2. A Tate Gallery: 1889-
2.2. A sociedade industrial
2.2.2. Cidade, cultura e poder: a Londres imperial
O museu público emergiu, no século XIX, no contexto não só de consolidação do Estado-nação mas também dos processos de urbanização e é por isso importante explorar o modo como a cultura, a arte e o museu contribuíram para reforçar a imagem de Londres como uma cidade imperial.
Na Grã-Bretanha as cidades industriais prosperaram ao longo de todo o século XIX e Londres, já com uma dominância alicerçada em séculos anteriores por via das
transações comerciais e por ser sede da Coroa e do Parlamento69, afirmou-se
67 Ficava perto do Bank of England e o seu público regular era tanto o funcionário dos serviços da City
como o trabalhador dos bairros operários do East End, o que lhe deu desde o início um caráter bastante diverso, ainda mais porque fechava às 19h, permitindo que mais visitantes da classe trabalhadora tivessem acesso ao seu espaço.
68 Em 1902 conseguiu captar uma importante doação de pintura vitoriana, o Gassiot Bequest, inicialmente
destinada a ir para a Tate, graças ao conhecimento e perícia negocial de Alfred Temple, seu curador e reconhecido como um dos melhores do seu tempo
69 Como cidade capital e sede do poder político Londres já se afirmava a nível internacional pela
considerável proporção do movimento do seu porto e, com uma população crescente a partir do século XVI, por ser um dos maiores mercados da Grã-Bretanha. Também aí se encontrava uma grande concentração de oficinas e pequenas manufaturas (principalmente no tratamento de couros, no processamento do açúcar e na construção naval) que a tornavam competitiva por possuir trabalhadores mais qualificados e um maior conhecimento a nível industrial. Com a corte aí estabelecida a cidade também tinha um mercado próspero na produção e consumo de artigos de luxo como relógios, vestuário e livros. Shepard (1998) realça que esta dinâmica comercial foi responsável pela grande expansão do setor dos serviços com agências de seguros, bancos e despachantes a gerir redes de negócios com uma dimensão considerável, fazendo com que Londres, a partir do século XVIII, tomasse a dianteira em
101 mundialmente, consequência dos lucros e desenvolvimento da indústria e do comércio70.
O século XIX londrino correspondeu a um período de grande desenvolvimento, com aumento do bem-estar e da prosperidade para as classes médias mas também com grandes contrastes e desigualdades. Tendo sido a primeira cidade a formar-se de acordo com as necessidades da economia industrial, essa matriz permaneceu até quase ao fim do século XX (Buck et al, 2005).
O melhoramento das vias de comunicação, da iluminação pública71 e dos transportes, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, trouxe não só a esta mas também a outras cidades inglesas mais oportunidades de consumo e de entretenimento, diversificando as experiências e tornando mais acessíveis alguns bens materiais e conforto.
As transformações na cidade deram-se por fases que coincidiram sensivelmente com avanços introduzidos a nível dos meios de transporte que revolucionaram a mobilidade dos cidadãos e que captaram atividades e residentes para novos espaços. A partir de 1836 a ferrovia transformou Londres com a abertura de um terminal de comboios que circulavam da London Bridge até Greenwich e, a partir de 1863 a rede de metro foi inaugurada com a Metropolitan Line. Um pouco mais tarde, cerca 1870, o carro sobre carris puxado por cavalos operou mais uma transformação na cidade conseguindo transportar mais passageiros do que o omnibus e dar resposta a uma crescente classe trabalhadora que procurava formas rápidas e baratas de se deslocar dentro da cidade (Shepard, 1998).
O desenvolvimento dos transportes resultou não só num aumento de tráfego em Londres mas também em novas formas de mobilidade e de circulação, no entanto foi, acima de tudo, responsável por um fenómeno que não mais parou e que alterou de modo permanente os limites e a dimensão da cidade: a suburbanização. Principalmente a sul
relação a Amsterdão a nível naval, comercial, bancário e financeiro.
70 Briggs (1990) descreve o desenvolvimento das cidades de Manchester, Leeds, Birmingham e
Middlesborough e faz a história da emergência de Londres como uma cidade mundial e o modo como os valores da cidade vitoriana foram transplantados para Melbourne, na Austrália.
71 Bouman (1987) explora o modo como a experiência do centro da cidade se alterou com a instalação
da iluminação pública fazendo emergir novos hábitos como o passeio ao fim da tarde para fazer compras transformando a noção utilitária da luz numa possibilidade comercial.
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da cidade estavam a ser urbanizadas várias zonas para uma classe média72 que
procurava propriedade a preços mais acessíveis e com qualidade. Surgiram áreas residenciais73 com habitações à volta de pequenas praças ou a formar crescentes e rodeadas por espaços verdes, com uma população cujos modos de vida contribuíram para estabelecer identidades de classe muito próprias (White, 2008a).
Demograficamente Londres cresceu74 e tornou-se mais heterogénea. Sucessivas
migrações em busca de melhores condições de vida vieram de vários pontos da Grã- Bretanha, com a Irlanda a representar o maior contingente, mas também a destacarem-se comunidades de Judeus, Chineses, Italianos, Franceses e Alemães que davam à cidade um cunho multicultural através da abertura de negócios que traduziam marcas da sua cultura75. As novas vagas de londrinos procuravam oportunidades de trabalho no porto e na manufatura, que era o principal empregador da cidade, o que contribuiu para o aumento muito rápido de uma larga faixa de população pertencente à classe trabalhadora para a qual não houve capacidade de resposta em termos de habitação e que teve, por isso, de alojar-se em bairros sem quaisquer condições (White, 2008a).
A par destas atividades, os seguros e o comércio cresceram a um ritmo considerável, e principalmente a finança, desenvolveu-se a partir da exploração dos negócios a nível nacional e internacional de um império que se estendia por todos os continentes.
O rápido crescimento urbano, com a perda de coesão de uma cultura artesanal do século XVIII, trouxe desafios a nível da administração76 da cidade. A construção e
72 Waharman (1995) explora a formação social e política da classe média e a sua relação com a
urbanidade e o modo como, principalmente através da imprensa, mobilizou e construiu representações do seu caráter e da sua identidade para se diferenciar de outras e para se integrar no complexo processo de transformação cultural, social e económica a ocorrer na Grã-Bretanha.
73 Greenwich, Kensington, Chelsea, Bloomsbury, Camberwell, Lambeth, Brixton, Stockwell, Pimlico,
Clapham, Battersea ou Paddington foram algumas das áreas que mais transformações sofreram neste processo.
74 A população londrina aumentou de 2 milhões em 1841 para quase 5 milhões em 1881 (Hobsbawm,
[1968] 1999: 137)
75 Eram famosos os vendedores de gelados italianos, os restaurantes abertos pelos franceses ou os
produtos das pequenas manufaturas ligadas à alfaiataria, ao calçado e à produção de charutos geridas pelos judeus.
76Antes do século XIX, a cidade não tinha um corpo governante responsável pela sua administração. O
City of London Corporation controlava a sua área de jurisdição desde o final do século XII, ao qual se
103 reconstrução de muitas áreas da cidade tinham afastado alguns focos de crime, delinquência e pobreza para zonas mais afastadas do centro ou para a margem sul do Tamisa como Southwark, mas colocavam-se problemas como revoltas e motins, que a ação de Sir Robert Peel tentou controlar ao organizar a Metropolitan Police em 1829 (Hoppen, 1998: 50-51).
O aspeto físico da cidade alterou-se a um ritmo rápido com a indústria da construção a expandir-se consideravelmente, empregando grandes quantidades de mão de obra, necessária para construir edifícios públicos, lojas, escritórios, teatros, museus, bibliotecas, habitações, para instalar a iluminação pública ou para melhorar o sistema de esgotos. Muitas ruas foram construídas ou remodeladas, tais como Regent Street, New Oxford Street ou Victoria Street, que sofreram obras profundas entre 1830 e 1850, trazendo à cidade uma dimensão comercial e uma modernidade que foram essenciais à consolidação do estatuto de cidade imperial (Shepard, 1998). Também a zona portuária sofreu alterações com a construção de docas, cais e outros equipamentos para melhor servir o comércio fluvial e a construção naval, alterando significativamente a frente do rio.
Além de postos de trabalho e de mais diversificadas possibilidades de consumo, a cidade oferecia oportunidades infindáveis de cultivo do conhecimento e de usufruto de cultura e de entretenimento nos museus e galerias de arte, nas palestras das sociedades académicas e artísticas, nos saraus das bibliotecas e clubes literários, no teatro, nas
performances nos jardins e espaços públicos, no jardim zoológico, ou no circo, o que
funcionava como um íman para quem procurava quer novos estímulos intelectuais, através do cultivo da literatura, da cultura e do espírito científico, quer de uma vida dinâmica e mundana.
Mas não foram apenas o espaço edificado e as vias de comunicação a alterar Londres. Novos espaços verdes de passeio público como parques e jardins funcionaram como pulmões da cidade mas também como tentativas de impedir o avanço avassalador da construção. No fim do século Londres tinha um perímetro consideravelmente maior, era mais bem iluminada, tinha mais qualidade ambiental e uma fachada arquitetónica mais moderna.
A Great Exhibition, realizada em 1851foi o marco cultural da metade do século em
eram exercidos pelas paróquias e pelos condados de Meddlesex, Surrey e Kent. O London County
Council foi criado em 1889 como a primeira grande autoridade municipal para a governança de Londres,
104 Londres e foi determinante para o desenvolvimento de uma ideia de museu quer através da arquitetura quer do modo de expor os objetos da indústria e das conquistas do império, constituindo-se como um ‘complexo exibicionário’ (Bennett, 1995) e uma demonstração do imperialismo britânico (Witcomb, 2003) que mostrou a Grã-Bretanha numa narrativa de progresso técnico, científico, económico e industrial e de domínio imperial. Uma quantidade apreciável de objetos da exposição deu origem, à criação do museu de South Kensington (mais tarde Victoria and Albert Museum) que, guiando os visitantes pelas maravilhas produzidas pela manufatura e pelo design britânicos, se associou a uma ideologia de progresso baseada no utilitarismo e na educação através da arte e da técnica.
O seu edifício, o Crystal Palace, uma estrutura pré-fabricada facilmente montável e desmontável, trouxe ao museu noções importantes como a de impermanência e de flexibilidade com a necessidade de criar espaços temporários de exibição (Giebelhausen, 2011). As suas práticas de exibição também influenciaram modos de mostrar os objetos contribuindo para educar o olhar do público num certo modo de ‘ver’. Já na cidade, os grandes armazéns comerciais que começaram a surgir entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, com as suas montras, iluminação e espaços preparados para agradar ao olhar e receber grandes quantidades de consumidores, criavam cenários, quer nas montras quer no interior, orientados para práticas visuais de consumo, tanto de bens utilitários nas lojas como de objetos do domínio estético e científico nos museus e galerias de arte.
O museu, a exposição universal e, posteriormente, o armazém comercial foram essenciais à nova vivência da cidade e à formação da sociedade de consumo, apoiada em tecnologias de perceção visual (Witcomb, 2003), fazendo-nos entender a origem da ligação entre cultura e consumo muito anterior à segunda metade do século XX.
Estas três estruturas discursivas visuais tiveram enorme importância, em conjunto, para a consolidação de práticas de consumo visual que foram úteis ao modo de ver os objetos no museu e foram um apoio ao uso que o Governo e as elites estavam a fazer do museu para educar as populações no sentido de disciplinar o olhar e de ensinar a circular em espaços públicos fechados.
A Great Exhibition, a par de outros equipamentos culturais que estavam a ser construídos na cidade, trouxe uma nova dimensão à vida urbana ligada ao lazer, à arte, à modernidade, à prosperidade, ao dinamismo e ao refinamento, imagem de que Paris gozava há algum tempo. Embora Londres não superasse a capital francesa na tradição
105 de ligação às artes, havia uma geração de artistas nacionais que necessitava de espaços públicos de exibição, uma elite urbana com dinheiro para aplicar no patrocínio de arte e que queria cultivar um estilo de vida cosmopolita e sofisticado que a associação à cultura podia proporcionar e um público que estava mais preparado para frequentar espaços de cultura e que gostava de contemplar as obras dos velhos mestres mas também de artistas contemporâneos as quais não eram dadas a visibilidade e elevação necessárias numa galeria nacional.