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Começaremos esta sessão a partir daquilo que consideramos a fórmula narrativa dos filmes com Negros Encantados. De maneira resumida, as histórias contadas por esse gênero hollywoodiano são caracterizadas pela presença de um personagem negro, com poderes sobrenaturais e/ou sabedoria fora do comum, cujo único propósito no filme é o de ajudar um herói branco que passa por dificuldades. No entanto, é importante enfatizar que, apesar dos seus superpoderes ou sabedoria extraordinária, o Negro Encantado não pode mudar a vida do herói branco a quem oferece o seu auxílio, a menos que o próprio herói esteja disposto a participar ativamente do processo de mudança (GABBARD, 2004; HUGHEY, 2009).

Nesse sentido, a figura do Negro Encantado funciona como uma espécie de “amuleto mágico”, disponibilizado para o personagem principal com o propósito de ajudá-lo a reconectar-se com sua força interior e efetuar a transformação que o permitirá retomar as rédeas de sua própria vida. O vínculo entre o herói do filme e o seu Negro Encantado é, dessa maneira, estabelecido a partir da seguinte condição: o branco passa por problemas e precisa de ajuda.

No caso de American Stories/American Solutions, já na cena de abertura é possível identificar os elementos que servirão como referência ao esquema narrativo adotado pelo comercial. Ao som de uma melodia angelical, vemos a imagem idílica de um campo de trigo. A voz de Obama sobrepõe-se à música para informar ao espectador que os Estados Unidos passam por momentos de dificuldade. Segundo o candidato, a guerra no Iraque e a crise econômica tiraram os Estados Unidos do seu eixo de equilíbrio, gerando temores e dúvidas

em relação ao destino do país. Imagens de pessoas comuns preenchem a tela, enquanto ouvimos Obama afirmar que, apesar da crise e da incerteza sobre o futuro, ele é capaz de ver otimismo, esperança e força no povo americano.

A descrição acima constitui uma sutil apresentação dos personagens principais que irão compor a estrutura narrativa de American Stories/American Solutions: o herói, representado pelo povo americano, e o antagonista, representado pela crise socioeconômica nos Estados Unidos.

Existe, no entanto, um terceiro personagem, cuja voz podemos ouvir, embora ainda não possamos vê-lo. Uma série de elementos simbólicos criam a atmosfera da sequência, na qual a voz de Obama possui um papel central. A voz do candidato emerge sobre a imagem do campo de trigo. O trigo, um dos símbolos litúrgicos mais representativos do cristianismo, é a matéria-prima do pão; alimento que, em linguagem bíblica, significa a palavra de Deus. A referência é susceptivelmente familiar no caso do espectador americano, já que se trata de um país no qual 78% da população adulta identifica-se como cristã43. A palavra de Deus é, também, a “voz de Deus”, alcunha utilizada no meio cinematográfico para descrever o recurso de “voz sobre imagem”, através da qual um narrador atua como ferramenta ilibada para o arranjo discursivo de um fluxo de cenas.

Em American Stories/American Solutions, é Obama quem narra o drama do povo americano diante da crise socioeconômica nos Estados Unidos. O recurso de “voz sobre imagem” produz um efeito de deslocamento do narrador em relação à realidade material que ele mesmo descreve. Obama, neste caso, ocupa a posição privilegiada de quem “vê as coisas de cima”. No entanto, como uma espécie de anjo, ele não está ali apenas para observar e narrar, mas para ajudar o povo americano a superar este momento de crise. Estamos, dessa forma, diante do terceiro personagem: o Negro Encantado.

Não existem acasos em anúncios publicitários. Tudo é rigorosamente planejado. No entanto, o nosso objetivo não é provar a intencionalidade por trás das representações contidas em American Stories/American Solutions, mas apresentar os elementos histórico-culturais que permitem as interpretações propostas ao longo deste capítulo. Começando com os segundos iniciais do comercial, é possível afirmar que a atmosfera criada remete às representações familiares encontradas em filmes com Negros Encantados, de modo a preparar o terreno para o que virá nos próximos trinta minutos.

43 Dados fornecidos pela Pesquisa Americana de Identificação Religiosa, 2008 (American Religious

O lugar de omnisciência atribuído àquele que narra a sequência, alcançado pelo recurso da “voz sobre imagem”, coloca o candidato Barack Obama em uma posição de transcendência em relação aos outros personagens. No contexto do Negro Encantado, essa posição pode ser comparada à capacidade de previsão do personagem “O Oráculo”, da trilogia Matrix (The Matrix, 1999; The Matrix Reloaded, 2003; e The Matrix Revolutions, 2003), interpretado pelas atrizes negras Gloria Foster e Mary Alice, cujo poder é usado para aconselhar e orientar Neo, o herói branco do filme. Da mesma maneira, a omnisciência é um atributo de Deus, personagem interpretado pelos atores negros Morgan Freeman, em Bruce Almighty (Todo Poderoso, 2003), e Octavia Spencer, em The Shack (A Cabana, 2017). Em ambos os filmes, Deus vem à Terra sob a forma humana de uma pessoa negra para ajudar a curar as feridas psíquicas do protagonista branco.

O personagem do Negro Encantado — a quem estamos associando ao candidato Barack Obama — pode ser entendido como uma espécie de anjo negro, que surge misteriosamente na Terra para auxiliar o protagonista branco. Não coincidentemente, Krin Gabbard (2004) nomeou como Black Angels in America (Anjos Negros na América) o capítulo que trata, especificamente, deste personagem hollywoodiano, em seu livro Black Magic: White Hollywood and African-American culture.

Figura 9 – Cenas dos filmes The Shack, Bruce Almighty e The Matrix: Octavia Spencer (à esquerda) e Morgan Freeman (ao centro), ambos no papel de Deus, vêm à Terra para ajudar a curar as feridas psíquicas do protagonista branco. Gloria Foster (à direita), no papel do Oráculo, exerce uma função central na autodescoberta de Neo (interpretado pelo ator branco Keanu Reeves) como o “escolhido” para liderar a “revolução”.

O vínculo estabelecido entre o Negro Encantado e o herói branco depende da crença do primeiro na capacidade de superação do segundo, e na sua disposição em ajudá-lo a superar seus problemas. Na sequência de abertura de American Stories/American Solutions, somos informados que o país passa por dificuldades. A informação é acompanhada por imagens do povo americano. Em meio ao que aparenta ser uma espécie de comício, pessoas balançam pequenas bandeiras dos Estados Unidos. Algumas acenam com um sorriso, outras contemplam com admiração; estendem suas mãos para tocar algo, ou alguém, que não podemos ver, mas que sabemos tratar-se do candidato democrata. O rosto de uma senhora de

meia-idade é a única imagem negra que vemos em primeiro plano durante as cenas. Todos os outros indivíduos em destaque são brancos. A associação audiovisual entre o relato sobre um país em crise e o excesso de imagens de pessoas brancas definem o discurso mítico que caracteriza o verdadeiro herói do comercial: americanos brancos são os autênticos representantes dos Estados Unidos e os principais necessitados da ajuda oferecida por Obama.

Figura 10 – Cenas da sequência de abertura do comercial American Stories/American Solutions: Imagens de pessoas comuns são utilizadas para ilustrar a fala de Obama. Apesar da guerra e da crise econômica, o candidato democrata ainda é capaz de ver otimismo, esperança e força no povo americano. Apenas uma imagem negra em primeiro plano é utilizada para representar o “povo americano”.

A mensagem subjacente de que os brancos são os legítimos representantes do povo americano remete a questões políticas, sociais e culturais que remontam ao período colonial nos Estados Unidos. É importante lembrarmos que as diferentes levas de imigrantes europeus que chegaram à América, ao longo da História, nem sempre viram a si mesmos como uma identidade unificada em termos raciais. A construção de uma identidade branca nos Estados Unidos é impulsionada a partir da conquista do território, no caso dos indígenas, e da dominação de classe, no caso dos negros, as quais respondem às circunstâncias históricas de períodos específicos. Muitos dos primeiros trabalhadores africanos a chegar à colônia, por exemplo, trabalhavam por um tempo determinado de serviço, juntamente com europeus pobres, sob o regime de servidão contratada. Servos africanos e europeus compartilhavam álcool, sexo, casamentos, mortes e fugas. Durante as primeiras décadas da colônia, padrões de

sociabilidade, relações afetivas e a resistência à opressão da elite colonial continuaram a unir europeus pobres e africanos (ROEDIGER, 2008).

Segundo Roediger (2008), o primeiro esforço de distinção social em termos de “brancos” e “negros” não aconteceu como resultado de um desejo de distanciamento social por parte de europeus pobres em relação aos africanos, mas em forma de estratégias adotadas pela elites coloniais com o propósito de conter a união desses grupos em torno da reinvindicação de direitos e da luta contra o trabalho forçado.

As distinções sociais entre europeus e africanos foram gradativamente construídas e reforçadas pela criação de políticas de base racial, que concediam privilégios aos primeiros, ao tempo que retiravam direitos e intensificavam os maus tratos dos segundos, juntamente com a imposição definitiva do trabalho escravo sobre os africanos. Some-se a isso, uma construção ideológica da alteridade racial com base no que Mbembe (2014) chama de uma consciência ocidental no Negro — o que, na terminologia proposta por Bhabha (1998), poderíamos descrever também como um “discurso colonial sobre o Outro” —, ou o trabalho cotidiano de invenção, repetição e circulação de ideias, imagens, fórmulas e textos capazes de produzir o sujeito negro como uma “raça” de indivíduos atrasados e degenerados e, por isso, moralmente desqualificados e passíveis de serem subjugados. A construção do negro e do branco americanos acontecia, dessa forma, como efeito de um projeto de dimensões materiais e simbólicas produzidas em simultaneidade.

Muitos anos depois, com a primeira Lei de Naturalização, em 1790, a construção gradativa da identidade branca em termos de privilégios e dominação raciais assumiria contornos legislativos em torno da ideia de cidadania. A lei determinava, explicitamente, todos os grupos considerados inelegíveis para a cidadania americana, os quais incluíam não só escravos e indígenas, mas toda e qualquer “pessoa de cor”. Somente com o advento do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos (1954 – 1968) — quase duzentos anos mais tarde —, foi possível a conquista do reconhecimento legal e da proteção federal dos direitos de cidadania a pessoas consideradas não brancas (ROEDIGER, 2008).

Hoje, apenas quarenta e nove anos desde as conquistas do Movimento do Direitos Civis, a eleição do candidato republicano, Donald Trump, após uma campanha marcada pela combinação entre retórica nacionalista e apelos explícitos ao racismo e à xenofobia — incluindo propostas anti-imigração direcionadas a países não europeus e a ideia de se construir um muro para impedir a entrada de mexicanos ilegais nos Estados Unidos — indica que uma grande parcela dos brancos americanos ainda conserva uma noção de cidadania americana ancorada em valores de supremacia branca.

Ainda em relação ao atual presidente, é igualmente interessante notar que, durante os oito anos em que Barack Obama ocupou a Casa Branca, o empresário Donald Trump foi inúmeras vezes a público questionar a sua nacionalidade, exigindo que Obama disponibilizasse a sua certidão de nascimento e provasse, assim, que era realmente americano. Como tentamos demonstrar no capítulo anterior, esta equivalência histórica entre cidadania americana e identidade branca construiu, no imaginário branco-americano, uma noção de americanidade que é reproduzida de maneira recorrente na/pela cultura de massa dos Estados Unidos, principalmente no/pelo cinema hollywoodiano, e segundo a qual ser branco é considerada a maneira normal/natural de ser americano.

Em American Stories/American Solutions, a equivalência entre identidade branca e americanidade é alcançada, em parte, através da preferência e do destaque concedido a pessoas brancas para representar o povo americano. Nas cenas destinadas a ilustrar declarações que generalizam a população estadunidense, americanos brancos são desproporcionalmente sobrerrepresentados, dividindo com Obama a grande maioria das imagens em primeiro plano, enquanto representantes de outros grupos étnico-raciais são excluídos ou relegados a segundo plano.

Algumas sequências de American Stories/American Solutions são emblemáticas das maneiras pelas quais certos recursos técnicos e narrativos são usados no comercial para enfatizar os papéis específicos reservados a cada um dos seus personagens, assim como as qualidades a eles atribuídas individualmente. Em uma dessas sequências, o candidato democrata participa de uma reunião informal com um grupo de idosos. Em uma sala espaçosa, vemos Obama em pé, cercado por um grande número de senhores e senhoras, confortavelmente acomodados em cadeiras, aparentando ocupar uma faixa etária acima dos 65 anos de idade. Apesar de localizado ao lado esquerdo do quadro, a forma como a cena foi construída permite perceber que Obama encontra-se no centro da sala, de modo que o olhar do espectador é imediatamente atraído para ele. Este é o único quadro em plano médio nesta cena, no qual é possível contar um total de onze personagens em destaque: dez personagens brancos e Obama, único personagem negro neste plano.

Um senhor branco conta como a sua aposentadoria foi comprometida pela falência da empresa para a qual trabalhava. O relato é acompanhado por uma melodia suave. Os sentimentos de compaixão e empatia gerados pela música e pela história contada são enfatizados pelos olhares e expressões faciais de Obama, do narrador da história e dos outros personagens, cujos rostos surgem na tela, alternadamente, em plano fechado. Não há presença

do narrador da história, de modo a reforçar uma ideia de homogeneidade em relação ao grupo, gerando um efeito de clara distinção entre os personagens centrais da sequência: Obama e o povo americano, representado, neste caso, pelos idosos.

Em determinado momento, o ritmo da música diminui. Alguns dos instrumentos silenciam, criando uma espécie de tensão, indicando que a história está chegando ao seu desfecho e que a dinâmica da cena está prestes a mudar. É nesse ponto que Obama intervém. À proporção que Obama começa a falar, a música novamente ganha corpo. Dessa vez, o tom é de esperança e disposição de espírito. O som de um órgão cria uma atmosfera mágica, causando um efeito de experiência espiritual. Obama, em plano fechado, dirige-se ao senhor branco, falando com firmeza e autoridade, mas sem deixar de demonstrar compaixão e empatia diante do relato que acabara de ouvir. Planos fechados nos rostos dos personagens se alternam. Dessa vez, as expressões são de admiração e gratidão.

Figura 11 – Obama conversa com um grupo de idosos: Na única cena em plano aberto da sequência, todos os personagens em destaque são brancos, com exceção do candidato Barack Obama. Nos planos fechados em rostos de alguns dos idosos que compõem a cena, a preferência é dada a americanos brancos.

Dos cinco personagens que vemos em planos fechados, uma senhora, aparentemente mestiça, é o único personagem cuja identidade racial é susceptível de dúvida. Ainda que, com base nos padrões americanos de categorização racial, seja possível classificá-la como uma mulher negra, a senhora à qual estamos nos referindo trata-se de uma pessoa de pele bastante clara e cabelos lisos e grisalhos.

É igualmente interessante notar o detalhe da luz nesta cena. Apesar do fundo da sala ser composto por enormes janelas de vidro e sem cortinas — o que indica que a luz natural proveniente do meio externo seria suficiente para a realização da cena —, é possível notar o uso de uma luz artificial que incide sobre a cabeça de Obama, criando uma espécie de aura luminosa, como se essa aura fosse um elemento sutil da sua própria imagem.

Figura 12 – Planos fechados em Obama e personagem feminina: Obama fala com autoridade, mas de forma compassiva. Uma luz artificial incide sobre sua cabeça, criando um efeito de aura luminosa. Uma senhora de pele moreno-claro, cabelos lisos e grisalhos é o único personagem cujo fenótipo indica alguma ambiguidade racial.

A sequência continua com uma elipse temporal. O espectador é transportado para outro ambiente, em um outro espaço de tempo. Em estilo entrevista, Obama fala sobre a capacidade de trabalho do povo americano e do direito a condições dignas de emprego e aposentadoria. A música, mais uma vez, ajuda a definir o ritmo da sequência, que passa a assumir uma cadência mais dinâmica. O depoimento de Obama continua em “voz sobre imagem” nas cenas seguintes, as quais são utilizadas para ilustrar o que está sendo dito pelo candidato democrata.

Nestas cenas, vemos Obama cumprimentando e conversando com diferentes pessoas. Todos os indivíduos com os quais Obama interage diretamente são brancos. Em seguida, governadores de três Estados americanos expõem, alternadamente, suas impressões a respeito do candidato democrata. Os depoimentos são intercalados com mais imagens de Obama e americanos comuns — ora individualmente, ora em interação —, as quais são usadas como recurso de ilustração para a fala dos governadores.

Em determinado momento, Kathleen Sebelius, Governadora do Estado do Kansas, afirma que Obama “realmente tem um plano para nos colocar de volta nos trilhos e nos ajudar a seguir adiante”. Mais uma vez, todos os indivíduos que aparecem em primeiro plano ou em interação direta com Barack Obama são brancos. A sequência termina com o depoimento de Deval Patrick, Governador do Estado de Massachusetts, no qual ele afirma que “os desafios a nossa frente são grandes e que o que precisamos é de grandes soluções e

de pensamento grande”. Patrick prossegue dizendo que “Barack Obama é um solucionador de problemas que pensa grande. É o tipo de liderança que surge uma vez a cada geração”.

Esse trecho do depoimento de Patrick é ilustrado por uma cena particularmente simbólica. Em plano médio e contra-plongée44, Obama discursa a partir de um púlpito. Uma luz incide de baixo para cima na sua direção, a partir de um fundo composto por um céu azul, mais uma vez criando um efeito de aura luminosa. A imagem assemelha-se com a de um líder espiritual, como se a sua autoridade fosse concedida por uma força superior. De volta a imagem de Patrick, em plano fechado, a música e a fala do governador chegam ao fim quase que simultaneamente. A imagem dissolve-se para uma tela escura, transportando o espectador para a sequência seguinte.

Figura 13 – Obama em interação com americanos comuns: O “povo americano” é representado por planos fechados em rostos de indivíduos brancos ou por pessoas brancas em interação com Obama. Numa cena de discurso, vemos Obama num púlpito, em plano médio e contra-plongée: cuidados com a qualidade estética, luz, plano e ângulo, de modo a fazer com que a imagem do candidato assemelhe-se com a de um líder espiritual.

44 Técnica cinematográfica na qual a câmera é posicionada abaixo do nível dos olhos do personagem e voltada

A sequência acima descrita ilustra as maneiras pelas quais American Stories/American Solutions reproduz de forma supreendentemente familiar as relações de hegemonia e subalternidade implicitamente veiculadas pelas narrativas hollywoodianas contendo Negros Encantados. O uso desproporcional e o lugar de destaque concedido às pessoas brancas naturaliza este grupo racial como o padrão normativo de americanidade, na medida em que essas imagens são utilizadas para ilustrar referências ao “povo americano”. Obama, por sua vez, é colocado em uma posição de autoridade em relação aos outros personagens do comercial. Esta autoridade, no entanto, não é incondicional, já que o seu poder deve ser usado exclusivamente para ajudar a restituir a autoestima e a autonomia do povo americano, desproporcionalmente representado por imagens de pessoas brancas.

O simbolismo subjacente de que o candidato Barack Obama é, na verdade, uma espécie de anjo negro, cujo único propósito é o de confortar, inspirar e ajudar americanos brancos, é produzido por meio de recursos técnicos de iluminação, plano, mise-en-scène45 e narrativa: a luz que incide sobre a cabeça de Obama, causando um efeito de aura luminosa; a imagem em contra-plongée, na qual o candidato discursa a partir de um púlpito, sugerindo autoridade religiosa ou espiritual; a posição de narrador, ou aquele capaz de observar/contar a história a partir de um “plano superior”, mediando a relação estabelecida pelo comercial entre espectador e personagens; a retórica firme e o tom de autoridade, mas sem abrir mão da empatia e compaixão diante daqueles a quem concede sua ajuda; o destaque desproporcional dado a indivíduos brancos para representar o povo americano; e os depoimentos de Patrick e Kathleen, nos quais Obama surge como um “solucionador de problemas”, aquele que possui “um plano para nos colocar de volta nos trilhos e nos ajudar a seguir adiante”, ou “o tipo de liderança que surge uma vez a cada geração”.

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