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3.4 Wilhelm Dilthey

3.4.4 Antecipando alguns limites da modernidade

Para falar em limites da modernidade, inicialmente temos que compreender o que se entende por modernidade no contexto em que se situa a presente discussão. Para tanto, podemos tomar como ponto de partida que a racionalidade moderna “tem origem no empirismo e no racionalismo do século XVI. O empirismo, proposto por Bacon aposta na emergente ciência do seu tempo, dizendo que o homem poderá ‘prever para prover’”247. É claro que estamos tratando de situar aproximadamente esse movimento que entrelaça sujeito e objeto, princípio fundamental do empirismo, que tem na experiência, conforme já vimos antes, sua sustentação enquanto construção científica.

Entretanto, uma “outra formulação da racionalidade moderna se refere ao racionalismo”248. Nesse sentido, Descartes é o grande expoente, afirmando o pensamento como ponto de partida, sendo que “a racionalidade traz as bases do pensamento moderno com a exigência da subjetividade”249. Assim sendo, o modo de fazer ciência é dominado pela racionalidade ocidental, resultando no mito da possibilidade de explicação de tudo e, conseqüentemente, na crença em se poder construir a base para chegar à verdade enquanto tal. “A opção da modernidade por esse modelo de racionalidade tem justificado a ação de controle e previsões de ação do sujeito sobre o objeto”250. Nisso reside um dos elementos centrais que instauram o paradigma objetificador moderno, onde o objeto é entendido como resistência, como o que se coloca à frente do sujeito, sendo que este tem o poder (e quase que o dever) de dominá-lo251. Portanto,

246Sobre esse ponto o §34 de Ser e Tempo parece abordar bem as bases sobre as quais nossa discussão posterior irá se firmar.

247 Hermann, 1996, p. 17. 248 Ibid., p. 18.

249 Ibid., p. 18. 250 Ibid., p. 19.

251 “Ao trazer à tona o princípio da subjetividade, a modernidade expressa sua fé no sujeito com capacidade de reflexão, que conquista sua autonomia e sua liberdade. A idéia do sujeito autônomo surge, portanto, com a modernidade e com fé que esta deposita na razão. Embora o movimento iluminista, que sustenta o ‘discurso filosófico da modernidade’, sempre tenha sido acompanhado por um contradiscurso, como, por exemplo, o romantismo, as críticas tornam-se mais sistemáticas, a partir do século XIX, sobretudo por duas razões: uma

a modernidade que nasce com ao iluminismo, no século XVIII, apóia-se justamente na possibilidade da razão de enunciar verdades universais, de entender e dominar o mundo, superar os mitos e forças mágicas, de forma a emancipar o homem. Retira-se a tutela de um princípio organizador exterior ao próprio homem, surgindo a possibilidade de que ele construa racionalmente seu destino, livre de tirania. Caem, assim, os fundamentos teológicos e o mundo é secularizado. Propõe-se uma ordem fundada na razão, um ideal de ciência, que permita a liberdade do reino da necessidade252.

Há limites que ficam evidentes quanto ao modo de operar do cientificismo objetificador, impulsionado, sobretudo, pelos tempos modernos253 em sua pretensão auto- esclarecedora iluminista, que não consegue dar conta dos limites frente ao saber. O uso meramente instrumental da razão humana favoreceu a crise da racionalidade iluminista254 ao pretender ser o modelo para se chegar à certeza255 mediante a soberania do sujeito, independentemente da sua historicidade e da tradição que já sempre lhe antecede. “O sujeito que compreende é finito, isto é, ocupa um ponto no tempo, determinado de muitos modos pela história”256, de modo que seu horizonte de compreensão já se encontra inserido na história onde sua reflexão se dá, fazendo esta parte dela. No entanto, o sujeito permanece “ocupado por pré-conceitos que pode modificar no processo da experiência, mas que não pode liquidar inteiramente”257. Assim sendo, a crítica de Gadamer ao racionalismo da ilustração se sustenta, porque “o pensamento iluminista é cego para a

primeira refere-se à crítica à estrutura auto-referencial do princípio da subjetividade, que faz com que o sujeito se debruce sobre si mesmo, determinando relações objetificadoras e de domínio do sujeito sobre o mundo. Uma segunda crítica situa-se no âmbito antropológico e social, com a desconfiança de o projeto da modernidade levar adiante sua finalidade emancipatória, seus tão caros ideais de liberdade e igualdade, justamente pela imposição de relações de domínio” (Hermann, 2006, p. 12).

252 Hermann, 1996, p. 19.

253 “Como filhos dos tempos modernos não queremos que nos vejam como herdeiros de uma época que acabou. Por isso Habermas, o iluminista, fala de um projeto inacabado da modernidade. Todos os projetos históricos são inacabados e tanto mais o projeto da razão do iluminismo. A cultura ocidental constituiu-se de projetos inacabados e entre eles há sucessivos projetos iluministas, desde os gregos, que têm como imperativo serem retomados sempre por herdeiros que em vão procuram concluí-los. Os projetos da racionalidade têm isto de imaginário: estabelecer definitivamente a idade da razão” (Stein, 2001, p. 11). 254 Crise esta que “levou a sociedade moderna à beira do colapso social e ecológico, devido, entre outros, à exploração desenfreada dos recursos naturais e à brutal desagregação social de amplas comunidades” (Flickinger, 2000, p. 8).

255 “Assim, a hermenêutica tem que desconstruir uma racionalidade que, colocada sob limites estreitos, quer mais a certeza que a verdade. E mostra a impossibilidade de reduzir a experiência da verdade a uma aplicação metódica, porque a verdade encontra-se imersa na dinâmica do tempo. No ambiente cientificista da modernidade, estabeleceu-se o predomínio do positivismo, que se apóia em dados objetivos como procedimento válido para produzir conhecimento. Contra isso, a hermenêutica quer demonstrar que não há mais condições de manter o monismo metodológico, uma forma exclusiva para determinar o espaço de produção do conhecimento. A hermenêutica opõe-se ao ‘mito do objetivismo’; ou seja, à crença em uma verdade objetiva, que corresponde a uma realidade também objetiva, trazendo a perspectiva do interpretar, do produzir sentido, e a impossibilidade de separar o sujeito do mundo objetivado. Desse modo, quer fazer valer o fenômeno da compreensão diante da ‘pretensão de universalidade da metodologia científica’, como precisamente observou Gadamer” (Hermann, 2006, p. 19 – 20).

256 Stein, 1986, p. 37. 257 Ibid., p. 37.

inevitabilidade de pré-conceitos em todo o processo de compreender. [...] O iluminismo, contudo, pensa poder situar-se num ponto de vista fora da história”258. Tal pretensão é, evidentemente, inconcebível .

Portanto, a história, os pré-conceitos, a tradição, a autoridade, a linguagem são, para Gadamer, indispensáveis para podermos pensar a racionalidade no mundo. Significa reconhecer a necessidade de descer para trás da reflexividade e buscar sua origem259 na pré-reflexividade260, onde a experiência do sujeito lhe possibilita a inserção em um horizonte de sentido posteriormente tematizável pelas vias da reflexividade. A hermenêutica nos esclarece “a impossibilidade de um ponto arquimédico para fundar a reflexão, uma espécie de belvedere do espectador imparcial, ou ao menos de um observador privilegiado”261.

Assim sendo, contemporaneamente a hermenêutica não pode escapar a um caráter questionador das pretensões da modernidade, assumindo, não raro, o papel de denunciadora do que poderíamos denominar de uma impossibilidade da pretensão absolutizadora. Não significa, de modo algum, deixar de reconhecer preciosas contribuições que a modernidade trouxe, sobretudo no campo das ciências, como é o caso da saúde. É inquestionável o benefício na melhoria da qualidade de vida do ser humano, de modo que o problema que se coloca é a reivindicação exclusiva do paradigma cientificista262. O problema maior é aceitarmos o uso meramente instrumental da razão humana como sendo “o” modo exclusivo para o acesso ao conhecimento, enquanto certeza, ao invés de buscarmos a discussão em torno da verdade enquanto espaço não-determinável pelo cientificismo263.

Sem negar a importância do ambiente cientificista moderno para o homem contemporâneo, a hermenêutica moderna vem trazer à tona a discussão em torno dos limites da pretensão moderna, vindo a denunciar os limites de sua pretensão justamente por não conseguir dar conta dos mesmos. Portanto, a hermenêutica traz consigo a pretensão em

258 Ibid., p. 37.

259 No sentido de fundamentação.

260 Com a hermenêutica podemos afirmar “o bastidor de legitimidade que recupera a unidade do modo descontínuo de pôr problemas próprios dos métodos científicos” (Stein, 1986, p. 49).

261 Ibidem, p. 49.

262 Especialmente os procedimentos em laboratórios que dificilmente conseguem escapar a uma perspectiva tecnicista, exigindo a separação rígida entre sujeito e objeto, além de uma pressuposição de neutralidade ou imparcialidade do cientista, mantendo a crença de que os procedimentos técnicos bastam a si próprios. 263 Cf. Schuck, 2006, p. 61ss.

ampliarmos o debate, sem excluir da pauta a questão da modernidade. No fundo, ela busca desconstruir uma racionalidade, racionalidade esta que, “colocada sob limites estreitos, quer mais a certeza que a verdade, e demonstrar a impossibilidade de reduzir a experiência da verdade a uma aplicação metódica, porque a verdade encontra-se imersa na dinâmica do tempo”264.

Rompe-se, assim, com a idéia de um único método265 para chegar à verdade. Exige- se, por parte do próprio investigador, que ele leve em conta sua situação histórica, sua historicidade e finitude, sem poder escapar ao fato de ele se encontrar já desde sempre inserido num horizonte de sentido, numa tradição, que lhe ultrapassa a possibilidade em trazer à consciência o todo no qual se insere. Por isso, no ambiente cientificista moderno, criam-se condições favoráveis para o predomínio do positivismo, à base do método que se apóia em dados objetivos como procedimento válido, levando a um monismo metodológico, ofuscando, de certa forma, a possibilidade de percepção de outras formas de conhecer a realidade266.

Uma das chaves-de-leitura para compreedermos a origem da hermenêutica, no sentido moderno, está justamente na compreensão da bipolaridade sujeito-objeto, que sem dúvida na modernidade criou o “mito do objetivismo”, conforme já exposto acima. Diante da “pretensão de universalidade da metodologia científica”, a hermenêutica se posicionará no sentido de querer fazer valer o fenômeno da compreensão267.

Com Schleiermacher, a hermenêutica ainda se encontra muito presa à perspectiva de encontrar procedimentos científicos capazes de dar conta de uma metodologia que fundamente o sentido a ser encontrado. Schleiermacher estava preocupado mais com os estudos teológicos, de modo que acreditava ser possível encontrar um método a partir do qual dar-se-iam as interpretações da Sagrada Escritura. Veja-se que essa tendência, ao fazer da hermenêutica uma espécie de legitimadora de procedimentos para a interpretação, por um lado se liga ainda à questão procedimental, a saber, pelo uso meramente instrumental da razão. Porém, por outro lado, já traz a novidade que irá dar as condições para o surgimento da “hermenêutica moderna”, ao contrapor-se ao caminho causal-explicativo, uma vez que a hermenêutica passa a não ser mais compreendida

264 Hermann, 2003, p. 15.

265 Méthodos, no sentido de caminho. 266 Cf. Hermann, op. cit., p. 15. 267 Cf. Ibidem, p. 16 – 17.

enquanto interpretação filológica, de modo que a interpretação não é algo externo ao interpretado, porém caracteriza-se, antes de mais nada, “pela exposição e avaliação do envolvimento do homem no processo do saber”268.

Na Segunda Parte do presente texto, nos será possível compreender ainda melhor tal situação, na medida em que formos percebendo o surgimento da formulação do problema da verdade pelas vias da Hermenêutica Filosófica. Buscamos, assim, uma nova formulação de tal problema, na proximidade da discussão com Hans-Georg Gadamer, sem podermos deixar de fazer a discussão inicial com Heidegger.

SEGUNDA PARTE

SURGIMENTO DE UMA NOVA FORMULAÇÃO DO PROBLEMA

DA VERDADE PELA HERMENÊUTICA FILOSÓFICA

4 HEIDEGGER E A QUESTÃO DO COMPREENDER