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Categorias analíticas e categorias nativas

No documento Antropologia do Direito (páginas 159-164)

Nas Ciências Sociais, em especial na Antropologia, existem certos termos que são utilizados como noções teóricas capazes de permitir a análise e posterior compreensão de certo fenômeno social. Essas noções, geralmente, respondem a correntes teóricas específicas que definem um sentido determinado no quadro de uma explicação mais geral sobre a vida social. De fato, muitas vezes a mesma categoria pode ter significa-dos diferentes, dependendo da ciência ou da escola teórica em questão.

É o caso, por exemplo, da noção de cultura. A botânica pode usar a noção de cultura para se referir ao cultivo de sementes, embriões ou fragmentos de tecido vegetal sob condições assépticas, em meios nutriti-vos adequados e controlados em termos de luz, temperatura e umidade.

Ao mesmo tempo, a noção de cultura é uma categoria de análise central na Antropologia desde seu início como disciplina. Assim, as

diferentes correntes dentro da Antropologia têm atribuído sentidos di-ferentes a essa noção, dependendo da visão teórica de cada uma delas.

O evolucionismo, por exemplo, afirmava a existência de uma única cultura, porque sustentava a ideia de que todas as sociedades humanas seguiam um caminho único – natural e necessário, segundo Lewis Mor-gan – de desenvolvimento humano e social. Já as escolas posteriores ao evolucionismo afirmavam a existência de culturas no plural, enten-dendo que não existe uma cultura universal, mas que cada sociedade se organiza e pensa de formas singulares e particulares.

Contudo, todas essas correntes, incluindo o evolucionismo, referem--se à ideia de cultura como um repertório de formas, mais ou menos integradas, de organização social e material da vida em sociedade. Di-ferentemente, autores contemporâneos da Antropologia Social utilizam a noção de cultura como um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de certo grupo pensam, classificam, estudam e mo-dificam o mundo e a si mesmas. É algo que está dentro e fora de cada um de nós, são as regras do jogo. Regras essas que permitem relacionar indivíduos entre si e o próprio grupo com o ambiente onde vive.

Ao mesmo tempo, a palavra cultura tem diversos usos no discurso do senso comum, no dia a dia das pessoas, que diferem, em certa medida, dos sentidos outorgados pela Antropologia. Costuma ser usada como si-nônimo de sofisticação, sabedoria, educação, volume de leituras, contro-le das informações, títulos universitários, inteligência. A frase “Fulano é uma pessoa culta”, costuma ser dita, por exemplo, para marcar hábitos de leitura ou estudo. Nesse sentido, a noção também é usada para classificar pessoas ou grupos sociais, inclusive como arma de discriminação contra algum sexo, etnia, sociedade. Um exemplo disso é a existência de certos discursos que classificam os povos indígenas como “povos sem cultura”

(DAMATTA, 1986).

Esse uso múltiplo destaca também o modo como uma noção que é proposta por uma disciplina (no caso da cultura, a Antropologia) pode passar a ser também uma noção do discurso cotidiano, não tendo ne-cessariamente o mesmo sentido, ou seja, tornando-se polissêmica, nos termos já apresentados nesta aula. Isso não acontece só no âmbito da Antropologia, pelo contrário, é bastante comum em outras disciplinas.

Por exemplo, é comum ouvirmos falar que “fulano tem personalidade”

querendo marcar o jeito de ser de alguém: forte e definido. Já para a Psico-logia, “ter personalidade” é uma característica de todos os seres humanos, pois é o que define alguém na sua particularidade (DAMATTA, 1986).

Essas distinções de uso e sentido de uma mesma palavra têm a ver com uma distinção importante na Antropologia que é a distinção entre uma categoria utilizada para a análise de uma determinada situação e uma categoria utilizada de forma recorrente entre as pessoas pesquisa-das pelo antropólogo. A primeira é denominada categoria analítica e a segunda, categoria nativa.

As categorias analíticas fazem referência, então, a certos conceitos cunhados por uma disciplina ou escola. Os conceitos não são observá-veis de forma direta, mas são construções do pesquisador ou cientista que permitem entender melhor o que acontece no mundo. Por exemplo, nós não podemos ver uma classe social comendo ou trabalhando, mas podemos observar conjuntos de indivíduos em que se pode perceber um certo padrão de características comuns. Chamar, analiticamente, esses conjuntos de classe social pode permitir compreender as ações in-dividuais de forma mais sistemática.

As categorias nativas, por sua vez, são representadas por palavras que as pessoas de um determinado grupo social utilizam com frequên-cia e em consenso sobre seu significado. Em outras palavras, dentro do grupo, fazem referência a características ou situações identificáveis e compreensíveis por todos. Na maioria das vezes, elas são próprias do grupo e são utilizadas para definir situações significativas para este. Elas podem ser tomadas pelo pesquisador como objeto de análise, tentando entender o que elas significam para o grupo e como são por ele (e por seus membros) percebidas. Na Aula 8, por exemplo, discutindo a etno-grafia de Lenin Pires, nos trens da Central do Brasil, vimos a centralida-de na sua análise da categoria esculacho. Foi observando, participando das viagens de trem e ouvindo seus interlocutores que Pires identificou essa categoria como central para entender a relação entre os vendedores ambulantes e os agentes de controle. Também na etnografia de Roberto Kant de Lima, vimos, na Aula 7, categorias próprias do ambiente poli-cial, como tirar. Elas evidenciam, com seus sentidos específicos, formas particulares de ver o mundo e a própria atividade.

Vale destacar que as categorias nativas não são mais, ou menos, cien-tíficas que as analíticas. Uma categoria analítica pode ser igualmente uma categoria nativa, dependendo do contexto; por exemplo, se o ob-jeto do pesquisador é uma comunidade de científicos, médicos ou an-tropólogos. Em resumo, é importante destacar que o sentido de uma e outra categoria é relativo e depende do contexto e do uso.

O antropólogo Clifford Geertz utiliza a distinção entre dois tipos de conceitos: de “experiência próxima” e de “experiência distan-te”. Ele diz:

Um conceito de “experiência próxima” é, mais ou menos, aquele que alguém – um paciente, um sujeito, em nosso caso um infor-mante – usaria naturalmente e sem esforço para definir aquilo que seus semelhantes veem, sentem, pensam, imaginam etc. (...) Um conceito de “experiência distante” é aquele que especialistas de qualquer tipo – um analista, um pesquisador, um etnógrafo, ou até um padre ou um ideologista – utilizam para levar a cabo seus objetivos científicos, filosóficos ou práticos. “Amor” é um conceito de experiência próxima; “catexia em um objeto”, de ex-periência distante. “Estratificação social” (...) de exex-periência dis-tante; “casta” e “nirvana” são de experiência próxima, pelo menos para hindus e budistas (GEERTZ, 2000, p. 87).

Para Geertz, o antropólogo deveria trabalhar com os dois tipos supracitados, articulando os conceitos de experiência próxima de seus informantes com os conceitos de experiência distante de sua disciplina.

Quando propomos, nesta aula, analisar a noção de violência como categoria nativa, queremos enfatizar que não estamos discutindo a vio-lência como um conceito útil para entender ou descrever situações de forma analítica, mas estamos preocupados em identificar, em tal caso, como os próprios atores envolvidos em uma dada situação classificam determinados atos ou atores como violentos, e outros não. Nesta pro-posta, violência não é, assim, um conceito que possa ser aplicado a di-versas situações e sociedades, mas é uma forma local, particular e situ-acional de definir e classificar certos eventos, dependendo de quem os define e do contexto em que ocorrem.

Logo veremos diferentes sentidos que a noção de violência teve no quadro de diversas teorias na Filosofia Política e na Sociologia.

Atividade 1

Atende ao Objetivo 1

Leia a manchete a seguir. Identifique as categorias que podem ser consi-deradas nativas, nos termos apresentados na aula, de um discurso pró-prio do Rio de Janeiro, na área da Segurança Pública, e explique por quê.

Moradores de comunidades pacificadas protestam no Rio Uma onda de violência em comunidades já pacificadas gerou protestos de moradores no Rio. Desde dezembro, foram mais de 10 tiroteios.

Fonte: http://mais.uol.com.br/view/cphaa0gl2x8r/moradores-de-comunidades-pacificadas-protestam-no-rio-0402CD1A306ED0C14326?types=A&. Acesso em 1º fev. 2014, às 18h57.

Para mais informações, você pode assistir ao vídeo disponível no link da notícia.

Resposta Comentada

As categorias que podem ser consideradas nativas do discurso local ca-rioca são comunidades e pacificadas. No contexto do Rio de Janeiro, há um conhecimento e um consenso (mútua compreensão) em se referir a bairros carentes, chamados popularmente de favelas, como comunida-des. Também o termo pacificado refere-se, aqui no Rio de Janeiro e de forma recente, a uma política pública de ocupação e estabelecimento policial militar em algumas favelas, por meio das Unidades de Política Pacificadora (UPPs). Em outros contextos, essas categorias teriam outro significado e referências, mudando o sentido da manchete.

No documento Antropologia do Direito (páginas 159-164)