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Os mitos germânicos 261 e vikings, um primeiro mapeamento

L'ASSOCIATION DES ANCIENS AMATEURS DE RÉCITS DE GUERRES ET D'HOLOCAUSTE

5. LA PENSÉE NAZISTE

5.3 Os mitos germânicos 261 e vikings, um primeiro mapeamento

“Quando um mito é contado, ouvintes individuais receem uma mensagem que não provém, na verdade, de lugar algum; por esta razão se lhe atribui uma origem sobrenatural.”

Claude Lévi-Strauss (1964, p. 37) Segundo Émile Tonnelat, “três ou quatro séculos antes da era cristão, os Germanos, estabelecidos no Sul da península escandinava, nas ilhas do Mar Báltico e na grande planície inferior do Norte da Alemanha, entre o Reno e o Vístula” se apresentavam como um numeroso grupo de tribos, denso, sem qualquer vínculo político entre si. Estas comunidades, segundo o autor, no entanto, apesar de se combaterem de tempos em tempos, falavam a mesma língua, tinham certas semelhanças sociais e, provavelmente teriam partilhado algumas crenças religiosas. Ainda segundo o grande estudioso da mitologia germânica, estas crenças se transformaram no contato com outros povos, em especial com os Godos, principalmente após à sua conversão numerosa ao Cristianismo, o que trouxe um confrontamento entre estas crenças dos povos

261 Pensar, nesta jornada “mar adentro” pelo mito de Thor, a mitologia germânica e nórdica um cuidado inicial: é

preciso, como recordou Maria Lamas, em Mitologia Geral, que a primeira se refere a um “agrupamento lingüístico e não propriamente a um grupo étnico, pelo que, ao longo das vicissitudes da história, nem sempre abrangeu os mesmos povos”. Como este fator nunca foi apontado pelos sites em questão, tal cuidado em fazer a presente ressalva se amplia.

germânicas e a cultura bizantina. Após a conversão de outro grupo numeroso ao Cristianismo, os bretões, depois do século VII, um intenso contato com missionários bretões devem ter ocasionado novas articulações religiosas, escreveu Tonnelat. As diversas versões do mito de Thor surgiram, segundo a maior parte dos pesquisadores, depois deste segundo contato, na época da formação dos mitos que deram origem a Edda e portanto, entre os séculos VII e XI na região da Europa Setentrional. O mapa a seguir demarca estas regiões:

Figura Vinte e seis Rotas do mito proto-nórdicos262

Os antepassados dos Germanos buscaram nas costas meridionais do Mar Báltico e na Escandinávia um solo para seus mitos, milhares de anos antes do retratado pelo mapa acima, cerca de dois mil anos antes da era cristã, de modo ainda muito misterioso para os pesquisadores. Foi apenas no terceiro século a.C. que suas tribos começaram a ser anotadas pelos escritores gregos e tão somente neste momento surgem registros acerca das diversas tribos germânicas, que ainda muito diferentes em língua e cultura, preservavam “certa comunidade de crenças”, escreveu Lamas263. Nesta comunhão, dois elementos sempre chamavam atenção dos pesquisadores: o fato de cremarem os corpos de seus defuntos e o fato de guardarem os ossos calcinados. Outra

262 Fonte: Ragache, Gilles Os Vikings, Mitos e Lendas. São Paulo, Ática: 1995 (edição original de 1990) p. 43

263 Um site com numerosos artigos acerca dos germanos e escandinavos está em

representação comum, tanto em imagens rupestres como em desenhos em rochas, eram os navios. Se estes navios se relacionavam a suas idéias acerca dos mortos, nunca se soube, no entanto, precisar. Desenhavam enormes figuras humanas, entre elas algumas configuravam deuses e deusas, como àquele, que muito anos do século II antes de Cristo foi denominado Tiuz ou Tiwaz, que deu origem ao mito de Thor, posteriormente. O conhecimento da mitologia germânica que chegou até nós preservada pelos islandeses, a Islândia, centro do mundo nórdico, em especial pelo Edda, tanto em sua forma poética como em sua forma em prosa. O primeiro é uma grande compilação de eventos poéticos que narram aventuras de deuses e heróis, em sua gigantesca maioria anteriores a cristianização da Escandinávia, o segundo é uma espécie de Manual explicativo do primeiro, que tenta mapear o panteão em questão. No Edda Poético aparecem muitos nomes atribuídos a Thor: ele é Asabrag (o "Rei do Aesir "), Asathor ("Thor dos Deuses "), Björn (" Agüente "), Donar (germânico), Öku-Thor (Motriz-Thor, Vingnir (" O Hurler ") e Vingthor (" Thor o Hurler ") para citar apenas alguns exemplos. Neste texto antigo, Thor é descrito como filho de Odin e Jörd, marido de Sif e com ela, pai de Thrud e Lorride e Padrasto de Ull. Sua amante, a gigante Jarnsaxa lhe deu dois filhos, Magni e Modi. O mito conta que Thor era o mais forte do Aesir e, possuidor de um martelo mágico Mjöllnir, que o tornava praticamente invencível. Duas cabras arrastavam a carruagem do deus do trovão: Tanngniost (" O Rosnando ") e Tanngrisni (" Que moí os seus dentes "). Seus criados eram Thjalfi e Röskva e sua serva a irmã deles, Thjalfi, viviam com ele na terra de Thrudvang (" Campo de Poder ") ou Thrudheim (" Casa de Poder "). Ali estava erguido seu grande palácio, Bilskirnir, na região de Asgard, o plano em que vivem os deuses. Dali protegia o mundo dos homens, Midgard (a Terra), dos anões e gigantes.

Há muitos muitas aventuras de Thor nos poemas do Eda: ora ele disputa com Odin, sob disfarce, enquanto navegam sobre um rio, qual dos dois teria feitos mais grandiosos (Thor não reconhece o pai no barco); na qual Thor parece obtuso e tolo, ora se narra a competição entre Thor e o anão Alvis, que havia roubado seu martelo para forçar a entrega da filha de Thor como sua esposa. Antes disto, testa a sabedoria do não acerca das raças do mundo e ganha o debate, protegendo a filha do destino que lhe ameaçava, valendo-se de inteligência e argúcia. Em outra história Thor, o gigante Thrym roubou também o martelo de Thor e exige Freyja como noiva. Thor finge ser a moça (depois de tentar convencê-la em vão, ela indignada com o pedido sofreu tamanho inchaço que seu pescoço estourava qualquer colar) e Loki uma espécie de dama de honra, para enganar o gigante. Antes da cerimônia a suposta noiva mostra seu apetite devorador,

mas nem o fato de comer um boi, oito salmões, muitos doces e beber tonéis de hidromel e cerveja destruiu o disfarce: diante da desconfiança do gigante Loki, o grande embusteiro fala que “a pobre moça” teria chorado, em jejum, por oito dias, tamanha era a nostalgia que o país dos gigantes lhe rendera. Não era fome, portanto, era paixão. Thrym, encantado pelo fato, então, tenta beijar a moça, mas se apavora com sua feiúra. Loki o convence que ela está abalada pela fome e pelo sono, e, enfim, quando se casam, assim que recebe seu martelo de volta, Thor mata o gigante e todo o seu séqüito e depois volta para casa.

É nesta saga que também se relata a história entre Thor e Jörmungand a serpente. No Crepúsculo dos Deuses, o Ragnarok, Thor matará a fera que ameaça Midgard, mas sucumbirá envenenado por ela. Já no Edda em Prosa, Se conta a batalha entre thor e o gigante que ao morrer não conseguia ser carregado de tão imenso que era. Thor e um filho são os únicos capazes de remover o monstruoso defunto. Depois disso a feiticeira groa tenta retirar uma pedra de amolar que havia dentro da cabeça do herói para se apoderar de sua força e de seus desejos. Ele vence mais uma vez e lança a feiticeira longe no céu. Entre os cantos atribuídos a adoração do deus do trovão, há este, que o Edda (STURLUSON, 1933) considera cerimonial:

E assim cantou o Grande Wotan: Com olhos ardendo o Pai de Thor

Iluminado pela estrada em círculo do mar, Antes dos peixes que habitam nas águas Thor se confundia com o próprio barco264.

Thor, aclamado por sua sabedoria e toda realização, era garantidor das vitórias nas batalhas, da força dos heróis, da produtividade dos campos. Era muitíssimo mais adorado pelos aldeões do que pelos poderosos. Os primeiros creditavam ao grande deus de cabelos vermelhos às vastas colheitas e a realização dos feitos da natureza. Quando os deuses da natureza, Vale e Vidar, se debruçaram à paisagem que despertava a nova vida, no fim do crepúsculo dos deuses, e encontraram-se com aqueles que nasceram para suceder aos doze deuses: os irmãos Modi e Magni, os filhos do deus Thor e da gigante Iarnsaxa trouxeram ao mundo novamente consigo o martelo do pai e as suas virtudes. Amplamente cultuado pelos vikings e tido como "Senhor do Trovão", "Senhor do Céu e das Chuvas Benéficas", "Senhor dos Trovões, Trovoadas, Relâmpagos, Raios e Tempestades"; venerado como "Príncipe dos Deuses"; presidia o céu, o trovão, o ar, o vento, as chuvas, as tempestades, o tempo bom, as colheitas, as frutas da Terra;

264 O cemitério de barcos do quarto mito se relaciona, simbolicamente, portanto a toda uma população de deuses em

além de combater a doença e a fome. Protetor dos homens e deuses da influência negativa dos gigantes, era o grande defensor de Asgard contra seus inimigos, enfim como sintetiza Lamas, “não havia circunstância na vida a que Thor não estivesse associado” (LAMAS, 1959, p. 43).

A descrição física do deus, revelada pelas várias versões é muito homogênea: imagina-se Thor como “muito robusto”, “extremamente alto e forte”, “possuidor da maior força e vitalidade já vista”, “ seus longos cabelos e barbas ruivos cobriam o mundo dos combates”, sua voz “é o trovão”. “Seu apetite era o maior do Universo”, “o grande Donar é um glutão”, “era rude, ainda que nobre”, “simples e infatigável”. A origem mítica de seu Mjolnir, seu martelo era um meteoro que caíra sobre a Terra (a mesma da espada de Siegfried, na tetralogia wagneriana) e este objeto mágico tinha três particularidades: as duas primeiras, jamais errar o alvo, voltar sempre a mão de quem o atirava (destes predicados nasce a vontade dos inimigos de roubar o mesmo, repetidas vezes), eram mais citadas nos mitos do Edda. A terceira viria do fato de que o martelo teria sido forjado por um anão e no Edda isso é associado à capacidade do martelo de mudar, magicamente, de tamanho.

Nos mitos, os Germanos povoam o mundo com seres de natureza não-humana. Entre estes, interessa-me em particular, dois tipos de seres, muitos presentes nos mitos de Thor: os gigantes e os anões. Os primeiros, personificavam os grandes fenômenos naturais: tufão, tempestades, maremotos, erupções dos vulcões, o inverno. São inimigos dos deuses e dos homens, enormes “conservam a rudeza e a brutalidade dos tempos em que o mundo saía lentamente do caos” (LAMAS, 1951, p. 68). Eram denominados “troll” e representavam forças não organizáveis, nem pelos homens nem pelos deuses. Os anões, por sua vez também eram inimigos, mas por outros motivos: “feios, disformes, ardis, manipuladores” povoam os mitos como dotados de grande inteligência, sobrenatural e um grande amor pelo ouro e pela riqueza. São hábeis em manipular metais, habitavam o plano inferior da terra, como o anão Alberic que forja com o ouro do Reno um anel que dá a seu detentor a posse do tesouro dos Nibelungos que inicia a tetralogia wagneriana. Enquanto vencia anões e gigantes, Thor ocupava, segundo George Dumezil265, a função social de representar a força psíquica e combatente (DUMEZIL, 1968, p.

265 George Dumezil defendeu a teoria da tripartição, ponto central de sua obra, alicerçado nos estudos que o autor

francês desenvolveu acerca do sistema social hindu, que dividia a sociedade (pós-védica) em apenas três castas arianas puras: os brāhmanas, os rājanyas e os vaiśyas. Os primeiros desempenhavam funções sacerdotais, os segundos eram os guerreiros e protetores do povo e os terceiros voltavam-se para as atividades pastoris, comerciais e produtoras. Dumezil defenderia, durante toda a sua obra que esta divisão tripartida, resultado de uma intensa prática doutrinária anterior, revelava uma estrutura tri-funcional das sociedades que receberam influência deste material anterior, como os citas e os romanos. A partir desta análise Dumezil (1938) explicou uma tripartição teológica que

112-115) e, segundo o estudioso francês, sua força atribuía-se a seus talismãs, marcados pela suástica, a capacidade de evocar estas características no espírito dos guerreiros que deles se valessem. Dumezil discorda da transliteração mítica mais comum que compara Thor a Júpiter (ou Zeus), para este autor, Thor equivale a Ares, ou Marte (DUMEZIL, 1968, p.149-153), justificando esta posição no fato de que Thor é um guerreiro não apenas invencível, mas belo e eternamente jovem.

Em Ilhas de História, Marshall Sahlins (1990), ao se debruçar, por exemplo na análise do "rei estrangeiro" se recusa a um modelo mais sociológico para dar conta da dualidade simbólica e política expressa pela incorporação sob a forma de uma “soberana fonte mágica de poder” da figura que caracterizou como “rei estrangeiro”. Exercendo uma “ação civilizatória”, o rei representa uma cultura externa, um poder divino que necessita ser incorporado pelos chefes tribais a quem se prometem esposas e a quem se oferecem “assassinatos ritualísticos”. Dele emanam as fontes de poder simbólico que serão incorporadas como poder político, nele se materializa o devir.

Observo a presença do “rei estrangeiro” que garante a solução do dualismo ontológico, a preservação da raça e a restauração da ordem no mundo em duas figuras míticas: está em Thor, este guerreiro invencível, que salva os homens na Terra Média, como no seu espelho heróico Siegfried, estrangeiro adotado pelo anão forjador de armas. Mas, não é apenas nestas figuras que a presença do “rei estrangeiro” se manifesta nos sites racistas: a figura de Hitler é incorporada desta forma. O austríaco restauraria o povo alemão, por conhecer os poderes mágicos e simbólicos dos antepassados e por manipular, também como um xamã, a carga simbólica necessária para constituir uma linguagem que atravesse “a tela da consciência sem encontrar obstáculo, para levar sua mensagem diretamente ao inconsciente” (LÉVI-STRAUSS, 1949, p. 231). Os sites empreendem uma nova leitura dos líderes nazistas, de Hitler em particular, como “um rei estrangeiro” no sentido que lhe dá Sahlins: capaz de organizar aspectos dualistas internos e externos. Quando retratam Hitler, os sites o colocam como exemplo de vigor, força, honra e, ainda, como protetor das crianças e animais. Como este rei não deixou prole, que se saiba, são seus filhos e filhas todos os que incorporam o sentido que o líder nazi fornece a nação, povo e líder. Neste sentido o avô do filho de Franciele é Hitler, porque se tornar nazista é resgatar neste “rei estrangeiro” a garantia de uma proteção política e simbólica, uma paternidade ritual que se

divide os mitos dos deuses de acordo com estes três tipos de atividades humanas: há os deuses sacerdotes, os guerreiros e os criadores/agricultores. Thor pertenceria, portanto, à segunda função.

encaminhe, como aponta o slogan do National Alliance, para uma nova consciência (que incorpora os sentidos manipulados pela fonte da supremacia simbólica e política do líder), para uma nova ordem (que abarque a integração entre o mundo interior e exterior, restaure a hierarquia das terras dos deuses, da terra e dos homens) e para um novo povo (que esteja protegido pelos laços raciais assegurados pelos casamentos que perpetuam o “sangue ariano” e pelos assassinatos rituais dos inimigos).

Nesse sentindo, Thor, Siegfried, Hitler e cada “guerreiro ariano” se relacionam dentro do universo simbólico dos sites, assim como o martelo, a espada, a suástica e o “sangue alemão”. Para aprofundar estas associações é preciso, no entanto, pensar primeiro como outros elementos do mito podem ser acrescentados a nossa reflexão: