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Anos 1960-1980: difusão, apogeu e eclipse da tecnologia apropriada

1. O QUE É A TECNOLOGIA SOCIAL?

1.4 A história da tecnologia social e da engenharia engajada

1.4.1 Anos 1960-1980: difusão, apogeu e eclipse da tecnologia apropriada

Seguindo de perto a análise de Thomas (2009), as principais etapas do movimento da tecnologia apropriada e da reflexão sobre ela, até o seu quase ocaso na década de 1980, podem ser sintetizadas da seguinte forma:

AUTORITÁRIA versus DEMOCRÁTICA. As primeiras conceituações de TA surgiram em decorrência do artigo Authoritarian and Democratic Technics, de Mumford, publicado em 1964 (cf. Thomas, 2009, p. 6-7). Elas foram construídas a partir da oposição que ele estabelece entre, de um lado, tecnologia de grande escala, que sobrepuja tanto os limites de atuação humanos (e de demais espécies animais por nós utilizadas), quanto a nossa capacidade de controlá-la, demandando, assim, um controle praticamente autorreferenciado, centralizado e autoritário (a perspectiva da realeza), e, de outro, a tecnologia de pequena escala, baseada em uma direção comunitária ativa e em um uso discreto dos recursos naturais, sendo assim desenvolvida em respeito aos valores e visões do grupo (a perspectiva democrática) (cf. Mumford, 1964). Haveria, dessa forma, um determinismo no desenvolvimento tecnológico, que atrelava as tecnologias de grande escala à centralização e subsequente autoritarismo no seu desenvolvimento e operação, e as de pequena escala à possível descentralização e, com isso, a uma democratização potencial do seu uso e da sua construção.

TECNOLOGIAS APROPRIADAS (FASE I). As tecnologias apropriadas como tal surgem ao longo da década de 1960. Os primeiros enfoques teóricos enfatizavam a necessidade de produzir tecnologia em pequena escala (familiar ou comunitária), o uso de tecnologias maduras, a baixa complexidade, o baixo conteúdo científico e tecnológico, o baixo custo por unidade de produção, o escasso consumo energético e o uso intensivo de mão de obra. Seriam soluções técnicas que não se destinavam à produção para a comercialização (mas para o consumo familiar e/ou comunitário); que seriam não alienantes, ou, nos termos de Mumford, seriam democráticas; e que, pelo pequeno impacto ambiental, seriam ecológicas. Fazem parte dessa fase as tecnologias já citadas do biodigestor, dos sistemas energéticos de baixo custo, de construção de casas populares e de produção agroecológica. Tal movimento conduziu a uma reflexão crítica sobre a seleção de tecnologias, em uma perspectiva focalizada na comunidade de indivíduos. Na prática, entretanto, muitas das implementações

de tecnologia apropriada foram experiências paternalistas, desenvolvidas por tecnólogos dos países centrais, a partir de tecnologias maduras lá, e que, por meio dessa transferência, visavam à solução de problemas pontuais nos países pobres (cf. Thomas, 2009, p. 7).

TECNOLOGIAS INTERMEDIÁRIAS. As tecnologias intermediárias são aparentadas das tecnologias apropriadas, só que de média escala e tendo como horizonte a busca por resolver os problemas de desemprego e de falta de bens e serviços nos países pobres. Elas também não são intensivas de conhecimento, fazendo uso de tecnologias maduras, transferidas, via downsizing, a partir das economias centrais (cf. Thomas, 2009, p. 7-8; Schumacher, 1974). Um dos campos prioritários de atuação da tecnologia intermediária foi o da construção civil, posto que, além de ser ela uma área intensiva de mão de obra (boa parte da qual sem necessidade de grandes qualificações profissionais), é tanto um setor fundamental para o desenvolvimento da infraestrutura do país, quanto um campo tecnologicamente acessível, no geral, para os países em desenvolvimento (cf. Schumacher, 1974, p. 135-6). Outras áreas de produção de tecnologia intermediária foram a de projetos hidráulicos voltados à busca por se garantir acesso de populações pobres à água potável o ano inteiro (como a construção de barragens, dutos e afins) e a de desenvolvimento de ferramental agrícola, que, associadas, assegurariam melhores condições para o trabalho no campo e a produção agrícola (cf. idem, p. 137-9). Por fim, pequenas indústrias que respeitavam as possibilidades técnicas locais e a disponibilidade de insumos na região foram igualmente instaladas (cf. idem, p. 139-40). Seja como for, a estratégia adotada pela tecnologia intermediária, fortemente tributária do aporte de tecnologias e conhecimentos desenvolvidos nos países centrais (cf. Schumacher, 1974, p. 134-5), acabou por inibir inovações locais do tipo que a TS busca, e que se calca, como vimos, no diálogo com os saberes tradicionais detidos pelo grupo (cf. Thomas, 2008, p. 8).

TECNOLOGIAS APROPRIADAS (FASE II). Ao longo da década de 1970, surgem novas análises da tecnologia apropriada que, ao buscarem abarcar não apenas as melhores soluções técnicas para os países subdesenvolvidos, como também as mais adequadas para as economias desenvolvidas, abandonam o tom ético-filosófico original, da justiça social (ou caridade), migrando para a perspectiva da eficiência, mais tributária da engenharia e da economia. Nesse sentido, uma tecnologia apropriada seria aquela que melhor se adequasse às especificidades locais, que poderiam ser, por exemplo, maior disponibilidade de capital

(países centrais) ou de mão de obra (países periféricos). Com esse movimento, supera-se, no âmbito da reflexão, o determinismo iniciado por Mumford. Além disso, ao incluir as soluções técnicas para os países centrais, a reflexão sobre o desenvolvimento tecnológico apropriado se torna mais integradora. Por essa época, ademais, as considerações sobre TA ultrapassam as fronteiras da comunidade especializada – e marginal – em que elas se desenvolveram até então, passando a ser tomadas para o delineamento de políticas públicas e de intervenções de organismos internacionais. Contudo, em função da forte carga utilitária/instrumentalista trazida com a entronização da eficiência, e das restrições conceituais ainda presentes nessa análise (que não dava conta, por exemplo, de incorporar as perspectivas e os saberes tradicionais/populares, ou de questionar o dogma da neutralidade da tecnologia), não está claro se essa nova fase da reflexão sobre a TA contribuiu para a diminuição ou se para a cristalização das diferenças sociais que ela buscava superar (cf. Thomas, 2009, p. 8).

Seguiu-se a esta última fase um eclipse quase total do desenvolvimento de tecnologia apropria, que se estendeu da década de 1980 até meados da década de 1990. Tal fenômeno teve duas causas principais. Em termos geopolíticos, esse período foi marcado pela emergência e consolidação do neoliberalismo. E tal perspectiva político-econômica, com sua pouca simpatia à ideia de projeto (sociotécnico) e com sua sacralização da tecnologia convencional (e da tecnocracia), impediu as bases mesmas de algo como a tecnologia apropriada (cf. Dagnino et al., 2004, p. 15-6). Isso se materializará, por exemplo, na grande diminuição de financiamento de projetos de TA por agências internacionais (cf. Thomas, 2009, p. 9).

De outra parte, o movimento vergou também como consequência de diversos questionamentos internos, que davam conta:

 de um uso acrítico da racionalidade que presidia ao desenvolvimento das tecnologias convencionais no desenvolvimento de TA, ou seja, de uma perspectiva de desenvolvimento técnico neutro e unilinear (cf. Thomas, 2009, p. 9; Dagnino et al., 2004, p. 11-2);

 de que se assumia que desenvolvimento social só seria possível a partir de, ou em decorrência do, desenvolvimento tecnológico (seguido pelos países centrais) (cf. Dagnino et al., 2004, p. 12-3);

 de que a TA era, na maioria das vezes, mais expressão do peso de consciência dos países centrais (que a desenvolviam ou financiavam), do que caminho

para mudar o quadro de opressão/dominação dos países pobres pelos ricos (cf. Dagnino et al., 2004, p. 13; Rodrigues & Barbieri, 2008, p. 1074); e

 de que a TA (quando aplicada aos países periféricos), seja por conta de seus menores custos, menor impacto socioambiental e menor “produtividade”, seja por ser solução não intensiva de conhecimento, acabaria por congelar a discrepância entre os níveis de vida e consumo de pobres e ricos. E isso, aliás, em um mundo com recursos limitados, seria altamente interessante para que os ricos seguissem podendo manter seus modos de vida absolutamente não sustentáveis nem universalizáveis (cf. Rodrigues & Barbieri, 2008, p. 1073-4).

1.4.2 Anos 1990-atualidade: do eclipse da tecnologia apropriada ao florescimento