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Antropologia do Direito

No documento Antropologia do Direito (páginas 90-96)

No caso especifico da Antropologia do Direito, esta poderia ser de-nominada uma subárea da Antropologia. As etnografias, nesse caso, se ocupam de estudar as categorias que podem perpassar o saber jurídico, assim como as formas pelas quais este se produz, reproduz e como é re-cebido pelos seus destinatários: os jurisdicionados. Nessa caminhada, são realizadas a identificação, a classificação e a análise das formas como se organiza o “mundo jurídico”. O pesquisador, para dar concretude a essa forma de construção de conhecimento, deve se distanciar por vezes dos ambientes nos quais o conhecimento se restringe à leitura e à sistematiza-ção de textos – bibliotecas, gabinetes, escritórios de trabalho, entre outros – e se deslocar para o campo, ou seja, para os ambientes nos quais as re-gras escritas nos códigos são (ou não) concretizadas pelos seus diferentes agentes para, justamente, observar como essas coisas acontecem.

A realização de uma etnografia, de modo geral, exige que um pes-quisador que seja externo a uma dada organização social em estudo

passe algum tempo a observar a atividade das pessoas. Essa atividade pode envolver conversas formais ou informais, dependendo do grau de acolhimento do pesquisador por parte dos membros do grupo estudado e de seu envolvimento com seus diferentes interlocutores. Com uns, ele poderá falar mais descontraidamente; com outros, pode ocorrer de ele ter de ser um pouco mais formal. Depende das circunstâncias da pesquisa.

Esse trabalho deve ser efetuado sempre com a concordância das pes-soas com as quais o estudo é desenvolvido, ou seja, os interlocutores.

Isso é condição para que o grupo estudado não se sinta vilipendiado em sua intimidade, uma vez que todo e qualquer grupo social tem informa-ções sobre si que deseja proteger, tanto quanto possível, da invasão de outras pessoas. Mas, afinal, se não é para saber o que as pessoas não que-rem revelar, o que o antropólogo faz ao estudar as pessoas? Essa pode ser uma pergunta. E a resposta é muito simples: o antropólogo estuda as estruturas simbólicas presentes nas relações sociais, de forma a compre-ender processos e mecanismos os quais, muitas vezes, são naturalizados por seus interlocutores. Elementos que são ignorados por estes tendem a ser trazidos à tona pelo trabalho antropológico. Aprendendo com seus interlocutores tais aspectos, o antropólogo surge então como um pro-fissional especializado em fazer a “leitura” de tais estruturas, de forma a poder desvelar o que se encontra naturalizado para seu próprio grupo.

Ou seja, um antropólogo estuda “o outro” com o objetivo de entender melhor a si mesmo.

Para tanto, o pesquisador geralmente mantém anotações de campo.

Estas podem ser feitas reservadamente, ou durante as interações com seus interlocutores, sempre que estes se sintam à vontade com tal exer-cício. Pode usar o recurso de fotografias, gravações de conversas, entre outros estratagemas que possibilitem acesso qualificado à memória de tais estudos. Às vezes, as pesquisas duram meses ou mesmo anos. Assim, é necessário fixar referências para que o antropólogo, ao redigir a sua etnografia, possa integrar o maior número de elementos na construção de dados que julgar relevantes para a exploração de uma problemática.

Em geral, sua etnografia consiste de uma descrição abrangente da sociedade ou grupo de estudo, a qual é empreendida a partir de uma edição das notas resultantes da observação realizada (como também da escuta das gravações ou análise mais detalhada de imagens e fotos que foi possível produzir). Nessa etnografia, o antropólogo faz uma apresentação do tema, procedendo à classificação, à análise e à interpretação dos da-dos construída-dos. Enquanto técnica, ela permite ao pesquisador produzir

conclusões verossímeis acerca de fatores sociais e organizacionais que permeiam o funcionamento e as relações dos agrupamentos humanos estudados. Esperamos, nas próximas aulas, dar exemplos de como esse trabalho, de natureza eminentemente empírica, produziu compreensões sobre diferentes instituições e organizações sociais.

Como chama a atenção Klever Paulo Leal Filpo, doutor em Direito que realiza pesquisas empíricas no âmbito do sistema judiciário, esses estudos têm mostrado que o trabalho das pessoas é, normalmente, mais rico e complexo do que o descrito pelas definições dos processos e pelos modelos dos sistemas. Segundo ele,

a observação direta da complexa realidade social que constitui um grupo, ou um tribunal, ou uma vara, por exemplo, parece ser a mais adequada para compreender os pontos de vista dos seus

“nativos” – ou seja, daqueles que já estão inseridos no ambiente – e poder descrever e interpretar as suas práticas, localizá-las e entender em que se afastam ou em que medida se integram den-tro das rotinas e das normativas vigentes.

Fonte: http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=7e889fb76e0e07 c1. Acesso em 28 nov. 2013.

Conclusão

Chamamos a atenção para o trabalho de campo, que é uma expe- riência pessoal. Ela pode ser mais ou menos bem-sucedida, a partir da confluência de diversos fatores: os procedimentos adotados nas intera-ções sociais, por parte do pesquisador, aliados a suas capacidades indi-viduais (facilidade para conversar, aprender línguas, ler e entender leis etc.), interligados com os contextos e situações em que o trabalho é de-senvolvido, além, é claro, das personalidades intrínsecas aos sujeitos que o estudioso encontra durante sua pesquisa.

Contudo, a validade do estudo realizado – que se pode inferir, por um lado, quando os grupos estudados “se veem” e concordam em al-gum grau com a interpretação veiculada pelo pesquisador – depende diretamente e em grande medida da habilidade, disciplina e perspectiva do observador. Por outro lado, a noção de relevância social dependerá tanto da possibilidade de renovação e aprofundamento teórico dos es-tudos realizados como também de possíveis impactos provenientes da

ampliação da compreensão acerca de como determinados grupos pen-sam e agem, possibilitando o aprimoramento de formas de comunica-ção dentro destes ou entre eles.

Atividade Final

Atende ao Objetivo 3

O seguinte trecho pertence a um artigo publicado por Roberto Kant de Lima (antropólogo) e Barbara Lupetti (advogada). Considere a proposta por eles apresentada e analise-a contemplando as principais questões colocadas na aula:

Nesse sentido, este paper pretende, para além de destacar a neces-sidade de aproximação desses diferentes saberes, o do Direito e o da Antropologia, chamar a atenção para o fato de que esta apro-ximação dificilmente terá êxito se for imposta exclusivamente por via teórica, pois as teorias antropológicas, por si só, não pa-recem atrativas aos operadores do campo do Direito. Entretanto, poderá ser muito valiosa, como de fato vêm demonstrando os re-sultados de pesquisas que temos produzido institucionalmente, se for feita por via metodológica, através da realização de etno-grafias comparativas, com as quais os juristas não têm afinidade e têm muita dificuldade de atribuir-lhes o devido valor (LIMA;

BAPTISTA, 2010).

Resposta Comentada

Como vimos na aula, o Direito outorga grande importância à elabo-ração de uma “Teoria Geral do Direito”, dando menor relevância às questões metodológicas. A Antropologia, pelo contrário, tem como um dos seus pilares a realização de etnografias e a conivência de diferentes teorias. Os autores enfatizam o fato de a aproximação entre as duas dis-ciplinas terem maiores possibilidades de sucesso, caso se dê através da

via da realização de pesquisas empíricas, já que, por um lado, por via teórica, parecem pontos de vista quase incompatíveis, e, por outro lado, porque é só através da pesquisa empírica que é possível compreender o Direito na prática.

Resumo

Nesta aula, apresentamos as principais características dos saberes ju-rídicos e antropológicos. Nosso objetivo foi definir os limites e possi-bilidades de um diálogo entre ambas as disciplinas. Com esse esforço, esperamos que tenha sido possível o entendimento acerca das diferen-ças formais entre as disciplinas Antropologia e Direito e compreender as maneiras pelas quais se constrói o conhecimento em cada uma das disciplinas, em prol de proporcionar ao aluno a compreensão sobre a pertinência de uma Antropologia do Direito. Nosso objetivo foi mos-trar como cada um desses saberes apresenta particularidades que nem sempre fazem do diálogo entre ambos uma tarefa fácil, embora possível.

Informação sobre a próxima aula

Nas próximas aulas, vamos nos referir a estudos etnográficos, na pers-pectiva de chamar a atenção para a natureza eminentemente empírica da Antropologia, capaz de empreender entendimentos sobre diferen-tes instituições e organizações sociais. Em particular, na próxima aula, nos referiremos a uma obra clássica da Antropologia e da Antropologia do Direito, especificamente, Crime e costume na sociedade selvagem, de Bronislaw Malinowski.

Leituras recomendadas

BAPTISTA, Barbara Gomes Lupetti. Os rituais judiciários e o princípio da oralidade: construção da verdade no processo civil brasileiro. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris, 2008.

GARAPON, Antoine; PAPAPOULOS, Ioannis. Julgar nos Estados Uni-dos e na França. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2008.

LIMA, Roberto Kant de. Por uma Antropologia do Direito, no Brasil.

In: FALCÃO, Joaquim de Arruda. Pesquisa científica e Direito. Recife:

Editora Massangana, 1983, p. 89-116.

PAES, Vivian. Crimes, procedimentos e números: estudo sociológico so-bre a gestão dos crimes na França e no Brasil. Rio de Janeiro: Garamond, 2013.

Aula 6

No documento Antropologia do Direito (páginas 90-96)