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Antropologia e Internet: novas ilhas, muitas questões

ORKUT PERIGO CONSTANTE!

3. UM NOVO MAR

3.1 Antropologia e Internet: novas ilhas, muitas questões

“... nos últimos catorze anos, assistimos a um crescimento explosivo da Internet e da world wide web (rede mundial de computadores). Elas se tornaram a tecnologia dominante na vida moderna”.

Freeman Dyson (2001, p. 640)

Um analista da relação entre Internet e cultura, o geógrafo Rob Kitchen, em seu livro Cyberspace: The World in the Wires, em 1998, problematizou suas questões em torno de três grandes eixos analíticos: o primeiro é elaborado a partir de uma discussão acerca de como a rede modifica nossa concepção de tempo e espaço, o segundo aponta para a necessidade de aprofundar o debate quanto a que forma e em que extensões as formas de comunicação e sociabilidade reagiram às inovações impostas pelas novas tecnologias, e, por fim, como todo este processo dinamizou e complexificou os temas expressos por pares conceituais que nos interrogam há muito tempo: como analisar, diante das inovações a que estamos expostos, as relações expressas entre real e virtual, verdade e ficção, autêntico e produzido, tecnologia e natureza e representação e realidade? No livro, em que Kitchen traça um panorama geral, histórico e teórico, sob o ponto de vista das ciências sociais, da contribuição imposta pelas novas tecnologias à tentativa de compreender o momento cultural, econômico e político contemporâneo, estes três temas antecipariam toda uma produção teórica que emergiria posteriormente.

Tangenciando o primeiro tema, por exemplo, está a discussão de Laymert Garcia e de Margaret Wertheim: para o primeiro autor, um debate acerca das novas temporalidades impostas pela rede se faz prioritário; para a segunda autora, a dimensão espacial da rede, inclusive sacralizada, revela particularidades importantes, que devem ser submetidas à rigorosa análise por parte das ciências humanas. Diante do segundo tema, Manuel Castells é exemplar na discussão dada pelas humanidades às transformações permitidas e produzidas pela Internet em termos de comunicação e sociabilidade e suas diversas implicações. No âmbito do terceiro eixo temático, proposto por Kitchen, toda uma discussão se desenvolveu, agregando pensadores como Jean Baudrillard e Jacques Derrida, que se debruçaram diante da relação entre ser humano e máquina e seu impacto sobre a percepção de outras significações como real, imaginário, ficcional, simulacro, material, virtual. Todos estes temas, no entanto, atravessam, em algum momento um questionamento: as novas tecnologias são boas ou más? Para responder esta crucial interrogação,

surgem os defensores extasiados da mesma, como Pierre Lévy, e seus críticos ferozes, como Paul Virilio. Um outro autor, no entanto, apontou um caminho diverso nesta análise: o filósofo Gordon Graham.

Lastreado na análise de que a intermediação dada pela rede é mergulhar não numa “realidade radicalmente nova”, como recorda Graham, mas numa realidade transformada por uma “alteração, tanto dos parâmetros das trocas humanas, como das percepções dos indivíduos” (GRAHAM, 1989, p. 39), Graham investe em uma abordagem de como outras grandes invenções, como o rádio, o automóvel e a televisão impactaram o mundo humano apontando, portanto, para a necessidade de se criticar, inclusive a significação da Internet dentro do discurso comum que lhe significa como “radicalmente novo”, por incluir-se num rol de artefatos culturais transformadores, mas sem esquecer-se da sua peculiar capacidade de se formatar como “uma rede através do mundo”. Neste sentido, a rede implicou num seguro aumento da capacidade, tanto em termos qualitativos quanto quantitativos, como recorda o autor, de satisfazer as “perenes necessidades humanas e seu impacto sobre as formas de vida política e social”, por permitir uma postura muito menos passiva do que a permitida pela televisão, por exemplo (GRAHAM, 1989, p. 46).

Para Graham a leitura da Internet, distante dos radicalismos que tentam classificá-la como negativa ou positiva, deve focar a idéia de que a rede “internacionaliza”, de forma peculiar, a comunidade humana, tornando as fronteiras de comunicação e sociabilidade, as fronteiras do poder do Estado, muito mais frágeis, o que permitiria, para ele, uma reorganização das comunidades humanas. A respeito desta questão penso que a rede, mais que “internacionalizar”, “transnacionaliza”, pois o link, o elemento constitutivo da rede, demarcado pelos códigos no hipertexto, é um elemento que viabiliza muito mais a idéia de trânsito, de fugas, de conexão e desconexão do que de intersecção. Vem do link a emanação do caráter “Sherazade” da rede, tecido por fios de uma extensa e artificiosa ligação de suas narrativas diversas, na qual dados se multiplicam oferecendo outros links, outros fios, outras narrativas. Há mil e uns links na rede, todos disponíveis a manter o rei Xeriar em nós comprometido em navegar por entre eles. O mar digital convida sempre e nele inúmeros navegantes vão buscar sonhos, ideais, desejos, poderes, relatos, contatos, aliados. Entre estes tantos, um grupo chamou-me a atenção, creditam à rede a liberdade necessária à sua luta, o anonimato seguro que protege a demanda da mesma, o alcance transnacional que desejam para sua causa. Depois de observar este grupo, todos estes anos, em suas tantas ilhas no mar digital, os sites por eles construídos, fui percebendo que, para eles, estas

ilhas são muito menos um grupo de ilhas num mar distante e muito mais um mar de ilhas91. Neles, seus habitantes se descrevem como heróis que estão diante de uma grande guerra, a maior de todas, a única que importa, uma guerra por sua sobrevivência, orientada por seus deuses e deusas. Como os companheiros de Jasão, estão dispostos a morrer, se necessário e matar, se possível, para conquistar seus objetivos. São os Anacronautas do ciberracismo e antes de apresentá-los é preciso discutir, um pouco, o oceano em que navegam.

3.2 A separação entre águas e terras: Cibernética, Wiener, o ser humano e a nova sociedade