Capítulo 4 – Praxe na Universidade do Porto (UP) e os estudos de caso
4.2. FEUP e FLUP: os contextos em estudo e seus estudantes
Tem em conta a caracterização já sistematizada no Capítulo 1, acerca do Ensino Superior em Portugal hoje, debrucemo-nos nesta parte sobre o contexto em estudo, a Universidade do Porto, ou, mais especificamente, os contextos, a FEUP e a FLUP e, em particular, os seus estudantes.
Compreendemos os estudantes universitários como objecto de estudo específico e com clara pertinência sociológica. São-no no caso concreto desta pesquisa pelas razões óbvias, mas também num plano mais amplo, por se constituírem como um segmento decisivo da população – o seu protagonismo social, quer enquanto estudantes, quer nos seus destinos sociais potenciais, e o facto de ser passível de descortinar nestes muitas das mudanças sociais mais relevantes da actualidade, constitui-os num grupo de particular relevância (Machado et al., 2003). Não nos conduz nenhum propósito de discussão em torno da profusão de trabalhos dedicados a esta temática, já ampla e ricamente conduzida, sendo, porém de reter o contributo de Machado et al. (2003), a cuja reflexão em torno das origens sociais, oportunidades e orientações de vida dos estudantes universitários recorreremos neste ponto sempre que se colocar pertinente.
Debrucemo-nos, então, sobre a caracterização sócio-económica31 dos estudantes de licenciatura ou mestrado integrado das Faculdades de Engenharia e de Letras da UP32. No ano lectivo de 2015/2016 havia 21 087 estudantes inscritos em licenciatura ou mestrado integrado na UP, sendo a maioria mulheres (52%). No caso da FEUP, estavam inscritos 5 742 estudantes nesse ciclo de estudos, dos quais 73% eram homens e 27% mulheres, e 2 202 na FLUP, dos quais 38% eram homens e 62% mulheres. Estes dados vão claramente ao encontro da dinâmica de feminização que caracteriza o ES em Portugal e, mais especificamente, das conclusões apontadas por Machado et al. (2003) – as estudantes estão em maior número em termos gerais no ES, dinâmica que só se altera
31Informação disponível em:
https://sigarra.up.pt/up/pt/conteudos_geral.ver?pct_pag_id=122350&pct_parametros=p_pagina=122350& pct_grupo=28374#28374
32A informação analisada diz respeito ao ano lectivo 2015/2016, último sobre o qual há dados publicados.
Cremos, contudo, não haver discrepâncias significativas entre esta informação e a que dirá respeito ao ano lectivo seguinte, durante o qual esta pesquisa se desenvolveu, uma vez que os dados aqui discutidos espelham, no essencial, regularidades, dificilmente alteráveis de forma significativa de um ano para o outro.
quando se atende à distribuição por áreas de estudo, em que as engenharias fogem de forma evidente a esta regra da maioria feminina.
No que diz respeito à caracterização por idade, compreensivelmente, 81% destes estudantes na FEUP e 82% na FLUP têm até 23 anos de idade, valores semelhantes aos do total da UP (82%). 99% destes estudantes na FEUP são de nacionalidade portuguesa, valor que desce no caso da FLUP para 97%, num quadro geral de 98% para o total da UP. Quanto à região de proveniência, 88% destes estudantes da UP são da Região Norte, seguidos de 8% da Região Centro. Esta clara prevalência do Norte como região de origem mantem-se no caso dos dois contextos em estudo: 90% no caso da FEUP e 92% no caso da FLUP. Também aqui a Região que se segue é o Centro, contudo com valores ínfimos, 7% e 5%, respectivamente consoante o contexto. 13% destes estudantes da FEUP e 15% da FLUP estão deslocados da sua residência permanente, valor que sobe para 20% no total da UP.
No que diz respeito à situação profissional, 89% dos inscritos em licenciatura ou mestrado integrado na UP são apenas estudantes, predominância também observável na FEUP (89%) e na FLUP (86%). Em sentido contrário, e facilmente compreensível, são os dados quanto ao estatuto de estudante trabalhador. Apenas 6% destes estudantes da UP o possuem, valor que desce para 5% no caso dos estudantes da FEUP e que sobe para 8% no dos da FLUP33. Valores semelhantes a estes últimos são os que dizem respeito à frequência da licenciatura ou do mestrado integrado em regime de tempo parcial: 8% no total da UP, 7% na FEUP e 11% na FLUP.
Dediquemo-nos de seguida aos dados correspondentes à informação quanto ao nível de escolaridade e situação profissional dos pais destes estudantes, variáveis centrais para a compreensão de parte determinante da dinâmica do ES em Portugal. As origens de classe e as trajectórias de mobilidade social dos estudantes universitários têm sido amplamente estudadas em Portugal. Sabemos que a abertura da composição de classe destes estudantes é espelho da recomposição política, económica, social e cultural que tem caracterizado Portugal desde o 25 de Abril, contudo, e como veremos os estudantes em estudo não são excepção, o ES continua a ser um campo com tendência para a reprodução social. Machado et al. (2003) vão ainda mais longe, afirmando que, além da chamada selecção social primária, que faz com que muitos estudantes, sobretudo
33 Entenda-se que a atribuição deste estatuto tem muitas condicionantes, não se pretendendo afirmar aqui
oriundos das classes populares, fiquem afastados da universidade, deparamo-nos ainda com uma selecção social secundária, dentro das classes dominantes, nesse caso de acordo com o volume de capital cultural. Vejamos os dados correspondentes aos contextos em estudo.
Antes de mais, os dados totais referentes aos estudantes inscritos neste ciclo de estudos na UP: 33% destes estudantes indica que o pai tem formação superior e 40% a mãe. Apesarem de serem elucidativos de uma tendência amplamente demonstrada nos trabalhos sobre esta temática, os dados específicos de cada um dos contextos em estudo, revelam-se, porventura, ainda mais interessantes.
Sendo necessário ter em conta que o ensino universitário português é um campo internamente muito diferenciado (em função da oferta pública ou privada, quanto à distribuição regional das universidades, sua dimensão e antiguidade), é fundamental compreender que um dos principais eixos dessa diferenciação interna prende-se com a sua divisão em grandes áreas de conhecimento, cada uma das quais também diversa internamente – “seja no valor de mercado dos títulos académicos, seja no plano do prestígio ou capital simbólico que lhes está associado, essa diferenciação converte-se numa verdadeira variável de estratificação interna do campo universitário” (Machado et
al., 2003:66). Como apontam estes investigadores, essa distribuição dos estudantes por
áreas de conhecimento está também dependente da sua origem de classe. Assim, a hierarquia de prestígio socialmente atribuído às áreas de estudo – que, de forma simplista, tem no topo as ciências médicas e na base as letras e as ciências sociais – é reforçada pela hierarquia das procuras sociais dessas áreas a partir das diversas classes. Por outras palavras, “os estudantes provenientes de classes de maiores recursos distribuem-se de forma totalmente homóloga a essa distribuição de capital simbólico, contribuindo, dessa forma, para a reproduzir” (ibidem: 67). A pertinência desta questão revela-se sobretudo, no nosso caso, por estudarmos dois contextos que, grosso modo, se encontram nestes dois lados opostos do ponto de vista do prestígio social, as engenharias e as letras. De facto, os dados vão no sentido do enunciado por Machado et al. (2003): comparativamente, os estudantes inscritos neste ciclo de estudos na FEUP são oriundos de contextos familiares mais escolarizados, isto é, mais capitalizados cultural, e possivelmente, economicamente, do que os estudantes da FLUP. 40% dos pais e 47% das mães destes estudantes da FEUP concluíram formação superior, contra 15% dos pais e 20% das mães dos estudantes da FLUP. De referir que, no nível de escolaridade dos pais neste último caso, a percentagem de pais com formação superior é igual a de pais com o 3.º ciclo do Básico (15%) e menor
que a de pais com o ensino secundário (18%). Esta tendência, ainda assim, não se verifica no caso das mães34.
Também a informação a respeito da caracterização dos pais destes estudantes por situação profissional, revela para os estudantes da FEUP contextos familiares com mais segurança laboral e, em última análise, com mais estabilidade até do ponto de vista financeiro. 71% dos pais dos estudantes da FEUP encontram-se empregados, valores que descem para 50% no caso dos pais dos estudantes da FLUP. Curiosamente, os valores para o total de estudantes da UP, deste ciclo de estudo, são mais próximos dos da FEUP (69% dos estudantes têm os pais empregados)35.
Por último, caracterizamos estes estudantes segundo a situação de bolseiro. Nesse ano lectivo, a UP tinha 21% dos estudantes inscritos em licenciatura ou mestrado integrado em situação de bolseiro SAS, contra 79% não bolseiros. No caso dos dois contextos em estudo, indo ao encontro de algum modo das propostas analíticas avançadas acima, a FLUP conta com mais do dobro de estudantes bolseiros SAS (34%) do que a FEUP (16%).