• Nenhum resultado encontrado

Anos 1990-atualidade: do eclipse da tecnologia apropriada ao florescimento da

1. O QUE É A TECNOLOGIA SOCIAL?

1.4 A história da tecnologia social e da engenharia engajada

1.4.2 Anos 1990-atualidade: do eclipse da tecnologia apropriada ao florescimento da

Contudo, a mesma ordem neoliberal que concorreu para o quase desaparecimento de implementações de TA acabou por produzir os fundamentos para o seu ressurgimento, na deterioração das condições de vida de contingentes crescentes das populações periféricas e no aumento do impacto sobre o meio ambiente (cf. Dagnino et al., 2014, p. 16- 7).

Do seio, então, da crise humanitária e ambiental produzida ou agravada pelo neoliberalismo, e da busca por se superarem, em maior ou menor escala, as críticas internas à TA, emergirá, a partir da metade da década de 1990, uma pluralidade de iniciativas alternativas de desenvolvimento tecnológico, derivadas da tradição prévia de TA, à qual Kleba (2017) chamará de engenharia engajada. São exemplos dessa prática tecnológica alternativa (ou não convencional) os seguintes movimentos:

GRASSROOTS INNOVATIONS. Trata-se de uma iniciativa nascida na Índia ainda nos anos 1980, mas que se insere nesse contexto novo por buscar resgatar e valorizar os conhecimentos tecnológicos dos grupos sociais excluídos. A ideia, com tal trabalho, era “recuperar a capacidade de inovação das pessoas pertencentes a setores marginalizados da população para gerar soluções a problemas práticos com alternativas tecnológicas baratas,

eficientes e ecologicamente sustentáveis” (Thomas, 2009, p. 9). De modo a divulgar esse tipo de desenvolvimento técnico e de apoiar os inovadores, organizou-se uma rede, chamada de Honey Bee Network. Essa rede administra e distribui recursos econômicos, organizativos e simbólicos, de modo a melhorar e difundir projetos tecnológicos alternativos em países em desenvolvimento. Após um grande período de mapeamento, a Honey Bee Network identificou dez mil dessas inovações ao redor do planeta. Contudo, muito poucas delas alcançaram desenvolvimento comercial posterior (cf. Thomas, 2009, p. 9-10).

INOVAÇÕES SOCIAIS. Trata-se de uma perspectiva que surge nos anos 2000 e que abrange iniciativas que vão desde a utilização de novas tecnologias (como a Internet e o celular, que podem possibilitar algo como educação a distância) a novas formas de organização (como as cooperativas de consumo), passando pela simples combinação de ideias. Diferentemente da inovação convencional, as inovações sociais se concentram, em tese, não em objetivos econômicos voltados ao lucro, mas em se alcançarem metas sociais, culturais e políticas. A prática das inovações sociais, entretanto, costuma estar marcada, seja por um cunho assistencialista, reforçado pelo fato de elas, em sua maioria, serem desenvolvidas nos países centrais (ou por organizações/indivíduos com matrizes/bases lá), seja pela busca por lucro, que se tenta assegurar na convergência dos interesses da sociedade civil com os do mercado. Não é por acaso, nesse sentido, que uma das principais preocupações normativas das inovações sociais gira em torno da propriedade intelectual (cf. Thomas, 2009, p. 10).

BASE DA PIRÂMIDE. Concebida por Prahalad e Hart, essa proposta busca resolver o problema da pobreza e da exclusão socioeconômica não por meio do assistencialismo provido pelo Estado (via doações de fundos ou organizações internacionais), mas pelo desenvolvimento levado a cabo pela iniciativa privada. Para tanto, deve-se considerar a base da pirâmide, ou seja, os 80% mais pobres, como um mercado com características específicas, isto é, como uma oportunidade de negócio para grandes empresas multinacionais (cf. Thomas, 2009, p. 11; Rodrigues & Barbieri, 2008, p. 1080). A ideia é a de que a base, ainda que seja composta por pessoas com receitas diminutas, movimenta, globalmente, um montante de dinheiro significativo. Além disso, esse mercado é promissor também porque as faixas média e alta da pirâmide proveem margens de lucro cada vez menores, visto que são esses os setores mais cobiçados pelas empresas, que, por essa razão, precisam competir ferozmente para sobreviver (cf. Rodrigues & Barbieri, 2008, p. 1080-1). Porém, para se

inserirem de forma exitosa nesse segmento, as empresas não podem agir como o fazem nos outros segmentos, nem oferecer meras replicações daquilo que oferecem (ou ofereceram) nos estamentos superiores. Há, desse modo, que se pensar em produtos e processos diferentes, o que, como decorrência, produziria também transformação social e desenvolvimento sustentável. Tais demandas (transformação social e desenvolvimento sustentável) acabariam por se impor tanto porque a manutenção da pobreza e da miséria crescentes é uma bomba-relógio contra a ordem social, quanto pelo fato de que esse desenvolvimento teria que estar balizado pelos limites ambientais impostos pelo planeta (cf. idem, p. 1081-3). Na prática, contudo, “*...+ as tecnologias para a base da pirâmide baseiam- se nos recursos, no poder e na capacidade das multinacionais de investir em novos mercados e novas tecnologias, o que é coerente com o modus operandi recorrente dessas empresas: perseguir permanentemente novas oportunidades de negócio onde quer que estejam, criando os meios apropriados para isso. Nesse aspecto, [assim,] não há nada essencialmente novo nas propostas desses dois autores [(Prahalad e Hart)]” (idem, p. 1091).

ENGENHARIA PARA O DESENVOLVIMENTO. Engenharia para o desenvolvimento são iniciativas voltadas a grupos excluídos para as quais costumam ser consideradas seriamente questões como “quais papéis a tecnologia deveria ter no desenvolvimento? Quais são os melhores mecanismos de transferência de conhecimento e habilidades necessários para manter novas tecnologias? Qual é a relação ideal entre “quem dá” e “quem recebe” ajuda tecnológica?” (Nieusma & Riley, 2010, p. 33). Busca-se nelas, ao menos idealmente, algo próximo à tecnologia social, com empoderamento dos atores locais, diálogo de saberes, construção colegiada e resposta às urgências localmente identificadas como tais. Exemplo desse tipo de atuação é a de estudantes de engenharia que são enviados, pelo período de algumas semanas, para uma realidade carente (no próprio país ou no exterior), desenvolvendo projetos com a população local (cf. Nieusma & Rilley, 2010, p. 33-4). No geral, não obstante, esses trabalhos acabam dando um peso ou uma centralidade excessiva aos produtos tecnológicos ou à infraestrutura técnica que se busca construir, e, não raro, partem de modelos de desenvolvimento não refletidos, que findam por impor uma linha inegociável de ação, a despeito dos valores e perspectivas do grupo local. Isso torna a assimetria de poder entre equipe técnica e atores locais a um só tempo gigantesca e invisível (porque naturalizada) (cf. Nieusma & Rilley, 2010, p. 51-6), de modo que os engenheiros

passam a atuar, nos termos de Paulo Freire, segundo a perspectiva da extensão, transbordando seu conhecimento e sua visão de mundo para as periferias, e não a da comunicação, que é a da construção dialogada do novo almejado (cf. Freire, 1983, p. 11-4, 44-50).

Nos modelos mais problemáticos de engenharia-para-o-desenvolvimento *…+ os engenheiros agem de forma unilateral, como se eles fossem autônomos, lutando para alcançar um modelo de desenvolvimento ideal que não corresponde aos problemas com os quais eles lidam. Essa unilateralidade traz consigo obstáculos para o desenvolvimento de um trabalho efetivo e socialmente justo, especificamente por focar na funcionalidade tecnológica como o princípio, ou mesmo a única medida do êxito do projeto, e, com isso, por prestar pouca atenção às relações de poder social e por inibir a colaboração interdisciplinar. Ela também não dá conta de considerações estruturais e infraestruturais maiores, incluindo tanto forças econômicas mais amplas quanto o modelo de deficiência de desenvolvimento que atua nessas forças (Nieusma & Rilley, 2010, p. 57). ENGENHARIA PARA A JUSTIÇA SOCIAL. Seria uma atuação em engenharia fortemente comprometida com os ideais da justiça social, sem, entretanto, focar-se necessária ou unicamente em grupos socioeconomicamente excluídos. Riley (2010, p. 125-142) elenca diversos exemplos desse tipo de engenharia, como: produção de cadeiras de rodas baratas e customizadas de acordo com as necessidades diárias efetivas do usuário (no México); produção de remédio a baixo custo nos países periféricos (i.e., Índia); fiscalização de uma usina nuclear pelos moradores da região em que ela está instalada (nos EE.UU); construção de unidades habitacionais baratas e que levam em consideração as necessidades dos moradores (em bairros pobres de Nova Iorque). A ideia da autora é mostrar que, como engenheiro, pode-se lutar pela justiça social e fazer essa pauta avançar atuando-se de múltiplas formas e em distintos locais, mesmo dentro de uma multinacional, como a HP.

Por fim, teríamos a TECNOLOGIA SOCIAL, que apresentamos longamente nas seções anteriores.

Em comum, todas essas práticas de produção/desenvolvimento tecnológico traduziriam novas diretrizes profissionais, éticas e educacionais voltadas para a profissão da engenharia como um todo, em sua relação geral com o Estado, o setor privado e a sociedade civil (cf. Kleba, 2017, p. 175). E isso contrasta fortemente com a regra do que se tinha até então, de uma “formação de especialistas com alto domínio tecnológico, mas em regra carecendo de uma reflexão sobre a relação entre a produção tecnocientífica e os contextos sociopolíticos” (idem, p. 173).

Por outro lado, no entanto, os tipos de atuação engajada em engenharia são bastante diversos, quanto menos não seja, com respeito aos objetivos intencionados, que, como vimos, podem ser

disseminação, ou seja, a inclusão social com acesso a tecnologias já disponíveis; a otimização tecnológica; e a revolução tecnológica. Tome-se como exemplo os automóveis. Pode-se permitir aos excluídos adquirir carros (inclusão), pode-se projetar carros menos poluentes e que evitem acidentes (otimização), ou pode-se buscar reinventar o conceito de mobilidade para além do automóvel na forma como ele é concebido hoje, provendo soluções que apresentem vantagens tecnossociais, econômicas e ambientais (revolução) (Kleba, 2017, p. 175).

Ou seja, se é verdade que essas iniciativas parecem dialogar fortemente com a tradição da tecnologia apropriada que a precedeu, a reflexão que as fundamenta parece diferir, em cada caso, de forma significativa em vários aspectos cruciais, como público alvo, perspectiva de futuro buscada e tipo de atuação intencionada (mais dialógica e horizontal, ou mais tecnocrática e vertical).

De todo modo, a grande contribuição (prática e conceitual) dessa nova TA é o papel (mais ou menos central) dado aos atores locais no (controle do) desenvolvimento tecnológico, sejam eles grupos socioeconomicamente excluídos ou cidadãos/consumidores insatisfeitos. Nesse sentido, quanto mais voz eles têm, tanto para a definição dos rumos do progresso técnico, quanto para incorporarem, neste, seus saberes e seus valores e visões de mundo, mais caminhamos em relação à reflexão e à média da prática em TA pré- neoliberalismo (e mais nos aproximamos do ideal da TS).

Dessa forma, o substancialmente novo nessa TA ressurgida (mas não em todas as modalidades descritas nesta seção), que busca ser em alguma medida democrática e, conforme o caso, popular, passa não apenas pela superação dos mitos da neutralidade da técnica e da unilinearidade do seu desenvolvimento, mas pelo estabelecimento ou pela busca de um novo processo de se produzir tecnologia que permita construir, no diálogo com os atores locais, uma ordem sociotécnica até então impensada, ao invés de apenas adaptar o (tecnocraticamente) estabelecido. É isso que, como vimos no caso da tecnologia social (em sentido amplo ou restrito), está por trás dos processos de adequação sociotécnica e da aplicação de metodologias críticas, como a pesquisa-ação, que permitem implementá-los.