André tem 19 anos de idade e é estudante do 1.º ano da Licenciatura em História na FLUP. Deslocado da sua residência de origem, é o primeiro elemento da sua família a frequentar o ES. Avalia positivamente o seu percurso escolar até à entrada na faculdade, acreditando, contudo, dado o desfasamento entre a sua realidade de origem e o novo contexto, não se encontrar suficientemente preparado para essa nova fase da sua vida.
Entra na sua 1.ª opção, satisfeito e com expectativas altas, quer em relação ao curso, quer ao ES: “fiquei bastante contente de ter entrado em história, porque era mesmo aquilo que eu queria, e depois também fiquei expectante em saber como é que a faculdade era, como é que a cidade era, como é que as pessoas eram...” Associa a esta expectativa inicial uma certa dose de ansiedade pela mudança para “um meio totalmente diferente”. Sem ideias definidas quanto ao futuro profissional e, recorrendo ao preconceito com que foi sendo confrontado de que “história não tem emprego”, defende que a formação nesta área lhe trará competências para qualquer carreira e para a vida de forma geral, concluindo assertivamente: “não estou a pensar bem num emprego, (…) este curso é mesmo [o que quero] tirar.”
A representação que construíra a respeito da nova fase da sua vida – imaginara um cenário de conciliação entre o estudo e a “vida boémia” – não se encontrava distante do que encontrou, acabando mesmo por se surpreender com a capacidade que rapidamente desenvolveu de gerir proveitosamente o tempo, conciliando o trabalho com as restantes esferas da vida: “consegui dar-me melhor [do que esperava] com as matérias (…) e estudar pouco a pouco, todos os dias, diluir mais o estudo e não tanto aquele marrar. E consegui conciliar isto, não só com a vida praxística, mas também com sair à noite com os amigos e assim.” Concluirá que o seu processo de transição para o ES “foi relativamente fácil” – “dei-me relativamente bem com a fase de sair do ninho, digamos assim, da casa dos pais, de estar longe dos amigos antigos, (…) lidei bem com isso.”
Recorda sessões de acolhimento em que participou, com especial destaque para a do curso. Não tem memória de nenhum mecanismo de recepção ou integração da AE, identificando como apoio no acto das inscrições a presença de praxistas mais velhos. Decide ir para a praxe pelo desejo de “experimentar” e porque sabia ser um contexto privilegiado para conhecer pessoas. Partilha, ainda assim, que vai “sem qualquer expectativa” – “não sabia o que pensar sobre o escândalo do Meco” e ficara preocupado com o que um amigo praxista na FEUP partilhara acerca da sua experiência -, mantendo,
contudo, a opção de experimentar porque esse amigo o convence de que a praxe é diferente consoante o contexto. Concluirá que a praxe contribuiu para que conhecesse a faculdade, a cidade do Porto e pessoas novas, atribuindo notória relevância a esta última dimensão: “a praxe tinha certas actividades em que precisavas de te unir às pessoas para as cumprir, e isso, não só me apresentava pessoas novas, mas também me unia a elas, criava laços.” Coloca a hipótese de os colegas que não foram à praxe terem encontrado maiores dificuldades no plano da integração, acreditando que, com o tempo, essa falha se terá colmatado.
A sua experiência fica centralmente marcada pela rede de sociabilidades que neste contexto constrói, sendo indiscutivelmente essa a chave-mestra desta vivência: a parte de que mais gostou foi a de “conhecer pessoas, criar laços e unir-se a elas”; acredita que a praxe o ajudou a ser mais “extrovertido” no contacto com os outros; destaca o cortejo da queima das fitas como cerimónia preferida por ter sido “aquele último momento de caloiros, em que o pessoal se uniu e deu tudo pelo curso e pela faculdade”; agradou-lhe bastante a dimensão do apadrinhamento, que considera outra esfera de fortalecimento de laços muito importante, avaliando as relações com os seus padrinhos positivamente. Sintetiza a este respeito: “ajudou-me a conhecer pessoas [de] que eu agora gosto muito.” Compreendendo que quem entra em praxe, “acaba por aceitar o esquema” desta, tende a ter, ainda assim, uma narrativa pontuada por críticas. Não gosta da “disciplina”, da “rigidez” e de uma certa postura de “cobrança” com que se foi deparando. Afirma que, além do seu papel ao nível da integração e por representar a continuidade de uma tradição, a praxe “não tem muita utilidade”. Acreditando que podem ser desenvolvidas competências importantes para o futuro de cada um, aponta que o discurso da praxe como preparação para a vida é excessivo; recorrendo ao exemplo de uma frase ouvida em contexto de praxe, “a praxe é tão exigente porque lá fora no mundo do trabalho comem- vos vivos”, afirma que esse discurso é “usado como justificativa para fazer certas coisas”. Reitera que “ninguém é obrigado” a cumprir castigos, mas que, caso alguém decida não fazer, é “pressionado psicologicamente” – “‘os teus colegas estão aqui a encher e tu não estás, estás-te a sentir bem com isso?’”. Dirá que há espaço para se criticar aquilo com que não se concorda, mas que “essa voz não tem peso”, estando apenas nas mãos de quem tem muito poder, a mudança de alguma dimensão da praxe. Entende que o trajar deveria ser “menos rigoroso” e que “as mulheres deviam poder ser dux”. Este olhar crítico sobre algumas dimensões serve de base à argumentação em torno da sua continuação em praxe – “[gostava de continuar] para, naquilo que puder, mudar para melhor, (…) gostava de
chegar a uma posição em que conseguisse mudar a praxe para uma coisa melhor”; esclarece, contudo – “não vejo a praxe como algo tão essencial à minha vida para, por exemplo, deixar de trabalhar, ou andar em praxe e trabalhar”.
Acreditando na distinção entre uma boa e uma má praxe, defendendo neste exercício a praxe que conhece, afirma, contudo, que “a praxe é praxe e há coisas que são invariáveis em quase todas”. Defende ainda, em sentido valorativo, que a mediatização do fenómeno obrigou a que a praxe fosse “mais regulada” e que se excluíssem determinadas actividades.
Percebe-se ainda facilmente na narrativa que constrói, que a praxe se encontra associada a uma noção de segurança, dando a entender, a determinada altura, que vai para a praxe por “curiosidade”, mas também porque é o primeiro grupo estruturado que a si se dirige num momento marcado pela ansiedade. Dirá mesmo: “eu acho que talvez, se (…) outro grupo, com uma boa organização, se tivesse aproximado primeiro quando eu cheguei, talvez eu tivesse optado por esse grupo.”
Destaca como valor primordial da sua experiência a união (entre caloiros, como grupo, como ano), compreendendo a centralidade da dimensão da tradição para o fenómeno de forma mais ampla. Leva a cabo, por variadas vezes, este exercício de distinção entre aquilo que determina o quadro de regularidades da praxe e aquilo que marca individualmente a sua experiência, associando à primeira sobretudo questões ligadas à tradição, e à segunda o peso da dimensão relacional; ou, nas suas palavras – “o valor [da união é o] que mais passa para mim, há outros valores, tipo tradição e assim, mas eu não ligo muito a isso”; “o pessoal adora a tradição da praxe… Eu sou mais… Eu gosto da praxe porque eu gosto das pessoas que andam em praxe, não tanto da praxe em si.”
No que diz respeito a outras esferas da faculdade, André votou na eleição para a AE, participou em festas organizadas por esta, bem como em iniciativas do departamento de história.
No quadro de uma experiência avaliada muito positivamente, André constrói uma narrativa pontuada pela crítica a algumas dimensões do fenómeno; aliás, a continuação da sua presença em praxe é movida pelo desejo de poder intervir e mudar, expondo, ainda assim, poucas expectativas a esse nível e uma disponibilidade de comprometimento reduzida. Esta experiência em praxe fica marcada pela sua associação a uma noção de segurança, pelo menos no momento de embate inicial com a nova realidade contextual,
mas, sobretudo, pela rede de sociabilidades que potenciou, dimensão que se revelou determinante. Descreve a praxe para si do seguinte modo: “É a relação com as pessoas.”