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3 SELECIONANDO OS FIOS PARA TECER A TEIA

3.4 SEGUINDO OS FIOS PARA REALIZAR A INVESTIGAÇÃO

3.4.6 Analisando Dados, Realizando Questionamentos e Construindo Grupos

A análise na investigação qualitativa é um processo de “mão na massa”. (STREUBERT, CARPENTER, 2002, p.32). Assim nos colocamos cuidadosamente diante dos dados empíricos para, aos poucos, a partir das estratégias analíticas da TFD, construir significados e elaborar questionamentos para a busca de novos dados. Foi uma fase que consumiu uma quantidade considerável de tempo, considerando inclusive a quantidade de dados disponíveis. O nosso esforço dirigiu- se ao ’isolamento’, que compreende o processo de colocar de lado as próprias crenças, não fazendo julgamentos dos dados, mas permanecendo aberto a eles tal como eram revelados. Uma excelente ferramenta para este distanciamento foi a construção e redação dos diagramas e memorandos, que serão mais bem descritos em outro momento da análise.

Indutivamente, a coleta de dados foi iniciada com os gestores de saúde. Conforme determinado pela metodologia, a primeira entrevista foi realizada e considerada como uma situação inicial, utilizando uma pergunta aberta, a qual

permitisse identificar as primeiras categorias que norteassem o desenvolvimento da investigação. A entrevista foi norteada pela seguinte pergunta: Que significados você atribui à integralidade do cuidado à criança? Esta pergunta configurou-se como importante para todos os participantes desse grupo. A partir dela e com o desenrolar das entrevistas e a forma como o entrevistado se posicionava frente à problematização, foi possível explorar os significados com perguntas adicionais, em um exercício que envolvia a escuta, a compreensão, o diálogo, a interação e novos questionamentos.

No decorrer da comparação dos dados da primeira entrevista, novas questões foram surgindo sobre estas primeiras categorias e seus significados. A análise e a construção dos primeiros conceitos permitiram compreender a estrutura organizacional do sistema de saúde no município e apontaram dificuldades para a gestão do cuidado na atenção básica. Destacaram-se os aspectos relacionados à formação dos profissionais e o preparo dos mesmos para atuar na atenção básica. Para testar os conceitos elaborados, a investigação foi dirigida para o segundo grupo amostral (coordenadores e docentes dos cursos de Graduação em Enfermagem e Medicina e de pós-graduação). Para este grupo a pergunta de pesquisa foi assim elaborada: Como a formação dos profissionais de saúde pode articular saberes para possibilitar um agir na perspectiva da integralidade?

A análise permitiu compreender que, para ser profissional da ABS, há necessidade de aliar conhecimento científico, tecnológico e social relativo ao processo de cuidar para resgatar a dimensão cuidadora no sentido de perceber necessidades e reduzir sofrimentos. Sob esta perspectiva, a graduação não seria suficiente para garantir o cuidado, o cuidar e a integralidade do cuidado. A partir dos conceitos e categorias elaboradas nesse grupo. As falas e significados apontaram para a existência de mediadores pessoais, que fazem a aproximação entre conhecimento e agir cuidadoso.

A partir das hipóteses e dos conceitos construídos depois das entrevistas do segundo grupo amostral, dirigimo-nos, desta vez, aos profissionais de saúde (enfermeiros e médicos), representando o terceiro grupo amostral. A estruturação dos dados, por meio das primeiras categorias desse grupo fez emergir questões que foram incorporadas na continuidade da coleta e análise dos dados exigindo a complementação de novos dados, para explorar outros aspectos da experiência do cuidado à criança na ABS.

Buscando compreender como as práticas e os saberes dos profissionais possibilitam agir no sentido da integralidade, foi perguntado: Como acontece o cuidado à criança na sua equipe de trabalho? Que escolhas você faz para cuidar da criança? Com estes questionamentos, foram realizadas duas entrevistas e a análise individual e comparativa nos permitiu elaborar outros questionamentos para seguir neste grupo amostral a partir das hipóteses elaboradas. Portanto, seguimos a terceira entrevista com a seguinte pergunta: Como os profissionais de saúde centram seus atos de cuidado, tendo em vista as propostas da integralidade?

Emergiram da análise dos dados que o cuidado à criança na ABS e nas equipes do PSF acontece de forma fragmentada, em um trabalho pouco articulado, às vezes, por meio de decisões particulares de cada profissional. Por outro lado, apontaram para modos de cuidar, por onde transitam o vínculo, a responsabilidade e a criatividade no cuidado realizado por enfermeiras9. O trabalho cooperativo, solidário e em equipe mostrou-se como desafio para a integralidade do cuidado.

Tendo em vista estas considerações conceituais, as entrevistas subseqüentes tiveram como objetivo refinar e dar densidade às categorias trabalho em equipe, organização do trabalho e gestão do cuidado. Buscava-se alcançar a saturação teórica e testar as categorias encontradas na análise. Portanto, estas entrevistas foram mais direcionadas. A questão norteadora manteve-se, mas, no decorrer das falas, procuramos questionar pontos que se apresentavam compatíveis na análise inicial. A pergunta ficou assim elaborada: Como favorecer o agrupamento de saberes e diminuir os fatores que ocasionam a fragmentação do trabalho na Atenção Básica de Saúde?

As categorias construídas, comparadas umas às outras e reconstruídas, apontaram que existem caminhos e movimentos para recuperar o cuidado na saúde da criança defendendo o enfoque que prioriza a integralidade. Nesse contexto o profissional médico, não poderia focalizar a atenção só na doença, no diagnóstico e no tratamento. Os significados construídos pelos participantes desse grupo e apontados desde o início da investigação colocam a prática médica como redutora, o que reflete nas dificuldades do trabalho em equipe e nos processos de interação entre médico/equipe/família e o cuidado à criança.

Refletindo sobre isto a partir das categorias e das relações entre elas, foi

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elaborada a seguinte pergunta de pesquisa para o quarto grupo amostral, constituído somente por médicos: Como os médicos se posicionam frente ao trabalho no PSF e às demandas do cuidado à criança, tendo como pressuposto a integralidade do cuidado? De que forma você contribui para a integralidade do cuidado à criança na ABS?

As categorias construídas a partir desse grupo amostral apontaram para as dificuldades da organização do sistema de cuidados, do não acesso aos diversos níveis do sistema e aquelas que dizem respeito às condições sociais e econômicas das famílias.

Buscamos no quinto grupo amostral maior densidade das categorias e melhor delimitação do fenômeno que se construía. Participaram desse grupo cinco mães que foram assim questionadas: Que significados você atribui ao cuidado à criança no PSF? O que você pensa sobre o cuidado no PSF? O que você deseja para o cuidado dos seus filhos no PSF?

Na presente investigação, a definição da amostra só se tornou possível a partir da coleta dos dados, pois foi a análise que permitiu a emergência de novos questionamentos e, em conseqüência, novos sujeitos e grupos amostrais foram se construindo. Segundo Strauss e Corbin (1994; 1998; 2002; 2008), a saturação teórica é encontrada quando o desenvolvimento das categorias revela densidade e suas relações entre elas são estabelecidas e validadas. A amostragem teórica, no nosso caso, foi alcançada no final da análise do quinto grupo amostral.

Na seção seguinte, apresentaremos o processo e as ferramentas de análise dos dados.