6 COMO PRATICAR NUTRIÇÃO FUNCIONAL
6.1 ANAMNESE NUTRICIONAL
A anamnese nutricional funcional considera os vários sistemas do organismo, porém as perguntas são feitas de modo a relacionar as deferentes funções fisiológicas, considerando o indivíduo como um todo, e não como um ser fragmentado. Ou seja, leva em consideração a teia de inter-relações metabólicas da Nutrição Funcional, que compreende a identificação de:
104 Desequilíbrios nutricionais, incluindo macro e micronutrientes;
Alterações gastrointestinais: obstipação, diarreia, disbiose intestinal, e suas repercussões nas funções básicas do trato gastrointestinal (digestória, excretória, absortiva, imunológica, detoxificativa, neurológica e endócrina);
Estresse oxidativo: deficit de micronutrientes e fitoquímicos; exposição às toxinas; estresse físico ou mental; tabagismo;
Disfunção imunológica e inflamação: consumo excessivo de ácidos graxos trans, saturados e/ou araquidônico; infecções cônicas, alergias alimentares, doenças autoimunes;
Disfunções neuroendócrinas: uso de anticoncepcionais, hormônios sexuais, tireoideanos; lesões idiopáticas ou adquiridas no sistema endócrino ou nervoso;
Repercussões da interação corpo-mente: características de personalidade, estresse mental, ansiedade, depressão, pânico, hiperatividade, esquizofrenia, bipolaridade;
Problemas na detoxificação: exposição à xenobióticos; consumo elevado de alimentos contaminados com agrotóxicos;
Desequilíbrios estruturais: desvio do padrão anatômico ósseo, muscular ou articular.
A anamnese funcional considera os processos de ingestão, digestão, absorção, transporte e excreção de nutrientes, muitas vezes, esquecidos na anamnese tradicional, que leva em conta os nutrientes isoladamente e não no contexto de sua ação em conjunto.
Ingestão
Deve-se fazer um levantamento minucioso da quantidade e qualidade dos alimentos ingeridos, fracionamento das refeições, frequência de consumo, monotonias alimentares, combinações, preferências, aversões, alergias alimentares, ingestão hídrica. Essa análise permitirá a avaliação do excesso alimentar, por exemplo, de gorduras, açúcar, sódio, álcool, cafeína, aditivos alimentares, bem como de possíveis carências nutricionais, ex: vitaminas, minerais, fibras, e assim por diante.
Digestão
É necessário avaliar os fatores que podem interferir na quebra dos alimentos, como por exemplo: a mastigação; o meio ácido gástrico (diminuição da produção e/ou diluição do ácido clorídrico, ou utilização de medicamentos como omeprazol que inibe a produção de ácido
105 clorídrico); produção e ação adequada das enzimas digestivas (salivares, gástricas, intestinais e
pancreáticas) e do ácido bilear, bicarbonato; e estresse (aumento de liberação de adrenalina). Sintomas como: flatulência, azia, queimação, sensação de “empachamento”, estufamento, “digestão parada”, dores e inchaços abdominais indicam uma má digestão dos alimentos. O entendimento dos fatores que estão causando este processo determinará o tratamento.
Absorção
É necessário avaliar também os fatores que poderão interferir na absorção dos nutrientes ingeridos, como por exemplo:
- Mastigação: A digestão dos alimentos começa na boca, e só haverá absorção adequada com mastigação adequada. A boa mastigação estimula a continuidade da digestão no estômago, pois os alimentos chegam mais fracionados e facilitam a ação das enzimas gástricas, por aumentar a superfície de contato destas com os alimentos;
- A ingestão de líquidos com a refeição e na primeira hora após a mesma, além de “empurrar” o alimento, causa uma diluição do meio ácido gástrico, o qual é necessário para a ação das enzimas digestivas, absorção dos nutrientes e destruição de bactérias nocivas ao nosso organismo;
- Comer rápido, estressado ou nervoso, por exemplo, aumenta a liberação de adrenalina que prepara o organismo para “luta ou fuga”, desviando o sangue para as extremidades do corpo e inibindo a digestão e consequentemente a absorção dos nutrientes;
- A manutenção da integridade da parede intestinal é fundamental para a seleção natural dos nutrientes que serão absorvidos, e para a inibição da absorção de macromoléculas estranhas ao organismo. Essa integridade da mucosa intestinal é necessária, também para a produção de várias substâncias pelos enterócitos, como enzimas digestivas, hormônios e vários neurotransmissores.
Transporte e utilização
A carência proteica pode prejudicar o transporte de nutrientes, por reduzir a síntese de albumina e outras proteínas transportadoras. Quanto à utilização, merece ser citado o caso do cálcio. É muito comum pensarmos em carência de cálcio quando se trata de osteoporose. Porém, muitas vezes, o que realmente ocorre é uma falta de utilização do mesmo, gerada pela
106 carência dos nutrientes que agem em conjunto com o cálcio e são necessários para a fixação do
mesmo no osso.
Apesar de haver uma quantidade suficiente de cálcio, e às vezes até em excesso, o mineral não consegue ser utilizado pelo osso e ainda pode ser acumulado em tecidos moles ou até mesmo formar cálculos. Portanto, por meio da avaliação de hábitos alimentares e de todos os fatores já comentados tem-se uma maior probabilidade de tratar as causas do problema e, no caso do exemplo acima, evitar que pacientes sejam tratados apenas com suplementação de cálcio e vitamina D.
Excreção
Os produtos resultantes do metabolismo, que não serão utilizados pelo organismo e/ou qualquer substância que possa causar danos orgânicos (xenobióticos), sejam elas originadas externamente ou internamente, precisam ser excretados. Além da avaliação de uma excreção adequada via urinária, fecal, trato respiratório e pele, também é determinante a integridade dos órgãos de detoxificação, principalmente, do fígado e do intestino.
A detoxificação é o processo biológico pelo qual o organismo transforma xenobióticos, originários de fontes externas ou internas, em substâncias que possam ser excretadas. Embora a detoxificação possa ser feita em todos os tecidos e órgãos, o principal deles é o fígado, seguido pelo intestino.
Existem vários nutrientes que dão suporte à detoxificação, como vitaminas do complexo B, ácido fólico, glutationa, aminoácidos de cadeia ramificada, flavonoides, molibdênio. Quanto mais substâncias estranhas ao organismo forem absorvidas, e quanto menos houver suporte nutricional adequado, maiores as possibilidades de intoxicação orgânica e consequentes desequilíbrios funcionais.
A anamnese deve prosseguir com a avaliação de sinais e sintomas clínicos de carências e de excessos nutricionais. Para tanto, os dados referentes à avaliação de consumo alimentar realizada pelo nutricionista (ex: recordatório de 24 horas, diário alimentar de três dias) devem ser inseridos em softwares apropriados para o cálculo dos nutrientes ingeridos. Essa avaliação revelará a situação atual do paciente com relação à adequação de micro e macronutrientes, direcionando o planejamento dietético.
107 Além da avaliação do consumo alimentar, é de fundamental importância realizar um
rastreamento metabólico detalhado, considerando os diferentes órgãos e sistemas. Deve-se perguntar ao indivíduo com que frequência ele sente sintomas como:
Dores de cabeça, vertigem, tontura, insônia;
Tosse crônica, dores de garganta, aftas, línguas, gengivas ou lábios inchados/descoloridos;
Perda de cabelo, feridas que coçam, erupções, pele seca; Corrimento nasal, espirros, lacrimejamento e coceira nos olhos; Dores no peito, palpitações;
Asma, bronquite, dificuldade para respirar;
Náuseas, vômitos, diarreia, prisão de ventre, azia, flatulência dor abdominal; Dores articulares, artrose, fraqueza, cansaço;
Fadiga, letargia, apatia, hiperatividade, dificuldade para relaxar;
Memória ruim, confusão mental, concentração ruim, problemas de aprendizagem; Mudanças de humor, ansiedade, medo, nervosismo, raiva, irritabilidade, agressividade, depressão;
Doenças frequentes, edema, problemas geniturinários, etc.
A análise e a interpretação de exames bioquímicos, que complementam o rastreamento metabólico e a avaliação da ingestão alimentar, serão detalhadas a seguir.