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Antevisão: o(s) futuro(s) do museu

No documento A Tate Gallery : de Millbank a Bankside (páginas 81-86)

1. Museu, cultura, representação e identidade

1.5. Antevisão: o(s) futuro(s) do museu

A contemporaneidade trouxe novas configurações para o museu: o desafio à noção de cânone pressupõe uma nova ordem social que problematiza a hierarquização de formas ‘superiores’ ou ‘inferiores’ de cultura e que pressiona o museu para incluir no seu espaço a representação da diversidade social. Os desafios colocados ao museu nos séculos XX e XXI prendem-se com a noção de que o objeto por si só não oferece as potencialidades pedagógicas do passado pelo que é integrado em exposições nas quais é mostrado em narrativas ou ‘histórias’ apoiadas em textos ou equipamentos audiovisuais que facilitam a sua interpretação e interação com o visitante numa necessidade de espetacularizar a arte para a tornar mais apelativa (Macdonald, 2011a: 88).

Em 1947 André Malraux, em O Museu Imaginário, quase profetizava o fim simbólico do museu como instituição devido à facilidade técnica de reprodução e divulgação dos seus objetos. O seu museu imaginário corresponderia a um conjunto de objetos de arte canónicos difundidos em ampla escala, constituindo uma memória coletiva partilhada a nível mundial.

Em On the Museum’s Ruins, Crimp (1993) apresenta o museu da pós-modernidade como uma instituição a emergir das ruínas do museu tradicional e a operar no entrecruzar de visões e identidades locais e globais, assumindo-se como um espaço de interrogação sobre o que é a arte ou o génio artístico, sobre o que é exibir, sabendo-se que o museu já não pode justificar-se apenas pela quantidade e excepcionalidade dos objetos que guarda.

O museu acompanhou o processo de transformação da sociedade através de adaptações que não foram nem homogéneas nem lineares. A realidade museológica de hoje é composta pela visão tradicional do museu no seu edifício monumental e como guardião de objetos e pela visão do museu da pós-modernidade, mais inclusivo e aberto à representação de uma maior diversidade de expressões e de identidades servindo

72 comunidades locais, nacionais ou globais.

Aproveitando os fluxos de pessoas, imagens e informação, o museu não parece ter perdido nem a sua identidade nem o seu significado, pelo contrário, aprendeu a funcionar num maior hibridismo sociocultural criando ambientes de exibição onde a transmissão de conhecimentos através de suportes textuais coexiste com formas de estimular os sentidos através dos meios audiovisuais e informáticos (Burton e Scott, 2007).

Numa abordagem às principais tendências de desenvolvimento dos museus no futuro, Black (2012) apresenta uma linha de continuidade relativamente às transformações motivadas por dois aspetos que têm norteado a gestão dos museus: por um lado as necessidades de financiamento, por outro o impacte das tecnologias, aprofundando cada vez mais a centralidade do visitante:

We are living through a period of profound change in Western society, underpinned by the rise of new media and by a resultant fundamental shift in Western economies to a globally interconnected information economy. Both have had a profound impact on the skills individuals require to succeed in work and life. (…) It is also breaking down the barriers between formal and informal education, with a general recognition that learning is a lifetime pursuit. (Black, 2012: 1)

Para se manter aberto o museu será obrigado a reforçar os mecanismos de envolvimento dos públicos na arte e na cultura para que não se percam nem visitantes nem patrocinadores continuando a fazer sentido conhecer os perfis de visitantes o melhor possível para investir em técnicas de marketing eficazes para os atrair:

Now museums must face up to their next great challenges: in converting audiences from casual one-off visitors into regular users, and in re-establishing the relevance of museums to society as a whole in the twenty-first century. (Black, 2012: 75)

Considerando que a perspetiva comercial não irá ser abandonada nas visões para a administração do museu e que não diminuirá o investimento na diversidade de equipamento tecnológico disponível para facilitar a interpretação e para entreter (ou distrair) a visão do visitante, Saumarez Smith (2011) apresenta o definhamento do objeto como um dos aspetos mais negativos do desenvolvimento do museu na contemporaneidade e, a não ser restituída a sua função como repositório de objetos, a observação da coleção será um aspeto secundário da visita dado o espaço ocupado por tecnologias visuais, cafés, lojas, restaurantes e livrarias. A visita ao museu tenderá a ser

73 cada vez mais a experiência do edifício e dos seus espaços comerciais e de socialização em detrimento da experiência da arte.

O autor sugere que o museu deva cultivar o compromisso entre a representação do real, ou seja, dos objetos selecionados como património comum para fazer a ligação entre o presente e o futuro e as possibilidades de representação oferecidas pela tecnologia, sem que as suas práticas sejam completamente dirigidas pelo determinismo tecnológico e económico que tem orientado os museus. Deverá ser repensado o modo como a vertente comercial está a guiar o seu destino e não o conteúdo que preserva. Advoga ainda a necessidade de se fazerem escolhas entre o local e o global tendo em conta que a aparente força de homogeneização que domina as sociedades contemporâneas poderá e deverá ser contrariada por perspetivas de diferenciação para que se apreenda com rigor aspetos específicos da história de cada comunidade.

Hudson (2004: 2) referia que os museus, na viragem para um novo milénio, não mostravam qualquer sinal de autodestruição. Na verdade esta afirmação, reveladora de uma imensa confiança no futuro do museu, contém em si a assunção de uma das suas mais positivas características: a resiliência. O museu reconfigurou-se até etimologicamente (cabinet, studiolo, Wunderkammer, Kunstkammer, museum), no entanto continua a ser um encontro de várias vozes, de nações (em formação, em declínio ou em adaptação) ou de regiões e cidades. Adaptou-se a novas contingências sociais e económicas mas preservou características do seu passado material e imaterial/espiritual: colecionar, preservar, educar, exibir, assim como o fervor enciclopédico de organização do conhecimento. Continua a ter valores ligados à mobilidade e ascensão social. As suas práticas continuam a estar ligadas a problemáticas de representação, de inclusão e exclusão que fazem do museu um campo privilegiado para o cruzamento de discussões a nível ideológico, ético, estético, político e social.

Hoje em dia, o museu continua a explorar e a exercer formas de visão cívica dos objetos, desafiadas, no entanto por formas que, segundo Bennett (2011), distraem ou desviam a visão (distracted vision) influenciadas pelo consumo interativo e comercial do espaço do museu.

Weil (1995: 122) considera que o museu já não é um instrumento de aperfeiçoamento moral nem um padrão universal do gosto estético, no entanto continuará sempre a ser um local de aprendizagem com práticas que continuam a estar impregnadas de parcialidade na transmissão de significados políticos, sociais e culturais

74 e, por isso, sempre sujeitos a contestação.

A arquitetura do final do século XX e início do século XXI reabilitou a ideia do museu como monumento na medida em que, através da contratação de arquitetos de renome para os desenharem ou redesenharem, foram criados espaços cujo design justifica por si só uma visita, verificando-se que, hoje em dia, a noção de museu como monumento é uma das vertentes do sistema de representação a que ele está sujeito e a arquitetura continuará a constituir um dos seus grandes desafios e uma importante ferramenta de comunicação:

Architecture is drowning out the art that is housing – and it is doing so both when it speaks loudly and when it speaks quietly. (…)

The great challenge that the new millennium will pose for art museum architecture may be precisely this – to create architectures that are in keeping with a narrowly defined view of art. The most effective refutation of Marinetti’s prophecy might be precisely to design and build museums that are neither dormitories nor entertainment centers, but instead sober, and, at the same time, poetic laboratories for pure sensory perception and unrelentingly rational critical thinking. (Lampugnami, 2011: 260)

Novas exigências trazidas por mudanças sociais continuarão a colocar o museu sob outros desafios de natureza arquitetónica. A exibição da coleção não chega, por si só, para captar visitantes, tendo de optar-se por adequar espaços para a realização de exposições temporárias. Por isso o desenho de novos museus e galerias continuará a adaptar-se às necessidades de diversificação, flexibilidade, adaptabilidade, assim como a possibilidade de expansão para que se possa fazer face a formas de exibição mais inovadoras.

Rectanus (2011) considera que o funcionamento do museu global se caracteriza por processos como a internacionalização da programação, o intercâmbio e o empréstimo de obras a uma maior escala e a circulação de diretores e curadores entre vários museus. O que descreve como “meta-museu” prende-se com o desenvolvimento de plataformas

online para disseminar produtos para comunidades virtuais alargadas, integrando-se em

redes de partilha a nível global.

Numa abordagem económica às questões culturais e às escolhas e prioridades dos museus na contemporaneidade, Frey e Meier (2011) consideram que nos encontramos na era dos museus superstar. Trata-se de uma formulação que tem em conta o modo de operar um museu no contexto da competição global, da massificação da viagem e da maior circulação de pessoas a nível internacional, que fazem com que se partilhem ideias, nomes, conceitos e imagens a uma escala muito mais alargada, fazendo com que

75 determinados museus tenham um impacte considerável no local onde estão implementados a nível do turismo e da revitalização económica.

Prior (2011) defende que o museu poderá constituir-se como um ‘terceiro espaço’, mais democrático e mais desprendido do elitismo e das forças do consumo, no entanto, dificilmente se desprenderá das complexidades e contradições do seu percurso: santuário do passado, autoridade científica e estética e espaço de entretenimento popular, dever público e interesse privado, arte e consumo, reprodutor de desigualdades sociais e de democratização da cultura.

Deixamos como nota de fecho deste capítulo uma reflexão que nos coloca perante os desafios impostos ao museu no século XXI mas que nos indica que o seu percurso será essencialmente de adaptação, o que não será muito diferente do que fez até agora:

In the twenty-first century, more, rather or less, controversy can be expected in museums, with fracturing of national identities and contention within nations. Some factors in these conflicts are old: religious extremism, intolerance, fundamentalist ideologies, economic deprivation, and ethnic conflicts. Other factors are old in new ways and degree: exponential population growth, environmental degradation, increasingly mobile populations (legal and illegal, and asylum seekers), instant and untrammeled worldwide communication, and a widening gulf in educational and economic opportunity, especially for women after decades of progress in many nations. And there is always the usual suspect, “globalization”, frequently blamed for all the above.”(Kaplan, 2011: 167)

Como conclusão, e dados os pontos de vista aqui apresentadas, perspetivamos o museu num caminho de ajustamento às novas realidades de uma sociedade em mudança simplesmente porque o contexto da sua criação foi esse mesmo: o de atuar como resposta às necessidades de uma sociedade na qual estavam em curso transformações profundas e, principalmente, a emergir um novo conceito de cidadão, ao qual era necessário dar consistência através de uma formação em várias vertentes, sendo uma delas a cultura.

O museu seguirá o seu caminho nessa linha de adaptação à mudança que fará surgir novos tipos de visitantes e em relação aos quais continuará a mediar valores, a construir identidades e a fazer a ponte entre o passado e o futuro.

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No documento A Tate Gallery : de Millbank a Bankside (páginas 81-86)