES DOS RESTOS
Definic¸˜ao 15.31. Seja A um anel e I um ideal de A. Definimos em A a seguinte rela¸c˜ao. Dados a, b∈ A dizemos que
a≡ b (mod I) se a − b = α ∈ I,
dizemos neste caso que a ´e equivalente a b m´odulo I. Fica como exerc´ıcio verificar que isto define de fato uma rela¸c˜ao de equivalˆencia. A classe de equivalˆencia de a∈ A m´odulo I ser´a denotada por
a + I :={a + α | α ∈ I}.
O conjunto de classes de equivalˆencia ser´a denotado por A/I. Quando A =Z e I = nZ a rela¸c˜ao acima ´e apenas a rela¸c˜ao de congruˆencia m´odulo n, uma vez que Z ´e um dom´ınio principal.
Definic¸˜ao 15.32. Definimos em A/I uma estrutura de anel da seguinte forma: (a + I)⊕ (b + I) := (a + b) + I e (a + I) ⊙ (b + I) := (ab) + I.
Observac¸˜ao 15.33. Verifiquemos que estas opera¸c˜oes est˜ao bem definidas. Sejam a′, b′ ∈ A tais que a′ ≡ a (mod I) e b′ ≡ b (mod I), i.e., a′− a = α ∈ I e b′− b = β ∈ I. Assim,
(a′+ b′)− (a + b) = α + β ∈ I
e em particular a′+ b′ ≡ a + b (mod I) (o que equivale a (a′+ b′) + I = (a + b) + I). Tamb´em temos que
a′b′− ab = a′b′− a′b + a′b− ab = a′(b′− b) + b(a′− a) = a′β + bα∈ I, portanto a′b′≡ ab (mod I) (ou equivalentemente, (a′b′) + I = (ab) + I). Deixamos tamb´em como exerc´ıcio verificar (exatamente como no caso dos inteiros m´odulo n) que o conjunto A/I com as opera¸c˜oes⊕ e ⊙ ´e um anel. Note que o elemento neutro para a soma ´e a classe I e o elemento neutro para o produto ´e a classe 1 + I.
15.4.1. Ideais primos e maximais.
Definic¸˜ao 15.34. Um ideal I de um anel A ´e dito maximal se para todo ideal J de A tal que I⊂ J ⊂ A temos J = I ou J = A.
Proposic¸˜ao 15.35. Um ideal I de A ´e maximal se e somente se o anel quo-
ciente A/I ´e um corpo.
Demonstrac¸˜ao. Suponha que I seja um ideal maximal de A. Seja a + I6= I uma classe em A/I. Isto equivale a a /∈ I. O conjunto (a) = {xa | x ∈ A} ´e um ideal de A e pelo que foi feito anteriormente o conjunto J = I + (a) tamb´em ´e um ideal de A. Al´em disto, I J. Pela maximalidade de I concluimos que J = A, i.e., que existem t ∈ I e s ∈ A tais que 1 = t + sa, i.e., sa ≡ 1 (mod I), i.e., (sa) + I = (s + I)⊙ (a + I) = 1 + I, i.e., a + I admite inverso multiplicativo.
Reciprocamente, suponha que A/I seja um corpo. Seja J um ideal de A tal que I J. Seja a ∈ J − I. Ent˜ao a + I 6= I e por hip´otese existe b ∈ A tal que (a + I)⊙ (b + I) = 1 + I, i.e., (ab) + I = 1 + I, i.e., existe t ∈ I tal que ab − 1 = t. Em outras palavras 1 = t− ab ∈ J, logo A = J e I ´e maximal. Definic¸˜ao 15.36. Um ideal I de A ´e dito um ideal primo se dados a, b∈ A tais que ab ∈ I, ent˜ao a ∈ I ou b ∈ I. Note que quando A = Z e p ´e um n´umero primo o ideal pZ ´e um ideal primo de Z.
112 15. AN ´EIS E DOM´INIOS
Proposic¸˜ao 15.37. Um ideal I de A ´e primo se e somente se o anel quociente A/I ´e um dom´ınio de integridade.
Demonstrac¸˜ao. Suponha que I seja um ideal primo de A. Sejam a+I, b+I∈ A
I tais que (a + I)⊙ (b + I) = I, i.e., (ab + I) = I, i.e., ab ∈ I. Como I ´e primo, temos que a∈ I ou b ∈ I, i.e., a + I = I ou b + I = I.
Reciprocamente, suponha que A/I seja um dom´ınio de integridade. Sejam a, b∈ A tais que ab ∈ I, i.e., (ab)+I = (a+I)⊙(b+I) = I. Por hip´otese, a+I = I
ou b + I = I, i.e., a∈ I ou b ∈ I.
15.4.2. Homomorfismo de an´eis.
Definic¸˜ao 15.38. Sejam A e B an´eis e f : A→ B uma fun¸c˜ao. Esta fun¸c˜ao ´e dito um homomorfismo de an´eis se
f (a + b) = f (a) + f (b) e f (ab) = f (a)f (b).
Observe que f (0) = f (0 + 0) = f (0) + f (0), portanto f (0) = 0. Se al´em disto A for um dom´ınio de integridade e f n˜ao for a fun¸c˜ao nula, ent˜ao f (1) = 1. De fato, f (1) = f (1.1) = f (1)f (1), i.e., f (1)(f (1)− 1) = 0. Se A ´e um dom´ınio de integridade, ent˜ao f (1) = 0 ou f (1) = 1. No primeiro caso a fun¸c˜ao ´e identicamente nula, pois f (a) = f (1.a) = f (1)f (a) = 0. Observe tamb´em que como 0 = f (0) = f (a + (−a)) = f(a) + f(−a), ent˜ao f(−a) = −f(a).
Definic¸˜ao 15.39. Um homomorfismo f : A→ B ´e dito um isomorfismo se for bijetivo. Um homomorfismo f : A → A ´e dito um endomorfismo de A. Se este endomorfismo for bijetivo ele ´e dito um automorfismo de A. Seja f : A→ B um homomorfismo de an´eis. O n´ucleo N (f ) de f ´e definido por {a ∈ A | f(a) = 0}. Fica como exerc´ıcio mostrar que N (f ) ´e um ideal de A. A imagem f (A) de f ´e um subanel de B (isto tamb´em ´e um exerc´ıcio).
Lema 15.40. Seja f : A→ B um homomorfismo de an´eis. Ent˜ao f ´e injetivo
se e somente se N (f ) = (0).
Demonstrac¸˜ao. Suponha que f seja injetivo e que a∈ N(f). Logo f(a) = 0 = f (0), pela injetividade de f concluimos que a = 0. Reciprocamente, suponha que N (f ) = (0). Sejam a, b ∈ A tais que f(a) = f(b). Ent˜ao f(a − b) = 0, i.e.,
a− b ∈ N(f), em particular a = b.
Teorema 15.41 (teorema dos homomorfimos). Seja f : A→ B um homomor-
fismo de an´eis. Ent˜ao f induz um isomorfismo ϕ : A/N (f ) → f(A) (em outras
palavras A/N (f ) ∼= f (A), i.e., estes dois an´eis s˜ao isomorfos).
Demonstrac¸˜ao. A fun¸c˜ao ϕ ´e definida por ϕ(a + N (f )) := f (a).
Verifiquemos inicialmente que ϕ est´a bem definida. Seja a′ ∈ A tal que a′ ≡ a (mod N (f )), i.e., a′ − a = α ∈ N(f). Logo f(a′) = f (a), i.e., ϕ(a′ + N (f )) = ϕ(a + N (f )).
Esta fun¸c˜ao ´e um homomorfismo, pois
ϕ((a + N (f ))⊕ (b + N(f))) = ϕ((a + b) + N(f)) = f(a + b) = f(a) + f(b) = ϕ(a + N (f )) + ϕ(b + N (f )) e
ϕ((a + N (f ))⊙ (b + N(f))) = ϕ((ab) + N(f)) = f(ab)
15.4. AN ´EIS QUOCIENTES E TEOREMA CHIN ˆES DOS RESTOS 113
Esta fun¸c˜ao ´e sobrejetiva, pois para todo y∈ f(A), temos que y = f(a) para a ∈ A, portanto y = ϕ(a + N (f )). Esta fun¸c˜ao tamb´em ´e injetiva, pois se ϕ(a + N (f )) =
f (a) = 0, ent˜ao a∈ N(f), i.e., a + N(f) = N(f).
15.4.3. Teorema chinˆes dos restos.
Proposic¸˜ao 15.42. Sejam I, J ideais de A tais que I + J = A e a, b ∈ A.
Ent˜ao existe x∈ A tal que
( x ≡ a (mod I) x≡ b (mod J).
Demonstrac¸˜ao. Por hip´otese existem α ∈ I e β ∈ J tais que 1 = α + β. Ent˜ao β≡ 1 (mod I) e α ≡ 1 (mod J). Em particular, aβ ≡ a (mod I) e bα ≡ b
(mod J). Basta tomar x = aβ + bα.
Vamos generalizar o resultado anterior para um n´umero qualquer de ideais. Para isto precisamos da no¸c˜ao de produto de ideais. Sejam I1,· · · , Ir ideais de A. Seja
I1. . . Ir:={a1,1· · · ar,1+ . . . + a1,n. . . ar,n| onde ai,j∈ Ii, para todo i}. Fica como exerc´ıcio mostrar que I1. . . Ir´e efetivamente um ideal de A.
Proposic¸˜ao 15.43. Sejam I1,· · · , Ir ideais de A tais que para todo α 6= β
tenhamos Iα+ Iβ= A. Sejam a1,· · · , ar∈ A. Ent˜ao existe x ∈ A tal que x≡ a1 (mod I1) .. . ... x≡ ar (mod Ir). Demonstrac¸˜ao. Denotamos
J := I1. . . Ir e para cada ν, Jν:= I1. . . Iν−1Iν+1. . . Ir. Afirmamos que
(15.1) Iν+ Jν = A.
De fato, sabemos que para cada α 6= ν existem λα ∈ Iα e λν(α) ∈ Iν tais que λα+ λν(α) = 1. Note que utilizamos o ´ındice ν(α) para dizer que o elemento λν(α)efetivamente depende da escolha de α, uma vez que os ideais s˜ao dois a dois coprimos. Seja γν:= λ1. . . λν−1λν+1. . . λr∈ Jν. Ent˜ao Y α6=ν (λα+ λν(α)) = γν+ δν,
onde δν∈ Iν. Da igualdade (15.1) obtemos que para cada ν vale γν ≡ 1 (mod Iν) e γν ≡ 0 (mod Iα) para α6= ν. Finalmente, x := a1γ1+ . . . + arγr´e uma solu¸c˜ao
do sistema.
Lema 15.44. Sejam I1,· · · , Ir ideais de A tais que para todo α6= β tenhamos Iα+ Iβ= A. Ent˜ao
114 15. AN ´EIS E DOM´INIOS
Demonstrac¸˜ao. Provemos o resultado por indu¸c˜ao em r. Suponhamos ini- cialmente r = 2. Assim, um elemento de I1I2´e da forma
a1,1a2,1+ . . . + a1,na2,n,
onde a1,ν ∈ I1 (resp. a2,ν ∈ I2) para cada ν. Note que cada parcela a1,νa2,ν pertence a I1∩ I2, pela defini¸c˜ao de ideal. Logo I1I2 ⊂ I1∩ I2. Basta provar a inclus˜ao oposta. Por hip´otese existem γ1∈ I1 e γ2∈ I2 tais que 1 = γ1+ γ2. Seja a∈ I1∩ I2, logo a = γ1a + aγ2∈ I1I2.
Suponha agora o resultado provado para r− 1 fatores, vamos prov´a-lo para r fatores. Novamente, pela pr´opria defini¸c˜ao de produto de ideais temos que I1. . . Ir ⊂ I1∩ . . . ∩ Ir. Basta provar a inclus˜ao oposta. Da demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao anterior concluimos que I1. . . Ir−1 e Ir s˜ao coprimos. Logo existe γr ∈ I1. . . Ir−1 e δr ∈ Ir tal que γr + δr = 1. Seja a ∈ I1 ∩ · · · ∩ Ir. Note que para todo t≥ 1 temos tamb´em que at
∈ I1∩ · · · ∩ Ir. Ent˜ao ar= γrar+ a . . . a(aδr)∈ I1+ . . . + Ir,
onde a repete-se r− 1 vezes no produto acima.
Teorema 15.45 (teorema chinˆes dos restos). Sejam I1,· · · Ir ideais de A tais
que Iα+ Iβ= A, para α6= β. Ent˜ao (1) existe um isomorfismo de an´eis
A I1. . . Ir ∼ = A I1× . . . × A Ir .
(2) Este isomorfismo restringe-se a um isomorfismo de grupos
A I1. . . Ir ∗ ∼ = A I1 ∗ × . . . × AI r ∗ .
Demonstrac¸˜ao. Definimos
ϕ : A I1· · · Ir → A I1 × . . . × A Ir por ϕ(a + I1. . . Ir) := (a + I1,· · · , a + Ir). Verifiquemos que esta fun¸c˜ao est´a bem definida. De fato, se b− a = α ∈ I1. . . Ir= I1∩. . . Ir(pelo lema anterior), ent˜ao b≡ a (mod Iν) para todo ν, i.e., b+Iν= a+Iν para todo ν.
Afirmamos que ϕ ´e um homomorfismo. De fato, ϕ((a + I1. . . Ir)⊕ (b + I1. . . Ir)) = ϕ((a + b) + I1. . . Ir) = ((a + b) + I1,· · · , (a + b) + Ir) = ((a + I1)⊕ (b + I1),· · · , (a + Ir)⊕ (b + Ir)) = (a + I1,· · · , a + Ir)⊕ (b + I1,· · · , b + Ir) e ϕ((a + I1. . . Ir)⊙ (b + I1. . . Ir)) = ϕ((ab) + I1. . . Ir) = ((ab) + I1,· · · , (ab) + Ir) = ((a + I1)⊙ (b + I1),· · · , (a + Ir)⊙ (b + Ir)) = (a + I1,· · · , a + Ir)⊙ (b + I1,· · · , b + Ir).