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Rituais e valores sociais

No documento Antropologia do Direito (páginas 179-183)

Muitas vezes, quando pensamos em ritual, aparecem duas ideias:

por um lado, a noção de que um ritual é algo formal e arcaico, quase desprovido de conteúdo, algo feito para celebrar momentos especiais e nada mais; por outro lado, podemos pensar que os rituais estão ligados apenas à esfera religiosa, a cultos ou a missas. Contudo, nenhuma das duas noções é exata. Em Antropologia, o estudo de rituais demonstra a variedade de situações da vida social moderna e contemporânea que se encontram ritualizadas. A partir desse estudo é possível analisar e com-preender tais situações.

Podemos dizer que os rituais, de forma geral, apresentam algumas características básicas. Normalmente, eles emprestam formas conven-cionais e estilizadas para organizar certos aspectos da vida social,

através de uma marca comum: a repetição. Os rituais, executados repe-tidamente, conhecidos ou identificáveis pelas pessoas, concedem uma certa segurança, ou seja, possibilitam uma certa previsibilidade sobre o que vai acontecer por meio dele. Da mesma forma, a celebração de cer-tos rituais também transmite uma sensação de coesão social, dado que o grupo se identifica em uma situação compartilhada.

Assim, a antropóloga Mariza Peirano destaca que os rituais po-dem ser religiosos, profanos, festivos, formais, informais, simples ou elaborados. O importante nos rituais não seria o “conteúdo explíci-to”, mas suas características de forma, convencionalidade, repetição.

A função principal deles seria, então, revelar e expressar valores cen-trais de uma sociedade.

Os rituais podem ser seculares ou religiosos. Também podem se referir a momentos em que se passa de um estado social para outro, chamados ritos de passagem, como, por exemplo, o nascimento, a en-trada na vida adulta, o casamento, a morte. Em todo caso, os propósitos dos rituais podem ser variados. Eles podem incluir a concordância com obrigações religiosas ou ideais; satisfação de necessidades espirituais ou emocionais dos praticantes; fortalecimento de laços sociais; demonstra-ção de respeito ou submissão, estabelecendo afiliademonstra-ção; obtendemonstra-ção de acei-tação social ou aprovação para certo evento e, às vezes, apenas o prazer do ritual em si.

Por outro lado, um aspecto importante e distintivo dos rituais é sua dramatização, isto é, a condensação de algum aspecto, elemento ou relação, colocando-o em foco, em destaque, como ocorre nos desfiles carnavalescos e nas procissões, em que certas figuras são individualiza-das e assim adquirem um novo significado, insuspeitado anteriormen-te, quando eram parte de situações, relações e contextos do cotidiano (DAMATTA, 1997, p. 36). Por isso, o mundo do ritual é relativo ao que ocorre no cotidiano. Uma ação que, no dia a dia, é banal e trivial pode adquirir um alto significado (e assim “virar” rito), quando destacada em um certo ambiente por meio de uma sequência. Por exemplo, um aperto de mão em um contexto diplomático tem um significado especial, dife-rente da saudação corriqueira.

De certo modo, o ritual coloca em uma relação dialética, de mútua constituição, o mundo ordinário e o extraordinário. É, portanto, no ri-tual, que a sociedade pode ter uma visão alternativa de si mesma, ga-nhando um terreno ambíguo; não fica nem como é normalmente nem como não poderia ser (porque o ritual é passageiro). Assim, o rito pode

ser visto como o retorno à ordem ou como a criação de uma nova or-dem, uma nova alternativa (DAMATTA, 1997, p. 39).

Assim, diz DaMatta, “creio que os rituais são criações sociais, refle-tindo ambos os problemas e dilemas básicos da formação social que os engendra. O mito e o ritual seriam, deste modo, dramatizações ou maneiras cruciais de chamar a atenção para certos aspectos da realidade social, facetas que, normalmente, estão submersas pelas rotinas, interes-ses e complicações do cotidiano” (1997, p. 42).

Atividade 1

Atende ao Objetivo 1

Leia o seguinte trecho do artigo do antropólogo Horace Minner sobre um povo por ele chamado “os nacirema” e algumas de suas práticas ri-tuais. Identifique o sentido do texto e o que ele revela por meio da des-crição do ritual.

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das for-mas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. (...) Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exem-plo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano.

(...). A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habi-tat. Apesar de o povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados em atividades ritu-ais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. (...) Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos--feiticeiros, no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por “sagrados-homens-da--boca”. Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e, ao

mesmo tempo, fascinação pela cavidade bucal, cujo estado, acre-ditam, teria uma influência sobre todas as relações sociais. Acre-ditam que, se não fosse pelos rituais bucais, seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam.

Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais. Existe, por exemplo, uma ablu-ção ritual da boca para as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral. O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui um rito bucal. Foi-me relatado que o ritual con-siste em inserir um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bu-cal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da--boca uma ou duas vezes ao ano.

Você pode ler o texto completo no seguinte link:

http://comunicacaoeesporte.files.wordpress.com/2011/03/naci-rema.pdf

Resposta Comentada

Com a denominação nacirema, Horace Minner se refere a indivíduos de uma tribo americana. No trecho, o antropólogo analisa os cuidados com a boca (ir ao dentista, escovar os dentes) como rituais cotidianos e diá-rios que evidenciam valores sociais. No caso, os cuidados com o corpo e com a estética são importantes para a sociabilidade e as relações sociais.

No documento Antropologia do Direito (páginas 179-183)