também se desenrolar - em escala certamente mais reduzida - entre os poderes legislativos ou judiciários dos Estados, é também importante, no que tange a estes últimos, investigar a prática dos tribunais internos em matéria internacional l14 , a exemplo das Fontes juris Gentium (contendo, mter alia, decisões da Corte Su prema alemã em matéria de direito internacional) ou da Giurisprudenza Italiana m Materia Internazionale (penodo 1861-1890), dentre outros.
O empreendimento de sistematização da prática do direito internacional não poderá simplesmente ignorar os escritos de autores, ainda que sua influência tenha sido talvez mais marcante na época de fonnação do direito internacional do que em nossos dias, a exemplo dos clássicos (supra). Em alguns casos raros, detenninadas obras puderam refletir ou influenciar a prática dos Estados, como a Diplomatlc ProtectlOn oJCitlzens Abroad de E. M. Borchard (19 16) ou o Droit intematlOna!
public de la mer de G. Gidel (1932'-1934)115. Um levantamento de fontes publicado em 1967 observava a respeito que embora a bibliografia do direito internacionaljá tivesse completado 250 anos, "fontes" importantes do direito internacional como a prática dos Estados (em todas as suas manifestações) e dos organismos internacionais, e a jurisprudência internacional, permaneciam "normalmente fora do âmbito das bibliografias tradicionais a não ser se incorporadas em coleções de documentos"116.
Na advertência de Robinson, assim como "as contribuições mais importan
tes à filosofia do direito internacional vieram de filósofos 117 e teóricos que não se especializaram no direito internacional", também" as grandes idéias em prol de mudanças significativas no direito internacional de lege Jerenda provieram prima
riamente não de advogados profissionais mas de estadistas": assim, por exemplo, as Conferências de Haia de 1899 e 1907 se deveram à iniciativa de convocação do Czar Nicolau 11, o Pacto da Liga das Nações se deveu a personalidades como WoodrowWilson, M. Smuts e Lord Cecil, aidéiadacriação daONU não se deveu a especialistas apenas, a evolução da arbitragem internacional se deveu em parte aos esforços de estadistas e homens públicos, e os autores de algumas das doutrinas famosas do direito internacional- como a renúncia à guerra como instrumento de política nacional, iT)corporada no Pacto Briand- Kellogg, as doutrinas Drago e
114. Para um estudo recente dessa natureza, d. A.A. Cançado Trindade, "Exhaustion of Local
Remedies in International Law... ", op. cito supra n? 16, pp. 330-370.
115. A.A. Cançado Trindade, Principias do Direito Intemacional. .., op. cito supra n? 30, pp. 20-21 e 43.
116. Jacob Robinson, International Law and OrganizatLOn. General Sources of InJormatio n, Leyden, Sijthoff, 1967, pp. 147-148, e cf. p. 37.
117. Como se sabe, a própria expressão" direito internacional" foi inventada "não por um Jurista mas por um fil6sofo", Bentham; Ph. Francescabs (dir.), Répertoire... , op. cito supra n? 80, vol. I, p. V; e, no mesmo sentido, Georg Schwarzenberger, A Manual of I/ltrmatiorwl Lau:, 5~ ed., Praeger, N.Y'/
Washington, 1967, p. 3.
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 37 Stimson, a cláusula Larretta - não eram advogados internacionalistas de profissão, mas no mais das vezes estadistas l18 .
A estes se poderiam acrescentar outros exemplos. No campo do direito do mar, e.g., é conhecida a importância da proclamação de 1945 do Presidente Truman, dos Estados Unidos, para os desenvolvimentos do conceito e regime da plataforma continental; do mesmo modo, exerceu influência decisiva na evolução da noção, hoje consagrada, do "patrimônio comum da humanidade", a proposta apresentada pelo Embaixador Arvid Pardo, de Malta, na Assembléia Geral da ONU em 1967. Em todos os exemplos acima, novamente se faz presente a importância da prática.
A par dos livros ou doutrinas que possam refletir ou influenciar a prática dos Estados, há, ademais, que se fazer referência a livros que abordem o direito internacional da perspectiva de um determinado Estado. Podem ser estes fruto de um trabalho coletivo ou de um autor individual. Como exemplo do primeiro, cite
se o livro Canadian Perspectives on International Law and Organization reunindo textos de diversos autores 119, além de outros esforços para indicar as perspectivas de distintos países l20 . Ilustração de empreendimento individual pioneiro é fornecida pelo livro de Hyde, Intemational Law Chiefly as Interpreted and Applied by the United States; ao lançá-lo na década de vinte, confessou o autor que a essência de seu abordamento consistia em verificar como os Estados Unidos, à luz do funcio
namento de suas instituições, se empenhavam em cumprir suas obrigações internacionais, e não quais os princípios do direito internacional, "testados pela prática dos Estados", que obrigavam-no a seguir determinado rumo de con
duta l21 . Na segunda edição, 25 anos após, Hyde voltou a enfatizar a importância da prática dos Estados na cristalização de regras do direito internacionaP22.
É, assim, possível, que, também os escritos de autores, como o supra citado, possam contribuir para a sistematização da prática do direito internacional. A própria identificação de distintas correntes ou atitudes pode ser tida como um
118. J. Robinson, op. Cl/. supra n.O 116, p. 212; e cf., in/a aha, F.P Walters, A Hls/ory o[the Leaguf' o[NatlOns,
Oxford. lllli\(T~it\' Prn~, 1969 [reprillt). pp. 12-13 e 21-23; InlS L. ClaudeJ L, .'Úl'orrll IIi/O 1'{011Shll7i'1. 4!l ed .. N.'.., Randolll Home, 1971, pp. 59-61; A.V.W. T!Jolllas eA.J. T!JolIlasJL, i\ioll-III/I'I1'I'II/11J1I - 1h/' 1.J111 llIul!ll 11II1)()r/ 111 /h/':lll//'l/((ll, Dallas, SOllt!Jcrn Met!Jodist LJni\'crsity Press, 1956, pp. 57, 249-250, 341-342 t' 362-%3.
119. R.St.] MacDonald. C.L. Morris e D.M.JoIIIIStoll (ed.l, CIl/IIlIIlIlIIl'n.I!Ji'I/ll'I'.1 olllll/l'IlIll/IOIIIJ! IJl1l 111111 ()rgI1l1l::'ll/lOlI. Toronto, llni\'crsit\' ofToronto Press, 1974.
120. Cf., e.g., lll/a Illia, "Japan's Emerging Views on International Law", 111 71 Prorfl'dmgs o[/h/' Amairall 5io{{/'/v oflll/mw/lOlIa{ LIl1l (1977) pp. 148-169.
121 Ch. C. Hvde, In/allll/lOlla{ LI1/(' Chllfl~ lI) In/alirl'//'d alld Apphed by /h/' Unil/'d S/ales, Boston, Little Brown & Co., 1922, p. VIII.
122. Cf. Ch. C. Hvde, 01). Cl/. supra n~ 121, 2!l ed. rev., 1947, p. 13.
38 ANTÓNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE
passo nessa direção. Com efeito, vez por outra chega-se mesmo ao uso da expressão" escola de direito internacional". Há alguns anos, por exemplo, atraía muita atenção a chamada "escola de Viena" de direito internacional, liderada por internacionalistas de pensamento não necessariamente concordante como Kelsen, Verdross e Kunzl23 . Mais recentemente, há os que ousam falar de uma" escola de Yale" de direito internacional, tendo em mente McDougal e seus associadosl24 .
Parece estar-se aqui diante, não propriamente de atitudes genuínas e,generalizadas face ao direito internacional, mas mais precisamente de construções teóricas ou tentativas de sistematização aparentemente originais do direito internacional propostas por um ou mais autores normalmente da mesma geração e vinculados por algum tempo a determinado centro ou instituição acadêmical25 .
Vale, a propósito, recordar a conclusão a que chegou Hersch Lauterpacht de que mesmo as pretensas diferenças de enfoque das chamadas escolas anglo
americana e européia continental do direito internacional eram ilusórias:
seja com relação a questões específicas de direito internacional, seja com relação a questões de direito interno que possam ter relevância para o direito internacional, seja com relação ao abordamento jurídico e metodologia, o ex-Juiz da Corte Internacional de Justiça não identificou divergências substanciais que justifi
cassem a existência das duas escolas de direito internacional, a anglo-americana e a européia continental. Para Lauterpacht, as tradicionais diferenças nacionais em terminologia jurídica, nas instituições e na regulamentação de determinados aspectos da conduta não poderiam ser erigidas em divergências fundamentais de pensamento jurídico de modo a influenciar substancialmente as questões de direito internacionall26 .
Os internacionalistas de hoje dispõem de elementos de que não desfrutaram as gerações anteriores para moldar o direito internacional do futuro, particular
mente ao se considerar que o direito internacional deixou de conter-se nos escritos doutrinários e especulativos e passou a requerer toda uma interpretação e desenvolvimento de um corpus complexo e acumulado de experiência; assim, na feliz ponderação de J enks, a excelência técnica na arte da construção do direito internacional está vitalmente ligada à eficácia e alcance da função reservada ao
123. Cf.. e.g., J.j. Lador-Lederer, "Some Observations on the 'Yienna School' or International Law", 17 Nednlands Tijdschrift voor internatlonaal Recht (1970) pp. 126-150.
124. Cr., e.g., G. Gottlieb, "The Conceptual World or the Yale School or International Law", 21 World
PO!ztlCS (1968-1969) pp. 108-132.
125. A.A. Cançado Trindade, "Considerações acerca das Relações ... ", op. cito supra n? 1, p. 207.
126. H. Lauterpacht, "The So-Called Anglo-American and Continental Schools or Thought in International Law", in/nnational Law, Being the Collected Papas
oi
Hnsch Lauterpacht (ed. E. Lauterpacht), vol. 11, Cambridge, University Press, 1975, pp. 452-483.39
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL
direito internacional nas relações entre os Estados l27 .
Já
se fez referência a uma certa semelhança de atitudes - a despeito de diferenças na formação juridica - em relação ao case-law internacional (cf. supra), por exemplo. No tocante a determinadas questões de direito internacional verificam-se algumas tendências prevale
centes em distintos países.
Há toda uma bibliografia, por exemplo, voltada particularmente às posi
ções, impacto e interesses dos novos Estados 128. É famosa a polêmica clássica acerca da existência ou não de um direito internacional americano l29 . Sabe-se também que os princípios gerais do direito não são reconhecidos como "fonte" do direito internacional na União Soviética l30 , mas o são em países como a China, a Hungria e a Iugoslávia l31 . Outros exemplos existem em relação a determinados capítulos do direito internacional l32 .
127. C. Wilfred J enks, "Craft~lllan~hipin International Law", 50 A II/tTIUJ 11 j(J/I11IIJ! ujlll/t'TIIII//fIIUJ! ruu (1956) pp. 33 e 48; ensaio posteriormente reproduzido COIllO capítulo 10 de: C. Willred Jellk~. 1ft!'
COIIIIIIOII Lml' o! .\1ll11kllld, Londoll, Stevens, 1958, pp. 408 e 4:25.
128. Cf., e.g., S. Prakash Sinha, Nrw Nations mui the Law o!Natlom, Leyden, Sijthoff, 1967; A.M. Lleonart y Amselem, "Impacto de los Nuevos Estados en el Derecho Internacional", 4 Amumo del Im/l/uto Hispano-Luso-A mericarlO de DeTecho IlItrTllacional (1973) pp. 177-195; G.L. de Lacharriere, "L'influcnce de l'inegalité de développement des Etats sur de Droit international", 139 Recuezl des Cou" dI' !'Awdé1TlIf de DTOit Intemational (1973) pp. 227-268; L.c' Green, "De l'influence des nouveaux Etats sur le Droit international", 74 Relluf gfllérale de DTolt internatiorzal public (1970) pp. 78-106; M. Sahovic, "L'inf1uence des Etats nouveaux sur la conception du Droit international - inventaire des positions et des problemes", 12 AmI1WITe/rall(IW de drait intematiOlwl (1966) pp. 30-49; E. McWhinney, "The 'New' Countries and the 'New' International Law: the United Nations Special Conference on Friendlv Relations and Cooperation among States", 60 Americanjoumal ofirlternational Law (1966) pp. 1-33; G.M.
Abi-Saab, "Peaceful Challge and the lntegration of the Newly Independent States in the lnternational Communitv", 32-33 ArmUalTI' de !'A.A.A./YeIlTbuok o! /he A.A.A. (1962-1963) pp. 172-178; J Castaneda,
"The Underdeveloped Nations and the Development of International Law", 15 Internatzona! Orgam
zatlon (1961) pp.38-48; R. Falk, "The New States and International Legal Order", 118 Recuál de, Cours dI' I'Académie de DTOit irlternatlonal (1966) pp. 7-102; O. Udokang, "The Role of New States in International Law", 15Archiv des Volkerrecht, (1971-1972) pp. 145-196;J.J.G. Syatauw, Some Nrwly Established Aszan States and the Drvelopment o(Intematlonal Law, The Hague, M. Nijhoff, 1961; R.P. Anand (ed.), Asian States anri the Drvelopment o! Universal irlternational Law, New Delhi, Vikas Publ., 1972; R. P. Anand, "Role of the 'New' Asian-African Countries in the Present International Legal Order", 56 Ammcanjournal 0/ InttrrzatlOrzal Law (1962) pp. 383-406; G.M. Abi-Saab, "The Newly Independent States and the Rules ofInternational Law: An Outline", 8 Howard LawjOlmza! (1962) pp. 95-121; O.J. Lissitzyn, "The Less Developed Nations", in Intemational Lau' (ed. R.A. Falk e S.H. Mendlovitz), voI. 11, N.Y., World Law Fund, 1966, pp. 243-268.
129. Cf. Alejandro Álvarez, LI' dTOlt interna/ional amérlcalTl. Paris, Pédone, 1910; Sá Vianna, De la rlOn exlstence d'lJTl dTOit irzternatlOrwl américain, Rio de Janeiro, L. Figueiredo Ed., 1912.
130. G. I. Tunkin, DTOit interrzational public - pTOblemes théorzques, Paris, Pédone, 1965, pp. 119-127.
131. M. Akehurst, "Equity and General Principies of Law", 25 Internatlonal arui Comparatlve Law Qy.arter(y (1976) pp. 815-816.
132. Por exemplo, recorde-se a tendência de internacionalistas soviéticos de concentrar a teoria da responsabilidade dos Estados certamente não mais no tratamento de estrangeiros, como no passado,
40 ANTÔNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE
É igualmente possível detectar posturas em relação ao direito internacional em algumas regiões ou blocos de Estados, como os socialistas l33 , assim como identificar tradições em matéria de direito internacional desenvolvidas em cenas países, como indicado inter alia nas monografias de J ohnson e Sereni acerca das tradições inglesa e italiana, e na de Jacobini acerca das atitudes latino-americanas I34, dentre outras I35'; embora se possam detectar atitudes anglo-americanas distintas
os britânicos encarando o direito como um sistema de regras e os norte
americanos insistindo em não excluir apolicy da análise jurídica, - tais atitudes não equivalem a uma divergência básica em relação ao direito internacional, sendo absorvidas pelo muito que as tradições britânica e norte-americana comparti
lham em comum 136.
Os trabalhos da Comissão de Direito Internacional da ONU - composta de representantes dos "principais sistemas jurídicos do mundo"137 atuando em sua capacidade individual- talvez transcendam os esforços doutrinários individuais, que não raro não logram escapar às percepções prevalecentes em cada país acerca
mas sim em atos que possam vir a pôr em perigo a paz e a segurança internacionais (em conexão com a proibição do uso da força pelos Estados), no que têm sido seguidos também por autores da Europa ocidental. Cr. Y.A. Korovin, S.B. Krylov, et alii, !ntemational Law, Moscow, Academy of Sciences of the USSRJInstitute of State and Law, pp. 130-135 e 159-162; G. I. Tunkin, op. cito supra n? 130, pp. 191-227, esp. pp. 196-197; nota de livro, de P. Kouris, de D. B. Levine, La responsabilité des États dans le droit intemationa/ contemporain [em russo], Moscou, 1966, in 72 Revue générale de droit international public (1968) pp. 269-272. E, para os autores da Europa Ocidental, cf. Paul Reuter, "Principes de droit internaúonal public", 103 Recueil des Cours de l'Académie de Droit !nternational (1961) pp. 583-619; R. Quadri, "Cours général de droit international public", 113 Recuei/ des Cours de l'Académie de Droit !nternational (1964) pp. 453-477.
133. W. E. Butler, "Methodological Innovations in Soviet International Legal Doetrine", Year Book o/
World AJJazrs (1978) pp. 334-341; [Vários autores], !nternational Law, cito supra n? 132, pp. 7-454; Ch.
Osakwe, "Contemporary Soviet Doetrine on the Sources of Generallnternational Law", 73 Proceedings o/ the American Society o/ !nterrzational Law (1979) pp. 310-324; D.B. Levin, "How Foreign Policy and Diplomacy Influence the Establishment of International Law Rules", Contemporary !nternational Law (ed.
G. Tunkin), Moscow, Progress Publ., 1969, pp. 188-203; 1.1. Lukashuk, "Sources of Present-Day International Law" , in ibid., pp. 164-187.
134. D.H.N. Johnson, The English Tradition in !ntemational Law (Inaugural Lecture), London, London School of Economics and Political Science, 1961, pp. 5-44; A. P. Sereni, "Domine Italiane di Diritto Internazionale", Scritti di Diritto !rzternaziona/f in Onorf di Tomaso Perassz, vol. II, Milano, Giuffre, 1957, pp.
281-300; H.B. Jacobini, A Study o/ the Philosophy o/ !ntemationa/ Law as Seen zn the Works o/ Latin American Writers, The Hague, M. Nijhoff, 1954, pp. 1-142.
135. Cr., e.g., D.M. Johnston, "The Scottish Tradition in International Law", 16 Canadian Yearbook o/
!nterrzational Law (1978) pp. 3-45.
136. Cr. as intervenções de Schachter, Falk,Johnson e E. Lauterpacht, no colóquio de Londres de 1971 sobre "The Place ofPolicy in International Law", in 2 Georgiajouma/ o/!nternationa/ and Comparative Law (1972) pp. 7-9, 14,20,26-29,30-31 e 33.
137. ONU, La Commission du Droit !ntemational et son oeuvre, ed. rev., N.Y., ONU, 1973, pp. 7-8.
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 41 de determinadas questões de direito internacional. A esta superação de inclinações
nacionalistas, acrescente-se o sentido realista de seus trabalhos, ambos fatores em grande parte devidos ao critério de composição daquele órgão l38 . A esse respeito, já se comentou que os trabalhos da Comissão apresentam, em razão de seu atual caráter quase-diplomático e seu espírito prático e propósito de produzir textos verdadeiramente úteis, uma certa confrontação a nível cienúfico dos interesses variados de diferentes Estadosl 39 .
No Brasil, já em meados do século passado, o então Diretor do Arquivo Público do Império, ao iniciar obra pioneira no país, advertia os leitores para a necessidade e importância de uma sistematização da prática brasileira do direito internacional (no que tange aos tratados celebrados pelo Brasil com diferentes Estados) e de seu acesso aos estudiosos da disciplina 140. Pereira Pinto enfatizava a função primordial das regras do direito internacional na regulamentação e solução de controvérsias entre Estados de poderio tão ostensivamente desigual l41 .Seus Apontamentos, obra pioneira no país, cobrem os tratados celebrados pelo Brasil- e fatos pertinentes - de 1808 a 1870 142 , acompanhados dos atos legislativos subseqüentes que os complementaram.
Ao fim do segundo volume - dos quatro que compõem a obra - justifica o autor seu método de trabalho de juntar aos tratados e à legislação que lhes é concernente um grande número de documentos, a exemplo de obras congêneres (incluindo, e.g., despachos, protocolos, instruções a plenipotenciários, procla
mações, decretos, relatórios sobre questões limítrofes, manifestos, etc.), como a Collecção de Tratados de Carlos Calvo l43 . Tais documentos permitem melhor avaliação da política externa dos Estados e, no caso, fornecem subsídios para uma apreciação mais segura do significado e alcance dos tratados celebrados por detenninado Estado; em suma, pondera Pereira Pinto que seus Apontamentos, pela
138. Maarten Bos, "The Recognized Manifestations of International Law - A New Theory of 'Sources", , 20 Gerrnan Yearbook of International Law (1977) pp. 64-65.
139. R.Y. Jennings, "Recent Developments in the International Law Commission: Its Relation to the Sources of International Law", 13 InternatlOnal mui Comparative Law Quarterly (1964) p. 390.
140. Antonio Pereira Pinto, Apontamentos para o Direito Internacional ou Collecçào Completa dos Tratados Celebrados pelo Brasil com DifJerentes Naçõrs Estrangeiras, vaI. I, Rio de Janeiro, F.L. Pinto & Cia. Livr. Ed., 1864, pp. VII-IX.
141. Ibid., pp. XI-XIII.
142. O primeiro volume tem início com a carta régia de 1808 abrindo os portos do Brasil ao comércio estrangeiro; o segundo volume abrange o período 1826-1838; o terceiro, o período 1842-1856 (de intensas negociações diplomática~); e o quarto e último, o período 1857-1870.
143. Esta coletânea (6 vais.), de Calvo, publicada em 1862-1868, cobria os tratados relativos aos Estados da América Latina (período 1493-1823); cf. Yearbook ofthe International Law CornmiS5lon (1950) vaI.
lI, p. 369.