Pedro tem 19 anos e encontra-se a frequentar o 1.º ano do Mestrado Integrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores na FEUP. É estudante a tempo inteiro e manteve-se na sua residência familiar após a entrada no ES. Parte de um contexto de origem escolarizado, partilhando com alguns elementos da família a área de formação. Apesar disto, e porque os seus familiares tenderam a partilhar pouco acerca das suas experiências, Pedro chega a esta nova fase da vida sem expectativas ou representações claras, assumindo que “vinha para ver como é que era.”
Entra na sua 2.ª opção em termos de curso, mas afirma não ter sido “uma desilusão muito grande”, pois era “uma 2.ª opção, mas muito perto da 1.ª”. Esclarece perentoriamente que a opção pela FEUP não se prendeu com a proximidade geográfica em relação à instituição, mas por saber que “era uma boa faculdade, com boa reputação”. Não apresenta expectativas elevadas em relação ao futuro profissional, não conseguindo esboçar qualquer tipo de projecção: “vou ver o que é que acontece”. O processo de transição para o ES foi percepcionado sem dificuldades a assinalar: “foi fácil”, não tive grandes problemas.”
Do primeiro contacto com a nova realidade e, particularmente, dos mecanismos e actividades de recepção, recorda o Projecto FEUP como estrutura de apoio da instituição, uma festa organizada pela AE e a presença da praxe no dia das inscrições. É logo nesse primeiro momento que começa a participar na praxe, motivado pela curiosidade de conhecer algo sobre o qual pouco sabia. Dirá que a sua primeira percepção foi “não desgostar”, não tendo achado o primeiro dia suficientemente elucidativo. Ainda assim, afirma ter concluído “‘ah, isto não é assim tão mau como as pessoas fazem crer’”, decidindo, por isso, continuar. Acabará por gostar. Acha que a praxe contribuiu para o seu processo de integração, destacando a facilidade que proporcionou em conhecer a faculdade e os novos colegas, relativizando, ainda assim, o seu papel: “Pode ter ajudado mas não foi algo definitivo, conseguia integrar-me mesmo sem ser através da praxe.” Sustenta esta ideia através do exemplo do processo de integração bem-sucedido dos colegas que não estiveram em praxe, mas também daqueles que, tendo estado e deixado de ir, não encontraram obstáculos. Sobre estes últimos diz: “Num dia bom, ultimamente, dos 200 caloiros que entrámos, estamos, (…) 50 [em praxe].
É impossível 150 caloiros não terem [tido] facilidade em integrar-se.” Demonstra ainda interesse na possibilidade de existirem grupos com propostas diferentes das da praxe, contudo não assume estes e a praxe como mutuamente exclusivos: “tal como experimentei a praxe, experimentava o outro grupo e depois via como é que decidia. Ou até decidia [participar nos] dois, não sei.”
Pedro faz um balanço bastante positivo da sua experiência em praxe, concluindo mesmo que “não houve nada [de] que não tenha gostado”. Entende que os valores do respeito, sobretudo pela hierarquia, e da igualdade, especialmente dentro de cada grupo, são chaves-mestras do fenómeno. Dirá: “Enquanto caloiros, pelo menos, somos todos iguais, não há cá as estrelinhas.” Destaca esse sentimento de igualdade mesmo na esfera das sanções - se alguém chegasse atrasado a uma actividade, era o grupo, como um todo, que sofreria as consequências. Entende a praxe como um “bom treino” para o mercado de trabalho, por ensinar a respeitar os superiores hierárquicos, e entende poder ser uma ajuda no plano do desenvolvimento das capacidades comunicacionais. O “respeito pelos superiores”, a pontualidade e a necessidade de terem em atenção os seus comportamentos, sobretudo em praxe fora das imediações da faculdade, para não “passarem a ideia de que eram vândalos”, são as normas que destaca.
Valorizando as dimensões já expostas, não hesita naquilo que entende ser a função principal da praxe: “tem a função principal de nos divertirmos, (…) vamos lá para passar um bom bocado.” Associa de forma directa a esta noção de diversão, a de liberdade individual no exercício da escolha, na qual sustentará por inúmeras vezes o seu discurso. Aliás, a defesa da presença na praxe como uma opção, fruto de uma escolha individual e plenamente livre, isenta de qualquer manobra de persuasão, molda de forma significativa a sua análise a respeito de duas dimensões do fenómeno: o espaço para a crítica dentro da praxe e a noções de boa e má praxe. Acerca do primeiro, afirma que há espaço para os caloiros criticarem aquilo com que não concordam, contudo estabelece uma relação entre esse olhar crítico e a saída da praxe, segundo a lógica de que quem se encontra insatisfeito, deve abandonar: “Se não gostamos, podemos sair. (…) Ninguém nos prende lá dentro. Não temos uma arma apontada à cabeça. Se não gostamos, temos a liberdade de ir embora.” Acrescenta: “Não houve nada com que não tenha concordado. Ninguém me obrigou a fazer nada.”
O mesmo tipo de reflexão, direccionado para a opção e responsabilização individuais, é passível de encontrar quando aborda a discussão em torno da dicotomia boa/má praxe. Concordando com esta distinção e considerando a praxe na FEUP uma
“praxe boa a 100%”, tenderá, porém, a desvalorizar a noção de má praxe: “se existem praxes más noutros locais? É possível. Eu não estou lá para poder comprovar. Mas tal como existem bestas, também existem os meninos, [a quem] não se pode dizer nada [porque] se não começam a chorar de certeza.” Na mesma linha de análise, considera não existirem aspectos a alterar na praxe e desvaloriza a desigualdade de género no quadro da ascensão hierárquica (“Eu não conheço nenhuma [mulher dux], mas (…) que eu saiba não é uma lei, acho que aconteceu ainda não ter sido nenhuma…”).
Esta perspectiva encontra-se também associada a uma noção de gratidão para com os estudantes mais velhos, que obriga, em última instância, à aceitação da estrutura da praxe: “[aceita-se a hierarquia porque] nós vimos do secundário, não conhecemos nada do que é o mundo do ensino superior e os mais velhos estão lá há mais tempo do que nós. (…) Mesmo que não seja directamente, vão-nos ensinando alguma coisa. É uma questão de ter respeito por aqueles que nos estão a prestar esse serviço quase.” Aceitar a hierarquia é, como dirá também, uma “questão de tradição”, tal como vir a ser padrinho de alguém “é continuar a tradição”. Curiosamente, não atribui grande relevância a figura do seu padrinho ou madrinha, cuja escolha decidiu adiar para o próximo ano lectivo.
Crítico de quem experimenta a praxe com “ideias pré-concebidas” e que “só vai para dizer que foi”, tendo, à partida, a certeza de que não ficará, Pedro assumirá, ainda assim, a ideia de “experimentar” como central. Conclui “que [a vida académica pode não incluir a praxe] sem problema nenhum”, acrescentando, contudo, que “experimentar também não faz mal a ninguém”. Até porque “[a praxe] também pode deixar de fazer parte [da tua vida académica] a qualquer momento”. Acredita vir a dar mais valor a esta experiência quando ela compuser o seu quadro de memórias e apresenta dificuldades em realizar hoje um exercício de auto-reflexão, pelo reduzido distanciamento face a um fenómeno do qual é actor.
Nas restantes esferas da vida da faculdade, tem uma participação reduzida (somente em festas da AE), não estando informado sobre o processo eleitoral para a AE, que se encontrava a decorrer no momento, partilhando também não ter conhecimento acerca de possíveis iniciativas organizadas pelo departamento do seu curso.
Constrói assim a sua narrativa baseada numa concepção de liberdade individual. A praxe não parece ser para Pedro o resultado de negociações entre indivíduos a interagir num contexto específico de acção - a praxe é o que cada um
percepciona dela, depois de ter feito a escolha individual de lhe aderir, processo que culminará, ou numa adesão praticamente acrítica (como consequência de se ter aceite integrar o grupo), ou no inevitável corte. Por isto, todos devem experimentar, num exercício de liberdade, e, havendo identificação, ficar. Sintetizará de forma pragmática este ano em praxe: “Foi uma experiência.”