Capítulo IV TRATADOS
8. Ratificação
- Intervenção do Delegado do Brasil na 1~ Sessão da Conferência da ONU sobre Direito dos Tratados, Viena, em 8 de abril de 1968:
- O Sr. Amado (Brasil) disse que hoje fazia-se necessário agir rapidamente e os métodos de expressar o consentimento tornaram-se tão numerosos que a ratificação, aquela instituição respeitável do século passado, havia se desvanecido.
A opinião dos maiores juristas do mundo não poderia ter precedência sobre a própria prática (... ). A Constituição de seu próprio pab requeria a ratificação, mas atenderia aquele requisito ao incluir um dispositivo expresso nos tratados que concluísse. (... )
In: ONU, [!mtl'd Natums Conji'rmc(' on thl' Lall' o/ Tu'ath's - Fint SI'sslOn, O/fiua/ Rf'(orris (Viena, 1968), vol. I, p. 88 (tradução do inglês).
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 129 - Intervenção do Delegado do Brasil na 2il Sessão da Conferência da ONU sobre Direito dos Tratados, Viena, em 6 de maio de 1969:
- O Sr. Nasrzmmlo e Silva (Brasil) disse que (... ) a Constituição brasileira, como as da maioria dos países latino-americanos, requeria que todos os tratados deveriam ser aprovados pelo Parlamento e que somente após tal aprovação poderia o Executivo ratificar o tratado. (... )
In: ONU, Umled NallOns COf/fn{'i/a Or! Ihl' L([w ofTrmlles - Serond SesslOn, ODI(l([/ Rerords (Viena, 1969), vo1. 11 I, p. 53 (tradução do inglês).
9. Intrrpretação
- Intervenção do Delegado do Brasil na 1il Sessão da Conferência da ONU sobre Direito dos Tratados, Viena, em 20 de abril de 1968:
- O Sr. Amado (Brasil) lembrou (... ) que o próprio Vattel sustentara que os termos deveriam ser interpretados de acordo com o sentido a eles atribuído quando o tratado fói concluído. O sentido do texto ou, em outras palavras, o sentido ordinário a ser atribuído aos termos de um tratado em seu contexto era, pois, o ponto de partida para a interpretação. A delegação brasileira compartilhava inteiramente desse ponto de vista, que também fora mantido pela Comissão de Direito Internacional. (... )
Os outros meios de interpretação (... ) deveriam denominar-se .Iu/J/J!hnl'nlrllrn ao invés de (()m/J!/ml't/l([lT/'s. Embora os trabalhos preparatórios tivessem sem dúvida que ser levados em conta, era necessário o maior cuidado. Os Estados algumas vezes ocultavam seus verdadeiros pontos de vista sobre as questões em discussão em conferências ou recorriam a Estados amigos para expressá-los. Criou
se assim um certo grau de confusão, dando origem a desconfiança. (... ) In: ONU, l !!Illed N([llOnS Con{erl't/ct' Of/ Ihl' Lml'
0/
Trmlies - F/rsl SI'SSlOiI,O/i/mil RI'um!s (Viena, 1968), vaI. I, p. 176 (tradução do inglhl.
- Intervenção do Representante do Brasil na I ~ Subcomissão (Temas Jurídicos e Políticos) da Comissão Especial da OEA para Estudar o Sistema Interamericano e Propor Medidas para sua Reestruturação (CEESI), sobre a Questão da Interpretação do Tratado Intera
mericano de Assistência Reciproca (TIAR), em 25 de março de 1974:
O Rl'jm'sl'nllltlll' do BrrI.si/ (Sr. Zappa):
- (... ) De algum modo toda a questão se Ctmcentra como interpretar. ou como passar a interpretar o atual artigo 6 do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. (... )
130 ANTÔNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE
Considera a minha delegação que o Tratado como hoje existe não é apenas um pacto de não-agressão, com os mecanismos que asseguram o seu funcio
namento. Considera a minha delegação que este tratado está fundamentalmente inspirado naquilo em que, no primeiro de seus preâmbulos, se estabelece como a finalidade precípua do Tratado, que é a manutenção da paz e da segurança do Continente. Considera que esta ratwnale do Tratado é de importância fundamen
tal para a sua exegese, não em cada uma de suas partes, mas no seu conteúdo global e na sua finalidade última, que é não excluir o que deveria ser o objetivo fundamental do Tratado, ou seja, a segurança do Continente como aí se estabelece. (... )
Sempre partindo do pressuposto de que o artigo 6 é realmente um artigo de dificílima exegese, extremamente difícil, se notarmos que na parte final deste artigo há uma expressa referência ao fato de que o órgão de consulta poderá também decidir medidas que, em todo caso convenha tomar na defesa comum e para a manutenção da paz e da segurança do Continente, e se considerarmos essa disposição final do artigo 3 à luz do que se estabelece também no atual texto, na parte final do primeiro parágrafo do item 3 do artigo 3, e me permito ler em espanhol o que diz este primeiro parágrafo:
3. Lo estipulado en este Artículo se aplicará en todos los casos de ataque armado que se efectúe dentro de la región descrita en el Artículo
4~ o dentro deI território de un Estado Americano.
Se levarmos em consideração estes dois elementos do texto atual, ver-se-á que, de acordo com este mesmo texto, parece não existir dúvida de que o Tratado atual pode ser invocado, e o mecanismo por ele previsto pode entrar em ação mesmo quando ocorra fato que, constituindo ameaça à paz ou à segurança do Continente, não se possa comprovar de imediato uma lesão à soberania, à segurança, à inviolabilidade, à integridade territorial de qualquer dos Estados
Membros do Tratado. (... )
In: ÜEA - CEESI/1 fi Subcomissão, documento ÜENSer. P/CEESII Subcom. liACTA 6617 4, Arl([ dI' la S/'xagl'l/JlIos/'xt([ SI'.\/lJn, 1974, pp. 19-20.
10. Aplicação
- Exposição proferida na IX Reunião de Consulta de Ministros das Relações Exteriores, pelo Presidente, Embaixador Vasco Leitão da Cunha, na sessão de encerramento, em Washington, em 26 de julho de 1964.
(... ) Estivemos (... ) reunidos para deliberar sobre a aplicação de tratados, declarações, resoluções e recomendações. E no caso dos tratados, como é o caso do
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 131 Tratado do Rio deJaneiro, que diretamente ora nos interessa, o compromisso está solenemente endossado e ratificado por governos e parlamentos de todos os países.
Em várias conferências anteriores, o papel de representantes e delegados de nossos países foi o de legislar tendo em vista as situações futuras que poderiam surgir. Ao ser firmado o Tratado 1nteramericano de Assistência Recíproca, em 2 de setembro de 1947, o alcance dos compromissos assumidos pelas Repúblicas americanas foi definido, com clarividente espírito jurídico, pelo plenipotenciário brasileiro, Doutor Raul Fernandes, atual Presidente da Comissão Jurídica Interamericana. Disse, então, o preclaro mestre do direito internacional:
"Julgo necessário dar o merecido relevo às estipulações de tratado segundo as quais as decisões do Órgão de Consulta, tomadas pela maioria de dois terços dos Estados signatários que o tenham ratificado, serão obrigatórias para todos, mesmo quando apliquem sanções diplomáticas, econômicas, comerciais ou financeiras com a única exceção de que nenhum Estado será obrigado a empregar a força armada sem o seu consentimento.
Admiro-me como, na onda de comentários suscitados pela conferência, ninguém, até agora, tenha salientado o alcance revolucionário deste preceito.
Com ele abre-se uma brecha no reduto das soberanias nacionais ilimitadas, e, posto que sua aplicação se restrinja a um caso determinado, é manifesto que aí se estabelece uma regra democrática cujos corolários estão à vista e nos deixam entrever, entre outras possibilidades, a de uma legislatura que, definindo o lícito e o ilícito nas relações entre os Estados, substitua na vida internacional o princípio de potência pelo da ordem baseada na lei, propiciando liberdade e justiça".
O problema com que nos defrontamos não teria sido tão difícil se a aplicação dos compromissos não suscitasse divergências, por vezes sérias, entre os Estados
membros da Organização. Por isso disse, no pronunciamento que fiz ao aceitar a presidência da Nona Reunião de Consulta, que não deveríamos atentar apenas para a letra dos tratados, mas buscar, também, uma conciliação. Nem somente aos tratados, nem só à conciliação, mas um esforço dentro dos tratados. Se aplicar os tratados é às vezes difícil e gera problemas, não aplicá-los gera ainda maiores problemas e conflitos. Pior, sua não aplicação seria um golpe no sistema de segurança coletiva. (... )
Desde que se instalou o atual Governo cubano, em 1959, os Chanceleres americanos já celebraram cinco reuniões de consulta. O caso cubano veio sendo tratado com sucessiva e crescente preocupação, à medida que as violações de Cuba às suas obrigações continentais se foram revestindo de formas cada vez mais graves. (... )
Hoje, não é apenas através do relatório da Organização dos Estados Americanos, ou por informação direta de Governos das repúblicas irmãs, que o Brasil conhece a política intervencionista do Governo cubano. Conhecemo-Ia em nossa própria carne. Em meu país, o Governo cubano também praticou sua política de intervenção e subversão, de cumplicidade com uma situação já irreversivelmente passada. (... )
132 ANTÔNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE
o
Governo brasileiro não nutre qualquer ressentimento ao examinar a queixa de um nosso vizinho contra Cuba. E desnecessário é dizer que tampouco nos animou qualquer propósito de constranger países irmãos a tomar medidas que, de nossa parte, já havíamos tomado. E, em se falando de tratados, o mínimo que se pode esperar é que sejam cumpridos.O relatório da Comissão de Investigação comprovou uma série de atos praticados pelo Governo de Cuba, os quais, a seu ver, configuram "uma política de agressão por parte do atual Governo de Cuba contra a integridade territorial, a soberania política e a estabilidade das instituições democráticas da Venezuela". O Brasil, como as demais repúblicas do Continente, está solidário com o povo e o Governo do nobre país irmão, vítimas desses intoleráveis atentados. E esta Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, com voto afirmativo do Brasil e por maioria superior aos dois terços exigidos pelo Tratado do Rio de J anei
ro, acaba de caracterizar tais atos do Governo de Cuba corno agressão que não é ataque armado. Baseados nos fatos apurados pela Comissão de Investigação, os Ministros das Relações Exteriores agiram rigorosamente dentro da competência que lhes é conferida por força do artigo 9~ do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. E, no entender do Governo brasileiro, como no da maioria dos Governos aqui representados, o Tratado do Rio de Janeiro foi legitimamente invocado e está sendo legitimamente aplicado neste caso.
Longe de considerar que os tratados devam ser aplicados com estreiteza jurídica, tudo fizemos para que sua aplicação fosse fonte de conciliação e não de divergência. Mas estaríamos invertendo a própria essência das coisas se a maioria renunciasse aos deveres,por considerações estranhas ao espírito do Tratado, como se os autores do pacto do Rio de Janeiro não tivessem previsto a forma de votação por maioria. É evidente que a unanimidade nunca deixou de ser o nosso objetivo e unanimidade não apenas na votação, mas também na aplicação da matéria votada.
Os plenipotenciários que em 1947, no Rio de Janeiro, aprovaram o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca inovaram com relação a outros sistemas de segurança precisamente quando previram a adoção de medidas cominatórias por maioria de dois terços, e não apenas por unanimidade ou pela introdução do instituto do veto. Isto o dizemos com todo o respeito que nos merecem opiniões diferentes. Esta Reunião representa uma vitória do permanente sobre o transi
tório, vitória tanto maior quanto mais perfeita é a aplicação dos tratados, os quais transcendem nossas pessoas, nossos Governos, e se projetam sobre a existência mesma de nossas nacionalidades.
Srs. Chanceleres, meu País esperava dessa Reunião de Consulta uma decisão orientada no interesse da segurança de nossas instituições, do cumprimento dos tratados e da conciliação da família americana. Foi esse o sentido de nosso voto nas resol '.1ções aprovadas. Também foi esse o sentido de nosso esforço amistoso, fora das sessões públicas. Tudo fizemos para obter a adesão de todos ao principal projeto de resolução aprovado, o que estabelece medidas acautelatórias de nossa segurança. Com verdadeira pena não o vimos aprovado por unanimidade. Não havendo a unanimidade, o sistema de maioria se impõe, tal como previsto no
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 133 Tratado do Rio de Janeiro. Diante do impasse, que sem dúvida lamentamos e queremos ver muito breve superado, é a maioria e não a minoria que deve prevalecer. O contrário seria violar a essência mesma das coisas, como antes já assinalei. Saibamos cumprir nossos compromissos, pois que eles serão para nós fonte de segurança e não de desunião. (... )
O Governo brasileiro faz veemente apelo para que o desencontro de opiniões evidenciado nesta Reunião de Consulta seja vencido na meditação serena que se seguir a esta conferência, na consideração de que aquilo que resolvemos se destina não a agravar um, ou alguns, de nossos países, mas a reforçar a segurança de todos através do cumprimento dos compromissos que livremente assumimos e livremente queremos preservar.
In: MRE, TfX/OS t Dtr!araç{)ts sohrf Polt'tlra Ex/ana, 1964-1965, pp. 69-73.
- Discurso do Ministro de Estado das Relações Exteriores, Ramiro Saraiva Guerreiro, na abertura da XI Reunião dos Chanceleres dos Países da Bacia do Prata, em Buenos Aires, em 2 de dezembro de 1980:
(... ) Ao examinarmos os onze anos de vigência desse ato internacional, não podemos deixar de assinalar o intenso intercâmbio de informações realizado em torno de temas relevantes (00')' A continuidade dos contatos propiciada pelo marco institucional do Tratado sedimentou, ademais, uma tradição de cooperação das mais profícuas entre os setores responsáveis de nossos países, com reflexos não só a nível multilateral, senão também no plano bilateral.
(... ) Nesse contexto, caberia ressaltar marcos tão significativos quanto os representados por Itaipu, Jaciretá, Salto Grande, os futuros aproveitamentos brasileiro-argentinos no rio Uruguai, a ponte Puerto Iguazu - Porto Meira, a ponte Zarate - Brazo Largo, e a projetada interconexão ferroviária entre o Brasil e o Paraguai, para citar tão-somente alguns exemplos relevantes. (00')
Verifica-se, assim, a adequação do Tratado da Bacia do Prata e dos mecanismos criados em seu contexto jurídico e institucional aos anseios de desenvolvimento e de bem-estar partilhados por nossas nações. (00')
In: MRE, RtJsen!ta df Po/{tlca Ex/trtordo Brasil. n? 27 (ouL-dez 1980), p. 76.
11. Adesão
- Comunicado do Ministério das Relações Exteriores, acerca da adesão do Brasil ao Tratado da Antártida, distribuído em Brasília aos 16 de maio de 1975:
O Governo brasileiro des~ja tornar público que a Embaixada do Brasil em Washington fez entrega, nesta data, de Nota ao Departamento de Estado,
134 ANTÓNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE
comunicando a decisão de adesão ao Tratado da Antártida, assinado na Capital norte-americana, em 1!J de dezembro de 1959, e do qual o Brasil passa a ser o 19?
Estado- Membro.
2. Ao ensejo da referida comunicação ao Governo dos Estados Unidos da América, em sua qualidade de Governo depositário do Tratado da Antártida, o Governo brasileiro salienta os seguintes pontos fundamentais que informam a posição brasileira em assuntos antárticos e dos quais deseja dar amplo e geral conhecimento:
a) o Brasil considera que o Tratado da Antártida constitui o único diploma legal para o Continente Antártico, sendo instrumento jurídico válido e aceito para todos os Estados-Membros que dele são Partes; a esse respeito, considera, também, o Governo brasileiro que todos os Estados que desenvolvem atividades na Antártida devem estar ligados pelas mesmas normas jurídicas;
b) o referido Tratado veio consagrar princípios e normas positivas, com repercussões para toda a comunidade internacional, a saber, o uso da Antártida para fins exclusivamente pacíficos e o amplo sistema de inspeção ali previsto para assegurar a observância dos citados objetivos, a liberdade de pesquisa e as facilidades para a pesquisa científica na região e a proibição de explosões nucleares e de alijamento de material ou resíduos radioativos na área;
c) o Governo brasileiro empresta a maior relevância aos trabalhos realizados no Continente Austral e ao mecanismo decisório previsto no Tratado, no qual deverá prevalecer, a juízo do Governo brasileiro, o princípio da igualdade entre todos os seus signatários;
d) o Brasil, em virtude de possuir a mais extensa costa maritima do Atlântico Sul, costa esta, em sua maior parte devassada pelo Continente Austral, tem interesses diretos e substanciais na Antártida;
e) a propósito da significação particular da Antártida, caberia acentuar que o seu reconhecimento determinou a inclusão de parte do território antártico na zona descrita pelo artigo 4!J do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, sendo portanto, o Brasil co-responsável pela defesa da região.
3. O Sr. Presidente da República está encaminhando Mensagem ao Con
gresso Nacional, nos termos do artigo 44, § I da Constituição, submetendo ao referendum do Legislativo a adesão brasileira ao aludido Tratado.
In: MRE, Resenha de Política Exterior do Brasil, n? V, ano II (abril-junho 1975),p.172.
- Discurso do Senador Orestes Quércia (São Paulo), no Senado Federal, sobre a Questão da Adesão do Brasil à Convenção Interna
cional para Supressão e Punição do Crime do Apartheid, em Brasília, em junho de 1975:
(... ) Chega ao nosso conhecimento agora que o Brasil não assinará a Convenção Internacional para a Supressão e Punição do Crime do Apartheid,
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 135 adotada pela Assembléia Geral da ONU, em 30 de novembro de 1973. Os argumentos, para isto, são frágeis e não suportam a menor análise. Não vamos assiná-la porque, ao que se propala, nos veríamos obrigados a expulsar o embaixador daquele país... Não vamos assiná-la porque mantemos com ele uma linha aérea, que faz ponte turística no Rio deJaneiro, e nos dá algum dinheiro ...
Não vamos assiná-la porque vem crescendo (e muito pouco, diga-se de passagem) o nosso comércio com a África do Sul. Não vamos assiná-la, enfim, por um rosário de razões pálidas, fugidias, frágeis, imprecisas, que só nos levam a deplorar a posição brasileira. Como se interpretar o fato de o Presidente da República, vir a público e se pronunciar claramente contra o apartheid, se para tomadas de posições claras e decisivas mostramo-nos vacilantes...
(... ) O inciso 2 do art. I da Convenção diz que "Os Estados signatários declaram criminosas as organizações, instituições e indivíduos que cometam o crime de apartheid". Ora, se o Brasil sabe, acredita, sente e julga que o aparteísmo é um crime, não poderá pensar duas vezes e nem titubear para assinar a Convenção, porque com isto estará negando as suas convicções filosóficas, negando a sua tradição e traindo a sua própria característica étnica. (... )
In: Dzárw do Congresso Nacional, Seção 11, quinta-feira, 19 de junho de 1975, p. 2735.
12. ResenJas
- Intervenção do Delegado do Brasil na 2il Sessão da Conferência da ONU sobre Direito dos Tratados, Viena, em 15 de maio de 1969:
- O Sr. Nasrzmento f Silva (Brasil): - (... ) O Brasil, como a maioria dos países latino-americanos, deve submeter a Convenção a seu Parlamento, e se a Convenção não contiver qualquer cláusula de reserva, o Parlamento poderia recusar-se a ratificá-la. Em princípio, o Brasil era tradicionalmente contrário à formulação de reservas, mas todo país era livre para fazer reservas se julgasse oportuno. (... )
In: ONU, Unzted Natzons Confirence on the Law ofTreatzes - Second Sesszon) OJficzal Records (Viena, 1969), voI. 111, p. 142 (tradução do inglês).
13. Revisão
- Pronunciamento feito pelo Chefe da Delegação do Brasil, Embaixa
dor João Augusto de Araújo Castro, na 4il sessão plenária da Conferência da ONU dos Países em Desenvolvimento (UNCTAD), em Genebra, em 24 de março de 1964:
(... ) Excetuados alguns poucos documentos produzidos pela Liga das Nações, pode-se dizer que, na Conferência de Havana [de Comércio e Emprego,
136 ANTÔNIO AUGUSTO CANÇADO TRINDADE
de 1947], não foi distribuída qualquer documentação que esboçasse, ou sequer abordasse, as situações típicas de comércio internacional e de desenvolvimento econômico. Tais documentos visavam, como seu principal objetivo, a eliminar dificuldades e resolver problemas dos países industrializados.
E a ironia da história reside em que os principais países industrializados deixaram de ratificar a Carta de Havana, com o que deram aos países sub
desenvolvidos uma oportunidade de tentar lutar pela solução de seus próprios problemas, às suas custas, e de perseguir com afinco o estudo dessas dificuldades e soluções para aqueles problemas, assim plantando as próprias sementes deste nosso encontro. Esta Conferência resultou, assim, da incapacidade da Conferência de Havana de tratar adequadamente os problemas do subdesenvolvimento econômico.
Um apêndiceà Carta de Havana sobreviveu, de modo muito conveniente, ao texto principal, que aliás jamais teve vigência. Tratava-se do GATT, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio. E, durante o período compreendido entre 1948 e 1954, todos os esforços das nações subdesenvolvidas concentraram-se em obter a alteração do Contrato do GATI, na tentativa de fazê-lo mais compreensivo, de ter em conta situações particulares, peculiares aos problemas de desenvolvimento econômico. A delegação do Brasil teve parte importante nesses esforços de provocar os países industrializados a aceitar o desafio de preparar uma minuta de Contrato do GATT modificado. Como todos os senhores sabem perfeitamente, disso resultou a Revisão do GATT, de 1954. Na ocasião, isso representava um progresso; com o correr do tempo, foi, muito naturalmente, aceito como um fato consumado e absorvido pelo pensamento econômico do momento.
A Revisão do GATT, contudo, deixou muitos problemas sem solução. Um deles é representado pelo caso das tarifas preferenciais, tornado agudo em virtude da criação de agrupamentos econômicos que se somaram às preferênciasjá aceitas e institucionalizadas no sistema do GATT.
Não me proponho relacionar, neste momento, as vantagens e desvantagens do GATT. A delegação do Brasil junto ao GATT e a outros organismos internacionais tem sempre apontado com franqueza esses defeitos congênitos e pecados inerentes ao Acordo Geral. O fato é que outros países, juntamente com o Brasil, tornaram-se mais uma vez, com o correr dos tempos, agudamente conscientes dos problemas ainda por surgir. Foi por iniciativa dos países subdesenvolvidos que se reuniu a Conferência de Cairo, em 1962. Consi
derada com grandes apreensões e reservas pelos países industriais, a Conferência produziu, em seu desfecho, a Declaração do Cairo, documento no qual esses mesmos países industrializados foram obrigados a reconhecer todos os ingre
dientes de equilíbrio e de comportamento maduro. (... )
O passo seguinte, após a Conferência do Cairo, foi a sétima sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas. (... )
Posteriormente, na primeira sessão do Comitê Preparatório, em Nova York, e na segunda sessão do mesmo Comitê, aqui em Genebra, a delegação do Brasil juntou-se às delegações de outros países em desenvolvimento para estabelecer
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 137 uma agenda abrangente para as nossas discussões e para identificar, de modo tão claro quanto possível, os problemas relacionados com o comércio e desenvol
vimento. Também em Genebra foi assinada a Declaração dos Representantes de Países em Desenvolvimento, mais tarde apoiada por todos os países em desenvol
vimento presentes à décima oitava sessão da Assem bléia Geral das Nações Unidas.
Meu intuito, ao relembrar essa longa cadeia de acontecimentos, foi o de salientar, do modo mais claro possível, que esta Conferência não constitui um fato isolado, mas sim um momento num processo histórico, no decorrer do qual o sentido de consciência dos países subdesenvolvidos voltou-se cada vez mais para a solução dos seus problemas, por seus próprios meios, dando assim a tais soluções um caráter genuíno que não poderia ser importado de fora. (... )
(... ) Genebra não deveria continuar a ser considerada como o lugar em que fizemos tudo para provar que um tratamento igual é iníquo quando aplicado a desiguais. Essa foi nossa bandeira na Revisão do GATT, em 1954. (... )
(... ) Caso a Conferência de Genebra, como a Conferência de Havana, não venha a ser mais do que um outro fracasso e o ponto de partida para tímidas tentativas que nos ocuparão com conferências e reuniões por anos a fio, parece-nos inevitável que forças sociais irrepreensíveis levarão os países em desenvolvimento a formas de desenvolvimento voltadas para o interior, tais como a inflação interna e a desvalorização externa, que inevitavelmente conduzirão o mundo para as mesmas situações caóticas existentes antes da Segunda Guerra Mundial, muito mais agravadas hoje pelo fato de que a população mundial é quase três vezes maior do que na década de trinta, bem como pelo fato de que o adiantamento tecnológico nos países industriais produziu instrumentos de destruição e elevou níveis de conforto a índices jamais experimentados na história do mundo. (... )
- Texto reproduzido m: AraÚJO Castro, Coleção Itinerários, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982, pp. 43-46 e 48.
- Trecho do RelatórIO do Ministério das Relações Exteriores relativo ao ano de 1975, sobre os trabalhos de reforma do Tratado Inte
ramericano de Assistência Recí proca (TIAR):
(... ) Do ponto de vista do Brasil, o novo texto do TIA R ajusta-se per
feitamente aos interesses I,acionais: a área de segurança foi até mesmo aumentada no Atlântico Sul; conseguiu-se manter o valor dos mecanismos de solução pacífica de controvérsias do Sistema Interamericano, uma vez que o novo texto recomenda aos Estados americanos procurar resolver seus conflitos por processos regionais, antes de submetê-los aos das Nações Unidas; logrou-se definir os casos de agressão a que possam estar sujeitos os Estados- Partes do TIAR e incluir, entre eles, o envio de grupos irregulares ou mercenários; a Delegação do Brasil fez com que se substituísse no texto a expressão" segurança econômica