Diana tem 18 anos e é estudante do 1.º ano da Licenciatura em Sociologia na FLUP. Parte de um contexto escolarizado, tendo a mãe formação superior, a que se somam os padrinhos, figuras de referência para si, que contribuíram para que se sentisse mais preparada para o embate com a nova realidade: “disseram que era mais, muito mais difícil, muito mais trabalhoso, que era preciso estudar todos os dias e para eu ter isso em atenção.” Também o contacto que a madrinha teve na FCUP com a praxe leva-a a construir uma primeira representação sobre esta: “a minha madrinha [disse-me], andou em ciências, que na praxe aquilo era muito de andar de joelhos e não sei quê…”
Sabendo que não tinha média de entrada para o curso desejado, Ciências da Comunicação, decide colocar como 2.ª opção um curso que lhe despertasse interesse na FLUP, para poder tentar a transferência interna para a 1.ª opção no ano lectivo seguinte. Dirá, portanto, que se encontra a estudar sociologia “um bocadinho contrariada” e que tentará a transferência no próximo ano lectivo. Apesar do desejo de ter “a experiência de estudar fora”, optou por não o fazer por entender que o curso que deseja prosseguir é “melhor no Porto”, afirmando também que acabou por ser “mais cómodo” assim. Aponta algumas discrepâncias entre a representação que tinha acerca da vida de um estudante universitário (“só trabalho, só estudo, mas também muita festa e muitas saídas… , não sei, um turbilhão de coisas, todas à volta da vida de estudante”) e aquilo com que se deparou no confronto com a realidade (“a parte das festas nem tanto, porque não dá tempo para isso. Nem dinheiro, não é? Mas de resto, é mesmo um turbilhão de coisas. Principalmente em sociologia, que é um curso muito trabalhoso”). Afirma não ter expectativas em relação ao futuro profissional – “estou numa de esperar”.
Do ponto de vista da recepção institucional, destaca a realização de “algumas sessões de acolhimento”. Aponta a presença da praxe no dia das inscrições, referindo o seu papel de apoio nesse momento. Dirá que vai para a praxe pelo desejo de ter a sua “experiência, fosse boa ou má” e porque “queria perceber porque é que as pessoas andavam lá tantos anos e gostavam tanto daquilo e dos cortejos, daquela rebaldaria toda.” Afirma, ainda assim, que se não tivesse sido abordada de forma directa pelos praxistas, “talvez fosse experimentar outras coisas.” Confirma que a praxe “facilitou bastante” a sua integração; tendo ajudado a conhecer a faculdade, destaca sobretudo a dimensão relacional, cujo o peso se sentiu a diversos níveis: “na altura tinha logo ali com quem podia falar se precisasse de alguma coisa e nesse aspecto, eu que estava com um bocado,
não era medo, mas estava um bocado receosa de vir para uma faculdade sem conhecer ninguém e isso [a praxe], nessa parte, ajudou bastante.” Não consegue avaliar como se processou a integração dos colegas que não estiverem em praxe, afirmando apenas que, “se calhar, fizeram amigos um bocadinho mais tarde”. Esclarece, porém, que todos se relacionam bem na sua turma e que nunca notou distinções entre quem está e quem não está em praxe.
Fará um balanço positivo do seu processo de transição para o ES – “foi fácil” -, destacando a relação de proximidade entre o corpo docente e os estudantes como contributo fundamental para minorar o choque da transição; afirma ter-se surpreendido positivamente a este nível – “não [tem nada a ver com] aquela ideia que nós temos quando vimos do secundário, que os professores vão ser maus e que não querem saber de nós, não sabem o nosso nome” – acreditando, porém, que a preocupação e apoio que sentiu por parte dos docentes é uma particularidade daquele curso e não uma regularidade com que todos os estudantes se deparam aquando da entrada no ES. Curiosamente, destacará também esta característica de preocupação nos praxistas mais velhos do seu curso.
Diana vive intensamente o pressuposto de um certo secretismo da praxe: não fala sobre as actividades da praxe de curso – “são coisas praxísticas mesmo, não se pode dizer a quem não é de praxe” -, defende o resguardar perante o olhar público – “nós costumamos sempre fazer [as actividades de curso] num sítio mais escondido porque, lá está, a praxe é uma coisa que fica com quem está em praxe, não é uma coisa para se andar a espalhar. Por isso é que costumamos fazer em sítios mais escondidos e quando vamos para sítios públicos, as coisas são um bocadinho diferentes” – e não partilha quais as dimensões que deveriam sofrer alterações – “[há] algumas coisas, mas são coisas muito específicas (…) e não posso sequer falar sobre isso”. Concluirá perentoriamente a este respeito: “[são questões que] não podem ser faladas, porque são coisas praxísticas que não podem ser partilhadas [sorrisos], não é por ser alguma coisa má, é simplesmente, porque não se pode falar sobre isso. O que acontece em praxe, fica em praxe. Nós nem podemos sequer, por exemplo, tirar fotografias dentro de praxe, porque não é permitido coisas praxísticas serem filmadas ou fotografadas. É uma regra mesmo.”
Dentro desta lógica quase mística, conseguirá ainda apontar para a existência de um “sentido” na praxe que, ainda que incompreensível à priori, se compreenderá um dia; aquele sentido quase místico, cuja busca está dependente do apaziguamento do questionamento crítico: “eles tentam sempre que nós percebamos que mais tarde vamos entender porque é que as coisas funcionam assim, [mesmo que] não concordemos, (…)
vamos sempre, a certa altura, acabar por entender (…). E é nisso que eu me tento agarrar quando não me conseguem explicar porque é que uma coisa é assim.”
A única dimensão do fenómeno em relação à qual corta completamente com a noção de fechamento, diz respeito ao que considera serem “praxes abusivas”, que entende que devem sair da órbita da praxe, ser “denunciadas à polícia” e em relação às quais ter uma postura de tolerância zero. Entenda-se que esta noção é sustentada a partir da distinção clara que estabelece entre uma boa e uma má praxe.
A experiência de Diana em praxe fica indelevelmente marcada pela noção de aprendizagem; ou de outra forma, a praxe como meio de transmissão de valores, competências, instrumentos de crescimento pessoal e de preparação para o mercado de trabalho. O seu discurso espelha, por si só esta noção, recorrendo de forma frequente a expressões como ‘aprendi’, ‘ensinaram-nos’ ou ‘transmitem-nos’. Entende que a praxe prepara para o mercado de trabalho, pois nem nesta, nem nesse, “mesmo [que façamos] alguma coisa bem, nunca dizem que fizemos bem, dizem ‘continua a fazer’”; ensina a “saber dizer que não às coisas”; contribui para o desenvolvimento pessoal, dado que ajudou a modelar a sua personalidade; desenvolve uma noção de solidariedade social, dado que se envolvem em campanhas de angariação de fundos; em última instância, compreenderá a transmissão de valores e ensinamentos mesmo como funções da praxe. Também no plano das relações é esta dimensão de aprendizagem que valoriza, afirmando ter escolhido a sua madrinha com base no que esta lhe ensinou, desejando um dia poder vir a ser madrinha de alguém para poder dar continuidade a esse legado de ensinamentos.
Nas restantes esferas da faculdade, Diana participou em diversas conferências e actividades organizadas pelo departamento, a que somou um workshop de voz e locução de rádio, numa aproximação às temáticas do curso para o qual deseja mudar. Adianta não ter outro tipo de actividade em contexto extra universitário por ser “muito má em política” e não perceber “mesmo nada”.
Definirá a sua como uma “praxe muito mais mental”, compreendendo-a deste modo pela centralidade que a aprendizagem ocupa nesta; até por oposição a uma “praxe física”, que considera menos importante. Aponta mesmo que é essa dimensão de aprendizagem, sobretudo associada a uma experiência de 1.º ano em praxe, que a leva a desejar “ser caloira para sempre”; e, por somar a esta uma forte dimensão emocional, acrescenta: “por isso é que nós gostamos tanto e depois chegamos ao fim do ano e estamos muito nostálgicos e só queremos que volte ao início.” Não será por acaso que sintetiza a sua experiência na seguinte frase: “Praxe é vida”.