Parte dos estudos da Antropologia, de forma geral, tem se caracte-rizado pela busca, nas sociedades “outras”, chamadas “primitivas”, das instituições presentes na sociedade ocidental, da qual os próprios antro-pólogos faziam parte. Assim, por exemplo, na Antropologia Política, os primeiros estudos antropológicos chamavam a atenção para a “ausência”
do Estado moderno, com suas instituições formalizadas, seus poderes divididos, seus profissionais especializados etc. Por esse motivo, aque-las sociedades foram caracterizadas pela “falta” de organização política.
Contudo, estudos posteriores têm demonstrado que as sociedades “exó-ticas” podiam estar complexa e altamente organizadas politicamente, mesmo sem a instituição do Estado, tal como conhecida no Ocidente.
Sobre esse assunto, sugere-se a leitura do Os Nuer de Evans-Pri-tchard, em especial o capítulo “Organização política”, e a obra Sis-temas políticos africanos, de Meyer Fortes e Evans-Pritchard.
No caso da Antropologia do Direito, inicialmente, a bagagem ana-lítica que os antropólogos tinham utilizado no estudo do direito vem também de um tipo de discurso cultural desenvolvido na Europa Oci-dental. Esse discurso fundamentalmente tem identificado o direito com os códigos escritos e as instituições formais. Assim, aquelas sociedades que não tinham tais leis (muitas delas eram sociedades de tradição e transmissão oral) nem instituições formalizadas eram consideradas como não tendo “direito” e, portanto, desreguladas, caóticas, promíscu-as, enfim, “selvagens”.
Estudos posteriores na área da Antropologia do Direito mudaram essa concepção no entendimento fundamental de que a ausência de leis escritas e de instituições formais, tais como as conhecidas no Ocidente, não significa que aquelas sociedades não tivessem direito, mas que o direito deve ser entendido de uma outra forma.
Assim, o direito, tal como concebido e organizado nas sociedades ditas modernas, passa a ser considerado pelos antropólogos como um caso específico de organização política e social. Nem único nem melhor, mas diferente de outros arranjos idealizados por outras sociedades para organizar as regras que as regulam.
A partir dessa ideia, chegamos à concepção dos fenômenos jurídicos como sendo “uma forma específica de ideologia social; uma linguagem através da qual as sociedades expressam conceitos de direitos e deveres legais entre os homens” (DAVIS, 1973, p. 10), ou, dito em palavras do antropólogo Clifford Geertz, “o direito como uma forma específica de imaginar a realidade” (1998, p. 259).
As consequências dessa perspectiva resultam em uma abordagem que considere, em perspectiva comparada, as diversas formas em que sociedades distintas têm organizado mecanismos (formais e informais)
de administração de conflitos e, portanto, de produção de controle e ordem social (KANT DE LIMA, 1983).
Dessa forma, a Antropologia do Direito passa a se interessar pelas formas de regulação de conflitos em diversas sociedades. Isso tem como pressupostos as afirmações (a), (b) e (c) citadas anteriormente, que im-plicam a existência de regras em toda sociedade, de conflitos quando es-sas regras são quebradas e de mecanismos de resolução de tais conflitos.
Mas tem também como um pressuposto básico a ideia de que o conflito faz parte de toda sociedade.
Atividade 1
Atende ao Objetivo 1
Considere a seguinte notícia, publicada online em abril de 2013 e res-ponda às perguntas a seguir:
PM liberta pai e filho vítimas do “tribunal do tráfico” em Caxias Rio - Policiais (...) libertaram pai e filho que sofriam tortura do
“tribunal do tráfico” na comunidade da Mangueirinha (...). A polícia chegou ao local após receber denúncia anônima (...). Os criminosos os acusavam de ser informantes da Polícia.
Na ação, [um homem] foi preso.
Fonte: Jornal O Dia, 04 abr. 2013.
Para ter acesso a outras informações sobre o caso, você pode aces-sar o link:
http://odia.ig.com.br/portal/rio/pm-liberta-pai-e-filho-v%C3%
ADtimas-do-tribunal-do-tráfico-em-caxias-1.568409
1. A situação descrita no trecho citado poderia se constituir em objeto de estudo na área da Antropologia do Direito. Explique por quê.
2. No trecho citado, considerando ambos os sistemas de “direito” men-cionados, identifique, conforme as três proposições básicas propostas por Shelton Davis:
a) as regras que definem direitos e deveres no grupo;
b) a existência de um conflito;
c) os meios institucionalizados para resolvê-los.
Respostas Comentadas
1. A situação poderia ser objeto da Antropologia do Direito porque trata de um conflito que envolve a definição de direitos e deveres entre as pessoas envolvidas, em função de regras específicas, que, uma vez violadas, devem ser restituídas através de meios institucionalizados. O caso mostra dois sistemas de direitos: o formal oficial, da Polícia Civil, e o informal, do “tribunal do tráfico”. O fato deste último não tratar de instituições definidas e reguladas pelo estado e pelo direito oficial não exclui esse tipo de situações do escopo da Antropologia do Direito, já que esta entende que o direito vai além dos estudos dos códigos e das instituições formais.
2. Em relação ao sistema oficial, a) as regras formais proíbem a tortura sendo que quem torturar outra pessoa deve ser punido; b) o conflito se dá pela violação dessa norma e pela identificação por parte da polícia dessa situação; c) o meio institucionalizado para resolver os conflitos é a prisão dos autores do crime de tortura.
No caso do sistema do “tribunal do tráfico”, a) as regras proíbem a dela-ção de informadela-ção para a polícia; b) o conflito se dá pela acusadela-ção do pai e do filho de serem informantes da polícia; c) o meio institucionalizado para resolver e punir o conflito é a tortura dos suspeitos.